sábado, 30 de setembro de 2006

No bolso

Amanhã de manhã - prometeu-me o dono da livraria no campus - tenho-o no bolso, por 850 Rupias e pronto para ser recenseado.

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Imagens de Deli: Benção

Um pandita, sacerdote hindu, abençoa uma viatura recém-comprada por um casal. Complexo religioso de Chattarpur Mandir, no Sul de Deli.

Atlântico: Swaraj

Passagem para a Índia (nº6)

SWARAJ
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

(...) Por outro lado, deparamo-nos com uma causa mais tradicional, profunda e subconsciente, adequadamente representada pelo conceito “Swaraj” – a bandeira simbólica do movimento indiano pela independência. Nas palavras do nacionalista Chittaranjan Das (1870-1925), durante o Congresso Indiano de 1924, “Swaraj é mais do que a simples independência política e formal. É a independência de todos os obstáculos no caminho para a auto-realização”.

Num país que oferece terreno fértil para as teses do neo-colonialismo, o conceito de Swaraj permaneceu bem enraizado, simbolizando a preocupação indiana de se auto-realizar e desenvolver, independentemente de tudo e de todos. É uma Índia ciente de autonomia total, de liberdade de escolha máxima e de uma multiplicidade de opções infinita. Uma Índia com muitas relações amigáveis, mas com poucos amigos de verdade.

Engana-se, por isso, quem acha que a Índia, lá por ser democrática e falar inglês, vai cair “que nem um patinho” na órbita da águia norte-americana. Vislumbram-se provas contrárias, por todo o lado. Enquanto que as negociações sobre o acordo de cooperação civil nuclear e o “tu cá, tu lá” entre Nova Deli e Washington se arrastam há mais de um ano, está em pleno curso o Ano da Amizade Sino-Indiana, está iminente um acordo nuclear e militar com a França e Manmohan Singh não dispensa de telefonar ao iraniano Ahmadinejad, recordando-lhe que conta com o seu petróleo para daqui a uns anos. (...)

Excerto da coluna "Passagem para a Índia", do número de Outubro da Revista Atlântico. Nas bancas desde esta Quinta-feira passada.

Espaço

Leio, quase todos os dias, jornalismo em inglês, francês, espanhol e alemão. Por todo o lado há um tipo de texto chamado "feature", há novos estilos e novos formatos. Há espaço e inovação. Lê-se "we", "nous" e "wir" ou "I", "moi" e "ich" sem complexos. Há reportagem. Há olhares e perspectivas. E, depois, olho para Portugal e entristeco-me. Tenho 1001 ideias e poderia escrever, sem dificuldades, uma ou duas features por mês, mais um ou dois artigos mais específicos, sobre a actualidade. Mas, pura e simplesmente, não há espaço. Para quando, um grande diário ou semanário de referência, em Portugal? Culto, sóbrio e intelectual? Inovador, arejado e crítico?

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Greve de fome

Mais uma vez, o campus está em polvorosa. A JNUSU (Jawaharlal Nehru University Students Union) denunciou que a "Charter of Demands" apresentada à Administração (Reitoria) foi recusada em grande medida. Questão central: a reivinidicação estudantil de um aumento da bolsa "Merit-Cum-Means" (MCM) para todos os estudantes necessitados, de 800 para 1500 Rupias mensais (sensivelmente de 16 para 30 Euros). Medida adoptada: greve de fome. Primeiro rotativa ("relay", os estudantes participantes mudam de 24 em 24 horas). Agora contínua ("indefinite", os estudantes participam até serem hospitalizados à força pela polícia). Com o Vice-Chancellor (Reitor) por dez dias em Paris, prevêem-se muitas hospitalizações...

Óscar indiano?

Depois do alarido de "Lagaan", filme que chegou a ser nomeado em 2001 para os Óscares da Academia, agora é a vez de "Rang de Basanti". Ou melhor, poderá vir a ser a vez de, porque foi nomeado pelos indianos para uma nomeação.

O filme foca de forma soberba a transformação e os dilemas geracionais da Índia: tradição e modernidade, casta e classe, nação e mundo. A estrela Aamir Khan desempenha um papel excelente. O director, Om Prakash Mehra, rompe com o enredo clássico de Bollywood ao ponto de instigar directamente contra as autoridades estatais e premiar a audiência com um final... nada feliz.

Altamente recomendável para quem queira conhecer um pouco da Índia de hoje, dos jovens urbanos e da nova classe média que tantos arrepios está a provocar a Ocidente. Há dinheiro, há motas, há muito alcóol, há desinteresse pela história, mas há também conflitos de casta, de ideologia e de religião. Acima de tudo, no fim, há revolução.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

A globalização não pára nem perdoa

Thomas Friedman, no New York Times ("Anyone, Anything, Anywhere"):

"It turns out that many multinationals like the idea of spreading out their risks and not having all their outsourcing done from India — especially after one big U.S. bank nearly had to shut down last year when a flood in Mumbai paralyzed its India data center the same day a hurricane paralyzed its Florida operation. And there is no risk of nuclear war with Pakistan here. "When I first approached this big U.S. bank to outsource some of its services to Montevideo, instead of India," recalled Mr. Rozman, "the guy I was speaking with said, 'I don't even know where Montevideo is.' So I said to him, 'That's the point!' ".

Lançamento

É hoje, o lançamento de "In the Line of Fire", do militar e presidente paquistanês Pervez Musharraf. Muito aguardado. E muito polémico, tendo em conta as afirmações dos últimos dias, primeiro em Havana, depois em Washington. A imprensa indiana há dias que publica recensões e análises, estando alguns exemplares já em circulação em território indiano (mas não à venda, por enquanto). Isto tudo (Balochistão, "Acordo" com talibãs, movimentação de tropas ao longo da Caxemira, "bombardeamentos até à Idade da Pedra", mecanismos bilaterais anti-terrorismo etc. e tal) cheira-me a profundas mudanças tectónicas com epicentro na Ásia do Sul, muito em breve.

domingo, 24 de setembro de 2006

Chegou o Outono

Finalmente, depois de uma monção asfixiante em que a temperatura e a humidade se aliaram de uma forma verdadeiramente violenta e provocaram surtos de gripe viral por toda a cidade e pelo campus universitário (e cá em casa), chegou o ameno e agradável Outono deliense. Tudo a postos para seis deliciosos meses em termos climatéricos, com tempo seco, noites frias e dias solarengos.

sábado, 23 de setembro de 2006

Clássico

É clássico: há um golpe de estado militar na Tailândia e a imprensa portuguesa vai a reboque (de quem, ninguém sabe ao certo) e dá-lhe ampla cobertura. A questão não é a importância dos acontecimentos da semana passada em Bangequoque. A questão diz respeito aos critérios de selecção adoptados. Sempre o disse: é assombroso observar os critérios (ou melhor, a ausência deles) jornalísticos da comunicação social portuguesa em termos de política internacional.

Golpes de estado em repúblicas fantoche sul-americanas ou em autênticas zonas negras africanas (lembro-me da República Centro-Africana) são apresentados com grande alarido e desproporção. Entretanto, outras temáticas, muito mais relevantes e essenciais para a políticia internacional e porventura para Portugal, permanecem marginalizadas e, por consequência, na periferia do imaginário político, cultural e económico da sociedade. É óbvio que integro a Índia nesta última categoria, havendo, no entanto, dezenas de outros exemplos. Não é só clássico. É, simplesmente, assustador.

Pão pão, queijo queijo

É nisto que dá a hibridez e a multiculturalidade. Uma tremenda esquizofrenia diaspórica que nos obriga a reconceber toda uma modernidade e todo um esquema conceptual e organizacional.
"Two Indians in Forbes list of richest Americans"
Como é? São indianos ou americanos? Como é?

Imagens de Deli: Barqueiros em Varanasi

Foto de Raquel Galvão Silva, numa manhã solarenga no Rio Ganges.

Jawaharlal Nehru University

Para quem está interessado em saber um pouco mais sobre a instituição que me acolhe nesta minha vida em Deli, bem como sobre a crescente tendência de estudantes ocidentais frequentarem cursos superiores na Índia, sugiro o seguinte artigo:

Jawaharlal Nehru University, or JNU as it is popularly known, is one of the most prestigious educational institutions in India which attracts students from all over the world. ... According to Professor Varun Sahni, advisor of foreign students at JNU, the university has become a hub for students from Europe in the past few years. He said: “As interest in India grows it has become an attractive destination for youngsters. There is a huge difference between coming here as a full-time student and taking a quick trip to India for a holiday.” In the academic year 2001-2002, JNU had 186 foreign students from 34 countries, many of them from Europe and the US and others from South-East Asia, Central Asia and Africa.

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

À descoberta do mito Bangalore (Expresso)

No ‘Silicon Valley’ da Ásia, um grupo de MBA portugueses tomou o pulso à revolução indiana

“Contrastes”, “oportunidades” e “confiança”. Foi com estas palavras que os quarenta e três participantes portugueses do programa «Evolving Indian Business Environment», realizado este mês, no Indian Institute of Management de Bangalore (IIMB), descreveram a Índia e a sua economia emergente.

A iniciativa, inédita em Portugal, visa permitir anualmente aos alunos do MBA da AESE, Escola de Direcção e Negócios, “redescobrir uma nova Índia”, segundo Viassa Monteiro, professor na mesma instituição. “A distância psicológica que separa Portugal da Índia é bem maior do que a geográfica”, alerta, sublinhando que o objectivo é permitir aos alunos “observarem de perto o epicentro do crescimento económico indiano”. Bangalore, que na década de noventa cresceu a taxas superiores a 20%, é conhecida como o “Silicon Valley indiano”.

Foram, contudo, os contrastes socio-económicos que mais atraíram a atenção dos jovens profissionais portugueses. “Com 150 milhões de indianos a viverem em grande prosperidade, é um desafio gigante alargar a riqueza aos restantes 900 milhões”, diz Gabriel Abrantes, do planeamento estratégico da Sonaecom. “Está tudo por fazer”, refere, destacando os sectores dos serviços e das infra-estruturas.

Para Anabela Barata, os contrastes reflectem “tremendas oportunidades de investimento, com um crescimento sustentado e uma mão-de-obra qualificada e competitiva a nível global”. Contudo, para a consultora financeira, os desafios culturais e os obstáculos burocráticos e políticos exigem uma perspectiva a médio ou longo prazo. “Aqui não há espaço para ambições de lucro fácil”, assinala.

Luís Costa Afonso, gestor da Milefiore e importador de acessórios de moda da Índia, defende que a exploração do potencial indiano requer um comprometimento sustentado: “Não pode ser feito à distância. Implica conhecer o terreno e identificar nichos adequados às capacidades das pequenas e médias empresas portuguesas”, refere, salientando a importância de se conhecerem a cultura e as práticas locais de negócio.

Os elevados índices de confiança entre empresários, gestores e decisores indianos, foram um outro aspecto observado pelos participantes. Teresa Mesquita, profissional na área das tecnologias de informação, sublinha que estes “não se colocam à sombra do sucesso actual. Têm uma visão estratégica, racional e madura, o que surpreende num país saído de um longo período de paralisia e planeamento estatal”. O fenómeno também foi constatado no contexto académico. Quando inquirido sobre as estratégias a adoptar pela Europa para fazer face ao crescente poderio asiático, um dos professores do IIMB recusou-se a responder, explicando que “estamos a jogar pelas regras que vocês mesmo nos impuseram há três séculos”.

