sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
Mais uma casa
Mais um semestre
Portugal visto da Índia (Jornal de Negócios)
Portugal visto da Índia
Constantino Xavier*
Finalmente, com um atraso de vários anos, também Portugal acordou para a necessidade de redescobrir a Índia, quinhentos e sete anos depois de Vasco da Gama. Prova-o a visita oficial que Cavaco Silva presta, a partir desta Quinta-feira, a uma economia que, daqui a menos de trinta anos, deverá ser a terceira maior do mundo.
Mas, tendo em conta a experiência dos raros empresários e investidores lusos que por aqui se têm aventurado, são inúmeros os obstáculos que ainda se nos colocam, no terreno.
Em termos populacionais, a Índia é cem vezes maior do que Portugal (só Bombaim tem quase vinte milhões de habitantes) e as disparidades entre o arcaico mundo rural e as cosmopolitas bolsas urbanas são gritantes. As práticas de negócio são condicionadas pelo sistema de casta hindu, pela estrutura política federal (28 estados e 604 distritos) e pela grande diversidade religiosa (maior minoria muçulmana do mundo) e linguística (23 línguas oficiais). Há que enfrentar ainda a titânica burocracia e a endémica corrupção (os índices são recordistas a nível internacional), bem como o crónico subdesenvolvimento infra-estrutural (cortes de energia são frequentes, até na capital).
Se todas estas dificuldades podem, de uma maneira ou outra, ser ultrapassadas com o apoio de parceiros locais, um aspecto permanece, no entanto, central ao sucesso português na Índia. É o da nossa imagem naquele país. Por um lado, Portugal goza de um imenso (e, por enquanto, subaproveitado) capital de simpatia, especialmente em áreas de influência histórica portuguesa, como o são Goa, Damão e Diu, onde Portugal representa uma poderosa imagem de marca e um símbolo de prestígio para o consumidor.
Contudo, essa mais-valia sentimental limita-se a pequenos nichos territoriais, insignificantes ao nível nacional. Nas metrópoles indianas – os motores do consumo e crescimento económico – a imagem de Portugal é, pura e simplesmente, inexistente. Não é raro persistir a imagem de um Portugal subdesenvolvido, isolado e conservador. Para os indianos o azeite pode ser espanhol, a tecnologia belga, a engenharia espanhola, os aviões brasileiros e o vinho chileno e australiano. Português, talvez só o Figo e o Ronaldo, embora nem o futebol nos sirva de porta de entrada para um país em que reina o críquete.
Para todos os efeitos, Portugal situa-se na periferia do imaginário internacional da classe média indiana e é esse o principal obstáculo ao sucesso dos nossos empresários que, por sua vez, também sofrem os efeitos nefastos da pobre imagem que prevalece da Índia em Portugal, dissuadindo-os de explorar as grandes oportunidades que nos oferece a “nova Índia”, no “século da Ásia”.
É neste contexto sombrio que a visita presidencial a Nova Deli, Goa, Bombaim e Bangalore se afigura como uma excelente oportunidade para que se refresquem imagens mútuas e se identifiquem novos nichos e oportunidades, a Oriente e a Ocidente.
*Investigador, Universidade Jawaharlal Nehru, Nova Deli
quinta-feira, 18 de janeiro de 2007
Imagens de Nova Deli: Prakash Karat
Prakash Karat (de camisa branca) é o secretário-geral do Partido Comunista Indiano - Marxista (principal partido comunista, com assento parlamentar) , discursando para uma plateia de estudantes na residência Tapti, na minha universidade, há cerca de dois meses. Fala bem, de forma articulada e arejada: "não somos contra todo e qualquer investimento estrangeiro ou toda e qualquer privatização, mas queremos que a abertura e as reformas económicas sejam feitas respeitando os interesses de toda a população, e não só de uma minoria".Basicamente, foi este o seu ponto principal, naquela tórrida noite, naquele refeitório com mesas rachando sob o peso da ideologia estudantil, com o ar abafado, húmido e mal-cheiroso. Um ponto típico entre os reformistas comunistas indianos, orfãos do socialismo soviético e invejosos do socialismo chinês. Esta é, no entanto, uma universidade que vive e testemunha um debate contínuo. Um universidae da qual os líderes de partidos, ministros e activistas não fogem. Onde, mais do que uma honra, falar é um dever para com o pluralismo de pensamento.
Esta é uma das razões pelas quais eu decidi estudar na JNU. Não há nada que substitua isto em Portugal.
quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
Nós e a Índia, de Calecut a Nova Deli (DN)
Texto de opinião publicado no Nacional do Diário de Notícias, de 10 de Janeiro de 2007 (ver versão Online). Nessa manhã, recebi logo vários e-mails com reacções diversas, de elogios a críticas acérrimas e acusações. Ainda bem.
Nós e a Índia, de Calecut a Nova Deli
Constantino Xavier, constantino.xavier@gmail.com
Investigador na Universidade Jawaharlal Nehru de Nova Deli
Calecut, 1502. Na sua segunda viagem à Índia, Vasco da Gama manda as suas naus bombardearem a cidade, durante dois dias e duas noites. Eram então os canhões portugueses a ditarem as regras do jogo naquela parte do mundo. Nova Deli, 2007. Ao aterrar, esta semana, no Aeroporto Internacional Indira Gandhi, a comitiva presidencial portuguesa, liderada por Cavaco Silva, já não terá canhões à sua disposição. Na competitiva hierarquia da diplomacia e da comunicação social indiana, a visita portuguesa irá, muito provavelmente, ficar abaixo da de um gestor de uma multinacional norte-americana, alemã ou japonesa.
É natural que algo tenha mudado desde Gama e Calecut. É agora uma Índia confiante e segura de si que emerge no sistema internacional. Desde 2004, mais de cinquenta chefes de Estado e líderes de Governo fizeram-lhe visita oficial, oferecendo atractivos acordos de cooperação política, económica, cultural e militar. Bangalore e Bollywood, Tata e Mittal, Agni e Bhagwati, Nooyi e Naipaul são alguns dos nomes que passaram a ser fundamentais no léxico dos que querem compreender e explorar as transformações vividas na Índia, neste chamado "século da Ásia".
Portugal parte com atraso. Enquanto que, em termos de trocas comerciais e investimentos na Índia, o nosso país tem vindo a ocupar os últimos lugares entre os 25 parceiros europeus, o ICEP prima pela ausência naquela que, daqui a menos de trinta anos, deverá ser a terceira maior economia do mundo. No plano político, nunca um primeiro-ministro português visitou a Índia e os ministros que o fizeram contam-se pelos dedos.
Quanto à cultura, a falta de financiamento leva a que os postos para leitores do Instituto Camões se mantenham, muitas vezes, vagos, e isto perante milhares de jovens indianos que vêem a nossa língua como uma mais-valia profissional para explorarem os mercados lusófonos. O desinteresse com que temos olhado para um sexto da humanidade também se reflecte no facto de não haver um único correspondente profissional português em toda a Índia - só na capital os espanhóis da EFE têm sete.
É neste contexto sombrio que 2007 se apresenta como uma oportunidade. Ao fazer-se acompanhar por três ministros e dois secretários de Estado, Cavaco Silva dá um sinal claro de que esta visita pretende voltar a colocar a Índia no nosso horizonte estratégico. A sua ida a Bangalore (o chamado Silicon Valley indiano) para falar na abertura do prestigiado fórum económico "Leadership Summit", bem como a presença de dezenas de gestores e empresários lusos na delegação oficial, promete refrescar as desactualizadas imagens mútuas entre os dois países. Uma outra oportunidade para o reavivar do histórico eixo luso-indiano será a visita bilateral que José Sócrates irá fazer a Nova Deli, em Novembro, no contexto da presidência portuguesa da União Europeia e da respectiva cimeira com a Índia.
Para que as oportunidades de 2007 sejam devidamente exploradas é, no entanto, urgente assumirmos o custo da negligência a que temos votado a Índia e sabermos descontar as glórias da história que nos continuam a iludir. Este humilde processo de desilusão passa pelo reconhecimento de que Portugal é hoje recebido como um visitante de segunda categoria pela mesma Índia que, há cinco séculos, conquistou à canhonada.
