domingo, 18 de fevereiro de 2007

Uma nação de rosto corado (Expresso)

Quase que me ia esquecendo de partilhar aqui convosco esta minha peça que trata de uma temática sempre muito cativante para quem lida com a Índia. Uma temática que merece ser tratada em livros, mas que, por razões óbvias, fui obrigado a tratar num espaço muito limitado (em todos os sentidos).


Expresso, Internacional, 1785, 13 Janeiro 07


Uma nação de rosto corado

Centenas de esculturas eróticas pontuam os templos hindus de Khajuraho, símbolos de uma sensualidade entretanto esquecida e rotulada de anormalidade ocidental

No final de 2006, a Índia festejou efusivamente o segundo lugar alcançado por Santhi Soundarajan nos 800 metros femininos dos Jogos Asiáticos. Mas, quando poucos dias depois o Conselho Olímpico da Ásia anunciou a desqualificação da atleta, por esta ter falhado num teste médico que visava confirmar o seu sexo, o país inteiro reagiu com um profundo silêncio. Soundarajan foi, mesmo assim, condecorada pelo Governo do seu estado, recebendo um prémio de cerca de 25 mil euros. O facto de a medalha de prata já não estar na sua posse foi, simplesmente, ignorado.

O silêncio envergonhado compreende-se à luz dos estigmas que rodeiam a sexualidade na Índia. Longe vão os tempos do ‘Kama Sutra’, a obra em que o filósofo indiano Vatsyayana descreve centenas de práticas sexuais, ou o período em que foram construídos os templos hindus de Khajuraho, decorados com centenas de esculturas eróticas.

A Índia sensual, em que o amor era celebrado de forma divina, deu lugar a uma Índia em que a intimidade física, o desejo e o prazer são vistos como uma anormalidade importada do Ocidente. “Qualquer debate público sobre questões de sexualidade é imediatamente ridicularizado ou hostilizado”, lembra o jovem Partha Pratim Shil, fundador da associação para as questões sexuais - «Parwaaz» -, da Universidade Jawaharlal Nehru. “Vivemos asfixiados entre os partidos nacionalistas, que nos acusam de promovermos valores ocidentais e anti-indianos, e os partidos de esquerda, que nos acusam de exagerarmos um problema marginal e elitista”.

Polícias contra namorados

Todos os anos, no dia de São Valentim, saem às ruas não só namorados, mas também centenas de manifestantes nacionalistas hindus que acusam a celebração de ser um “insulto à cultura e ética indiana”. Não são raras as ocasiões em que polícias passam parques públicos a pente fino para agredirem e insultarem jovens casais partilhando momentos mais íntimos.

Já os milhões de espectadores da indústria cinematográfica de Bollywood só raramente assistem a um beijo na tela. Resultado do longo período de domínio islâmico no Norte da Índia, bem como do colonialismo britânico e dos seus valores vitorianos, este puritanismo social tem, contudo, elevados custos.

Estima-se que só um em 70 crimes de violação é denunciado às autoridades policiais. Dos acusados - nos raros casos em que as mulheres decidem enfrentar o estigma público de um processo judicial -, só 20% são condenados. A média de idade de matrimónio para as mulheres - pouco mais de 18 anos - reflecte o hábito de casar menores à força.


O elevado dote que os pais da noiva são obrigados a pagar ao noivo conduz à prática maciça de abortos e a que, em certas regiões, por cada mil crianças do sexo masculino, nasçam menos de 800 do sexo feminino. Em estados mais pobres, o preço de uma menor chega a ser três vezes inferior ao de um mero búfalo.

O estigma aplica-se também aos homossexuais. Embora a comunidade dos hijras, eunucos que assumem a identidade de uma divindade feminina, seja parte integrante do sistema hindu de castas há séculos, a homossexualidade é severamente punida como comportamento público. O próprio código penal mantém em vigor uma lei, datada de 1860, que criminaliza práticas sexuais ‘contra a ordem da natureza’.

A falta de educação sexual também tem provocado graves problemas de saúde pública. A Índia é o país do mundo com o maior número de infectados com o vírus da sida - mais de cinco milhões de pessoas - e quase 90% das transmissões dão-se pela via sexual.

Para Mahesh Nawal, dirigente da Associação Nacional de Sexologia, é tudo uma questão de sensibilização. “Mais de 70% dos problemas dos meus pacientes explicam-se com a falta de informação, fruto de inúmeros tabus e mitos que assolam a sociedade”, refere o médico. Entre os camionistas de longa distância reina, por exemplo, a crença de que a prática de relações sexuais com uma virgem serve de antídoto contra o vírus da sida.

Com as reformas económicas dos anos 90, e a rápida ocidentalização da sua sociedade, a Índia está contudo a passar por uma fase de grande mudança. O sucesso de revistas orientadas exclusivamente para públicos femininos ou masculinos, os novos hábitos de consumo e a emergente vida nocturna entre as gerações mais novas, especialmente nas metrópoles, têm ajudado a promover o debate.

Nawal alerta, no entanto, para o perigo de efeitos secundários: “As estrelas e modelos ocidentais que aparecem estilizadas nas revistas e na televisão passaram a servir de critério de comparação e isso tem graves consequências a nível psicológico”.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

Imagens de Deli

Notas soltas

Na revista Atlântico deste mês, para além da habitual Passagem para a Índia, há ainda duas Notas Soltas (A Atlântico em Deli I e II) deste correspondente.

Reality Check (Atlântico)

Excerto da minha crónica Passagem para a Índia, na revista Atlântico deste mês de Fevereiro, ainda nas bancas.

"Não há dúvida que algo se passa a Oriente e, no caso indiano, é impossível negar o relativo sucesso do seu sistema democrático ou negligenciar o seu crescimento económico e a sua ruidosa voz no panorama internacional. Mas ao abrirmos os olhos para a Índia, e para esse admirável mundo novo que, na realidade, tem idade para ser o nosso tataravô, convêm que o façamos de forma moderada. Sair da escuridão do armário para enfrentar a luminosidade do mundo, pré-, pós-, ante-, sub-, ou o que quer que ele seja, é um processo doloroso porque nos cega. A solução estará algures entre o defensivo oito dos conservadores do Restelo e o histérico oitenta dos catastrofistas que anunciam o fim do nosso mundo e o início de um novo, o dos Outros."

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Imagens de Deli: Músicos de casamento

Escritório de um grupo de músicos especializados na animação de festas de casamento e de outras festividades. O manequim veste a farda típica.

64 horas de comboio

Andava eu convencido que as 36 horas de comboio que fiz entre Goa e Jaipur, em 2002, eram um limite humanamente inultrapassável. Já sabia do famoso Himsagar Express que, uma vez por semana, demora quase 75 horas a cobrir a distância entre Jamu e Kanyakumari (Cabo Camorim), unindo a Índia de Norte a Sul. E até tenho planeado, por várias vezes, embarcar nele e escrever uma reportagem sem precedentes para a imprensa portuguesa. Mas não deixava de ser um sonho e um mito: só um louco se submeteria a tal experiência.