Para Narandra Agrawal, professor no IIMB, a atenção internacional de que Bangalore tem sido alvo é uma “mais-valia” para a inserção indiana na globalização. O instituto, que trabalha em rede com as escolas de negócio de Harvard nos Estados Unidos, McGill no Canadá e INSEAD em França, é considerado como uma “instituição de elite” na Índia. “Em termos de qualidade da educação estamos ao melhor nível mundial”, sublinha Agrawal.

Constantino Xavier, enviado a Bangalore


Caixa

200 multinacionais ocuparam boa parte das dezenas de parques tecnológicos. Entre directores executivos, técnicos e operadores são já mais de 15.000 os estrangeiros a viver em condomínios de luxo.

Até 2010 serão criados 120 mil novos postos de trabalho em «call-centers» para outras línguas europeias, que não o inglês.

30% dos agregados familiares de Bangalore possuem só uma bicicleta, enquanto que 9% possuem uma viatura ligeira, um jipe ou um monovolume.

Bangalore regista a sexta mais alta taxa de criminalidade entre as 35 megacidades indianas (com mais de um milhão de habitantes).

Mais de 200.000 jovens candidatam-se anualmente às 250 vagas oferecidas pelo Indian Institute of Management de Bangalore em cursos de pós-graduação.

Desde 2000, Bangalore atraiu em média cerca de 250 milhões de euros de investimento directo estrangeiro por ano, quase 8% do total indiano.

Por dia, Bangalore consome quase oito milhões de litros de água e produz cerca de três mil toneladas de resíduos sólidos.

O volume de tráfego rodoviário em Bangalore cresce a um ritmo anual de 7 a 10%, estando actualmente registados mais de 1,6 milhões de veículos motorizados.


"Em Directo"

Gabriel Abrantes, PLANEAMENTO ESTRATÉGICO SONAECOM
“1990 simbolizou um momento de ruptura, marcando o início da transição do planeamento socialista para a economia de mercado”

Anabela Barata, CONSULTORA FINANCEIRA
“Aos olhos europeus a pobreza é chocante, mas o crescimento fala por si e promete grandes transformações”

Luís Costa Afonso, GESTOR DA MILEFIORE
“A atitude dos empresários é quase fabril: não colocam dificuldades, assumem riscos e tornam tudo possível. Primeiro ouve-se um sim, depois um talvez e só raramente um não”

Nélson Rodrigues, ENGENHEIRO CIVIL
“Para um engenheiro civil há aqui negócios fabulosos para uma vida inteira”

Pedro Vasconcelos, ENGENHEIRO DE TELECOMUNICAÇÕES
“Ao fim de quinze anos de grande crescimento económico, em vez de o clima ser de euforia e arrogância, afirmou-se entre os indianos uma visão consciente, optimista e sóbria das suas capacidades e fraquezas”

Teresa Mesquita, COORDENADORA SIBS
“A visão estratégica das elites está ao nível europeu e norte-americano, fiel a uma constante introspecção e autocrítica”


O artigo, com mapa e fotografias, está disponível em linha no sítio do Expresso, esta semana com acesso gratuito (porque o sol apareceu no horizonte).

Imagens de Deli: Paula & Ricardo

Já que estamos com a mão na massa - falando de portugueses em Deli - é urgente eu publicar esta fotografia, tirada há uns meses, na primavera. São a Paula e o Ricardo, dois mestrandos (numa área das ciências de que não me recordo) da Universidade do Minho. Tirando partido de uma rede de investigação conjunta com a Índia, obviamente financiada por Bruxelas, tiveram a bela ideia de vir ao reputado Indian Institute of Technology de Deli (IIT Delhi). Durante mais de seis meses pesquisaram em laboratórios sobre têxteis, com mais ou menos dificuldades ("é pá, eles não nos deixam trabalhar e só nos dizem para tirarmos férias!").

Embora vivessem noutra parte da cidade, ainda nos encontrámos várias vezes. Lembro-me, aliás, perfeitamente do dia em que o Ricardo me ligou pela primeira vez, a tratar-me por "senhor", contando-me que lhe tinham dado o meu número na Embaixada e que precisava de ajuda na procura de casa e "em geral".

Esta foto foi tirada num festival de gastronomia internacional na minha universidade, em que eles puderam saborear não um bom bacalhau, mas comidas de 1001 países de que só raramente se ouve falar. De Deli, um abraço para os dois, onde quer que agora estejam.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Hoje acordei

Hoje acordei, cedinho de manhã, com o barulho de um canalizador a esfrangalhar a parede de uma das nossas casas-de-banho. Deve ter sido o senhorio a pedir a obra. Mas não tenho a certeza, é claro. Também não interessa.

Estudar história

He recollected that during the liberation struggle of Goa, the PCP’s clandestine magazine was the only one in Portugal to demand liberation for Goa. (...) "Like we supported the people of Goa then, we support the people of Palestine, Venezuela and Cuba now. We also support the workers and poor people of India. This visit is to exchange ideas toward that end", he said.

Palavras de Jerónimo de Sousa, secretário-geral do Partido Comunista Português, de visita a Goa. Convidado pelo CPI-M e CPI, os principais "sister-parties" comunistas da Índia, vai, conjuntamente com Ângelo Alves (Comissão Política), visitar também Deli e Calcutá.

O que me intriga, no entanto, é o seguinte: O que é que levou os comunistas portugueses a defenderem para o povo colonial de Goa uma "libertação" e uma "auto-determinação" diferente, se não antagónica, da exigida para todos os outros povos coloniais, da Guiné a Timor? Libertação, afinal, em que termos? Como soube o PCP presumir o que ia na mente dos goeses, se nunca houve um partido de libertação anti-colonial de massas, tal como o foi o Congresso na Índia Britânica ou o conjunto Frelimo/Renamo em Moçambique? Porque esta "excepção indiana", interpretando libertação como integração noutro país?

Terá sido por influência dos militares comunistas? Segundo Josep Sánchez Cervelló, historiador, havia no final da década de sessenta alguns militares do Exército português dispostos a receber directivas do Comité Central, estando estes “organizados desde os tempos de Goa coronéis do Exército, que tinham passado pela Índia como capitães, e que ali tinham vivido o pós-independência e contactado com o comunismo e com as ideias de libertação do Terceiro Mundo. Pessoas como Vasco Gonçalves, Varela Gomes ou Vicente da Silva”.

O que importa é saber se o Sr. Jerónimo tem a sua lição de história bem estudada e se é capaz de explicar e defender esta ambiguidade, mais de quatro décadas depois da integração forçada do Estado da Índia Portuguesa na União Indiana, e três décadas depois de o seu camarada Vasco Gonçalves ter chefiado o III Governo Provisório, cujo Ministro dos Negócios Estrangeiros (Mário Soares) assinou o tratado biliateral que reconheceu a soberania indiana sobre o território.

Até em termos de investigação, para as ciências sociais portuguesas, este é um mistério que deveria ser estudado melhor. Que siginificado, afinal, para a libertação?

PS: Com o apelido que tem, presumo que Jerónimo de Sousa já deve ter recebido, no seu quarto de hotel, uma dezena de telefonemas de velhinhas goesas tentando convencê-lo de que ele é um primo-neto-enteado "afastado" delas.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Póssobens simbólicos

Atenção que estes "póssobens" podem significar muita coisa (especialmente quando um dos intervenientes agarra o outro... pelo pulso!). Foi, aliás, em previsão deste mesmo "póssobem" que eu escrevi a minha coluna "Passagem para a Índia" que sai no número de Outubro da Revista Atlântico e é intitulada "Swaraj". Em finais deste mês nas bancas, ou nas caixas de correio dos assinantes.

sábado, 16 de setembro de 2006

A globalização do tali?

Sempre que vou a um dos restaurantes Saravana Bhavan (uma cadeia indiana com dezenas de restaurantes em vários países), para além de ficar deliciado com a comida vegetariana do Sul da Índia, fico convencido de que estamos mais próximos dos dias em que o mundo será menos ocidental. Daí não advém que será mais oriental. Mas será, certamente, menos ocidental e mais heterogéneo. As suas bases e os seus fundamentos, bem como a estutura, serão de cariz ocidental. Mas o conteúdo e a essência passarão a ser, mais e mais, autóctones, periféricos, creolizados ou misceginizados, entre o tribal e o cosmopolita. Tanto na gastronomia, como no pensamento académico ou na ideologia política.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Soberania do sono

Para um ocidental na Índia não há episódio mais desconcertante do que ver um motorista de riquexó recusá-lo como passageiro só porque está no meio da sua soneca ou porque simplesmente não lhe apatece por o seu triciclo em circulação.

Há dezenas ou centenas de milhares de riquexós em Nova Deli e entre eles existe uma tremenda, e por vezes mesmo fratricida, rivalidade e competição. Um passageiro é quase como uma benção, especialmente um estrangeiro, pronto para ser enganado com uma volta extra ao bloco residencial ou uma infeliz viragem à esquerda quando a placa para o destino aponta para a direita. É também escusado lembrar que o quotidiano na Índia é uma batalha contínua pela sobrevivência de tons muito darwinistas. Quem não explora as oportunidades, arrisca-se a perder no grande jogo que é a economia indiana dos pequeninos.

Então, porque raio é que o motorista se recusa a fazer umas Rupias? Há ocidentais que, perante a recusa, ficam nervosos e irritados. Perante os incompreensíveis e negativos olhos dorminhocos do condutor, deixam-se levar pela frustração. É que ele nem perde tempo. Abriu os olhos, disse "não", e fechou-os novamente, de uma forma tão natural como se estivesse a despachar um charlatão à porta de casa.

Este é um daqueles mistérios interculturais que devem ser compreendidos e percebidos, mas não resolvidos. O ocidental, educado num sistema racionalista em que há um prestador de serviço e um consumidor respectivo em perfeita harmonia, encontra-se perante uma irracionalidade, logo "incompreensível". "Este homem não precisa de dinheiro para comer, para educar os filhos ou para a saúde e para tirar férias?", pergunta-se o ocidental, ainda mal refeito do susto e à procura de um outro riquexó.

Não. Aquele homem, naquele momento precisa de sono. Ou melhor, quer sono. Aquele condutor tomou uma decisão soberana: quero descansar e não me apetece prestar serviço a ninguém. É, mesmo dentro do contexto ocidental, uma decisão racional, calculada e pensada. Naquele momento, o condutor prefere estar parado e reunir esforços ou recuperar calma espiritual. Chamemos-lhe preguiçoso, irracional ou atrasado - não importa. Ele, como indivíduo, tomou uma decisão privada que em nada nos deve afectar (pois não se trata de um serviço público).

Na Escola Alemã, fartavam-se de nos contar a história do pescador mediterrânico que dormitava no seu barquinho e do turista alemão que lhe vinha enumerar as vantagens de trabalhar em vez de tirar a sesta: depois de um mês poderia comprar um segundo barco, pescava mais, vendia mais no mercado, fazia mais dinheiro, comprava uma traineira, pescava mais, empregava uns ajduantes, vendia mais, re-investia, e por aí adiante, até ser o dono de uma milionária frota pesqueira. "E depois?", irrompia o pescador latino, já chateado com tanto paleio germânico. "E depois", dizia o turista, "depois você é tão rico e tão poderoso que pode passar as tardes todas a dormitar à beira-mar". "Isso já o faço agora", retorquia o pescador e recomeçava a ressonar.