No avião presidencial
O Luiz e o Instante Fatal
Como já escrevi no blogue dele Instante Fatal, com uma excelente cobertura não só fotográfica da viagem presidencial à Índia, foi um prazer conhecer e trabalhar com o Luiz de Carvalho em Deli e em Goa. Ele é o coordenador de fotografia do Expresso e veio com a Luísa Meireles na comitiva do Cavaco Silva.Depois de algumas experiências menos boas com fotógrafos portugueses, foi reconfortante ver o Luiz trabalhar. Às vezes, parecia um tigre enjaulado pelo programa oficial asfixiante que não lhe dava a liberdade que a Índia exige de todos os que a querem fotografar. Tenho a certeza que ele vai voltar um dia.
Foto: Luiz de Carvalho, de pinta na testa e colar de flores, e Leica M8 à chegada ao Hotel Taj Palace em Nova Deli.
O momento indiano (Expresso)
O momento indiano
Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli
Avul Pakir Jainulabdeen Abdul Kalam. O perfil biográfico do Presidente da Índia, que na próxima semana servirá de cicerone a Cavaco Silva, representa bem o momento de transformação que se vive no segundo país mais populoso do mundo. Os perfis de Kalam e da nova Índia conjugam-se e confundem-se em três planos essenciais.Primeiro, a primazia da ciência e da tecnologia como alicerces fundamentais para o desenvolvimento. Kalam é formado em Engenharia Aeronáutica e foi um dos grandes impulsionadores da investigação espacial indiana, além de ser o pai da estratégia «Visão Tecnologia 2020».
Depois, a crença no poder militar de produção interna, simbolizada pela liderança de Kalam no programa de mísseis balísticos e pelo seu papel determinante na realização dos testes nucleares, em 1998.
Finalmente, a aposta na educação, representada no seu currículo académico com mais de trinta doutoramentos «honoris causa» e pelo facto de o chefe de Estado dedicar especial atenção à escolarização obrigatória e à educação superior de excelência.
É justamente nestes três planos que a Índia tem coleccionado sucessivas vitórias a nível mundial e atraído a atenção de uma comunidade internacional que, ainda recentemente, a descartava como mais um país sofrendo de subdesenvolvimento crónico. É, por isso, com algum espírito vingativo que se vive o actual momento de euforia na Índia. De tal maneira que até os moderados elogios que o seu primeiro-ministro dedicou à colonização inglesa, num discurso na Universidade de Oxford, foram alvo de radical contestação.
“Este é seguramente o nosso tempo”, declarava a recente capa de um diário económico indiano, proclamando categoricamente que o “futuro do mundo faz-se aqui”. São doses inéditas de confiança, que levam o próprio Presidente Kalam a reivindicar, já em 2020, o estatuto de superpotência para o seu país.
Perante todo este optimismo oriental, emergem duas questões essenciais. Até que ponto é justificado interpretar este momento indiano como uma força embrionária de um mundo pós-ocidental, com centros de decisão na Ásia, e que tanto alarme está a fazer soar na Europa e nos Estados Unidos?
E no nosso caso, em particular, até que ponto é que Portugal poderá continuar a dar-se ao luxo de ignorar o impacto deste momento indiano, em vez de explorar as inúmeras oportunidades que ele nos apresenta? Seria recomendável se, no contexto da visita presidencial à Índia, reflectíssemos um pouco sobre estas questões.
sábado, 6 de janeiro de 2007
O meu Presidente vem à Índia
Imagens de Deli: Desenhos com hena
Fascina qualquer turista ocidental feminina: nas ruas de Deli é comum verem-se mulheres e crianças aplicando desenhos em hena nas mãos de mulheres. Depois de secar, retira-se a substância cremosa lavando as mãos, as respectivas marcas (linhas e diversas outras minunciosas figuras geométicas) ficando visíveis por vários dias. Normalmente são vermelhas, castanhas ou alaranjadas, dependendo da qualidade utilizada.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2007
Redescobrindo: Bangladexe e Daca
O paradigma dos contrastes
Isto é, sucumbindo ao relativismo, o contraste passa a ser verdade absoluta. Um plano de uns meninos miseráveis mendigando num cruzamento e depois um plano de um restaurante de luxo qualquer, com Bentleys à porta. Está feita a reportagem para o jornal das oito: "Índia, o país dos contrastes" e mais umas balelas. Os mais políticos exploram depois a tese de que o país poderá sucumbir, usar as metáforas das duas velocidades e das duas Índias e a ideia de que a Índia dos ricos está a enriquecer à custa da dos pobres.
A Índia como país dos contrastes é um paradigma agradável. Chamo-lhe de paradigma poque, mesmo que alguém mais corajoso adopte outra aproximação ou a temática seja muito específica (um encontro empresarial luso-indiano, por exemplo), o tal paradigma dos contrastes está lá, sempre presente e sempre merecedor de uma referência, mesmo que indirecta. Ele, digamos assim, ensombra quase toda a cobertura jornalística portuguesa que se faz da Índia (há excepções, raras). O paradigma reconforta o espectador, no seu sofá em Alcabideche. Cá está algo que nos escapa, um país que é tudo e nada ao mesmo tempo. Um país que é rico e pobre, bonito e feio, pacífico e violento ao mesmo tempo. O passo seguinte é óbvio: fascíneo. Ai que exótico, Zé, levas-me lá? É tão diferente.
Para quem, como eu, anda por cá há algum tempo, e para quem lê esta vida em Deli há algum, as coisas são obviamente mais complicadas. São complicadas porque, simplesmente, não são diferentes. A Índia é, algumas particularidades óbvias à parte, um país como qualquer outro, com os problemas do costume que acompanham tanto o Zé no sofá como a sua mulher e também o Bill Gates. São problemas humanos, portanto universais.
A ideia até é gira: implica que nós no Ocidente vivemos um mundo cinzento, monótono, homogéneo e repetitivo. Implica que na Índia tudo é incerto, inseguro, diferente, colorido, espontâneo e circunstancial. Ora, para quem quer ter pão para comer e telhado para se abrigar das intempéries, que eu saiba, a primeira opção é sempre a mais desejável. Acham que a mulher que carrega tijolos nos ombros tem tempo para reparar no seu colorido sari que contrasta com o escuro betão da casa que a sua família constrói, a cinco Euros por dia, para um agente imobiliário qualquer que, muito provavelmente, ainda violará a sua filha de sete anos?
Não interessa. Os contrastes. Esses sim, celebrados, embora eles nos ceguem. Mas não interessa. Ver em profundidade custa. Tempo, paciência, abertura, complexidades, profundidade. Tudo coisas a que poucos jornalistas portugueses se dedicam, especialmente quando integrados em comitivas presidenciais e quando empaturrados de caviar.
Imagens de Deli: Junaid
Continuando a série relativa às pessoas que compõem esta minha vida em Deli, aqui está o Junaid. Um verdadeiro caxemire, de sangue puro. Formado em Ciência Política pela prestigiada universidade islâmica Aligarh University, a sul de Deli, completou comigo o M.A. nos dois últimos anos e volta agora a ser o meu colega no M.Phil., ainda em Relações Internacionais. Antes, trabalhou na redacção do prestigiado diário The Hindu e é, actualmente, próximo da deusa das pequenas coisas de que vos falava há uns dias. Embora seja ferenho ideólogo de inclinação marxista, subalterna e terceiro-mundista, orientações que nem sempre me guiam a mim também, é um dos meus grandes amigos, o suficientemente interessado, alegre e inteligente para, no fundo, saber que as coisas do mundo são muito complicadas. Nesta foto, no entanto, as coisas são mais simples: a sua mão contém um pequeno foguete - não uma granada.
Supergoa.com
quarta-feira, 3 de janeiro de 2007
Redescobrindo: Calcutá e Bengala Ocidental
Imagens de Deli: Jogo de feira
Tirei esta foto numa recente feira gastronómica na JNU. O jogo é simples e, provavelmente, familiar a quem ainda percorre as feiras rurais portuguesas (?). À distância de dois ou três metros, atira-se uma argola e ganha-se o objecto (sumo, chocolate etc.) que ela rodear. É fácil, é barato, não dá milhões, mas é divertido.
terça-feira, 2 de janeiro de 2007
Aldrabando: Habitação
Procuramos e encontramos. Fazemos o novo dono jurar, agora pelas oitocentas e tal divinidades do panteão hindu, que podemos ficar até Maio de 2008, altura em que estamos despachados com esta passagem pela Índia. Jura e explica que só assinamos o contrato por um ano porque é assim mesmo e tal,e faz-nos, por sua vez, prometer que não vamos sair antes de Maio 2008. Estamos satisfeitos. Seis meses depois anuncia a "péssima notícia": a filha acabou os estudos e vai voltar a viver com a família (eles vivem no andar de baixo), e o apartamento deles já está a abarrotar e por isso querem dois dos nossos três quartos. Amanhem-se vocês os cincos num quarto (afinal vocês são estudantes, ou não?) é a moral da história. E mentem: avisamo-vos claramente que íamos precisar do apartamento em Dezembro de 2006. Mentira.