Foi com espanto, portanto, que um meu colega do curso da semana passada, me disse que ele tinha passado 64 horas no comboio, de Lucknow até Trivandrum. Mais impressionante ainda é o facto de ter embarcado novamente, cinco dias depois, no mesmo comboio, na direcção contrária. Tudo com a maior naturalidade possível, como se de uma curta viagem de metro se tratasse. Os comboios na Índia não se limitam a um meio de transporte epifenomenal. São um mundo em si, em que se vive viajando.

Chuva

Curioso e anormal: há dez dias que vai chovendo, de vez em quando, e as temperaturas voltaram a descer. Chuva em Deli é uma raridade, mesmo nas monções. Por isso, reina aqui um espírito de férias. Ainda por cima com o feriado e o fim-de-semana comprido de amanhã.

Aterrar em Trivandrum

Deveria ser "Aterrar em Thiruvananthapuram". É esse o nome oficial da cidade, depois de ter sido alvo de mais um revisionismo histórico. Aprendam, que é fácil: Thiruv-anantha-puram. Mas o que me interessa descrever aqui é a vista aquando da aterragem. O Kerala abraça-nos, ao primeiro encontro, com os seus imensos e verdejantes palmeirais, com um mar quente e azul e com altos e luxuosos minaretes, em memória dos petrodólares que continuam a chegar do Golfo.

Imagens de Deli: Carl

O meu primo Carl, de Goa, numa loja de roupa no INA Market.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

A/F

Os carros de diplomatas, aqui em Deli, costumam ter uma matrícula azul. As viaturas adquiridas recentemente ostentam só uns poucos dígitos e um misterioso "A/F". Durante dois anos, os meus amigos e conhecidos indianos explicavam-me que eram as iniciais para "Ask For". Isto é, o A/F intimidava as autoridades policiais a parar o condutor e a inquirir sobre o estado da viatura e o seu estatuto legal. Na verdade, disse-me recentemente um diplomata estrangeiro, A/F significa "Applied For". Às vezes a interpretação de duas simples letras reflecte toda uma subjectividade diferente.

De volta

Estou de volta à capital e de volta à vida em Deli. Uma semana muito produtiva em Trivandrum, no CDS, seguida de dois dias na nova casa em Goa.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Imagens de Deli: Lodhi Gardens

Southwards

Sigo amanhã para a ponta Sul deste país, para o Centre for Development Studies em Trivandrum, Kerala. Entre avião (4 horas) e comboio (55 horas) a escolha foi óbvia, embora a magra carteira tenha registado o seu protesto. Fui seleccionado para participar num curso intensivo sobre métodos e investigação em migrações internacionais. Uma temática que, como já devem saber, concentra os meus esforços académicos. Na volta, breve paragem em Goa. Por isso, contem com menos actualizações desta vida em Deli, pelo menos durante os próximos sete dias.

Deli, horizontes e Teerão

Num artigo muito fraquito, uma frase que não deixa de esconder muita, mas nem toda a verdade.

Pakistan's anti-Iranian posture will drive India closer to Tehran, since Delhi never sees much farther than its own troubled borders.

Modernidade

Nós, na Europa, vemos a modernidade como fazendo parte do passado. Desprezamos a modernidade. Estamos constantemente a procurar vias que nos permitam negociar novas e plurais modernidades. Ser moderno é ser cinzento, conservador, ultrapassado. A modernidade constrange.

Aqui, por mais rodeado que eu esteja de intelectuais indianos que advogam o contrário, sinto que o acesso à modernidade, pelo menos para a grande população, ainda é um privilégio. A modernidade liberta. O problema é quando os interlocutores indianos ignoram estas concepções e aplicações espacio-temporais diferentes do conceito de modernidade vigente no Ocidente. Quando as elites indianas, influenciadas e às vezes patrocinadas pelos nossos intelectuais, começam a olhar para a modernidade com desprezo, esquecendo que ela representa, muito provavelmente, a única via libertadora para a maioria dos indianos.

Não é por acaso que os activistas dálitas ("intocáveis") seguem o seu líder histórico Ambedkar e insistem muitas vezes em vestirem um fato com gravata no espaço público, como no caso das campanhas eleitorais aqui na JNU. O fato e a gravata ajudam-lhes na libertação do sistema pré-moderno, assolado de hierarquias e tradições, especialmente estéticas. Parece tudo um pouco ridículo aos nossos rebeldes olhos europeus, em que impera a era casual. Mas é assim, aqui. Outro espaço, outro tempo.

Imagens de Deli: Soneca

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Remodelação

A caminho de completar três anos, esta Vida em Deli estava a precisar de uma ligeira remodelação gráfica.

Euforia Tata

Reparar em coisas

Reparei hoje no seguinte. Em Portugal, quando ando com um atacador solto, em espaços públicos, é raro alguém me chamar à atenção para o facto. Não sei porquê, mas aqui na Índia, sempre que tal acontece, há imediatamente alguém a avisar-me. No entanto, tenho a sensação que, ao contrário do que se passa em Portugal, se aqui andasse pela rua com uma saia amarela ou com uma peruca fluoroscente, ninguém repararia sequer.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Um despedimento

Vamos despedir a nossa empregada. Ao fim de dois anos descobrimos que é mais rápido, efectivo e barato fazermos nós próprios todos os trabalhos domésticos. Pelo menos até voltar a nossa querida empregada de sempre, a Sayida, que por esta altura prepara o casamento da sua filha, provavelmente afogada em dívidas por causa do dote matrimonial para a família do noivo, no longínquo e miserável estado de Bihar.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Citações de Deli: Sonia Gandhi

Decorreu até hoje a conferência internacional sobre "Peace, Non-violence and Empowerment, Gandhian Philosophy in the 21st Century", patrocinada pelo Governo indiano. Diversos oradores reputados, vários nobelistas, e até o nosso Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, João Gomes Cravinho. Na primeira página de hoje, do Hindu, uma citação de Sonia Gandhi, a nº1 do Partido do Congresso e, ao que se diz, a nº2 neste país. Uma citação que teima em não me deixar em paz.

"The world's nuclear weapon states have more than adequate atomic arsenal to destroy humanity many times over. And it is not just nuclear weapons. We also confront the spectre of chemical and biological weapons. Yes, India has nuclear weapons. This became a strategic compulsion for us, born out of the failure to persuade the world to abolish nuclear weapons"

Imagens de Deli: Coral

A minha prima Coral, de Goa, numa loja de roupa no mercado de Sarojini Nagar.

Think again: India

A ler em conjunto com a minha próxima Passagem para a Índia, já nas bancas, na revista Atlântico de Fevereiro. Chama-se "Reality Check" e proponho-me a reavaliar a real importância da emergência indiana e as suas qualidades democráticas, desfazendo assim alguns mitos.

Think Again: India
Americans have a love affair with India, seduced by a colorful culture, one of the world’s great cuisines, and the sense that these two great democracies are a lot alike. In reality, however, the two countries have very little in common, and a lot that could pull them apart.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Pontes indianas

Estas pontes indianas são de fazer inveja aos portugueses. Sexta-feira foi o Dia da República, com as tradicionais marchas militares na longa avenida Rajpath que liga o palácio presidencial ao India Gate. Hoje, Terça-feira, é a vez de um feriado religioso islâmico, o Muharram. Teoricamente, são cinco dias de férias. De ponte.

Mas a diferença é que, ao contrário das portuguesas, bem pavimentadas de fio a pavio, as pontes indianas se encontram sempre profundamente esburacadas. Trabalha-se no Sábado de manhã. Talvez ao Domingo. Obviamente à Segunda e, outra vez, talvez na Terça.