Não quero aqui romantizar em demasia a atitude do motorista (ou do pescador). É preciso valorizar o trabalho e é so com investimento e confiança que se mudam as condições miseráveis em que uma grande parte da população vive hoje. Se ele trabalhasse em vez de dormir à tarde, talvez tivesse umas Rupias a mais, ao fim do mês, para contratar um explicador para os filhos ou para, quando a mulher adoecesse, a levar a um hospital melhor.

Mas ele sabe isso e muito mais. Ele sabe o que é a batalha do quotidiano indiano. Quem somos nós para lhe darmos lições de economia e o forçar a interromper o seu sagrado e soberano sono?

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Sul-Sul

Um eixo emergente a ter em conta no século XXI. Índia-Brasil-África do Sul, ou, IBSA (G3). Mete muita energia, comércio internacional, Embraers, um pouco de etanol, bastante África, muito Conselho de Segurança, e alguma cultura pelo meio.

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, reafirmaram nesta terça-feira, durante encontro em Brasília, que os dois países querem estabelecer uma parceria estratégia e vão continuar atuando juntos em temas relacionados à Organização Mundial do Comércio (OMC) e à reforma do Conselho de Segurança da ONU. (...) Nesta quarta-feira, Lula recebe também o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, para a primeira reunião de cúpula do G3, criado em 2003 para promover a concertação política entre estes países e tentar aumentar a influência dos países em desenvolvimento."

Imagens de Deli: Bangalore

Contrastes

Eu em algumas cadeiras tenho colegas que sabem mais do que muitos dos professores que eu já tive em Lisboa e Paris e, ao mesmo tempo, colegas que não sabem exprimir-se em inglês (chegam a intervir em hindi), nem escrever "research methodology" sem erros.

Andamos a despir-nos

Converso, ao almoço, com um ilustre amigo marxista-leninista meu e outros colegas. Falo sobre a tendência ocidental de procurar escapar ao peso, custo e burocracia do sistema judicial, encorajando-se o díalogo e as medidas alternativas (cordiais e extra-judiciais) de resolução de conflitos. Que, de certa maneira, isso representa um regresso ao passado pré-moderno e aos mecanismos e valores inter-individuais de resolução de conflitos, embora presuma a existência de uma plataforma democrática liberal comum a todos os cidadãos.

Responde-me o marxista-leninista: "Olha para eles. A propagarem a modernidade e o modelo burocrático, racional e legalista da justiça pelos quatro cantos do mundo, enquanto eles mesmo voltam ao tribalismo. Falta pouco e começam-se a despir todos e a andar nus por aí."

Responde um outro: "Já o andam a fazer há muito tempo, não reparaste?".

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Expresso: Como o medo mudou o mundo

O 11 de Setembro assemelhou-se a um sismo à escala global com epicentro em Nova Iorque e réplicas nos quatro cantos do mundo.

(...) Em 2006, foi a vez da Índia. A 11 de Julho passado, 1.200 pessoas morreram ou ficaram feridas nos atentados de Bombaim. Num país com grande diversidade étnica e religiosa - a sua Constituição reconhece 23 línguas oficiais -, com a segunda maior população muçulmana do mundo e com vários movimentos separatistas, a violência sempre fez parte do quotidiano dos indianos, mas nunca com a dimensão de há dois meses. Desde então, o país de Mahatma Gandhi vive em clima de alerta constante. A 15 de Agosto, feriado comemorativo da independência, o primeiro-ministro discursou em Nova Deli rodeado por atiradores e baterias antiaéreas e sobrevoado por helicópteros militares. Na recém-inaugurada rede de metro da capital, os produtos líquidos têm de ficar à superfície. E edifícios como o Parlamento ou o mítico Taj Mahal estão mais seguros do que nunca, rodeados por centenas de polícias e paramilitares. Bangalore, o «Silicon Valley indiano», onde operam várias multinacionais norte-americanas, vive em autêntico estado de sítio. E em milhares de cibercafés indianos, os utilizadores são obrigados a preencher um formulário com dados pessoais. (...)

Extracto da minha autoria, retirado do artigo maior "Como o medo mudou o mundo" publicado na edição de 9 de Setembro do Expresso, na revista Única.

Atlântico: O espírito de Bombaim

Passagem para a Índia (nº6)

O ESPÍRITO DE BOMBAIM
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

Tal como Nova Iorque, há cinco anos, também Bombaim terá que passar agora por um doloroso processo de cicatrização das feridas abertas pelo terrorismo. Mas o mais impressionante no pós-11 de Julho de Bombaim é que a vida continuou normalmente no dia seguinte ao horror, como se nada tivesse acontecido. É claro que num país em desenvolvimento, como a Índia, as pessoas não se podem dar ao luxo de faltar ao trabalho ou de passar a andar de táxi para escapar à violência de uns radicais pouco escrupulosos. Mas a realidade é que “Mumbai” provou ter aquilo de que Nova Iorque tanto se orgulhou após o colapso das Torres Gémeas. Aquilo a que se poderia chamar de espírito de uma megalópole global, tenaz e resistente.

(...) Para quem conhece a identidade de Bombaim e o estilo de vida dos seus cerca de quinze milhões de habitantes, não há nada a estranhar. A cidade tem um espírito tão dinâmico que pouco ou nada a consegue travar. Bombaim, talvez pela sua própria localização costeira, sempre foi uma cidade aberta ao mundo; um local de passagem, de conquista e de comércio para árabes, portugueses e ingleses. Bombaim pode não ser um “melting pot” por excelência, mas é um local onde diversas maneiras de estar na vida foram interagindo e negociando compromissos. É hoje uma imensa amálgama cultural e religiosa que inclui artistas parses zoroastrianos, comerciantes guzerates muçulmanos, médicos maratas hindus, varredores de rua intocáveis convertidos ao budismo e advogados goeses católicos. A sua própria geografia faz com que os raros motins étnicos e religiosos não passem de uma excepção à regra: a península, historicamente criada a partir de sete ilhas, reforça o sentimento de coesão e não permite fugir à coexistência pacífica.

Excerto da coluna "Passagem para a Índia", do número de Setembro da Revista Atlântico

domingo, 10 de setembro de 2006

O mundo lusófono em curso em Deli

Dois anos depois, muitas propostas e projectos depois, materializa-se uma antiga ideia minha. No Sábado realizou-se a primeira de quinze sessões do curso livre "The Lusophone World: Social, Cultural and Political Aspects", na Universidade de Delhi, Faculty of Arts.

Coordenado pelo João Pedro Faustino (o leitor do Instituto Camões em Deli) e por mim, e apoiado pelo Department of Romance and Germanic Studies e pelo Centro de Língua, Instituto Camões-Goa, prolonga-se por quatro meses, até à cerimónia final em finais de Janeiro.

Com recursos mínimos pusemos em prática um projecto essencial para a diplomacia cultural (e não só) portuguesa por estas bandas. Um curso livre, em inglês (mas com elementos em português), sobre o mundo lusófono, com especial ênfase para a contemporaneidade. Moldado para estudantes, mas não só, interessados em conhecer mais desses oito países e centenas de comunidades lusófonas, num formato interactivo, com recursos audiovisuais e convidados.

Havendo tantos alunos da Delhi University e na minha Jawaharlal Nehru University a estudarem a língua portuguesa, presumimos que haveria interesse e resposta. Especialmente porque um outro objectivo é dar elementos e conhecimentos que os alunos depois poderão aplicar como mais-valia na sua futura carreira profissional como tradutores, intérpretes, guias, administrativos de embaixadas, etc.

Sábado de manhã, na primeira sessão (em que eu abordei a temática "A chronological background: Portugal and its major historical moments – from Afonso Henriques to Cavaco Silva"), estavam, nada mais, nada menos, do que 60 e tal participantes. Todos desejosos por saberem mais sobre a lusofonia, sobre Portugal, sobre o Adamastor, sobre o Brasil, sobre Lula da Silva, sobre Moçambique, sobre Mia Couto, ou sobre Goa e Timor. O programa completo está aqui.

Imagens de Deli: Portugueses!

Dois anos depois, portugueses à vista. Eu já desconfiava, que nem Robinson Crusoe. Umas pegadas aqui e acolá. Um burburinho. Um pressentimento. E hoje confirmou-se. I am not the only one. Liga-me a Chanchal, aluna de português na Universidade de Deli, a avisar que se ia encontrar com "mais dois portugueses" e que eu estava convidado. Com uma hora e meia de atraso, lá chegaram os dois conterrâneos (tinham-se enganado no centro comercial).

Miguel Costa, que trabalha na Evalueserve, na área da análise económica e de gestão. É licenciado em Economia pela Universidade do Porto e está cá por um ano. Sónia Évora, que veio num estágio da AIESEC mas foi ficando, dando aulas de cultura portuguesa (pôs, numa escola, miúdos a dançar o malhão) e servindo como voluntária numa ONG. Licenciou-se na "minha" Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (UNL) e chegou a especializar-se no "meu" curso de Relações Internacionais. Chegamos a tirar as mesmas cadeira e a partilhar alguns amigos, mas foi necessário virmos a Deli para travarmos conhecimento pessoal!

Os dois vivem em Gurgaon, a nova cidade-subúrbio a 30 km de Deli. A conversa estendeu-se por quase duas horas. Foi verdadeiramente bom partilhar experiências e conhecimentos. A Sónia volta no fim do mês a Portugal mas tanto que se integrou e apaixonou pela Índia que promete ("Eu sei que sim") voltar em breve. E parece que há um terceiro português, Vasco, a trabalhar para a IBM, igualmente em Gurgaon. Ficou, claro, combinado muita coisa para os próximos tempos (embora o Miguel seja "tripeiro" e portanto não será autorizado a integrar o Núcleo Benfiquista de Deli a que presido, de que sou fundador e actualmente sócio único - depois da saída co Chacate que liderava a subsecção moçambicana).

Finalmente, portugueses à vista em Deli. Sinal dos tempos?

India's new regional policy

Muito significativas, as afirmaçoes do Foreign Secretary Shyam Saran, numa palestra no Indian Council of World Affairs. Reflectem toda uma nova visão indiana para a região e uma grande mudança paradigmática, mais madura e estratégica. De "bully" a "patrono". Da força militar às "confidence-building measures" e à integração económica. O abandono do "tit-for-tat" e da condição da reciprocidade. É uma Índia generosa, regionalista e descentralizada que emerge na Ásia do Sul. Uma Índia que percebeu que, perante as manobras chinesas na vizinhança, só lhe resta o mesmo caminho: conquistar a região com muitos incentivos e mimos.

Em termos diplomáticos, académicos e na sociedade civil esta corrente de pensamento (a de "amaciar" as fronteiras e de integrar a região da Ásia do Sul) não é tão nova assim, no entanto. Está bem presente em alguns (minoritários) discursos diplomáticos mais recentes, de que Saran parece ser oriundo, está fortemente estabelecida na imprensa de referência, por via da revista Himal (Catmandu), e, no terreno, sempre foi uma realidade, como o próprio Saran admite, quando diz que se está ainda longe de reactivar os laços íntimos que ligavam as regiões fronteiriças indo-paquistanesas ou sino-indianas etc. antes de 1947. Para quem visita essas regiões, especialmente nos Himalaias, é muito óbvio que aquelas pessoas, aquela cultura e aquela economia estavam tradicionalmente muito mais ligada a Lhasa e ao Tibete do que a Deli, Calcutá e à Índia Britânica.