É óbvio (por várias razões que não explano aqui) que, em ambos os casos, os donos dos respectivos apartamentos sabiam que estavam a mentir e que nos iam expulsar antes do prazo acordado. Eu sei que isto do mercado imobiliário é tramado, em quaquer parte do mundo. Mas isto aqui é demais: estou agora à procura da terceira habitação em menos de três anos. Claro que está difícil, porque esta cidade está a rebentar pelas costuras. Mas, para além disso, tem custos financeiros (temos que pagar comissão de uma renda mensal ao agente que nos "encontra" o apartamento) e psicológicos também. Onde é que, no meio de tudo isto, ainda vou encontrar a calma necessária para produzir algum conhecimento sobre este país?
Imagens de Deli: Northeasterners
Um casal em vestimenta tradicional tribal do Nordeste indiano (Northeast), durante um festival anual na minha universidade que celebra a cultura tribal daqueles estados que são conhecidos como "seven sisters" e se situam, quase enclavados e separados do resto da Índia, entre a Birmânia, a China, o Butão e o Bangladexe. O melhor daquele longo serão, para além deste desfile, é a deliciosa comida que preparam, incluindo a muito típica, saborosa e rara (para nós estrangeiros) carne de porco.Os northeasterners - como são conhecidos - distinguem-se muito do resto dos indianos. A começar pelas suas características físicas: estatura pequena, fisionomia mongolóide e pele clara. Depois a religião, animista tribal ou, na sua grande maioria, cristãos. Finalmente, o seu estilo e a sua identidade: normalmente falam inglês com grande fluência, vestem-se à ocidental, cientes das últimas modas, e por tudo isso, são muito próximos dos estudantes estrangeiros da universidade e muito procurados pelos estabelecimentos comericais indianos que pretendem oferecer um serviço ocidentalizado. É o caso, em especial, da hotelaria e da restauração, em que os nordestinos compõem, por vezes, a maioria do pessoal.
Mas não é só por isso que eles se encontram nesse sector económico. A sua mentalidade ocidental e mais liberal permite que as raparigas sigam carreiras e profissiões que se encontram vedadas às aspirações das suas congéneres "indianas" (chamemos-lhes de "mainstream indostâncias"), sujeitas a pressões familiares muito mais conservadoras. Num restaurante da Pizza Hut, por exemplo, e em hotéis de categoria superior, para além dos Notheasterners, há, por razões semelhantes, um único outro grupo étnico sobre-representado: os goeses.
Mas voltemos aos Northeasterners. A realidade é que vivem à margem da restante sociedade indiana, especialmente aqui em Deli e no Norte da Índia. A sociedade indiana indostânica discrimina-os fortemente. As raparigas são frequentemente alvo de abusos sexuais e as violações não são raras: aos olhos dos jovens indianos, especialmente os embriagados, as frágeis raparigas parecem alvos fáceis e todo o seu comportamento parece-lhes convidativo: "elas são fáceis e querem", pensam (idem para os jovens turistas indianos e as jovens goesas). Os rapazes são, por sua vez, alvo de frequentes cenas de violência. Colegas meus contam-me também que nas próprias universidades (não na minha, no entanto) por todo o país eles são discriminados em termos de avaliação. Um deles, contou-me o episódio em que ele teve a nota mais alta e um professor insinuou, à frente de toda a turma, que ele estaria envolvido fisicamente com uma das directoras do departamento: "Não há outra explicação para que ele tenha tido notas melhores que vocês todos", explicou.
O problema assume proporções maiores se incluirmos também os fortes sentimentos separatistas que se vivem nesses estados do Nordeste. É uma longa batalha política e armada que vários grupos têm conduzido há mais de cinco décadas e que já provocou milhares de mortos. Parece-me, no entanto, que o conflito é resultado, e não causa, deste grande fosso entre duas culturas - e porque não civilizações - distintas, e da discriminação de que a parte mais frágil (a população tribal) tem sido historicamente alvo.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2006
A deusa das pequenas coisas
She’s certainly not the sort of role model that utters platitudes and makes us feel good about ourselves. On the contrary, she manages to ruffle many Indian feathers. Deconstructing the complex Indian responses to Roy reveals layers of prejudice.Um excelente artigo de opinião sobre a autora de O Deus das Pequenas Coisas, agora uma das mais corajosas activistas pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão na Índia. Se a Índia fosse mesmo democrática, como alguns ingénuos gostam de sublinhar, pessoas como Roy não teriam a quem vender o seu peixe.
Aldrabando: Fruta e legumes podres
Paquistanês ou indiano?
Como escrevia há uns dias lá em cima, por baixo do meu cartão de Boas Festas dedicado a todos vocês, visitantes desta vida em Deli, chegou-me aos ouvidos que o Baltasar, supostamente o mais moreno dos Três Reis Magos, vinha aqui do subcontinente indiano. Parece que é mais complicado. As interpretações são diversas e parece-me que talvez se trate do Gaspar. Mas não é essa a questão que mais me preocupa. O importante é saber se ele, quem quer que seja, era paquistanês ou indiano. Aguarda-se nova guerra entre Deli e Islamabad.
Natal em Deli (reportagem)
No dia 24 fomos à Missa do Galo. Não foi igual, não houve Mafra, nem família. Mas, simplesmente o frio, o processo de me vestir formalmente e sair para o frio nocturno, e encontrar-me com vários amigos (no fim, éramos 15!) e embarcar num táxi em direcção à Sacred Hearth Catedral, foi excelente. A missa, claro, foi sui generis, com sinthesizer e outras singularidades indianas, aquilo, com mais de mil pessoas e muitos mirones, mais parecendo uma Feira Popular.
Voltámos eram já perto das três da manhã, depois de tirarmos umas belas fotos em frente da catedral iluminada e de comermos umas castanhas bem quentinhas. No dia seguinte, depois de umas compras apressadas, passámos, a Dao, o Anirudh, a Arunita e eu, a manhã inteira a cozinhar. Quase dez pratos (incluindo o meu bacalhau que ficou soberbo), de todas os gostos gastronómicos e tradições internacionais. Antes, tínhamos comprado uma pequena árvore de natal e decorado a casa de forma natalícia. Adaptando uma tradição da minha mãe, preparámos um pequeno pratinho para cada pessoa cheio de doces e frutos e nozes etc., incluindo uma fatia de Bolo Rei (indiano).
Depois foram chegando os amigos, no total éramos cerca de 16, de várias religiões, regiões e círculos de amigos, incluindo o Pauly da Nigéria, a Fon da Tailândia, o Junaid de Caxemira etc., embora a maioria fosse hindu, de diferentes castas. Alguns poucos eram cristãos, católicos do Northeast incluídos, para além de uma budista e um muçulmano. O dia estava muito solarengo e as pessoas, ao som natalício da Rádio Renascença (obrigação de correspondente), foram passeando e conversando pela casa. Depois deliciaram-se com a comida.
No fim, depois de distribuir os pratinhos de doces, fizemos a troca de presentes. Cada um tinha trazido um presente no valor máximo de um Euro. Fizemos umas charades e cada pessoa tinha que tirar um papel e adivinhar de quem se tratava. Fiz isto porque há pessoas que não se conhecem bem e isso obrigou todos a conhecerem-se melhor e a trocarem presentes, criando novos laços de amizade.
A melhor parte é que, tal como no Natal e nas festas de família lá em casa, aqui também o convívio se foi estendendo até ao início da noite. No fim, talvez não tenha convertido pagãos, mas certamente que ajudei a dar a conhecer o espírito natalício e um pouco de mim e da minha (híbrida) tradição cultural.