Aldrabando: Contrato de aluguer

Na semana passada fomos a um notário assinar o contrato de aluguer para a nossa nova casa. No meio do processo, reparámos que nos estavam a mandar assinar dois contratos. Um no valor de 9 000 Rupias e o outro no valor de 6 000 Rupias, em vez de um único no valor acordado da renda mensal, nomeadamente 15 000 Rupias. Inquiridos, o agente imobiliário e o dono da casa murmuraram que era para "facilitar questões fiscais".

Buzinas

É normal os visitantes estrangeiros a Nova Deli referirem-se à sua extrema poluição sonora como um caos de buzinadelas. Foi assim, aliás, que se referiu à cidade a jornalista Leonete Botelho, do Público, numa caixinha de curiosidade paralela à cobertura da visita oficial de Cavaco Silva à capital indiana. Para quem, pela primeira vez, aterra na Índia, a primeira reacção, legítima, é mesmo essa: os condutores indianos buzinam por tudo e por nada. Uma cacofonia sem rei, nem roque. Incompreensibilidade. Logo caos.

Estive a pensar, a ouvir e a observar. Especialmente nas viagens mais longas de riquexó pela cidade em que tenho pouco com que me entreter. Na realidade, não há caos nenhum. Há uma certa ordem na acção indiana do buzinar. E, por sinal, essa ordem é oposta à nossa.

Nós, em Portugal e, regra geral, na Europa e no Ocidente, buzinamos a posteriori. Em Lisboa, por exemplo, recorre-se maioritariamente à buzina como reacção, protesto, exclamação (porventura por alegria desportiva ou política). Isto é, a buzina é uma resposta.

Aqui, na Índia, regra geral, buzina-se a priori. A emissão sonora serve de sinalização, de aviso e de intenção de manobra. Tal e qual um radar GPS, em que podemos observar outros objectos móveis sinalizados por pontos luminosos, o radar indiano é sonoro, indicando por via da buzina a localização precisa dos outros objectos. Aqui buzina-se, quase sempre, para avisar os outros. É extremamente raro alguém utilizar a buzina à nossa maneira, isto é, para reagir à manobra de algum outro veículo ou transeunte ou animal. Basta um ligeiro desvio. E a vida continua, sem stresse.

Mais. O GPS sonoro indiano tem uma sofisticação adicional. O tipo de emissão sonora reflecte o tipo de objecto. Camiões de longa distância, autocarros, carrinhas, jeeps, limousines, táxis, carros normais, auto-rquexós, motas de gama alta, motas de gama média, motas de gama baixa, bicicletas, ciclo-riquexós, carroças, transeuntes e até animais: todos têm buzinas (ou outra fonte sonora) emitindo sons peculiares e originais, permitindo permear o sistema de uma ordem que, imperceptível aos nossos olhos e ouvidos, nos parece assumir contornos caóticos.

Não é, portanto, exagero quando alguns estrangeiros dizem, a brincar, que os indianos parecem conduzir de olhos fechados. É mesmo verdade. Basta a buzina.

domingo, 28 de janeiro de 2007

Indian soft power

Um texto de opinião interessante de um dos mais conhecidos diplomatas indianos, o estiloso Shashi Tharoor, no Times of India de hoje. Faz parte da campanha "India Poised" que o jornal lançou este mês, tendo por objectivo inculcar nos indianos um novo sentimento de patriotismo e orgulho nacional.

Observers speak of India's geo-strategic advantages, its economic dynamism and record growth, political stability, proven military capabilities, its nuclear, space and missile programmes, the entrepreneurial energy of our people and the country's growing pool of young and skilled manpower as assuring India's future. But the greatest asset of all may be something less tangibly measurable — our soft power.

Redescobrindo: Lucknow, avadh, nawab

Ora aqui estão termos locais para os quais não tenho a mínima solução. Como transcrevê-los para o português? Lucknow é a capital do maior estado da Índia e por conseguinte merece uma transcrição. Já a eventual transcrição dos termos "avadh" (a dinastia que dela reinou por vários séculos) e "nawab" (o soberano, também utilizado noutros contextos regionais) merece particular atenção por parte dos historiadores. Aceitam-se sugestões na caixa de comentários.

Imagens de Deli: Chota Imambara (Lucknow)

A mais pequena das duas célebres mesquitas da cidade de Lucknow, capital do estado do Utar Pradexe. Construída em 1840, faz parte do monumental conjunto arquitectónico da dinastia avadh que aqui reinou até finais do século XIX.

sábado, 27 de janeiro de 2007

Recomendações

Obrigado, Miguel Albano, pela recomendação desta Vida em Deli no teu blogue. Idem para o Luiz de Carvalho, no seu Instante Fatal. Recomendações retribuídas.

Educação à indiana (Atlântico)

"Educação à indiana" é o título da minha mais recente coluna Passagem para a Índia na revista Atlântico de Janeiro, ainda nas bancas.

"...em vez de “rasca”, os estudantes indianos são a “nata”. Não esbanjam fundos comunitários em semestres de intercâmbio Erasmus, para se embebedarem nas noitadas e se orgulharem de não terem posto os pés nas aulas. Aqui, quem não dá o máximo arrisca-se a ser substituído. Mais de 200 000 jovens candidatam-se anualmente ao Indian Institute of Managment de Bangalore. Apenas 250 são aceites. É o reino da competitividade pura, dura e, acima de tudo, justa. (...) Figuras como Zarkaria, Sen, Nooyi e Mittal não são fruto do acaso ou representantes de uma típica elite terceiro-mundista assimilada. Reflectem a emergência indiana por via da educação e simbolizam o sucesso de um sistema flexível, democrático e inovador que, apesar de todas as suas limitações, está a provocar profundos rombos no casco do velho galeão que é a educação na Europa."

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Aldrabando: Balança manual (papel)

De vez em quando recebo a visita dos paper-wallahs, indivíduos que percorrem os bairros de bicicleta, visitando cada casa em busca de papel e cartolina para reciclagem. Compram ao quilo, no valor de cerca de 5 Rupias (10 cêntimos). Mas vêm munidos de umas balanças manuais e de uma experiência aguda: com uns gestos de pulso conseguem sempre fazer com que oitocentos e tal gramas de papel de jornal pesem mil gramas. Como chegam de manhã, cedíssimo, pelas sete, é obvio que não estou em condições de ripostar, ainda por cima por um punhado de Rupias.

Imagens de Deli: Bangalore

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Nova casa

Já mudei de casa, já escrevo do novo apartamento. Aconteceu tudo com uma semana de atraso. Razão: já depois de termos assinado o contrato, soubemos que, por alguma manha que nos escapou (provavelmente a de nos termos fiado na palavra "honrada" que nos deram), o dono da casa e o agente imobiliário conseguiram ocultar o facto de haver um problema de canalização e de nela não haver um pingo de água. Uma semana depois, conseguimos finalmente apropriar-nos daquilo que é legalmente nosso. Por enquanto, depois de umas reparações provisórias, só com água na cozinha e numa das duas casas de banho ("indian style").