Mr. Saran said the treatment of the country's periphery as somehow less important than its heartland was a "relic of the past." Borders, he said, were connectors and that was why the government in recent years had made a conscious attempt to treat the country's border regions as integral to its foreign policy. "The sobering reality is that despite the initiatives of the past few years with Pakistan, Bangladesh, China, Myanmar and others, we have not even been able to get back to the connectivity which existed in South Asia before 1947," he noted.

sábado, 9 de setembro de 2006

Eu já suspeitava

No último dia de palestras no Indian Institute of Managment, Bangalore (IIMB), os quarenta e tal estudantes de MBA da AESE (Escola de Direcção e Negócios, Lisboa) de visita à Índia, levaram com uma terapia de choque inédita e extremamente valiosa. Recebidos com imensa hospitalidade e profissionalismo numa das instituições de educação de elite, guiados pela cidade que é conhecida como o "Silicon Valley indiano", mimados com palavras bonitas e afirmações moderadas, de repente, do nada, emergiu uma opinião que - já suspeitava eu - está bem enraizada na psique indiana.

Um dos MBAs pergunta a um dos professores quais seriam, na opinião dele, as medidas mais adequadas para as empresas portuguesas e europeias responderem à ofensiva da internacionalização das empresas indianas e à fuga de empregos para a Índia. Responde o académico, num perfeito inglês e sem margem para dúvidas:

"We have absolutely no sympathy for you, because you have been doing this to us for 300 years. We are playing by the exact same rules you taught us and imposed on us".

Se os estudantes e jovens profissionais portugueses tiraram uma única lição da sua vinda à Índia, é esta: há muita confiança e bastante rancor.

Servidores e bloggers

Isto, desde os atentados de Bombaim, está pior e pior. Agora também me afectou a mim. Sabe-se lá porquê, mas os gatunos cibernéticos aqui do bairro (que detêm o monopólio do serviço para esta parte da cidade) mudaram-me para outro servidor. E, de repente, deixei de poder aceder aos sites blogspot.com e de enviar mensagens via Outlook. Depois de umas investigações em sites de "nerds" descobri que, por ordem do Governo indiano, vários portais de bloggers e mesmo o Yahoogroups foram parcialmente interditos em solo indiano. Para voltar a relatar-vos a vida em Deli, imaginam certamente a dor de cabeça que foi reverter o processo e voltar ao servidor antigo. Felizmente, tudo correu bem, e cá estou eu, com mais ou menos atentados.

domingo, 3 de setembro de 2006

Imagens de Deli: Jama Masjid

A mesquita central de Deli, a Jama Masjid, domina a Velha Deli e os seus animados bazaars. É a maior mesquita na Índia e provavelmente uma das maiores fora do Médio Oriente. Na fotografia, tirada do cimo de uns dos seus dois minaretes, vê-se, ao fundo, o imponente Forte Vermelho (Lal Quila). É do seu Portão Lahore (no extremo esquerdo da fotografia) que Jawaharlal Nehru declarou a independência da Índia à meia-noite do dia 15 de Agosto de 1947, enquanto que hindus e muçulmanos se cruzavam e chacinavam ao longo da nova fronteira indo-paquistanesa. É do Lahore Gate que discursa, todos os anos, o primeiro-ministro da Índia, durante as comemorações do Dia da Independência (Independence Day).

Portugal em Bangalore

Estou de volta à Índia. Acabei de aterrar ontem à noite m Deli, vindo de ... Bangalore! Não. Bangalore ainda não se tornou num verdadeiro Silicon Valley e em mais uma "Goa", ou seja, uma ilha quase estrangeira em solo indiano.

Estive em Bangalore, no Indian Institute of Managment, a acompanhar a visita do grupo de estudantes do MBA Executivo da AESE, Escola de Direcção e Negócios, Lisboa. 40 e tal portugueses numa autêntica redescoberta da Índia, tanto perante os professores de gestão indianos no anfiteatro, bem como perante os mendigos e pedintes na rua. Um excelente porgrama de uma semana coordenado pelo Prof. Viassa Monteiro (como sempre, um goês a fazer a ponte entre Ocidente e Oriente), com oradores muito reputados e visitas a empresas e indústrias de grande relevância para o futuro da economia... portuguesa.

Acima de tudo, os participantes trouxeram consigo um pouco de Portugal. Para bem e para mal, mas soube-me bem beber um pouco de Portugal em Bangalore. Em especial, em conversas e observações, permitiu-me olhar de novo para a Índia com a mente virgem e pura, como se fosse a minha primeira vez também.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Imagens de Deli: Mosteiro de Ki (Spiti)


(Fotografia: João Reis Nunes)

Templo dos Vistos

A poucos quilómetros de Hiderabad, capital do estado de Andra Pradexe, encontra-se situado um dos mais belos exemplos da capacidade indiana de negociar, interpretar e assimilar as influências externas. Não é por acaso que a Índia apresenta-se como um dos objectos de estudo preferidos dos investigadores internacionais que se debruçam sobre a globalização.

O Templo Chilkur Balaji, dedicado a uma divindade local representando Vixnu, é popularmente conhecido como Templo dos Vistos ("Visa Temple"). É que, crê-se, abençoa os que se candidatam a vistos de trabalho para entrarem nos Estados Unidos. Sendo esse um dos objectivos mais preciosos na Índia contemporânea, o templo (arquitectonicamente muito pobre) atrai milhares de peregrinos de toda a Índia que aqui vêm orar e pedir que a divindade lhes conceda um visto de entrada. Chega a atrair mais de 100 mil pessoas numa semana.

Reza a tradição que, poucos dias antes da vital entrevista pessoal no consulado ou na embaixada norte-americana, os candidatos-devotos devem circundar (pradikshan) o templo e louvar a divindade entoando cânticos. Caso lhe seja concedido o visto (por Vixnu, claro), devem voltar e voltar a circundar o templo, nada mais, nada menos, do que 108 vezes.

Para quando um templo destes em Portugal? Talvez um Templo do Benfica tivesse mais sucesso. Afinal, quem é que precisa de vistos, e para quê?!

domingo, 27 de agosto de 2006

Sofisticação

Tudo começou quando, nas minhas leituras matinais, me deparei no Times of India com uma afirmação de um qualquer funcionário de uma multinacional do sector da aviação comercial. Comentando o episódio em que um avião da norte-americana Northwest Airlines interrompeu o seu percurso Amesterdão-Bombaim e foi escoltado de volta por caças F16 para a Holanda, por suposta ameaça terrorista, o sujeito diz que "isto são coisas que acontecem quando pessoas não-sofisticadas começam a voar".

Basicamente, o pessoal de bordo e os "marshalls" à paisana, avisaram o capitão que havia "sujeitos suspeitos muçulmanos" a trocarem de lugar sem autorização, a trocarem entre si sacos e telemóveis (um deles chegou a soar no momento de descolagem). Aqui está, portanto, a "não-sofisticação" que levou caças holandeses a descolar, um avião inteiro a dar meia-volta e doze indianos a serem detidos, revistados e interrogados. Entretanto, os "não-sofisticados" já chegaram à Índia e aos seus lares nos subúrbios de Bombaim, estando mais do que provado que são tão terroristas como Jesus Cristo. Afinal, onde é que está a sofisticação toda?

A história lembra-me um "cartoon" num jornal indiano. Aludindo ao facto de as novas companhias aéreas de custo reduzido estarem a revolucionar o sector de transportes na Índia e possibilitarem mais e mais pessoas a optar pela via aérea, vêem-se dois sujeitos sentados lado a lado num avião. O primeiro, um homem de classe alta, bem vestido, com pasta de negócios por debaixo do braço, confortavelmente instalado. O segundo, um homem de classe baixa, mal vestido, com a trouxa por cima do ombro, pouco à-vontade. Exclama o rico, do alto da sua suposta superioridade e cheio de escárnio : "Da próxima vez vou mas é de comboio!".

sábado, 26 de agosto de 2006

Imagens de Deli: Mosteiro de Kungri (Spiti)

Leituras indianas (1)

Já aqui tinha referido o sucesso literário do Mein Kampf por estas bandas. Na minha universidade não são poucas as cópias do livro de Adolfo que eu vi, naturalmente abertas numa página qualquer, numa esplanada ou num quarto de residência. Inquiridos sobre o porquê desta leitura, a maioria responde que se trata de um "clássico" e que, "muito bem escrito", dá "ideias claras e puras".

É verdade que não são necessariamente os jovens comunistas a lerem o livro. Entre os casos que observei, contam-se especialmente os jovens alistados no ABVP, a juventude partidária dos nacionalistas hindus do Bharatiya Janata Party, que formou governo entre 1999 e 2004. O que deixa adivinhar os motivos de interesse pelo livro alemão. Há uma tremenda tentação indiana de sucumbir ao autoritarismo e à disciplina totalitária.

A discussão sobre o perído de Emergência, em que Indira Gandhi governou o país com mão de ferro nos anos 70, é, alías, das mais apaixonadas. Fê-lo em nome da democracia, ou a custo da democracia? Fê-lo em nome da maioria, ou a custo da maioria? "Regenerou" ou "dilapidou" o património democrático indiano?

Confrontados com uma sociedade assente em pilares que negam toda e qualquer racionalidade de cunho moderno, há esta vontade de disciplinar o caos. O caos do tráfego rodoviário, mas também o caos das centenas de castas e subcastas, e o próprio caos cósmico hindu.

Quando começam a falhar os mecanismos tradicionais de ordenamento social (a religião, por exemplo), e quando se lhe junta o namoro com a doce opção da modernidade racional e formal (especialmente num campus universitário nehruviano), emergem alternativas radicais, como a proposta pelo nacional-socialismo.

Não é, portanto, a simples vontade de exterminar minorias ou homogenizar a sociedade que leva estes jovens a ler "A minha luta" com admiração. É mais do que isso: é a necessidade de procurarem métodos e fórmulas alternativas de reorganização da sua sociedade, ou civilização, afectada por uma turbulenta fase de transição. Não querem ser párias, escravos, órfãos ou mestiços. Querem continuar a ser "indianos".

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

A força do dinheiro

Anda tudo à procura de novos mercados e mais consumidores. A linguagem do dinheiro não conhece fronteiras. Faz homens e mulheres viajarem milhares de quilómetros e juntar as mãos, por exemplo.

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Imagens de Deli: De autocarro em Spiti

Alerta máximo

Mais duas ligações para duas peças radiofónicas para a RR produzidas nos últimos dias, sobre o alerta máximo que a Índia vive depois dos atentados de Bombaim, dos avisos dados pelos serviços de informação norte-americanos e dos planeados atentados transatlânticos de Londres. Um primeiro directo para o noticiário das oito da manhã no dia, no dia 11, e um segundo comentário, com um título um pouco estranho, no dia 13.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Papagaios independentes

É dos espectáculos mais deliciosos a que jamais assisti. Por tradiçao, em cada Dia da Independência, a 15 de Agosto, as crianças sobem aos telhados de Deli e lançam milhares de papagaios ao ar. Como que festejando a sua própria independência das paredes que normalmente as rodeiam.