Imagens de Deli: Praveen e Djamia
O Praveen (à esquerda) e o Djamia (à direita) são dois dos meus colegas de mestrado. Aqui, durante um almoço na Library Canteen. Ambos são licenciados e pós-graduados pela Universidade de Deli em Ciência Política. O Praveen é de Sonepat, a umas poucas dezenas de quilómetros a Norte de Deli, no estado de Hariana. O Djamia vem de um pouco mais longe... do estado de Nagalândia, no chamado Northeast indiano, em que a população tribal, geralmente cristã, é maioritária e nutre fortes sentimentos separatistas (não é o caso dele).
sábado, 23 de dezembro de 2006
Natal na periferia que se quer centro
Aí falam da vitória do relativismo politicamente correcto, dos presépios que vão parar ao lixo e dos Ids e Divalis que se celebram, ou não, nas instituições públicas.Aqui está-se tudo nas tintas. O pessoal não faz a mínima ideia de quem seja Jesus e perguntam-me se os cristãos também comem vaca ao Natal, mas andam todos a comprar barretes e a glorificar o Pai Natal como o novo messias, o capitalista.
Natal em Nova Deli? É só mais uma razão para acelerar a combustão consumista que fervilha na Índia. Televisores, ceias em hotéis de cinco estrelas ao preço de três ou quatro salários mínimos, árvores de natal em plástico e os ditos barretes vendidos nos cruzamentos por crianças descalças de mãos gélidas. Serve tudo para acelerar a economia. E mimetizar o Ocidente, procurando expurgar complexos de inferioridade colonial e periférica.
Natal em Nova Deli
Sexta-feira, na companhia de amigos (nenhum cristão) programa "Musical Journey through Christmas", num centro cultural alternativo chamado The Attic, no centro da cidade. Um professor indiano de língua alemã, aposentado, que viveu por muitos anos na Europa e se apaixonou pela música clássica, guia-nos de forma soberba pela história musical do Natal, incluindo os carols mais modernos e as sátiras musicais norte-americanos à explosiva comercialização do (agora pouco) santo dia. No fim, um punch quente caseiro com rum e uns belos bolos ingleses. Embora a companhia na sala me fosse pouco familiar, e mesmo um tanto desagradável (a pequena burguesia intelectual urbana e uns diplomatas com crianças berrantes à mistura), foi uma boa abertura das hostilidades... natalícias.
Tudo seguido de um jantar no pouco cristão Andhra Pradesh Bhawan, com um thali picantérrimo de gastronomia típica do estado de Andra Predexo, no Sul da Índia. Passeio pelo India Gate e regresso - muito negociado - de riquexó.
Esta manhã: início das decorações exteriores = abertura das hostilidades na vizinhança. Estou-me nas tintas. Ando eu sem dormir várias noites só porque hoje casa a filha, e a prima e o filho e tal, porque o calendário hindu está polvilhado de feriados religiosos que são autênticas orgias sonoras até de madrugada, para o quê? Deixem-me pendurar, pelo menos, uma estrela de papel iluminada em frente à minha porta. Agora sorriem, mas assim meio incomodados. Especialmente porque os filhos acham um espectáculo e se juntam na entrada do prédio ao fim do dia para verem a estrela do cristão.
Hoje, durante o dia: compras. Se aí a dificuldade é escapar ao consumismo e não faltam opções, aqui o panorama é de um deserto de opções. Há já uns mercados que vendem algumas peças de decoração, a maioria das quais de má qualidade e de mau gosto, mas, no cômputo geral, é preciso procurar. Comida, especialmente. Se o perú está excluído por questões financeiras, ainda cá tenho umas postas de bacalhau e compram-se no mercado uns camarões e uns bifes de frango e tal. E presentes, claro. Basicamente, para mim mesmo.
Amanhã à noite: para quem está habituado aos históricos sons e odores da Basília de Mafra, nem pensar meter os pés na missa de Natal da irlandesa e dominicana Igreja de St. Dominic's aqui das redondezas, um cru bloco de betão da década de setenta. O melhor que se arranja: Sacred Hearth Cathedral, a igreja que serve de epicentro da comunidade católica indiana, com a Conferência Episcopal logo ao lado. Mas, dizem-me ao telefone, a missa do Galo, à meia-noite, é "open-air". Estão dois graus e meio à noite. Mas pronto. Lá pelas dez e meia vou junto com vários amigos e colegas. Curiosamente, a maioria são hindus, muçulmanos e budistas: acompanham-me para observar. Observadores, portanto. Pelo menos não vou sozinho. Mas talvez seja acusado de andar a converter a nova geração. Mas eles já estão mais convertidos do que eu.
Segunda de manhã: pequeno-almoço no círculo privado aqui em casa (embora o Tyler se tenha escapado para a Califórnia natal) e depois o tal banquete natalício com os mesmos amigos da véspera. Vai ser difícil, mas o objectivo é empaturrá-los e, assim, dar-lhes a entender o fundamento essencial do Natal. E troca de presentes, é claro. Cada participante foi intimidado a trazer um presente no valor máximo de 50 Rupias, isto é, 95 cêntimos.
Pessoalmente eu testemunho, é certo, uma degeneração natalícia. Depois de ter passado todos os Natais da minha vida no seio da família, e quase sempre na mesma casa, no Rogel, passei os dois últimos Natais em Goa, mas, pelo menos, na companhia de parentes próximos e num ambiente natalício goês que tão convidativo é. Este ano não tem precedentes: Natal em Nova Deli, sozinho. Mas é também uma espécie de iniciação, criando experiência futura para inovar, adaptando a tradição às circunstâncias do presente.
Imagens de Deli: India Gate
É supostamente um dos marcos patrimoniais mais importantes de Deli. O India Gate, imponente e oposto ao Palácio Presidencial Rashtrapathi Bhawan, foi construído, ainda na época colonial, em memória dos mais de 90 000 soldados indianos que pereceram na 1ª Guerra Mundial ao serviço dos britânicos. A adaptação pós-colonial encontra-se no meio, por baixo do arco: é ali que arde a Amar Jawan Jyoti, a chama que honra e memoriza todos os soldados-mártires da República da Índia.Os três braços das Forças Armadas da Índia revezam-se na guarda, em partes iguais de oito horas cada por dia, sob olhar atento das suas respectivas bandeiras. Mas, formalidade, história e honra à parte, o India Gate é hoje pouco mais do que um local de convívio para turistas indianos e para, ocasionalmente, uma paragem apressada de um grupo de turistas estrangeiros. Sob olhar atento de polícias fortemente armados, há dezenas de vendedores ambulantes que vendem de tudo um pouco: pipocas, balões, brinquedos e gelados. Nos relvados circundantes amontoa-se o respectivo lixo.
Quando está muito calor, no verão, as crianças dos turistas domésticos chapinham na água suja (mas limpa, para eles) de dois canais paralelos à avenida e ao arco. A política só aqui chega quando, muito raramente, alguma associação convoca um protesto ou uma manifestação. Nesse caso os turistas fogem e a polícia aperta o cerco e a concentração tem boas hipóteses de acabar com umas bastonadas. Mas nunca chega a martírio.
quinta-feira, 21 de dezembro de 2006
Cultura climática
Os acabementos das casas são hostis à conservação do calor e abrem-se e deixam-se abertas inúmeras brechas pelas quais entre o gélido vento dos Himalaias. As janelas, como que querendo servir somente o calor veranesco, teimam em não fechar completamente. As portas, mesmo fechadas, são um convite à circulação aérea. Do chão - de pedra - irradia um gelo mármore. Os riquexós têm só uma capinha lateral mínima, para baixar e cortar o vento gélido logo que se esteja em movimento.
As pessoas também não se vestem de forma apropriada. Um cachecol ou outro, talvez uma camisola fininha ou - raramente - um blusão de cabedal, mas é sempre uma cultura vestuária deficitária tendo em conta as temperaturas e os ventos exteriores. Anda tudo de chinelos e estão 6º.
É símbolo da pobreza, claro, dirão. Também, mas não só. Falo da classe média que vive aqui na minha vizinhança. Têm carrões à porta, mas escolhem viver assim o inverno, de havaianas no pé. Porquê? Por que é a sua própria cultura climática - esta sim, pobre. Pode ser um sinal de desenvolvimento. Qual é a percentagem que um agregado familiar adjudica para fazer face ao clima? Mínima, no caso indiano, e máxima, provavelmente, nos países mais desenvolvidos da Escandinávia. Há portanto uma correlação, embora, na minha opinião, fraca e condicionada a contextos climáticos, hábitos e práticas culturais específicas.