Duas bolsas para mil milhões (Expresso)

No 1ºCaderno do Expresso de 13 de Janeiro, nº 1785

Duas bolsas para mil milhões

“Aprendemos português porque queremos trabalho, é só isso”, diz Prem Kumar, um jovem indiano, fluente na língua de Camões, que trabalha numa multinacional em Bangalore. “A maioria dos estudantes não quer saber de Portugal, nem da sua cultura”, lembra, adiantando que é, acima de tudo, o mercado brasileiro que os atrai.

Prem é um caso típico entre os milhares de jovens indianos que vêem na aprendizagem da língua portuguesa uma oportunidade para fazer parte do milagre económico do seu país. Aos jovens que dominam minimamente a língua é oferecido um salário mensal de, no mínimo, vinte mil rupias. São cerca de 360 euros mensais para contabilidade lusófona ou a atender chamadas do Brasil e de Portugal também. “As empresas até preferem que falemos com sotaque brasileiro”, confidencia.

A autêntica caça aos falantes de português leva a que empresas de Bangalore e Chenai coloquem anúncios de uma página inteira nos jornais de Goa, a antiga colónia portuguesa, apelando a candidatos. O salário mensal para um operador de língua portuguesa, para assistência informática, chega a ultrapassar os mil euros. Mas há também uma grande procura para o sector de turismo e das traduções, reflexo da intensificação das relações económicas entre a Índia e os países lusófonos.

Mas os obstáculos são imensos e o Instituto Camões (IC) é alvo de fortes críticas por parte de vários estudantes. É o caso de Prem, que já usufruiu uma bolsa de um ano, do IC, mas só pôde ir a Lisboa porque a acumulou com uma outra, da Fundação Oriente. “Em Portugal devem pensar que somos ricos”, queixa-se, lembrando que a bolsa exclui os custos de viagem e se limita a 450 euros mensais. Prem, originário do Bihar, um dos estados mais pobres da Índia, critica ainda o facto de haver só “uma única bolsa anual para centenas de interessados”. Na realidade, com a outra bolsa oferecida em Goa, são duas para toda a Índia.

Outros exemplos reflectem o abandono a que tem sido votada a política cultural portuguesa na Índia. Na cidade capital do segundo maior país do mundo há só um leitor, na Universidade de Deli, enquanto que na Universidade Jawaharlal Nehru, onde Prem estudou, o ensino da língua está nas mãos de dois professores de espanhol e de uma leitora paga pelo Governo do Brasil. No próprio Centro Cultural da Embaixada, a falta de fundos leva a que os alunos fotocopiem os manuais. Também ali o ensino da língua tem estado nas mãos de professores indianos, moçambicanos e brasileiros.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

Entrevista (Antena 1)

No programa Visão Global, de Ricardo Alexandre, na Antena 1, uma breve entrevista comigo sobre a visita presidencial entre 10 e 17 de Janeiro passado. Começa pouco depois do minuto 4. Seguido do Embaixador José Cutileiro que simpaticamente se refere a mim como "compatriota em Nova Deli". Versão áudio aqui (para Windows Media Player) ou aqui (Real Audio).

sábado, 20 de janeiro de 2007

Portugal beckons (Hindustan Times)

Há uns meses, um diplomata português queixava-se para comigo que era "impossível" fazer com que a imprensa indiana dê atenção a uma visita oficial portuguesa à Índia. Assumi o desafio e cá esta o resultado, publicado no passado dia dez, num dos dois maiores diários de língua inglesa na Índia, o Hindustan Times (ligação directa).

Portugal beckons
Constantino Xavier, January 10, 2007

As Portuguese President Cavaco Silva begins his official visit to India today, he will observe a country quite different from the one that greeted Vasco da Gama back in 1498. Unlike then, when mighty Portuguese cannons ruled the seas and set the rules, it is India that now occupies a central position in the international system.

The ironies of history are truly remarkable. Half a millennium ago, Portuguese vessels roamed the Malabar coast, searching for ports of entry to the rich Indian and Eastern spice markets. Today, Portugal comes to India promoting itself as a port of entry to the West and as a strategic platform for Indian interests in Europe, Africa and Latin America.

What advantages does Portugal offer to India in this ‘Asian century’? Above all, its strategic situation at the western-most tip of Europe, facing the Atlantic Ocean, with a dynamic economy, from a booming tourist industry to world-class services, textiles and automobile industries, all ready to be a part of India’s economic miracle. It thus serves as a privileged gateway for India to explore the emerging Portuguese-speaking markets of Brazil, Angola and Mozambique. Portuguese is the native language of more than 200 million people, being the official language of eight countries in four continents.

As a member of the European Union, Portugal is also of great political importance to India. The rotating presidency of the EU will, from June onwards, be in Portuguese hands and Prime Minister Jose Socrates will represent the European side at the next EU-India summit in New Delhi in November. Thirty-two years after the re-establishment of diplomatic ties between the countries in December 1974, Socrates will be the first-ever Portuguese Prime Minister to pay a bilateral visit to India.

Another important bridge is the 70,000 members-strong Indian community in Portugal — the third largest in Europe — its members hailing mostly from Goa and Gujarat. The Hindu community of Portugal is a well-organised and influential minority in the country. It is, therefore, no surprise to see many People of Indian Origin in the Portuguese presidential delegation: the President of the Islamic Community of Lisbon and of Efisa bank, Abdol Vakil; the Communist Party-elected MP Abílio Fernandes; the former MP and President of Lisbon’s Oriental Studies Institute Narana Coissoro; and business magnate and owner of confectionaries Dan Cake, Kantilal Jamnadas, among others.

Cavaco Silva has accorded great importance to this State visit. Three ministers, two secretaries of State and 70 of Portugal’s best business managers are part of his delegation. And next week, he will be a guest of honour at the Leadership Summit in Bangalore. All this transmits a clear message: it is now India’s time to discover Portugal and its opportunities for Indian interests.

Constantino Xavier is a Portuguese research scholar at the Jawaharlal Nehru University, New Delhi.

Imagens de Deli: Arrumador

Aqui, no terceiro mundo, os arrumadores são civilizados. Velhinhos - como este - ou miúdos (na maioria dos casos) têm um pequeno bloco e uma caneta. À chegada de cada veículo, anotam a matrícula respectiva no bloco, dão-nos o papelinho e pagam-se 5 Rupias por motociclo ou 10 por viatura ligeira. Na sua grande maiora, são autorizados pelo município de Nova Deli e, em mais de dois anos, nunca vi qualquer problema ou qualquer veículo riscado. Uma lição para as cidades portuguesas? Ou um serviço a que só um país rico em mão-de-obra, como o é a Índia, se pode dar ao luxo?

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Mais uma casa

Três anos e meio e já vou na segunda mudança, para a terceira casa. Finalmente, conseguimos um apartamento aqui perto, na mesma área residencial. A renda mensal é de 15 000 Rupias, aproximadamente 280 Euros, dividida por três (que a bolsa não dá para mais). Desenvolvimento interessante: há três anos, quando cheguei, a renda estava em 10 ou 12 000. É a explosão do mercado imobiliário indiano (deliense).

Mais um semestre

Começou esta semana mais um semestre. É o meu sexto na Índia. Três cadeiras: 1. Research Methodology (Varun Sahni), 2. Realism and World Politics (Rajesh Rajagopalan), 3. Culture, Norms and Ideas in World Politics (Siddharth Mallavarapu).