Alguns papagaios são modestos, à medida da posse dos donos e feitos em casa, outros magníficos, comprados nas lojas da moda e em forma de Homem Aranha ou Homem Morcego que dão no Disney Channel. Os céus enchem-se de cores e de gritos e exclamações de alegria. Os mais malandros organizam concursos e competições: quem consegue alcançar as maiores alturas, fazer os movimentos mais complexos ou a velocidade mais estonteante.

Outros constroem autênticas máquinas: o fio é passado por cola e depois passado por estilhaços de vidro e munido de picos metálicos, tudo para cortar os fios dos outros papagaios e conquistar o monopólio das atenções. Obviamente, a consequência são batalhas aéreas impressionantes e... muitos papagaios moribundos, caídos nas ruas e nos telhados.

É esse dos momentos que eu mais aprecio: enquanto estou no quarto, a ler ou ao computador, e vejo um papagaio colorido a cair lentamente no meu terraço, sem dono, para o seu repouso final.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Estado de sítio

Hoje, 15 de Agosto, é Dia da Independência na Índia, celebrando a data em que o Reino Unido deixou de ter uma patada colonial no subcontinente. Mas o problema agora é outro. Mais do que nunca, especialmente depois de Bombaim, a Índia receia atentados terroristas. Sendo esta a sua capital, onde amanhã o seu primeiro-ministro discursará das muralhas do histórico Forte Vermelho, respira-se por todo o lado o estado de sítio. 10 000 polícias e paramilitares, baterias anti-áereas, controlos rodoviários, um pouco de tudo. Acho que vou ficar em casa.

Kabhi Alvida Naa Kehna

Mais uma super-produção de Bollywood, com tudo o que é estrela por estas bandas: Amitabh Bachchan (se a Índia tem uma face, é esta; ao meio, no cartaz), Shahrukh Khan ("o" herói indiano, primeiro a partir da esquerda), Rani Mukerji (a voz mais sensual, segunda), Preity Zinta (a ganhar peso perigosamente, primeira da direita), Abhishek Bachchan (filho do primeiro, ao lado).

Com a aliciante de ter sido quase integralmente filmado em Nova Iorque, explora de forma simples mas incisiva a vida de dois casais e uma história de amor extra-matrimonial. Kabhi Alvida Naa Kehna (Nunca Digas Adeus) vale em especial pela música, pela fotografia (Nova Iorque captada que nem Hollywood) e pela inovação (indiana) com que toca no delicado assunto das questões matrimoniais e da sexualidade. Tudo no meio de uma megalópole e de uma vida agitada e apressada em que as carreiras profissionais e as pressões económicas falam, por vezes, mais alto. Com algumas falhas (a cidade mais parece uma aldeia, de tantos encontros coincidentes nas avenidas), não deixará, no entanto, de entrar para a categoria dos clássicos.

domingo, 13 de agosto de 2006

Citações de Deli: Gurcharan Das

"The notable thing about India's rise is not that it is new, but that its path has been unique. Rather than adopting the classic Asian strategy -- exporting labor-intensive, low-priced manufactured goods to the West -- India has relied on its domestic market more than exports, consumption more than investment, services more than industry, and high-tech more than low-skilled manufacturing. This approach has meant that the Indian economy has been mostly insulated from global downturns, showing a degree of stability that is as impressive as the rate of its expansion."

Gurcharan Das, na Foreign Affairs Julho/Agosto (The Rise of India), no seu artigo "The India Model"

Imagens de Deli: Sarahan

Templo de Bhimakali, Sarahan. No estado de Himachal Pradesh, a meio dia de viagem da sua capital Shimla, situa-se na pequena localidade de Sarahan. Em madeira, e com vários séculos de idade, incorpora elementos tibetanos e budistas na arquitectura hindu dos Himalaias. Até o século XIX o templo testemunhava ainda sacrifícios humanos, mas hoje as cerimónias limitam-se a oferecer animais. Sarahan, no vale do imponente Rio Sutlej, é uma aldeia muito pacata, da qual é aliás originário o actual ministro-chefe do estado, do Partido do Congresso. Foi em tempos a capital do principado de Rampur Bushahr.

Desgaste total

O reinício de mais uma época da vida em Deli não poderia ser mais desgastante. Primeiro, "férias na Índia" nunca deixa de ser um eufemismo, a não ser se num daqueles luxuosos pacotes cheios de ar-condicionados, jeeps confortáveis, comida para ocidental e hotéis cinco estrelas. Ora, as minhas "férias na Índia" foram exactamente o contrário, incluindo deliciosas descobertas e aprendizagens, mas igualmente tremendo desgaste em termos de saúde.

Voltado a Deli, sou vítima de um vírus gripal que anda a dar as voltas pela cidade. Dois dia de cama, o que já nem foi mau, tendo em conta os estragos mas prolongados e profundos que fez em outros.

Vítima laboral também. Como se não tivesse bastado o desgaste da cobertura dos atentados de Bombaim, agora com o dia da independência a ser celebrado a 15 de Agosto, está todo o mundo com os olhos postos na Índia, incluindo os meus editores portugueses. Sem falar do trabalho de investigação e da escrita de outros textos mais elaborados para outras publicações.

Vítima da sede energética indiana. Pior do que nunca. Todos os dias, não chegam os dedos de uma mão para contar os cortes de energia. O pior é no meio da noite. Logo que as ventoínhas deixam de funcionar, chegam as brigadas de mosquitos e perco considerável quantidade do meu precioso sangue luso.

Nada de mais. Simplesmente, a continuação da vida em Deli.

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Passagem para a Índia nº 6

O MITO DO PACIFISMO
Constantino Xavier em Nova Deli

A Índia pacifista é um dos mitos mais bem expandidos no imaginário de certa intelectualidade ocidental: uma Índia onde impera a espiritualidade e onde a violência prima pela ausência nas relações sociais e políticas. É como se os raquíticos corpos dos indianos os impedissem de travar qualquer confrontação física, obrigando-os sempre a procurar soluções pacíficas.

Mas, na realidade, a Índia é tão pacifista como Átila, o huno. A própria mitologia hindu representa-o bem: no épico “Ramayana”, composto há mais de dois mil anos, o virtuoso príncipe Rama, acompanhado de um exército de macacos, enfrenta o demónio Ravana, que com as suas dez cabeças e dez armas mantém refém a princesa Sita. Em 24 000 versos, sucedem-se gigantescas batalhas e duelos marciais. Outro exemplo tenebroso é o da deusa guerreira Kali, que é representada com uma espada e um colar de 51 cabeças humanas ensanguentadas.

(...) Em certos círculos românticos, sucumbiu-se à tentação de construir uma Índia pacifista e moralmente sã, onde a violência, como que por milagre, não tem lugar. É o “wishful thinking” posto em prática. É que, justamente, esta imagem nasce nas primeiras décadas do século XX, quando a Europa foi atravessada pelas guerras mais violentas de sempre. Um Gandhi e uma imensa Índia pacifista vinham mesmo a calhar para expurgar os supostos males ocidentais.

Excertos da coluna na p. 44, do número de Agosto da Revista Atlântico

Atentados e afins (no Expresso Online e na RR)

No post anterior, está o artigo publicado na edição impressa do Expresso a 15 de Julho, sobre os atentados de Bombaim. Mas como o assunto chegou ao topo de actualidade internacional, mesmo em Portugal, teve destaque também no Expresso Online.

Um primeiro artigo meu foi publicado logo no próprio dia dos atentados, e depois, no Sábado seguinte, publicada no mesmo espaço uma entrevista na íntegra com B. Raman, ex-operacional dos Serviços de Informação Externa da Índia (RAW) e que dirigiu a sua divisão antiterrorista entre 1988 e 1994. É uma entrevista muito densa, mas que recomendo vivamente, porque se trata de um "insider" com opiniões que só raramente passam para o exterior.

Produzi também uma peça radiofónica para a Rádio Renascença, mas não encontro agora a ligação respectiva para ouvir on-line. Foram assim, os atentados de Bombaim, vistos de Deli, que me custaram inclusivemente uma viagem de três dias de férias a Agra e Gwalior.

Nova frente de guerra (Expresso)

Expresso, Internacional, 15 de Julho de 2006

Índia na rota do terrorismo pan-islâmico

OS BREVES 11 minutos em que, na passada terça-feira, deflagraram oito bombas em sete comboios em Bombaim representaram a abertura de uma nova frente do terrorismo internacional: a Índia.

Acusada pelo Paquistão e grupos separatistas caxemires de manter parte da região de Jamu e Caxemira (de maioria muçulmana) sob ocupação militar desde 1947, a Índia não tinha porém sido vítima de um atentado terrorista de maior envergadura com a marca do extremismo pan-islâmico.

Mas tudo mudou nesta semana. As suspeitas recaíram de imediato sobre o Lashkar-e-Taiba (LeT), um grupo terrorista sediado na Caxemira paquistanesa, e sobre o Movimento dos Estudantes Islâmicos da Índia (SIMI) (ver caixa). Mas a natureza específica dos atentados de Bombaim trouxe à memória Madrid e Londres e parece ter o cunho da Al-Qaeda: durante a hora de ponta, num sistema ferroviário suburbano que transporta diariamente mais de seis milhões de pessoas e tudo de forma quase simultânea.

É essa a opinião defendida por B. Raman, ex-operacional dos Serviços de Informação Externa da Índia (RAW) e que dirigiu a sua divisão antiterrorista entre 1988 e 1994. «Tendo em conta o planeamento, a execução e a sofisticação dos atentados, é impossível ignorar a mão da Al-Qaeda», disse ao EXPRESSO. «Tudo parece indicar que os atentados foram planeados sob sua orientação e inspiração, enquanto o LeT e o SIMI ofereceram os militantes para a operação no terreno».

Para Raman, abre-se uma nova era na luta contra o terrorismo internacional: «Devido ao conflito na Caxemira, a Índia passou a ser um dos alvos da ‘jihad’ global. Estes atentados são só o começo».

Neste sentido, as referências à Índia nas mensagens da Al-Qaeda difundidas semanas depois da visita de George Bush a Nova Deli poderão ter servido de aviso. Osama bin Laden ameaçava então a «nova aliança entre cruzados, sionistas e hindus».

Expansão radical.

Embora seja o país com a maior minoria muçulmana no mundo (cerca de 150 milhões de pessoas), a Índia sempre sublinhou o facto de, até à data, nunca ter havido cidadãos seus nas listas de operacionais da Al-Qaeda. Mas os atentados de Bombaim indicam o contrário e espelham a crescente expansão do extremismo islâmico na sua própria sociedade.

Ainda segundo Raman, algumas franjas da minoria muçulmana têm vindo a radicalizar-se. «Desde os atentados em Nova Iorque, Madrid e Londres que os militantes paquistaneses da Al-Qaeda têm estado sob controlo constante dos serviços de segurança ocidentais. É por isso que os muçulmanos da Índia oferecem agora uma excelente base de recrutamento», afirmou.