É como em Portugal. Naquelas duas ou três semanas do ano em que faz mais frio, anda tudo à rasca, desenrascando-se com umas camisolas extra e tal. Anda tudo a tremelicar e à espera que a temperatura volte a subir. Não há investimento nums bons e quentes cascacões forrados de lã, num impermeável, num cachecol quente. O mesmo aplica-se à Índia, no meu entender.
E quando feito, em ocasiões raras, o investimento é mal aplicado ou mal gerido. Cinemas e estabelecimentos comerciais melhores instalam sistemas de ar-condicionado, mas deixam portas abertas e fica tudo na mesma (menos a contabilidade), ou põem aquilo a uma temperatura tão excessiva que faz todos os clientes suar.
De forma geral, os indianos não têm uma cultura climática muito desenvolvida. Aqui as pessoas aguentam-se e adapatam-se ao clima. Não o pretendem domar, ainda. Muito por causa da falta de condições materiais, é certo, mas também como filosofia de vida: quem somos nós para querermos domar o clima e a natureza?
terça-feira, 19 de dezembro de 2006
Faltam quartos
Já sabem, se quiserem visitar-me nos próximos tempos, marcar (o meu) quarto o mais cedo possível. Se não, ponho aqui dez chineses por noite, todos num cantinho. E pagam bem.
domingo, 17 de dezembro de 2006
Ele não sabe o que faz
The king of Bhutan abdicated his throne Saturday and announced plans to hand over the reins of power to his Oxford-educated son, the crown prince, who is expected to usher in a new democratic system of governance in the isolated Himalayan kingdom over the next few years.King Jigme Singye Wangchuck said a year ago he would abdicate in favor of Crown Prince Jigme Khesar Namgyel Wangchuck in 2008 as part of a process of adopting a new constitution which would transform the country from an absolute monarchy to a parliamentary democracy.
Ora cá está um acontecimento interessante, porventura inédito: um rei, confortavelmente instalado no poder há quase 30 anos, num país que politicamente falando não interessa nada, casado com quatro irmãs e dono de uma fortuna, decide que está a mais. Abdica para democratizar o país. Perdoemos-lhe. O homem não sabe o que faz.
Redescobrindo: Deli!
Presidente da República efectua Visita de Estado à Índia entre 10 e 17 de Janeiro. Em resposta a um convite do Presidente da República da Índia, Dr. Avul Pakir Jainulabdeen Abdul Kalam, o Presidente da República Portuguesa e a Dra. Maria Cavaco Silva efectuarão uma Visita de Estado àquele País, entre 10 e 17 de Janeiro próximo, deslocando-se a Nova Delhi, Goa, Bombaim e Bangalore.
Jantar inter-religioso
Acordo nuclear, mas não exagerar
Um acordo nuclear, acima de tudo no sentido não-científico da palavra. Mais do que nunca, indianos e norte-americanos estão a ensaiar uma nova aproximação diplomática. Mas o interessante nesta notícia do DN é o facto de escolher o adjectivo "polémico" para o descrever. Uma escolha muito acertada. É que há por aí (leia-se: Estados Unidos e Europa, Portugal incluído) muitos que já lançaram os foguetes porque vêem na Índia um "novo aliado democrático" na Ásia. Prematuro, na minha opinião. Opinião e argumentos esses que já tantas vezes expressei aqui e nas minhas colunas na Atlântico. Para quem queira saber porquê por si mesmo: visitar a Índia e ver que o seu carácter ocidental não passa de uma máscara, ou estudar o termo "Swaraj", googlando-o.Horas antes do final da legislatura, o 109º Congresso dos EUA aprovou ontem um polémico acordo com a Índia, que permite a venda de combustível nuclear a Nova Deli, pela primeira vez em 30 anos.
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
Questões nenhumas
Quando li a respectiva "notícia", há uns dias, num jornal indiano de duvidosa e sensacionalista qualidade (o sempre genial Times of India), como que por intuição e reacção pavloviana, pensei: ora aqui está um assunto sobre a Índia a que, aposto, a comunicação social portuguesa vai dar grande relevo.
Ora bem, nada mais, nada menos do que no "meu" Expresso (entre muitos outros jornais), cá está o assunto repescado das agências internacionais e re-escrito em tons (pouco) humorísticos. É um bom exemplo da maneira com que a nossa imprensa (salvo raras excepções, como o Público e, obviamente!, o Internacional do Expresso) tem escolhido abordar a Índia. Ignorando mil e uma questões de grande importância e interesse (humorístico incluído) e abraçando questões nenhumas como esta.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
Pedro Adão (1969-2006)
Não cheguei a travar conhecimento pessoal com ele, a não ser por e-mail e telefone, mas a morte do Cônsul Geral de Portugal em Goa, Pedro Cabral Adão, de 37 anos de idade, é daqueles eventos que nos ficam guardados na memória. Para o resto da vida, presumo.Avisado por uma breve notícia do Correio da Manhã, e por uma mensagem de alguém no MNE, soube do seu falecimento e, prontamente, noticiei o facto no Supergoa.com. O que me surpreendeu, no entanto, foi o relativo (se não total) silêncio com que a imprensa portuguesa e indiana, goesa em particular, bem como os espaços habituais do mundo cibernético goês e indo-português, brindaram o assunto. Questão, por sinal, mencionada também nas Notas Verbais.
Notas oportunas
terça-feira, 12 de dezembro de 2006
Monges, soldados, comunistas e jovens
De vermelho e amarelo, as cores dos seus robes religiosos, monges budistas tibetantos. Velhos e novos, mulheres e homens, sentados ou em pé, todos alinhados pacientemente, silenciosamente. Nem um pio. Olhar calmo, mas determinado. Os mais pequenos saltitam num jogo qualquer. Alguém prepara chá, butter tea.
De camuflagem azulada, pouco apropriada para uma zona urbana, militares da força de choque Rapid Action Force. Munidos de sofisticados bastões e escudos de plexiflex, com capacetes à prova de bala e botas que mais se propiciavam aos lamacentos e gélidos Himalaias. Um pouco entediados, alguns jogavam às cartas.
De bandeiras vermelhas em riste, com a foiçe e o martelo em branco, militantes dos partidos comunistas (Left Parties), ruidosos e cientes de atenção mediática. Aglomeram-se à volta de uma barraquinha decorada com cartazes apelando contra o "imperialismo chinês" e defendendo a libertação do Tibete. Em curso está também uma pequena peça dramática, "street theater" espontâneo.
Já engavetados nas carrinhas de choque, jovens tibetanos mais militantes, prontos para serem levados para a esquadra e, porventura, julgados em tribunal. Não lhes reconheço nada a não ser as cabeças e os olhos que espreitam por detrás dos gradeamentos azulados. De repente, ergue-se um braço e um pano com a bandeira do movimento independentista tibetano. Antes de um polícia atento lhe o rasgar da mão, vislumbro uma cor que envolve o restante braço: o azul claro de um blusão de ganga.
sábado, 9 de dezembro de 2006
De tudo um pouco, menos da Ásia
Alto lá. Impressionante. Uma presidência europeia do nosso país, mas nem uma única menção ou palavra ao continente asiático e aos importantes desafios (mesmo que a longo termo) que a sua emergência coloca à Europa. Ainda por cima quando as duas cimeiras anuais UE-China e UE-Índia calham exactamente nos "nossos" seis meses. Ignorância, negiligência ou prioridades trocadas? Talvez de tudo um pouco, à boa maneira da nossa tradicional política externa.
Imagens de Deli: Indo-portugueses de Cochim
Três membros da comunidade indo-portuguesa de Vaipim, a ilha que fica oposta ao Forte de Cochim, no Kerala. Estive lá em 2005, a convite da Fundação Oriente que financiou o restauro dos altares portugueses da sua rica igreja de Nossa Senhora de Esperança. Deambulando pelas ruelas da aldeia, fui logo rodeado pelas pessoas que, ao saberem que eu era português, tentaram logo entrar em diálogo com os seus limitados e arcaicos conhecimentos da língua de Camões. A herança lusa restringe-se, no entanto, ao campo da memória e das emoções, à gastronomia e à música, incluindo os cânticos religiosos. Anexo o artigo que escrevi na ocasião (sobre a razão principal da minha viagem), mas que não chegou a ser publicado no Expresso.(Fevereiro 2005)
Seminário internacional discute fortalezas portuguesas da Índia
Constantino Hermanns Xavier (enviado a Cannanore)
A histórica cidade de Cannanore, no estado indiano de Querala, acolheu esta semana o seminário internacional "Feitorias e Fortalezas Portuguesas na Índia", uma organização do Instituto indiano para a Investigação em Ciências e Sociais e Humanas (Kannur) com o financiamento da Fundação Oriente e apoios da Fundação Calouste Gulbenkian e Instituto Camões.