Portugal visto da Índia (Jornal de Negócios)

Um artigo meu virado mais para o mundo empresarial português, publicado no Jornal de Negócios de 10 de Janeiro.

Portugal visto da Índia
Constantino Xavier*

Finalmente, com um atraso de vários anos, também Portugal acordou para a necessidade de redescobrir a Índia, quinhentos e sete anos depois de Vasco da Gama. Prova-o a visita oficial que Cavaco Silva presta, a partir desta Quinta-feira, a uma economia que, daqui a menos de trinta anos, deverá ser a terceira maior do mundo.

Mas, tendo em conta a experiência dos raros empresários e investidores lusos que por aqui se têm aventurado, são inúmeros os obstáculos que ainda se nos colocam, no terreno.

Em termos populacionais, a Índia é cem vezes maior do que Portugal (só Bombaim tem quase vinte milhões de habitantes) e as disparidades entre o arcaico mundo rural e as cosmopolitas bolsas urbanas são gritantes. As práticas de negócio são condicionadas pelo sistema de casta hindu, pela estrutura política federal (28 estados e 604 distritos) e pela grande diversidade religiosa (maior minoria muçulmana do mundo) e linguística (23 línguas oficiais). Há que enfrentar ainda a titânica burocracia e a endémica corrupção (os índices são recordistas a nível internacional), bem como o crónico subdesenvolvimento infra-estrutural (cortes de energia são frequentes, até na capital).

Se todas estas dificuldades podem, de uma maneira ou outra, ser ultrapassadas com o apoio de parceiros locais, um aspecto permanece, no entanto, central ao sucesso português na Índia. É o da nossa imagem naquele país. Por um lado, Portugal goza de um imenso (e, por enquanto, subaproveitado) capital de simpatia, especialmente em áreas de influência histórica portuguesa, como o são Goa, Damão e Diu, onde Portugal representa uma poderosa imagem de marca e um símbolo de prestígio para o consumidor.

Contudo, essa mais-valia sentimental limita-se a pequenos nichos territoriais, insignificantes ao nível nacional. Nas metrópoles indianas – os motores do consumo e crescimento económico – a imagem de Portugal é, pura e simplesmente, inexistente. Não é raro persistir a imagem de um Portugal subdesenvolvido, isolado e conservador. Para os indianos o azeite pode ser espanhol, a tecnologia belga, a engenharia espanhola, os aviões brasileiros e o vinho chileno e australiano. Português, talvez só o Figo e o Ronaldo, embora nem o futebol nos sirva de porta de entrada para um país em que reina o críquete.

Para todos os efeitos, Portugal situa-se na periferia do imaginário internacional da classe média indiana e é esse o principal obstáculo ao sucesso dos nossos empresários que, por sua vez, também sofrem os efeitos nefastos da pobre imagem que prevalece da Índia em Portugal, dissuadindo-os de explorar as grandes oportunidades que nos oferece a “nova Índia”, no “século da Ásia”.

É neste contexto sombrio que a visita presidencial a Nova Deli, Goa, Bombaim e Bangalore se afigura como uma excelente oportunidade para que se refresquem imagens mútuas e se identifiquem novos nichos e oportunidades, a Oriente e a Ocidente.

*Investigador, Universidade Jawaharlal Nehru, Nova Deli

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Imagens de Nova Deli: Prakash Karat

Prakash Karat (de camisa branca) é o secretário-geral do Partido Comunista Indiano - Marxista (principal partido comunista, com assento parlamentar) , discursando para uma plateia de estudantes na residência Tapti, na minha universidade, há cerca de dois meses. Fala bem, de forma articulada e arejada: "não somos contra todo e qualquer investimento estrangeiro ou toda e qualquer privatização, mas queremos que a abertura e as reformas económicas sejam feitas respeitando os interesses de toda a população, e não só de uma minoria".

Basicamente, foi este o seu ponto principal, naquela tórrida noite, naquele refeitório com mesas rachando sob o peso da ideologia estudantil, com o ar abafado, húmido e mal-cheiroso. Um ponto típico entre os reformistas comunistas indianos, orfãos do socialismo soviético e invejosos do socialismo chinês. Esta é, no entanto, uma universidade que vive e testemunha um debate contínuo. Um universidae da qual os líderes de partidos, ministros e activistas não fogem. Onde, mais do que uma honra, falar é um dever para com o pluralismo de pensamento.

Esta é uma das razões pelas quais eu decidi estudar na JNU. Não há nada que substitua isto em Portugal.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Nós e a Índia, de Calecut a Nova Deli (DN)

Texto de opinião publicado no Nacional do Diário de Notícias, de 10 de Janeiro de 2007 (ver versão Online). Nessa manhã, recebi logo vários e-mails com reacções diversas, de elogios a críticas acérrimas e acusações. Ainda bem.

Nós e a Índia, de Calecut a Nova Deli

Constantino Xavier, constantino.xavier@gmail.com
Investigador na Universidade Jawaharlal Nehru de Nova Deli


Calecut, 1502. Na sua segunda viagem à Índia, Vasco da Gama manda as suas naus bombardearem a cidade, durante dois dias e duas noites. Eram então os canhões portugueses a ditarem as regras do jogo naquela parte do mundo. Nova Deli, 2007. Ao aterrar, esta semana, no Aeroporto Internacional Indira Gandhi, a comitiva presidencial portuguesa, liderada por Cavaco Silva, já não terá canhões à sua disposição. Na competitiva hierarquia da diplomacia e da comunicação social indiana, a visita portuguesa irá, muito provavelmente, ficar abaixo da de um gestor de uma multinacional norte-americana, alemã ou japonesa.

É natural que algo tenha mudado desde Gama e Calecut. É agora uma Índia confiante e segura de si que emerge no sistema internacional. Desde 2004, mais de cinquenta chefes de Estado e líderes de Governo fizeram-lhe visita oficial, oferecendo atractivos acordos de cooperação política, económica, cultural e militar. Bangalore e Bollywood, Tata e Mittal, Agni e Bhagwati, Nooyi e Naipaul são alguns dos nomes que passaram a ser fundamentais no léxico dos que querem compreender e explorar as transformações vividas na Índia, neste chamado "século da Ásia".

Portugal parte com atraso. Enquanto que, em termos de trocas comerciais e investimentos na Índia, o nosso país tem vindo a ocupar os últimos lugares entre os 25 parceiros europeus, o ICEP prima pela ausência naquela que, daqui a menos de trinta anos, deverá ser a terceira maior economia do mundo. No plano político, nunca um primeiro-ministro português visitou a Índia e os ministros que o fizeram contam-se pelos dedos.

Quanto à cultura, a falta de financiamento leva a que os postos para leitores do Instituto Camões se mantenham, muitas vezes, vagos, e isto perante milhares de jovens indianos que vêem a nossa língua como uma mais-valia profissional para explorarem os mercados lusófonos. O desinteresse com que temos olhado para um sexto da humanidade também se reflecte no facto de não haver um único correspondente profissional português em toda a Índia - só na capital os espanhóis da EFE têm sete.