Está ainda por contabilizar o número exacto de vítimas mortais (mais de 200, até agora). Mas a oposição dos nacionalistas hindus do Baharatiya Janata Party já acusou o Governo, liderado pelo Partido do Congresso, de criar um «ambiente propício à expansão e promoção do terrorismo no país inteiro». A oposição exige do primeiro-ministro uma «resposta firme», especialmente no plano externo, em relação ao Paquistão, cujos serviços secretos acusa de financiar e treinar os terroristas islâmicos.

Uma nova subida de tensão entre os dois rivais nucleares da Ásia do Sul não é, no entanto, do interesse de Nova Deli, que quer garantir a estabilidade interna e o crescimento económico.
Mas a mensagem telefónica de apoio que o primeiro-ministro Manmohan Singh recebeu, na quinta-feira, de George Bush, foi ouvida com grande agrado na capital, dado que a Índia acusa a comunidade internacional, há já vários anos, de ignorar o seu estatuto de «vítima do terrorismo».

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli


Principais suspeitos

LASKAR-E-TOIBA
É o principal grupo suspeito, embora tenha recusado qualquer envolvimento logo no próprio dia dos atentados, considerando-os «desumanos». A Índia acusa a organização de ter executado a maioria dos atentados bombistas no seu país e de operar com o conhecimento e equipamento dos serviços secretos paquistaneses (ISI). Foi inicialmente activo no Afeganistão, onde contou com o apoio norte-americano na luta contra a ocupação soviética. Veio a estabelecer-se depois no Paquistão, com um quartel-general perto de Lahore, onde Osama bin Laden era, até recentemente, presença frequente. Nos últimos anos, tem procurado internacionalizar-se, em estreita colaboração com a Al-Qaeda. Opera dezenas de campos de treino na Caxemira paquistanesa e movimenta-se facilmente na parte indiana.

MOVIMENTO DOS ESTUDANTES ISLÂMICOS DA ÍNDIA
Com várias centenas de militantes, é o principal grupo extremista islâmico fora da Caxemira. Tem a sua base principal de apoio no Estado do Utar Pradexe, no norte, onde tem estado envolvido em diversos atentados a comboios. Desde que foi interdito pelo Supremo Tribunal de Nova Deli, em 2001, expandiu a sua base de apoio para sul, especialmente para o Estado de Maharastra (de que Bombaim é capital) e para o Estado do Qerala. Alguns dos seus operacionais foram treinados em campos do grupo terrorista Harkat-ul-Jihad-i-Islami (igualmente próximo da Al-Qaeda), implicado na série de 400 atentados bombistas que assolaram o Bangladesh em Agosto de 2005.

REDES CRIMINOSAS
Com 16 milhões de habitantes e diversas minorias étnicas e religiosas (principalmente muçulmana), Bombaim alberga poderosas redes criminosas de tráfego de armas, estupefacientes e pessoas, que mantêm relações estreitas com os poderes políticos. Algumas, de orientação religiosa, servem de bases de apoio aos terroristas caxemires e estiveram alegadamente implicadas nos violentos atentados bombistas de 1993, pelos quais Abu Salem (extraditado de Portugal em 2005) é agora acusado. Uma das maiores redes era então liderada por Dawood Ibrahim, o criminoso mais procurado da Índia, actualmente refugiado no vizinho Paquistão.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Imagens de Deli: Adeus

Quatro semanas de maravilhosa, cansativa, decadente, impressionante Índia. Adeus João e Raquel. Obrigado pela visita e companhia. Deixaram-me com belas memórias... e uma gripe tramada! Para os restantes leitores, as fotos seguem dentro de momentos.

terça-feira, 8 de agosto de 2006

De volta

Depois de umas valentes semanas nos Himalaias e no Utar Pradexe, à beira do Ganges, cá estou eu de volta à vida em Deli, por mais dois anos.

domingo, 2 de julho de 2006

Mais uma Passagem para a Índia

ABERTURA
Constantino Xavier em Nova Deli

"No actual momento da globalização, fechar-se sobre si próprio é reduzir-se à insignificância. Em concreto, recusar a abertura ao Oriente significa virar as costas à realidade. Ora, neste contexto, Portugal tem estado a enredar-se em fantasias. Basta abrir os jornais portugueses, cheios de notícias sobre golpes de Estado africanos e fantochadas latino-americanas – se é que se dá atenção ao que se passa “lá fora”. Como que por encantamento, a Índia deixou de existir. Nos corredores governamentais portugueses, o país de Gandhi equivale a uma imensa mancha negra, e, nas carreiras diplomáticas, constitui um verdadeiro “desterro”. Só vai para lá quem quer – e quase ninguém quer. Até finais do ano passado, a embaixada portuguesa em Nova Deli estava entregue a dois diplomatas e um conselheiro cultural. Três pessoas num país de um bilião. Já vão longe os tempos daquela famosa visita presidencial que se saldou num passeio de elefante, em lágrimas de crocodilo e em muitos sacos de compras. E, ao contrário do que muitos possam pensar, Nova Deli tem mais que fazer do que estar à espera de um novo Vasco da Gama. Só se ele se chamasse Bush e chegasse num Boeing."

Excerto da coluna na p. 42, do número de Julho da Revista Atlântico

Gorjeta indiana

Quando levei três professores indianos a comer os Pastéis de Belém ali ao Restelo não adivinhava o impacto que estaria a produzir. A visita fez mais pela renovação da imagem da Índia em Portugal do que dez blogs como este meu. Depois de vir a conta de 3,70 Euros, os homens, tão encantados com o nosso país e o dia passado a visitar Lisboa, deixaram uma gorjeta de 4,30 Euros. Ao saírmos de lá, olhei para os oito Euros na mesa e depois para o empregado estupefacto, e, em jeito de explicação, deixei escapar um incompreensível: "Olhe, é uma gorjeta indiana". O bom homem ficou a olhar para mim ainda mais incrédulo.

domingo, 25 de junho de 2006

Blog Atlântico

De há umas semanas para cá, embora irregularmente, eu também passei a escrever no blog da Revista Atlântico em http://revista-atlantico.blogspot.com. Ideal para os que já estão entediados com as minhas indianices e orientalices. E um teste às minhas capacidades de escrever sobre coisas diferentes. Isto é, normais.

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Repartida

Abalo dia 10 de madrugada, via Amesterdão. Hipótese 1: No dia 9, Portugal ganha a final e, ao embarcar pelas duas da manhã, enquanto que as massas esperam lá fora, cruzo-me com os novos campeões europeus, de chegada de Berlim. Hipótese 2: A Holanda ganha a final e passo uma manhã inteira em Amesterdão, à espera da ligação para Deli, rodeado de laranjinhas eufóricos e bêbados. Não aceito nenhuma outra hipótese. Mas prefiro a primeira.

Confirma-se: She's in fashion

"Once proudly socialist and nonaligned, India is being remade as a roaring capitalist success story and emerging strategic partner of the United States. Economic reforms have raised per capita GDP and lowered poverty rates, while New Delhi's growing self-confidence may help it become the swing state in the global balance of power. In this special lead package, therefore, Foreign Affairs has brought together four top experts to analyze the sources and implications of India's rise — and the policies necessary for it to continue."

Editor's note sobre a edição Julho/Agosto da revista Foreign Affairs: "The Rise of India"

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Redescoberta: Nova Deli

Começo pelo óbvio. Não é nada complicado. Que eu saiba, na língua portuguesa um “lh” soa bastante diferente do “lh” em inglês. O “h” está portanto a mais. Basta Deli. Sem acentos (“Déli”), porque ortograficamente desnecessário. Mas, caso quiséssemos ser fiéis à pronúncia local indostânica, teria que ser “Dili”, tal e qual a capital timorense, mas sem acento. A imprensa indiana em caracteres romanos escreve aliás “Dilli”.

Claro que há os chicos espertos portugueses que gostam de misturar, como os miúdos na escola nas perguntas de resposta múltipla. Assim talvez só errem cinquenta por cento: “Nova Delhi” ou “Nova Délhi”. É por isso pouco surpreendente que a invenção provoque uma pronúncia híbrida ímpar no mundo inteiro: os leitores lêem o “lh” como em “filho” e fica uma “Nova Delhi” muito estranha. E, já agora, porquê “Nova”? Porque é diferente de “Velha”. Há uma Deli antiga, a Norte, e uma Deli Nova, mais a Sul, construída de raiz pelos britânicos.

Tal como os franceses, alemães e ingleses (“Nouvelle Delhi”, “Neu Delhi” e “New Delhi”, respectivamente) também temos o direito de traduzir para “Nova”, porque Deli é afinal feminina, embora não seja a melhor megalópolis para mulheres andarem na rua, especialmente de noite. Vamos lá repetir, todos juntos: Nooova Deeeli.

Imagens de Deli: À espera



Em frente a uma sala de cinema, numa rua de Velha Deli, um homem espera por algo ou por alguém.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Está mesmo na moda

"Even if you've never been to India, eaten its food or watched its movies, there is a good chance you interact with it every day of your life. It might be the place on the other end of that call you call you make if your luggage is lost on a connecting flight, or the guys to whom your company has outsourced its data processing. Every night, young radiologists in Bangalore read CT scans e-mailed to them by emergency-room doctors in the U.S. Few Americans are surprised today to learn that their dentist or lawyer is of Indian origin, and the centrality of Indian brainpower to California's high-tech industry has long been documented. (...) We're all about to discover: that elephant can dance. "

Time, 26 de Junho 2006

domingo, 18 de junho de 2006

Where is India?

Num jornal da noite televisivo, uma pequena peça reporta sobre a 6ª edição da Festa da Diversidade, no meio do Martim Moniz. Obviamente uma festa com fortes orientações políticas à esquerda (basta olhar para os oradores dos dois debates agendados).

Mas com o seu interesse, afinal marcando desta vez o mesmo espaço que já tanto é conotado com a extrema-direita com uns toques cosmopolitas e simpáticos. Ainda bem. Participam (até amanhã) dezenas de associações, clubes, restaurantes etc., um pouco de tudo que a Lisboa global e multicultural nos apresenta hoje em dia. No programa oficial vejo referências à Guiné Bissau, à Moldávia, à Galiza, a Moçambique, a Cuba (claro) e mesmo à associação dos filipinos residentes em Lisboa, para além de um curioso "Colectivo Kilimandjaro".

E a Índia ausente! Nem uma associação, nem uns siques para dar cores com turbante e barba ou uns goeses para dar uns passos de dança? Nem uma barraquinha com umas chamuças? Desculpem lá, mas uma "festa da diversidade" em pleno Martim Moniz sem indianos, é como... arroz sem caril a acompanhar.

Citações de Deli: Fernando Madrinha

"Cada um dos dois gigantes que estão agora a despertar na Ásia é uma potência com condições para rivalizar com o conjunto europeu e para o suplantar, a prazo. (...)O crescimento económico galopante de dois países que, juntos, reúnem mais de 2,4 mil milhões de seres humanos - quase um terço dos seis mil milhões que existem sobre a Terra - vai impor uma redefinação dos centros de poder e dos equilíbrios geoestratégicos. Progressivamente, o despertar da China e da Índia arrastará o crescimento de toda a Ásia."