Dezenas de historiadores internacionais abordaram a temática da expansão militar portuguesa no subcontinente indiano nos séculos XVI e XVII, focando particularmente a fortaleza de St. Ângelo (Cannanore) que o organizador do evento e especialista em história indo-portuguesa, K. S. Mathew, considera ser "a mais antiga fortificação portuguesa intacta na Índia, fazendo parte da rede de fortalezas planeada pelo primeiro Vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida, ao longo da costa ocidental". O seminário comemora o quinto centenário sobre a colocação da pedra fundadora da fortaleza em 1505.
Depois de uma primeira passagem de Vasco da Gama, a presença portuguesa em Cannanore consolidou-se em 1501 com o estabelecimento de relações diplomáticas entre Pedro Álvares Cabral e o rei local e a edificação de uma feitoria. Afirmando-se rapidamente como ponto estratégico na expansão portuguesa na Índia, Cannanore chegou a contar em 1523 com 700 habitantes cristãos e uma vasta população de lusodescendentes, resultado da política de casamentos mistos iniciada por Afonso de Albuquerque. A fortaleza passou em 1663 para domínio holandês.
O seminário marcou também mais uma etapa no degelo entre as comunidades académicas portuguesas e indianas. Sérgio Mascarenhas de Almeida, delegado da Fundação Oriente na Índia, defende que "o discurso historiográfico indo-português é hoje menos ideológico e neste seminário há já uma nova geração de investigadores indianos com novas imagens acerca de Portugal". Referindo-se à polémica luso-indiana aquando das comemorações do quinto centenário da chegada de Vasco da Gama à Índia em 1998, afirma que "resta saber se os académicos portugueses e indianos têm agora a capacidade para passar a mensagem para as respectivas sociedades civis, para que os erros não se repitam". Do lado indiano K. S. Mathew também assume uma transformação: "Estamos a preencher um vácuo académico. Temos conseguido realizar diversos seminários indo-portugueses e manter-nos longe das correntes anti-portuguesas e dos discursos fundamentalistas".
Outras comunicações apresentadas durante o seminário incluíram "As estratégias comerciais e militares portuguesas no Oceano Índico" por Pius Malekandathil, "Desenvolvimento urbano de Nagapatão sob domínio português (1542-1658)" por Jayaseela Stephen e "A organização da Santa Casa de Misericórdia em Cannanore" por James John.
Entre as presenças portuguesas destacaram-se as comunicações de Zoltan Biederman, da Universidade Nova de Lisboa, que analisou o desenvolvimento urbano da cidade ceilonesa de Colombo sob domínio português e holandês, e de Vítor Rodrigues, do Instituto de Investigação Científica Tropical, que apresentou um trabalho desenvolvido em colaboração com João Paulo Oliveira e Costa sobre Lourenço de Brito, primeiro capitão de Cannanore. Já Luis Dias Antunes, do mesmo instituto, estudou o papel de Inácio Sarmento de Carvalho, último Governador português de Cochim (1661-1663).
De baixa
Um problema de saúde que eu deixei arrastar por demasiado tempo tramou-me esta segunda-feira passada e deixou-me KO durante dois dias e obrigou-me a adiar dois exames de fim de semestre. Está agora tudo sob controlo e a caminho da normalização. O susto deixou moral: lembrei-me que, no final de contas, ainda vivo na Índia e que há que manter precauções mínimas. O susto custou-me mais um jantar VIP: tive que cancelar a minha ida à casa do nosso Embaixador para um jantar com o "nosso" Alto Comissário das NU para os Refugiados, Eng. António Guterres. O susto foi também educativo: a minha imersão nos serviços de saúde indianos - dos centros de saúde públicos às clínicas de luxo - permitiu-me descobrir mais uma faceta sub-continental. Que por aqui irei partilhar, claro.
segunda-feira, 4 de dezembro de 2006
Atlântico: Recensão
Ashutosh Seshabalaya, Made in Índia, Lisboa, Centro Atlântico, 2006, 388 pp.
Por Constantino Xavier
"Oriundo “de uma família de notáveis da Índia”, representa uma elite que vive um momento de êxtase e de afirmação, tanto na diáspora, bem como nos corredores diplomáticos de Nova Deli, na bolsa Sensex de Bombaim e nos parques tecnológicos de Bangalore. A sua prosa é, por isso, material indispensável para uma abordagem sociológica aos que estão por trás da emergência indiana, aos seus interesses económicos pró-ocidentais, bem como aos seus complexos históricos e políticos, pós-colonialistas e anti-ocidentais."
Jantar ex-presidencial
terça-feira, 28 de novembro de 2006
O balde do lixo e a casta
segunda-feira, 27 de novembro de 2006
Imagens de Deli: Camião
Um típico camião de transporte de longa distância, estacionado a norte de Srinagar, Caxemira. São autênticos monstros rodoviários. Especialmente nos Himalaias, galgam rios, montanhas e vales. Às vezes, muito raramente, os seus titânicos (e, por vezes, bêbados) condutores calculam mal os milímetros e a viagem termina abruptamente, no fundo da ravina, nas gélidas e turbulentas águas de um glaciar em derretimento. São decorados com grande dedicação, cheio de inscrições divinas, nomes de sítios "conquistados" em jeito de troféus e mensagens intimidantes para outros condutores. Da única vez que andei de boleia num deles, fiquei com as costas esmigalhadas: para evitar desequilíbrios, quase que não têm suspensão. Mas não deixa de ser uma aventura partilhar passas e amêndoas com a sua tripulação, ouvindo as suas fantasiadas aventuras ("e então, surgindo sozinha e toda nua por trás de um rochedo, a americana fez-nos sinal a pedir boleia"...).
Eleições JNU
Pizza boy?
sexta-feira, 24 de novembro de 2006
Portugal (re)descobre a Índia
Falou na minha faculdade, num encontro que eu ajudei a organizar no Departamento de Estudos Europeus, sobre "Portuguese Foreign Policy: Present and Future" e correu bastante bem. De modo a que eu aposte que para o ano já haverá um ou outro mestrando ou doutorando a trabalhar sobre Portugal para a sua tese. Foi um momento particularmente importante para mim: dois anos depois de eu ter chegado a Nova Deli, Portugal marcou, finalmente, presença oficial na universidade que me acolhe.
A quem interessar, a entrevista que lhe fiz para o Expresso Online:
João Gomes Cravinho, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, em visita oficial
Portugal (re)descobre a Índia
Bandeirantes II
Redescobrindo: Bombaim
Há, claro, o chico-espertismo do costume em Portugal que leva a monstruosidades híbridas que só, e mais uma vez, demonstram a submissão a enorme facilitismo. Já vi por aí um nojento Mumbaim (não me lembro onde) e subsiste, claro, a ignorância: no caso, a RTP (ou Lusa), todo um texto refere-se a Bombaim, mas os ricos conhecimentos geográficos do autor levam-no a falar repetidamente de... Mombaça, do outro lado do Índico. Mas não sejamos tão pessimistas. Foi perto, quase que acertava!
Interlúdio pictórico
segunda-feira, 20 de novembro de 2006
Bandeirantes
De 6 a 8 de Novembro passado realizou-se a V International Conference of Structural Analysis of Historical Constructions, aqui em Deli, no Habitat Centre. A organização esteve a cabo de uma troupe de engenheiros da Universidade do Minho, Departamento de Engenharia Civil (Guimarães), liderada pelo Prof. Paulo Lourenço. Um mega-evento, patrocinado pela União Europeia, (EU-India Economic Cross Cultural Programme) e resultado de uma rede de investigação conjunta entre europeus e indianos sobre a preservação estrutural de edifícios históricos. Um dos casos estudados e executados é o do Qutub Minar, essa maravilha que é património da Humanidade (que, aliás, consigo ver do meu terraço).