É neste contexto sombrio que 2007 se apresenta como uma oportunidade. Ao fazer-se acompanhar por três ministros e dois secretários de Estado, Cavaco Silva dá um sinal claro de que esta visita pretende voltar a colocar a Índia no nosso horizonte estratégico. A sua ida a Bangalore (o chamado Silicon Valley indiano) para falar na abertura do prestigiado fórum económico "Leadership Summit", bem como a presença de dezenas de gestores e empresários lusos na delegação oficial, promete refrescar as desactualizadas imagens mútuas entre os dois países. Uma outra oportunidade para o reavivar do histórico eixo luso-indiano será a visita bilateral que José Sócrates irá fazer a Nova Deli, em Novembro, no contexto da presidência portuguesa da União Europeia e da respectiva cimeira com a Índia.

Para que as oportunidades de 2007 sejam devidamente exploradas é, no entanto, urgente assumirmos o custo da negligência a que temos votado a Índia e sabermos descontar as glórias da história que nos continuam a iludir. Este humilde processo de desilusão passa pelo reconhecimento de que Portugal é hoje recebido como um visitante de segunda categoria pela mesma Índia que, há cinco séculos, conquistou à canhonada.

No avião presidencial

Fotografia do Luiz de Carvalho.
Cavaco Silva canta os parabéns a uma jornalista, enquanto que o avião começa a descida para o aeroporto de Dabolim, em Goa (eu estava sentado logo ao lado esquerdo). Como a Luísa Meireles, minha ex-editora do Internacional e agora no Nacional do Expresso, precisava de mim~em Goa, fui presenteado com uma amável boleia presidencial, no Airbus da SATA. Lá no fundo, com os jornalistas, de Deli a Goa, durante três horas. Já que eu não vou a Portugal, e se avolumam as saudades, nada como um avião português vir à Índia e eu matar saudades e cantar os "Parabéns". Ao lado do Presidente.

O Luiz e o Instante Fatal

Como já escrevi no blogue dele Instante Fatal, com uma excelente cobertura não só fotográfica da viagem presidencial à Índia, foi um prazer conhecer e trabalhar com o Luiz de Carvalho em Deli e em Goa. Ele é o coordenador de fotografia do Expresso e veio com a Luísa Meireles na comitiva do Cavaco Silva.

Depois de algumas experiências menos boas com fotógrafos portugueses, foi reconfortante ver o Luiz trabalhar. Às vezes, parecia um tigre enjaulado pelo programa oficial asfixiante que não lhe dava a liberdade que a Índia exige de todos os que a querem fotografar. Tenho a certeza que ele vai voltar um dia.

Foto: Luiz de Carvalho, de pinta na testa e colar de flores, e Leica M8 à chegada ao Hotel Taj Palace em Nova Deli.

O momento indiano (Expresso)

Expresso, Economia, Edição 1874, 6 de Janeiro 07

O momento indiano
Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

Avul Pakir Jainulabdeen Abdul Kalam. O perfil biográfico do Presidente da Índia, que na próxima semana servirá de cicerone a Cavaco Silva, representa bem o momento de transformação que se vive no segundo país mais populoso do mundo. Os perfis de Kalam e da nova Índia conjugam-se e confundem-se em três planos essenciais.

Primeiro, a primazia da ciência e da tecnologia como alicerces fundamentais para o desenvolvimento. Kalam é formado em Engenharia Aeronáutica e foi um dos grandes impulsionadores da investigação espacial indiana, além de ser o pai da estratégia «Visão Tecnologia 2020».

Depois, a crença no poder militar de produção interna, simbolizada pela liderança de Kalam no programa de mísseis balísticos e pelo seu papel determinante na realização dos testes nucleares, em 1998.

Finalmente, a aposta na educação, representada no seu currículo académico com mais de trinta doutoramentos «honoris causa» e pelo facto de o chefe de Estado dedicar especial atenção à escolarização obrigatória e à educação superior de excelência.

É justamente nestes três planos que a Índia tem coleccionado sucessivas vitórias a nível mundial e atraído a atenção de uma comunidade internacional que, ainda recentemente, a descartava como mais um país sofrendo de subdesenvolvimento crónico. É, por isso, com algum espírito vingativo que se vive o actual momento de euforia na Índia. De tal maneira que até os moderados elogios que o seu primeiro-ministro dedicou à colonização inglesa, num discurso na Universidade de Oxford, foram alvo de radical contestação.

“Este é seguramente o nosso tempo”, declarava a recente capa de um diário económico indiano, proclamando categoricamente que o “futuro do mundo faz-se aqui”. São doses inéditas de confiança, que levam o próprio Presidente Kalam a reivindicar, já em 2020, o estatuto de superpotência para o seu país.

Perante todo este optimismo oriental, emergem duas questões essenciais. Até que ponto é justificado interpretar este momento indiano como uma força embrionária de um mundo pós-ocidental, com centros de decisão na Ásia, e que tanto alarme está a fazer soar na Europa e nos Estados Unidos?

E no nosso caso, em particular, até que ponto é que Portugal poderá continuar a dar-se ao luxo de ignorar o impacto deste momento indiano, em vez de explorar as inúmeras oportunidades que ele nos apresenta? Seria recomendável se, no contexto da visita presidencial à Índia, reflectíssemos um pouco sobre estas questões.

sábado, 6 de janeiro de 2007

O meu Presidente vem à Índia

Sobre a minha agradável surpresa, em relação ao conteúdo e programa da visita oficial de Cavaco Silva aqui à Índia, escrevi aqui, no espaço da Atlântico.

Imagens de Deli: Desenhos com hena

Fascina qualquer turista ocidental feminina: nas ruas de Deli é comum verem-se mulheres e crianças aplicando desenhos em hena nas mãos de mulheres. Depois de secar, retira-se a substância cremosa lavando as mãos, as respectivas marcas (linhas e diversas outras minunciosas figuras geométicas) ficando visíveis por vários dias. Normalmente são vermelhas, castanhas ou alaranjadas, dependendo da qualidade utilizada.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Redescobrindo: Bangladexe e Daca

No seguimento da redescoberta anterior, torna-se óbvio que, para mim, o antigo Paquistão Oriental, independente desde 1971, é o Bangladexe. Não Bangladeche (mas aceitável, em termos ortográficos), e muito menos Bangladesh, como se vê, de forma repetida, na nossa imprensa. É por aqui que iniciaremos a nossa redescoberta ortográfica de vários estados indianos... Antes disso, convém lembrar que a sua capital não é Dakha ou Dhaka e Daka, nem Dáca ou Dacca, muito menos ainda, Dakar (já vi!). É sim, pura e simplesmente, Daca, tal como vaca e caca, de que, aliás, há muito naquela cidade.

O paradigma dos contrastes

O paradigma é repetitivo e, vocês aí, triste audiência portuguesa, preparem-se para mais uma dose quando a troupe mediática lusa, integrando a comitiva presidencial, chegar a Nova Deli para a semana: a Índia é, pelo menos para a maioria dos jornalistas superficiais que temos em Portugal, o país dos contrastes. É o paradigma catch-all que, simplista, permite um óculo agradável de leitura deste segundo maior país do mundo.

Isto é, sucumbindo ao relativismo, o contraste passa a ser verdade absoluta. Um plano de uns meninos miseráveis mendigando num cruzamento e depois um plano de um restaurante de luxo qualquer, com Bentleys à porta. Está feita a reportagem para o jornal das oito: "Índia, o país dos contrastes" e mais umas balelas. Os mais políticos exploram depois a tese de que o país poderá sucumbir, usar as metáforas das duas velocidades e das duas Índias e a ideia de que a Índia dos ricos está a enriquecer à custa da dos pobres.