Fernando Madrinha, editorial, Courrier Internacional (edição portuguesa), nº 56, 28 de Abril 2006: "Nova ordem mundial: China e Índia, os gigantes do futuro"

segunda-feira, 12 de junho de 2006

A Índia e a União Europeia

Realiza-se nos próximos dias 26 e 27 de Junho um "Encontro da Arrábida" intitulado "A Índia e a União Europeia". É uma organizaçãção conjunta da Fundação Oriente e do Instituto Português de Relações Internacionais (Universidade Nova de Lisboa) e conta com a coordenação do Prof. José Esteves Pereira, à frente do "outrora meu" Departamento de Estudos Políticos na FCSH.

A realizar-se no Convento da Arrábida, contará também com a intervenção do meu director de departamento na Jawaharlal Nehru University em Nova Deli, o Prof. Varun Sahni, que tratará o tema do terceiro painel "O futuro das relações entre a União Europeia e a Índia", ao lado do Prof. Carlos Gaspar e do Prof. Jean-Luc Racine (CERI, Paris).

Caberá a mim intervir no primeiro painel ("A emergência da Índia como grande potência"), logo na Segunda-feira à tarde. No mesmo painel intervirão também o Embaixador Joaquim Ferreira Marques, de Nova Deli, o Dr. José Manuel Felix Ribeiro, Subdirector-geral do Departamento de Prospectiva e Planeamento, e um dos maiores teóricos sobre a emergência indiana, o Prof. T. V. Paul (McGill University, Canadá). Pelo meio, o segundo painel irá tratar mais especificamente as relações económicas entre a União Europeia e a Índia.

Para ver o programa completo e aceder ao formulário de inscrição:
http://www.foriente.pt/pt/encontros/en2006_04_prog.asp

Há-de voar

Capa da última edição (3 de Junho) da Economist. Ainda bem que há quem a assine em Portugal. É por esta e por outras vias que os ventos orientais também chegam a Portugal.

domingo, 11 de junho de 2006

Swagatam

Ainda nem sabia eu ligar o rádio da cozinha, porque não chegava ao botão respectivo, e já os sons indianos da Rádio Orbital me acompanhavam todos os Domingos de manhã. E continua. O programa "Swagatam" é emitido em 101.9 FM, todos os Domingos de manhã, entre as 10:00 e às 14:00, procurando "divulgar a música e cultura indiana", segundo a voz do amável locutor, que parece não ter mudado em vinte anos.

"Swagatam" (que significa "bem-vindo" em hindi) é uma ilha de paz na rádio portuguesa. Especialmente por emitir num espaço como o da Rádio Orbital, conhecida pelo seu carácter suburbano e techno reles. Assim, o programa aparece tão rapidamente como desaparece. Num minuto ainda se ouvem as batidas e os zumbidos esquizofrénicos do Crazy Frog, para, subitamente, nos envolverem as equilibradas e suaves melodias e vozes indostânicas.

Pessoalmente, tenho mais um contraste gravado na memória. Os Domingos de manhã eram dias em que a família acordava em conjunto, sem a correria dos dias da semana. Éramos cinco. Enquanto a minha mãe fazia umas apas à moda goesa que nós pouco depois deglutíamos com manteiga e açúcar, o meu pai fazia esforços para nos retirar da cama e nos vestirmos para a missa. Todo esse processo, incluindo os quinze minutos de viagem de carro para a Basílica de Mafra, pelas desertas estradas bucólicas e saloias, fazia-se ao som de "Swagatam", como que as melodias orientais procurando dar-nos algum norte histórico, alguma razão existencial.

O programa é bilingue e cativa portanto gerações e públicos diferentes, dos mais velhos indianos que vivem encalusurados nas suas "Little Indias" periféricas sem falar mais do que dez palavras em português, aos mais novos indianos, que talvez ainda vão a conduzir, de volta de uma noitada em Lisboa nas discotecas da moda, acompanhados pela loura namorada portuguesa.

Mas a audiência é internacional também, porque se pode ouvir o programa em directo no site da Orbital. "Temos ouvintes por todo o mundo, nos Estados Unidos, na Inglaterra, em Angola, em Moçambique, em França etc. E recebemos agora um e-mail da Austrália do x, que nos diz que é nascido na Beira, mas que quer dedicar a música y a uma amiga em Lisboa". É assim, tão fácil assim, que pela voz de um locutor num estúdio qualquer num subúrbio qualquer, se galgam fronteiras e espaços e ideias.

Mas o que mais interessa é que no "Swagatam" se fundem não só sons, mas ideias e culturas também, de forma positiva. Bastante ao contrário da RDP África, de que sou um ouvinte regular e de que gosto muito, mas que, pese a sua natureza pública, tende a cair muitas vezes na ratoeira da auto-marginalização e da sectarização cultural. "Angola, chutá bola, vamos prá vitória!".

O melhor do "Swagatam" são os anúncios, lidos numa voz melodiosa pelo próprio locutor ou por uma assistente feminina. Um estilo radiofónico verdadeiramente arcaico, é certo, mas bastante atractivo, pessoal e eventualmente com bastante sucesso também entre a audiência-alvo. "Venha ao estabelecimento x, em Santo António dos Cavaleiros. Grande gama de produtos indianos, masala, gelados indianos, especiarias diversas. Encontra tudo à sua disposição. E agora às Segundas-feiras, venha encontrar legumes e hortaliças fresquíssimas vindas directamente da Índia só para si." E segue-se o endereço e o telefone.

Há ainda os engraçados concursos radiofónicos (patrocinadas, claro, pela Dan Cake e o seu magnata dono indiano), e pontuais chamadas dos ouvintes. Lembro-me que os olhos do meu pai brilhavam sempre que, talvez uma vez ao mês, eles punham uma música goesa, ou talvez marata, e sempre que algum goês ligava para lá, e sempre que o locutor falava umas palavras em concani... ou marata.

“As boas acções não carecem justificação, mas as más não passarão incólumes por Deus, que nos prestará conta por elas por muito muito tempo”, avisa o locutor, no seu "pensamento da semana". Repete numa língua vernacular indiana. Segue-se outra secção, das felicitações. Não antes de o locutor passar um desmentido.

No programa anterior alguém "fez uso da nossa boa vontade passando uma mensagem de noivado falsa, sob identidade falsa", afirma, e lembra que "nos quase 20 anos, milhares de dedicatórias com felicitações para noivados, aniversários, etc. sempre grátis, num serviço à comunidade no seu todo universal, nunca isto aconteceu".

"Não queremos pôr fim a este serviço. Façam uso positivo dele. Não o usem para fins maléficos, atentando ao bom nome de famílias honestas", apela e explica que "passámos este desmentido a pedido do pai da jovem que manifestou indignação perante esta falsa e ignóbil notícia do noivado”.

E voltam os sons indianos, antigos e modernos, do Norte e do Sul, preenchendo e ocupando o meu quarto. O meu pai chama-me. Desligo a rádio. Vou para a cozinha. Já cheira a apas.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Corte de cabelo saloio

Fui ontem à Venda do Pinheiro, ali à margem da EN8, cortar o cabelo. É que o Sr. Fernando aqui do Rogel, que abria o seu anexo aos Sábados de manhã para fazer a barba dos mais velhinhos e cortar o cabelo aos putos, por uns quantos mil reis (5 Euros), fechou. Deixou de haver velhinhos. E os putos querem cabelo como o Ronaldo.

Sou então obrigado a deslocar-me três quilómetros, à civilização que um dia também chegará ao Rogel. O barbeiro - ao qual, enquanto miúdo, ocasionalmente ia quando a minha mãe insistia num corte de cabelo urgente antes de qualquer ida à ópera, visita social ou viagem mais longa - claro que não me reconheceu.

Só depois de eu abrir a conversa com um "então agora os táxis já voltaram a ser como dantes, pretos?" é que ele notou que estava no processo de tosquiar um daqueles dois putos esquisitos, meio indianos, meio alemães ou lá o que é, que lhe costumavam aparecer por debaixo da tesoura há já mais de uma década.

"Tu és lá da Rogel, não é?", inquiriu. Depois de mais algumas perguntas curiosas ("então já acabaste a escola?"), veio então a questão mais complexa: "Atão andas a fazer o quê, agora". E eu, prenunciando a tragédia, limitei-me a um "estou na Índia, a estudar".

Parou de me degolar os cabelos, por um instante, e procurou, na reflexão do espelho, uma minha expressão facial ou olhar que o pudessem acudir. Continuou depois, em silêncio, o seu trabalho. Finalmente, como que impelido pelo seu instinto cabeleireiro, voltou à carga: "Mas as universidades lá são melhores, ou quê?".

Olhando para o monte de jornais tauromárquicos, hesitei por um instante. Mas o meu espírito maquiavélico deu-me logo uma solução. "Sim, são melhores", respondi com grande determinação e clareza, não deixando margem para dúvidas e terminando o assunto de conversa, para imenso alívio meu e dele. Passámos a falar de bola.

Imagens de Deli: Catmandu

Durbar Square, Catmandu, no Nepal. Complexo de templos hindus (a partir do séc. XI), num fim de tarde solarengo.

Série Redescoberta

Depois das Citações de Deli e das Imagens de Deli, inicio hoje uma nova série neste blog, intitulada de "Redescoberta".

Ao longo dos quase dois anos que já levo de jornalismo e de investigação na Índia, tenho-me deparado repetidamente com uma dificuldade muito singular. Trata-se de transcrever ou traduzir palavras, conceitos, títulos honríficos, mas, acima de tudo, nome de cidades, estados, regiões e países e demais realidades geográficas como rios, cordilheiras, planaltos etc para o português.

O processo é complicado. Tem uma dimensão ortográfica: como transcrever da oralidade indiana, ou do alfabeto devanagárico, as palavras para o português? Quais regras se devem seguir: Bangladeche ou Bangladexe? Certamente que Bangladesh, assim como frequentemente é utilizado, não. É esta a dimensão em que eu sou também mais fraco, e recorro frequentemente ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa ou a outros dicionários e pontuários. Os "K"s são aceites ou não? Basicamente: a geografia deve ou não ser refém da ortografia?

Mas há mais duas dimensões. Uma é histórica: muitos dos locais na Índia têm denominações portuguesas muito antigas, mas que foram caindo no desuso. Por exemplo, "Assão" e não "Assam" como se vê por aí. Caíram no desuso não por terem sido substituídas por novas denominações, mas simplesmente por puro desconhecimento e ignorância. Os jornalistas portugueses de hoje preferem retirar o "Assam" de forma incontestada da BBC Online, a concentrarem-se por um minuto e repescar na sua memória a designação original portuguesa para aquela região, que talvez até tenham lido num Fernão Mendes Pinto numa Secundária suburbana.

A dimensão mais complexa é a política. Muitas vezes, os nomes mudam, especialmente na Índia. De Bombay para Mumbai, de Calcutta para Kolkata e, em breve, de Bangalore para Bengaluru. Isto são acções políticas, muitas vezes pós-coloniais e revisionistas, às quais é preciso fazer face, cooptando a mudança, ou mantendo-se fiel à designação tradicional. Como é no português? Bombaim, Mumbai, Mumbay, Bombay?

Antes de mais, o que eu acho necessário é que haja um consenso. A lei do baldas que presentemente impera no jornalismo português referente a estas dimensões supra tem que acabar (o mesmo aplica-se a todas as outras regiões do mundo). Decidam que a partir de agora se passa a adoptar todas as designações inglesas, para impedir confusões e dabates e facilitar a integração global do jornalismo português. Acho que é uma argumentação muito pobre, mas pelo menos é aceitável porque clara e sustentada.