Portanto, já sabem: quando vierem a Deli e estiverem a olhar pasmados para aquela colossal torre, obra dos Sultanatos de Deli há mais de setecentos anos, já sabem a quem agradecer. Vivam os engenheiros portugueses, de volta ao sub-continente indiano!
domingo, 19 de novembro de 2006
Umas ideias no DN
quinta-feira, 16 de novembro de 2006
A Cochichina sai-nos cara
Os jornais indianos estão cheios de anúncios de universidades inglesas, alemãs, americanas e australianas que tentam cativar o "boom" educacional indiano. Nos Estados Unidos, por exemplo, os indianos já são mais de 70 000. Também há quase tantos chineses.
Aqui em Deli, quase todos os meses, há grandes sessões de apresentação de universidades estrangeiras, procurando cativar o saber e o capital dos jovens indianos à procura de educação de excelência no estrangeiro, sendo que o sistema educacional indiano está a abarrotar. Por exemplo, mais de 200 000 jovens candidatam-se anualmente ao Indian Institute of Managment de Bangalore. Apenas 250 são aceites. Por outro lado buscam, obviamente, qualidade de ensino e perspectivas de emprego melhores do que na Índia.
A iniciativa da União Europeia, da próxima semana, é, portanto, bem-vinda. Mesmo que atrasados, os europeus perceberam a ideia e juntaram esforços para estarem cá todos em conjunto, certamente com uns saborosos subsídios comunitários. Mas, alto aí... todos?
Não, há um povo resistente. Entre as mais de vinte estruturas (ministérios, departamentos, institutos e comissões) nacionais representadas há de tudo, da Alemanha e França à Lituânia, Letónia e Polónia. O nosso Portugal marca a sua presença pela... ausência.
Mas também há boas notícias. Entre as quase cem universidades e instituições de ensino superior com representações, está uma (1) portuguesa! A proeza cabe ao ISCTE. O meus sinceros parabéns para Entrecampos. No entanto, voltemos às más notícias. 16 alemãs, quatro cipriotas, três irlandesas, duas lituanas e... uma portuguesa?
Posso estar enganado, mas a minha experiência dita que eu adivinhe que a UE paga tudo, ou pelo menos comparticipa fortemente nos custos: viagem, alojamento, barraquinha, impressão de material e panfletos, e se calhar até cafés e alimentação. Bastava pegar num dos muitos estudantes ociosos a deambularem pelas esplanadas e dizer: vais para a Índia, de borla, e só tens que sorrir e trazer de volta uns quantos candidatos indianos aos nossos cursos.
Mas não. É que somos mesmo bons. Tão tão bons, que, adivinho novamente, seremos os primeiros a afundar-nos nesse mundo pós-ocidental que nos aguarda em Deli, em Pequim, em Jacarta e na tão gozada Cochichina. Mas esse gozo e a ilusão cochichinesa vão-nos sair muito caro.
Lusofonia, sessão 7
Está na Índia há 13 anos e vive perto de Okhla, num bairro muçulmano no Sul de Deli (Jamia Nagar), onde gere um Instituto de Línguas e Cultura Latina e ensina mulheres locais a fazerem bordados e artesanato típico brasileiro. Também é professora de português na Jamia Islamia University. É casada com o argentino Juan Marcos Troia, trenador acreditado pela FIFA e que gere o International Sports Academy Trust, onde ensina miúdos indianos a serem futuros Ronaldinhos e envia os mais telantados para o Brasil.
Excelente, a intervenção dela na sessão. Sem sucumbir a relativismos e exotismos, deu um excelente testemunho acerca da sua experiência intercultural, conquistou a audiência indiana e explorou as imensas oportunidades que se apresentam no emergente eixo indo-brasileiro.
Carnaval diplomático
terça-feira, 14 de novembro de 2006
Economia das palavras e esta vida
Ainda os dálitas
domingo, 12 de novembro de 2006
Aconteceu!
Ainda eu não sabia do resultado oficial (a contagem demorou três dias!), já estacionava o primeiro carro de exterior à frente de nossa casa. Começou, então, uma autêntica orgia mediática à volta do Tyler. Na universidade passou três horas a fio a dar entrevistas para rádios e televisões, incluindo a BBC e a CNN. Depois disso procurou refugiar-se aqu em casa "com a família". Sem dormir, sem tomar banho e sem comer mais do que bolachas e fruta há dias, fizemos-lhe uma comida caseira, mas a pressão continuava e o telemóvel entrevistador não cessava de tocar.
Foi então raptado por um canal de televisão, para depois entrar em directo, horário nobre de Sábado à noite, às oito em ponto, numa entrevista de mais de vinte minutos, na Sahara TV. Antes disso tinha passado pela Zee News e, há já uma hora, estava cá à nossa porta o carro de exterior do Aaj Tak e os jornalistas a pergunterem-nos por ele e a pressionarem. Foi assim a noite toda. As televisões indianas não passavam outra face, a não ser a do Tyler, sempre a falar num hindi fluente (afinal, para além de ensinar os estrangeiros, como eu, até dá explicações a crianças indianas!).
Passava já da uma da manhã quando ele entrou, exausto, casa adentro. Bebericando um chá quente interrogámo-lo sobre 1001 assuntos, fazendo uso do direito de, afina, sermos o seu círculo mais íntimo e que o apoiou completando emocionalmente a sua racional estrutura partidária da AISA. Andava eu já empenhado em criticá-lo por achar que a JNU continua a ser um feudo da esquerda, adormeceu. E ainda dorme (13:10) enquanto escrevo isto. Ainda nem viu os vários jornais do dia em cima da mesa, na sala, onde está em todas as capas (incluindo fotografias suas).
Da cobertura mediática, destaco estes seguintes, mas basta procurarem por "Tyler" e "JNU" no Google News para darem com mais resultados.
International Herald Tribune
Washington Post
Times of India
Mumbai Mirror (com foto)
New Asia Times
quinta-feira, 9 de novembro de 2006
Emigrante 2
Emigrante 1
O impacto de Bombaim (O Mundo em Português)
terça-feira, 7 de novembro de 2006
Lx-Deli-Catmandu-Lasa-Pequim
Imagens de Deli: Mosteiro de Tabo
Mosteiro de Tabo, de fundação novecentista, no vale de Spiti, no estado de Himaxal Pradexe. Um local com uma rica história, no cruzamento de vários trilhos de caravanas entre os planaltos indostânicos, o planalto tibetanto, Caxemira e a Ásia Central. Os fantásticos murais interiores das gompas representam de forma exemplar o cruzamento entre a arte budista tibetana e subcontinental indiana, de influência hindu. É supostamente aqui que o actual Dalai Lama pretende passar a última fase da sua vida.
domingo, 5 de novembro de 2006
Mais Índia na Atlântico
Tive, aliás, o imenso prazer de estar com ele, num autêntico "encontro atlântico asiático", aqui em Deli, aquando da vinda da delegação da Fundação Champalimaud à Índia. Como me dizia então, vítima do jet-lag e inspirado pelo que observou por cá, escreveu de noite, no quarto do hotel, "uma coisinha" que depois enviou para o director Paulo Pinto Mascarenhas.
Fica um saboroso excerto do resultado dessa insónia indiana do Vítor, na linha do que já analisei nas minhas primeiras crónicas: "Na Índia as pessoas movem-se com a pressa de quem percebe que o seu tempo está a chegar. Têm pressa, mas não perderam a serenidade própria dos que sabem o que querem, como querem, e quando querem”. Mais, só mesmo na revista.
Atlântico: Pontos quentes
PONTOS QUENTES
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI
"Permitam-me uma sugestão revolucionária: os geólogos estão errados. Há mais de meio século que tudo aponta para um afastamento entre as duas placas, ou seja, usando a terminologia científica, para uma divergência. Em especial desde Agosto que se observam sinais ainda mais claros, com as fissuras nas relações indo-paquistanesas a alargarem-se de forma alarmante. Os cientistas chamam-lhes de “pontos quentes”. Ora, num subcontinente em ebulição, como o é a Ásia do Sul, qualquer fissura menor pode provocar gigantescas movimentações tectónicas. É portanto de esperar algo de novo nos próximos tempos."