A Índia como país dos contrastes é um paradigma agradável. Chamo-lhe de paradigma poque, mesmo que alguém mais corajoso adopte outra aproximação ou a temática seja muito específica (um encontro empresarial luso-indiano, por exemplo), o tal paradigma dos contrastes está lá, sempre presente e sempre merecedor de uma referência, mesmo que indirecta. Ele, digamos assim, ensombra quase toda a cobertura jornalística portuguesa que se faz da Índia (há excepções, raras). O paradigma reconforta o espectador, no seu sofá em Alcabideche. Cá está algo que nos escapa, um país que é tudo e nada ao mesmo tempo. Um país que é rico e pobre, bonito e feio, pacífico e violento ao mesmo tempo. O passo seguinte é óbvio: fascíneo. Ai que exótico, Zé, levas-me lá? É tão diferente.

Para quem, como eu, anda por cá há algum tempo, e para quem lê esta vida em Deli há algum, as coisas são obviamente mais complicadas. São complicadas porque, simplesmente, não são diferentes. A Índia é, algumas particularidades óbvias à parte, um país como qualquer outro, com os problemas do costume que acompanham tanto o Zé no sofá como a sua mulher e também o Bill Gates. São problemas humanos, portanto universais.

A ideia até é gira: implica que nós no Ocidente vivemos um mundo cinzento, monótono, homogéneo e repetitivo. Implica que na Índia tudo é incerto, inseguro, diferente, colorido, espontâneo e circunstancial. Ora, para quem quer ter pão para comer e telhado para se abrigar das intempéries, que eu saiba, a primeira opção é sempre a mais desejável. Acham que a mulher que carrega tijolos nos ombros tem tempo para reparar no seu colorido sari que contrasta com o escuro betão da casa que a sua família constrói, a cinco Euros por dia, para um agente imobiliário qualquer que, muito provavelmente, ainda violará a sua filha de sete anos?

Não interessa. Os contrastes. Esses sim, celebrados, embora eles nos ceguem. Mas não interessa. Ver em profundidade custa. Tempo, paciência, abertura, complexidades, profundidade. Tudo coisas a que poucos jornalistas portugueses se dedicam, especialmente quando integrados em comitivas presidenciais e quando empaturrados de caviar.

Imagens de Deli: Junaid

Continuando a série relativa às pessoas que compõem esta minha vida em Deli, aqui está o Junaid. Um verdadeiro caxemire, de sangue puro. Formado em Ciência Política pela prestigiada universidade islâmica Aligarh University, a sul de Deli, completou comigo o M.A. nos dois últimos anos e volta agora a ser o meu colega no M.Phil., ainda em Relações Internacionais. Antes, trabalhou na redacção do prestigiado diário The Hindu e é, actualmente, próximo da deusa das pequenas coisas de que vos falava há uns dias. Embora seja ferenho ideólogo de inclinação marxista, subalterna e terceiro-mundista, orientações que nem sempre me guiam a mim também, é um dos meus grandes amigos, o suficientemente interessado, alegre e inteligente para, no fundo, saber que as coisas do mundo são muito complicadas. Nesta foto, no entanto, as coisas são mais simples: a sua mão contém um pequeno foguete - não uma granada.

Supergoa.com

Para quem, nestes dias que se avizinham, quiser uma cobertura in situ da visita presidencial de Cavaco Silva à Índia, para além deste espaço, convém ir dando uma vista de olhos pelo meu Supergoa.com que está em fase de renovação.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Redescobrindo: Calcutá e Bengala Ocidental

Não é Kolkata, nem Calcutta ou Colcata: mas sim, Calcutá, cidade-berço de Chandra Bose e de Rabindranath Tagore e cidade adoptiva da Madre Teresa. Já agora, a antiga capital da Índia Britânica é hoje capital do estado de Bengala Ocidental (nada de West Bengal, Bengal ou Bengal Oeste, mas aceita-se a versão curta Bengala - sendo que a outra Bengala, a Oriental, é o Bangladexe).

Imagens de Deli: Jogo de feira

Tirei esta foto numa recente feira gastronómica na JNU. O jogo é simples e, provavelmente, familiar a quem ainda percorre as feiras rurais portuguesas (?). À distância de dois ou três metros, atira-se uma argola e ganha-se o objecto (sumo, chocolate etc.) que ela rodear. É fácil, é barato, não dá milhões, mas é divertido.

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Passagem de ano

A experiência da minha primeira passagem de ano em Nova Deli está aqui.

Aldrabando: Habitação

Um testemunho pessoal: Em Agosto de 2004 alugámos uma casa e a dona prometeu-nos (à boa maneira indiana, mencionando algumas tantas divindades) que podíamos ficar por dois anos. Um ano depois anuncia a "má notícia": vai vender o apartamento e temos dois meses para encontrar nova habitação.

Procuramos e encontramos. Fazemos o novo dono jurar, agora pelas oitocentas e tal divinidades do panteão hindu, que podemos ficar até Maio de 2008, altura em que estamos despachados com esta passagem pela Índia. Jura e explica que só assinamos o contrato por um ano porque é assim mesmo e tal,e faz-nos, por sua vez, prometer que não vamos sair antes de Maio 2008. Estamos satisfeitos. Seis meses depois anuncia a "péssima notícia": a filha acabou os estudos e vai voltar a viver com a família (eles vivem no andar de baixo), e o apartamento deles já está a abarrotar e por isso querem dois dos nossos três quartos. Amanhem-se vocês os cincos num quarto (afinal vocês são estudantes, ou não?) é a moral da história. E mentem: avisamo-vos claramente que íamos precisar do apartamento em Dezembro de 2006. Mentira.

É óbvio (por várias razões que não explano aqui) que, em ambos os casos, os donos dos respectivos apartamentos sabiam que estavam a mentir e que nos iam expulsar antes do prazo acordado. Eu sei que isto do mercado imobiliário é tramado, em quaquer parte do mundo. Mas isto aqui é demais: estou agora à procura da terceira habitação em menos de três anos. Claro que está difícil, porque esta cidade está a rebentar pelas costuras. Mas, para além disso, tem custos financeiros (temos que pagar comissão de uma renda mensal ao agente que nos "encontra" o apartamento) e psicológicos também. Onde é que, no meio de tudo isto, ainda vou encontrar a calma necessária para produzir algum conhecimento sobre este país?

Imagens de Deli: Northeasterners

Um casal em vestimenta tradicional tribal do Nordeste indiano (Northeast), durante um festival anual na minha universidade que celebra a cultura tribal daqueles estados que são conhecidos como "seven sisters" e se situam, quase enclavados e separados do resto da Índia, entre a Birmânia, a China, o Butão e o Bangladexe. O melhor daquele longo serão, para além deste desfile, é a deliciosa comida que preparam, incluindo a muito típica, saborosa e rara (para nós estrangeiros) carne de porco.