A questão aqui não é ser purista/conservador ou não. Isto não é uma questão de ortodoxia. É, simplesmente, uma questão de disciplina e de consenso e coooperação, logo de bom sentido. Ora bem: Bangladesh. Leiam "Bangladesh" tendo em conta as regras que aprenderam na escola. Não faz sentido, nem soa como deveria soar, por não? Aquele "sh" não serve de nada. É, pura e simplesmente, um anglicismo que não serve os seus propósitos. Porque, a valer, amanhã passo a escrever "Shina" ou "Chavesh" ou "Marrakesh".

Cá por mim, prefiro uma transcrição e adaptação de conceitos estrangeiros assente nas três dimensões: ser o mais fiel possível às regras de ortografia da língua portuguesa, procurar encontrar designações intrinsecamente portuguesas, mesmo que históricas e em desuso, e, finalmente, encontrar um ponto intermédio que respeite as re-designações políticas, mas não rompa com o passado, quando ele existe.

Por outro lado, este debate e estas dimensões todas são simplesmente fúteis e muito complexos. Como se diz, interessa é desbravar o caminho. O primeiro a fazê-lo escolhe o caminho e os outros não terão escolha a não ser seguir pelo mesmo. Ora, tendo em conta essa sabedoria popular, vou desbravar o caminho com esta série Redescoberta, explorando as complexidades de um jornalista e estudante na Índia, percorrendo debates à volta de transcrições de conceitos geográficos e outros da Índia, e apresentando a minha própria escolha (que vou aliás usando nos meus artigos jornalísticos e de investigação).

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Cabinet Meeting

47, nada mais, nada menos. A Índia é governada a partir de Nova Deli por 47 ministérios. Entre eles, o Ministério para os Assuntos Tribais, velando pelos interesses de cerca de 7% da população indiana que faz parte de centenas de tribos, especialmente concentrados nos sete estados enclavados no "Northeast", e no estado central de Jharkhand.

Há ainda o Ministério para as Fontes de Energia Não-Convencionais, o Ministério do Aço, o Ministério dos Químicos e Fertilizantes, ou o Ministério para as Indústrias de Processamento Alimentar. Querem mais? Ora levem lá com um Ministério das Minas, um Ministério para o Desenvolvimento do Oceano ou um Ministério para os Têxteis.

É muita burocracia, muito papel e, acima de tudo, muito pessoal. Logo, requer o Ministério para o Pessoal e as Reformas. E como os indianos estão espalhados pelos quatro cantos do mundo, inventaram há uns anos o Ministério para os Assuntos de Indianos Além-Mar. Aliás, não é caso raro os ministérios aparecerem e desaparecerem de noite para o dia, ou de dia para a noite. São talhados à imagem dos políticos que precisam de uma "pasta", à revelia de qualquer organização e estruturação racional, ou tendo em vista nada mais, nada menos, do que garantir novas fatias específicas do eleitorado (os vote banks).

O que eu gosto de imaginar, é o Conselho de Ministros (Cabinet Meeting), a 47. Aquilo deve ser bem mais animado e produtivo do que muitas sessões da nossa Assembleia da República em São Bento. E imaginar também qual será a próxima invenção ministerial. Talvez um Ministério para a Qualidade Global do Caril? Ou talvez um Ministério para a Dinastia Gandhi. Este, por certo, não seria dissolvido tão rapidamente assim.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Mil milhões não é pouca coisa

Nos debates sobre o futuro da energia, na TSF e no Diário de Notícias, um dos comentadores do primeiro tema (Combustíveis fósseis), lembra que, embora o seu consumo energético seja reduzido, "a China e a Índia têm metade da população mundial". Arredondar é fixe. Mas transformar um terço em metade, e com isso "inventar" mil milhões de chineses e indianos, é verdadeiramente fantástico.

Vamos lá conhecer, dominar e respeitar os factos e números. E debater só depois.

Contacto físico

Reparo que enquanto por lá o contacto faz parte e é reivindicado em qualquer relacionamento social, cá é repudiado. Na Índia, os jovens do mesmo sexo, andam nas ruas de mãos dadas e com os braços à volta dos ombros amigos. Nos quartos, os colegas universitários partilham as mesmas camas e por vezes dormem mesmo abraçados. Nos autocarros as pernas e os braços encostam-se à pele nua de outros passageiros, e é natural, ninguém se recolhe. Os pedintes tocam-nos insistentemente nos braços ou, ajoelhados, nos pés. Os vendedores puxam-nos pelo braço e pela anca para dentro das lojas. Nos estabelecimentos comerciais não há pequenos suportes plásticos para colocar o troco - as moedas são colocadas na mão do cliente.

Mas aqui as pessoas têm medo umas das outras. Tocar é um desafio, é o início da hostilidade. O contacto físico simboliza violência e um simples roçar de peças de vestuário numa rua mais movimentada basta para que se crie um ambiente conflituoso. O contacto físico é evitado a todo o custo. O contacto físico é privatizado e individualizado, logo sacralizado. E com isso morre toda uma essencial dimensão do espaço público, e da sociedade, em geral.

sábado, 3 de junho de 2006

Citações de Deli: Varun Sahni

"In the 1968 movie The Party, Peter Sellers plays an Indian actor who gatecrashes a Hollywood party and, once inside, causes merry mayhem. The apoplectic host, at a particularly precarious stage in the proceedings, turns to Sellers and asks in an outraged voice, 'Who do you think you are?'. The Sellers character responds, 'We Indians don't think who we are. We know who we are.'"

Varun Sahni, in "India's security challenges out to 2020", Strategy, Australian Strategic Policy Institute, December 2005.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

China e Índia

Na pouca cobertura que os dois países têm na imprensa portuguesa, e mesmo na internacional, aparecem sempre misteriosamente colados um ao outro. Nunca "Índia e China", sempre "China e Índia". Como se fossem gémeos siameses. E sempre acompanhados ou associados a um vocabulário repetitivo, com destaque para "emergência", "gigantes" ou "século asiático".

Por um lado, é bom sinal. Lentamente, os dois gigantes emergentes, China e Índia, começam a aparecer no panorama jornalístico português, mesmo que de forma tímida e pontuada. Por outro lado, é confrangedor e uma verdadeira desilusão. A conversa nada mais é do que um amontoado de clichés e conceitos supostamente "chave", que, a intervalos, são retirados das agências internacionais, mal digeridos por jornalistas mal preparados, e depois vomitados cá para fora, com uma pitada de ácido sensacionalista (a deslocalização, a indústria têxtil em crise, o domínio comercial dos chineses no Norte etc.).

É preciso operar os siameses, separá-los. A operação é arriscada, bem sei. Mas sem ela não vamos a lado nenhum. Mais vale um pássaro na mão, do que dois a voar. E continua tudo envolto em preconceitos ou em simples e pura e escura ignorância. É por aqui que se situa Portugal em relação ao Oriente.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Portugal, o Oriente e o Futuro

ENCONTRO DA PRIMAVERA
"A BEM DA NAÇÃO"

8 de Junho de 2006
20,30 horas

Restaurante "A PATEIRA DA TAPADA"
Tel: 213.622.001.
Tapada da Ajuda - Lisboa

O nosso convidado, Dr. Constantino Hermans Xavier, falará sobre
"Portugal e o Oriente na perspectiva do futuro"

Mais informações:
Henrique Salles da Fonseca - Tel: 213.909.939.; Tlm: 964.030.227.; e-mails: salles.fonseca@oninetspeed.com

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Terceira Passagem para a Índia

Excerto da minha terceira contribuição para a revista Atlântico. Crónica completa na edição em papel, hoje nas bancas e nas caixas de correio dos assinantes.

PASSAGEM PARA A ÍNDIA
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

NEO-ORIENTALISMO

Jonas não é só um jovem sueco que percorre as ruas de Jaisalmer,nas profundezas do deserto do Rajastão, entoando cânticos religiosos hindus. É também um símbolo do modo como os países ocidentais olham para a Índia, com um complexo de identidade

Pessoas como Jonas procuram a Índia como um refúgio - uma fuga da família, dos fiordes, mas também da democracia, da igualdade, da modernidade. Jonas vem à procura de uma Índia que
não existe para tentar escapar à sua própria existência. A mesma lógica reina nos movimentos alter-globalização e em certos círculos intelectuais ocidentais. Na sua óptica, o Oriente (ou o não-
Ocidente) representa tudo de bom, tudo o que falta ao Ocidente. A Índia, em particular, representa o genuíno, o autêntico e encarna os valores tradicionais e a espiritualidade. O contraste é tremendo com o Ocidente: este supostamente representa o materialismo, a artificialidade e a falsidade, e tudo o demais considerado negativo. (...) Se há três décadas Edward Said definia o Orientalismo como um instrumento legitimador do colonialismo europeu, hoje em dia, os neo-orientalistas ocidentais vêem-no como uma forma de auto-colonização.

terça-feira, 23 de maio de 2006

Chegada

Chego num Sábado à noite a Lisboa. Depois dos abraços e dos beijinhos, dez minutos depois a nossa viatura aproxima-se da Rotunda do Relógio. Ainda sem me ter consciencializado bem da chegada a Lisboa, observo a seguinte cena.

Um Mercedes dá um toque mínimo nas traseiras de um Polo. Deste, sai lançado um homem de meia idade, com cara cinzenta e ensombrada. Aproxima-se do Mercedes a passos largos, mas calmamente e decididamente. Tudo sem esboçar um som ou uma expressão facial que pudesse descortinar as suas intenções. Abre então a porta do Mercedes, senta-se no banco da frente, fecha a porta com um estrondo, e começa, a poucos centímetros da cara do condutor, aos berros, movimentando os seus punhos de forma ameaçadora. Do Polo, emerge uma senhora de meia-idade também, com um filho no colo e, também aos berros e soluços, pede para o marido voltar.

O sinal fica verde e arrancámos. Estava de volta. Mas, por um momento, hesito. É esta a Lisboa de que tive saudades? É este o Portugal que deixei, há dois anos? É esta a civilização e o tipo de sociedade que quero defender e a que me orgulho de pertencer? Um prenúncio, um símbolo, ou um acaso?

sábado, 20 de maio de 2006

Flughafen Muenchen

Um ano depois, volto para a Europa. Primeira impressao: limpeza, silencio, riqueza.

Um dos fenomenos que mais gosto de observar, em viagem, diz respeito ah tarnsformacao das atitudes dos viajantes e do ambiente, dependendo do local. Por exemplo, no local de partida, sao os nacionais do territorio local que falam mais alto, dominam os movimentos e as accoes, lideram a turba e marcam o ritmo e o ambiente. Ja depois do embarque, e com o decorrer do voo, a situacao transforma-se e comecam a ser os nacionais do pais de destino a ganhar a mao de cima. Eh a sua vez de comecar a falar mais alto, trocar experiencias (e queixas) sobre o pais que acabam de visitar etc. Ja ah chegada, os outrora lideres do pais de partida ficam reduzidos ao silencio e ah irrelevancia, perante os abracos, os risos de felicidade e o natural ah-vontade dos viajantes que chegam a casa. Observo isto especialmente nos voos entre a Europa e a India.

Oito horas separam-me ainda de Lisboa. Mas ja me sinto um pouco em casa. Onde quer que isso seja.