Excerto da coluna "Passagem para a Índia", do número de Novembro da Revista Atlântico (p. 39). Nas bancas desde finais de Outubro.
sábado, 4 de novembro de 2006
Carlos Páscoa na Índia
Numa iniciativa inédita, o deputado social-democrata Carlos Páscoa (eleito pelo círculo eleitoral Fora da Europa) está estes dias de visita oficial à Índia, passando por Deli, Goa, Damão e Diu. Vem no contexto da sua promessa eleitoral de dar atenção especial às comunidades portuguesas e lusófonas tradicionalmente esquecidas pelo poder político luso. Vem atraído pelos supostos seis ou sete mil portugueses que por cá andam, na Índia. O problema será, no entanto, encontrá-los. Andam tão bem escondidos que nem o Governo indiano os encontra.Mesmo assim, é toda uma questão (a nacionalidade portuguesa na Índia) que mereçe muita atenção e conhecimento por parte dos nossos representantes políticos. E por mais que se quebre a cabeça sobre o assunto, à distância de S. Bento e sem vir conhecer e apalpar e as complexidades rugosas do terreno social, económico e político goês e indiano, nada mudará. A vinda do "senhor deputado" é, poratanto e acima de tudo, uma iniciativa extremamente louvável. Esperemos que resulte em algo de substancial.
Lusofonia, sessão 6
Hoje foi uma sessão, como sempre, muito concorrida, com mais de quarenta alunos presentes. Como sempre, logo que se abriu a possibilidade, começaram todos a falar em português. Ao contrário do que se poderá achar (ou do que se quer acreditar) no Marquês do Pombal e nas Necessidades, o português está bem vivo por estas bandas. Só não morreu, ainda, porque há um país chamado Brasil.
quinta-feira, 2 de novembro de 2006
Made in Índia
Ainda não me chegou às mãos. Mas, a julgar pelo autor, pelo índice e excertos e pelas críticas e recensões, só posso recomendar vivamente aos que, em Portugal, pretendem saber um pouco mais sobre a Índia. Publicado pelo Centro Atlântico, e traduzido pelo Jorge Nascimento Rodrigues, é uma adaptação da obra "Rising Elephant" para o público europeu - português, neste caso.É um sinal claro. Finalmente, mesmo que tardiamente, parece haver interesse suficiente sobre a Índia, entre a sociedade, o mundo universitário e os decisores (políticos e económicos) portugueses, para rentabilizar a tradução e o lançamento de uma obra destas. Esperemos que consiga contribuir para um ainda maior alargamento dos nossos limitados horizontes contemporâneos.
Ashutosh Sheshabalaya, o autor, é uma daquelas caras conhecidas no meio indiano globalizado, globetrotter entre os EUA e a Índia, passando pela Europa. Nem que seja por isso (mas também pelo preço - muito acessível para as suculentas 388 páginas), vale a pena ler. À venda nas principais livrarias. Mais informações (excertos, índice, autor etc.).
Cuidado com a vaca?
"Existe, efectivamente, uma Índia que quer voar, alimentada por uma iniciativa privada dinâmica e ambiciosa (ou não fossem os indianos os melhores comerciantes do mundo), confrontada com uma sociedade que funciona a diversas velocidades e onde o conservadorismo, os tabus, o sistema de castas (oficialmente abolido, mas que teima persistir) que impede a progressão social, a resistência a aprendizagem e o baixo nível de educação ainda actuam como fortes travões ao progresso."
Aldrabando: Bagageira de táxi
A chave está em duas estratégias. Logo à partida, enquanto que já se encontra sentado no carro e o motorista finge tentar fechar a bagageira, o carro é aliviado da sua luxuosa mercadoria, passada para as mãos de um compincha. Sem o perceber, portanto, as malas nunca viajaram consigo. Uma segunda opção é mais sofisticada, mais rara ainda, mas executada com sucesso, pelo menos algumas vezes, em Bombaim: tudo previamente combinado, o compincha aproxima-se por detrás do táxi, enquanto que este aguarda num cruzamento ermo pelo sinal verde, e, o mais silenciosamente possível, retira a mercadoria para a beira da estrada ou para um outro veículo.
quarta-feira, 1 de novembro de 2006
Tyler strikes back
Ora bem, o homem voltou ao ataque. É este ano candidato a um dos quatro postos principais na Associação de Estudantes (Students' Union), novamente pela AISA. Como já notei anteriormente, são os postos mais concorridos e reputados no meio político-estudantil em toda a Índia. E, tal como as coisas se estão a desenvolver, está tudo encaminhado para que ele ganhe, mesmo contra os partidos maiores como a SFI (Students Federation of India), a NSUI (National Students Union of India) e o ABVP (nacionalistas hindus).
A decisão não foi fácil. Candidatar-se a um posto destes, ainda por cima com o risco de ganhar, é um risco enorme e significa dedicar um ano inteiro à política estudantil, deixando a vida pessoal e os estudos para segundo plano (se é que chega aí) e comprometer seriamente a saúde, física e mental. Depois deste primeiro ano de experiência nessas lides, o Tyler prometia em alta avoz, a nós cá em casa e talvez mesmo a Nossa Senhora, que nunca mais se iria meter nisto. Ora, de repente, as coisas mudaram.
O Tyler tentou tudo. Explicou ao partido que também tem uma vida pessoal, objectivos académicos e profissionais (afinal, está a fazer o mestrado... em hindi, na Índia!) e que não estava disposto a concorrer. Mas partidos como a AISA sabem melhor. Enquanto que ele se refugiava cá em casa, já passava da meia-noite e já o telemóvel dele tinha tocado incessantemente por dezenas de vezes (e ele limitava-se a escondê-lo por debaixo da almofada), tocam-nos à campainha. À porta, três sujeitos do "comité central". Como que prontos para levar o Tyler para a Sibéria, para o Gulag. Fechavam-se depois no quarto dele, com ele, e saíam de lá sorridentes e o Tyler exausto, desiludido.
Finalmente, no último dia de candidaturas, lá o convenceram. Como ele próprio, antevendo a pressão, tinha entregue o seu cartão de estudante aos serviços administrativos (é documento necessário para a candidatura), foram, ainda não eram sete da manhã de Sábado, bater à porta da casa de um dos funcionários da universidade, pedindo-o de volta. às 13:00 Tyler era candidato oficial para o posto de Vice-Presidente. Às 02:30 voltava a casa, mais exausto do que nunca.
Mas, com o início da campanha, lentamente, o estado febril da política começa a correr-lhe pelas veias. Hoje já voltou mais animado para casa. De repente, esqueceu-se da investigação para o mestrado, das dificuldades financeiras que irá ter (por deixar de poder dar aulas de explicações) e mesmo da namorada, doutoranda em Harvard. Amanhá deixaremos de o ver. Durante os dez dias de campanha, pega numa pequena mochila, sai aqui de casa e vai viver para o quartel-general da AISA, um pequeno quarto numa das residenciais em que deverá dormir pouco mais do que duas ou três horas por dia, em média.
É curioso, abrir, ao pequeno-almoço, os jornais do dia e ver lá títulos como "American contests in JNU", textos e fotografias de quartos- e oitavos-de-página de quem ainda está a dormir, no quarto ao lado, de ressaca de mais uma noite de campanha eleitoral. A questão é polémica, claro: afinal, a liderança do Partido do Congresso por Sonia Gandhi, "a italiana", deixou marcas. Para além do Hindustan Times e do Times of India (artigos sem ligação), recomendo estes excertos, para terem uma ideia do que se passa nesta casa.
Apart from new parties on campus, these elections will also see a foreign student in the race for the post of vice-president. Tyler Walker Williams will be the candidate of the AISA. While it is not his first elections on campus, he is contesting for a place on the central panel for the first time. (The Hindu)
"Student factions need to be more autonomous, they should not receive funding, but can share ideology. At the end of the day they should be able to question their party, otherwise they would end up as agents," offers Tyler Walker Williams, a US national who is a counsellor at the School of Languages, Literature and Cultural Studies at Jawaharlal Nehru University (JNU). (Tribune India)
Demissões suecas e indianas
Tolgfors, 40, replaces Maria Borelius, who stepped down on Oct. 14 after media reported that she had paid a nanny under the table during the 1990s. Adelsohn Liljeroth, 50, takes over from Cecilia Stego Chilo, who resigned Oct. 16 as culture minister amid intense media pressure over her failure to pay a mandatory TV license fee for 16 years.
Parece-me muito provável que, aplicando hoje estes critérios ao Governo de Nova Deli, amanhã de manhã o Cabinet meeting (Conselho de Ministros) realizar-se-ia sem um único ministro presente.