Os northeasterners - como são conhecidos - distinguem-se muito do resto dos indianos. A começar pelas suas características físicas: estatura pequena, fisionomia mongolóide e pele clara. Depois a religião, animista tribal ou, na sua grande maioria, cristãos. Finalmente, o seu estilo e a sua identidade: normalmente falam inglês com grande fluência, vestem-se à ocidental, cientes das últimas modas, e por tudo isso, são muito próximos dos estudantes estrangeiros da universidade e muito procurados pelos estabelecimentos comericais indianos que pretendem oferecer um serviço ocidentalizado. É o caso, em especial, da hotelaria e da restauração, em que os nordestinos compõem, por vezes, a maioria do pessoal.

Mas não é só por isso que eles se encontram nesse sector económico. A sua mentalidade ocidental e mais liberal permite que as raparigas sigam carreiras e profissiões que se encontram vedadas às aspirações das suas congéneres "indianas" (chamemos-lhes de "mainstream indostâncias"), sujeitas a pressões familiares muito mais conservadoras. Num restaurante da Pizza Hut, por exemplo, e em hotéis de categoria superior, para além dos Notheasterners, há, por razões semelhantes, um único outro grupo étnico sobre-representado: os goeses.

Mas voltemos aos Northeasterners. A realidade é que vivem à margem da restante sociedade indiana, especialmente aqui em Deli e no Norte da Índia. A sociedade indiana indostânica discrimina-os fortemente. As raparigas são frequentemente alvo de abusos sexuais e as violações não são raras: aos olhos dos jovens indianos, especialmente os embriagados, as frágeis raparigas parecem alvos fáceis e todo o seu comportamento parece-lhes convidativo: "elas são fáceis e querem", pensam (idem para os jovens turistas indianos e as jovens goesas). Os rapazes são, por sua vez, alvo de frequentes cenas de violência. Colegas meus contam-me também que nas próprias universidades (não na minha, no entanto) por todo o país eles são discriminados em termos de avaliação. Um deles, contou-me o episódio em que ele teve a nota mais alta e um professor insinuou, à frente de toda a turma, que ele estaria envolvido fisicamente com uma das directoras do departamento: "Não há outra explicação para que ele tenha tido notas melhores que vocês todos", explicou.

O problema assume proporções maiores se incluirmos também os fortes sentimentos separatistas que se vivem nesses estados do Nordeste. É uma longa batalha política e armada que vários grupos têm conduzido há mais de cinco décadas e que já provocou milhares de mortos. Parece-me, no entanto, que o conflito é resultado, e não causa, deste grande fosso entre duas culturas - e porque não civilizações - distintas, e da discriminação de que a parte mais frágil (a população tribal) tem sido historicamente alvo.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

A deusa das pequenas coisas

She’s certainly not the sort of role model that utters platitudes and makes us feel good about ourselves. On the contrary, she manages to ruffle many Indian feathers. Deconstructing the complex Indian responses to Roy reveals layers of prejudice.

Um excelente artigo de opinião sobre a autora de O Deus das Pequenas Coisas, agora uma das mais corajosas activistas pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão na Índia. Se a Índia fosse mesmo democrática, como alguns ingénuos gostam de sublinhar, pessoas como Roy não teriam a quem vender o seu peixe.

Aldrabando: Fruta e legumes podres

É sempre a mesma coisa, quando vou ao mercado. Não tenho tempo, nem paciência, para escolher e inspeccionar cuidadosamente cada peça de fruta ou cada legume. O preço a pagar é alto: chega-se a casa e está tudo podre. Mesmo redobrando a atenção, aquelas mãos de vendedor são mágicas e um obstáculo quase intransponível no acto de compra. Conseguem sempre convencer-nos de que nos dão do melhor quando, na realidade, estamos a comprar do pior.

Paquistanês ou indiano?

Como escrevia há uns dias lá em cima, por baixo do meu cartão de Boas Festas dedicado a todos vocês, visitantes desta vida em Deli, chegou-me aos ouvidos que o Baltasar, supostamente o mais moreno dos Três Reis Magos, vinha aqui do subcontinente indiano. Parece que é mais complicado. As interpretações são diversas e parece-me que talvez se trate do Gaspar. Mas não é essa a questão que mais me preocupa. O importante é saber se ele, quem quer que seja, era paquistanês ou indiano. Aguarda-se nova guerra entre Deli e Islamabad.

Natal em Deli (reportagem)

Já vos aqui tinha dado a conhecer o plano natalício de um solitário português em Nova Deli. Ficam agora com uma reportagem mais alargada, extracto de um dos e-mails que enviei aos meus amigos em Portugal.

No dia 24 fomos à Missa do Galo. Não foi igual, não houve Mafra, nem família. Mas, simplesmente o frio, o processo de me vestir formalmente e sair para o frio nocturno, e encontrar-me com vários amigos (no fim, éramos 15!) e embarcar num táxi em direcção à Sacred Hearth Catedral, foi excelente. A missa, claro, foi sui generis, com sinthesizer e outras singularidades indianas, aquilo, com mais de mil pessoas e muitos mirones, mais parecendo uma Feira Popular.

Voltámos eram já perto das três da manhã, depois de tirarmos umas belas fotos em frente da catedral iluminada e de comermos umas castanhas bem quentinhas. No dia seguinte, depois de umas compras apressadas, passámos, a Dao, o Anirudh, a Arunita e eu, a manhã inteira a cozinhar. Quase dez pratos (incluindo o meu bacalhau que ficou soberbo), de todas os gostos gastronómicos e tradições internacionais. Antes, tínhamos comprado uma pequena árvore de natal e decorado a casa de forma natalícia. Adaptando uma tradição da minha mãe, preparámos um pequeno pratinho para cada pessoa cheio de doces e frutos e nozes etc., incluindo uma fatia de Bolo Rei (indiano).

Depois foram chegando os amigos, no total éramos cerca de 16, de várias religiões, regiões e círculos de amigos, incluindo o Pauly da Nigéria, a Fon da Tailândia, o Junaid de Caxemira etc., embora a maioria fosse hindu, de diferentes castas. Alguns poucos eram cristãos, católicos do Northeast incluídos, para além de uma budista e um muçulmano. O dia estava muito solarengo e as pessoas, ao som natalício da Rádio Renascença (obrigação de correspondente), foram passeando e conversando pela casa. Depois deliciaram-se com a comida.

No fim, depois de distribuir os pratinhos de doces, fizemos a troca de presentes. Cada um tinha trazido um presente no valor máximo de um Euro. Fizemos umas charades e cada pessoa tinha que tirar um papel e adivinhar de quem se tratava. Fiz isto porque há pessoas que não se conhecem bem e isso obrigou todos a conhecerem-se melhor e a trocarem presentes, criando novos laços de amizade.

A melhor parte é que, tal como no Natal e nas festas de família lá em casa, aqui também o convívio se foi estendendo até ao início da noite. No fim, talvez não tenha convertido pagãos, mas certamente que ajudei a dar a conhecer o espírito natalício e um pouco de mim e da minha (híbrida) tradição cultural.

Imagens de Deli: Praveen e Djamia

O Praveen (à esquerda) e o Djamia (à direita) são dois dos meus colegas de mestrado. Aqui, durante um almoço na Library Canteen. Ambos são licenciados e pós-graduados pela Universidade de Deli em Ciência Política. O Praveen é de Sonepat, a umas poucas dezenas de quilómetros a Norte de Deli, no estado de Hariana. O Djamia vem de um pouco mais longe... do estado de Nagalândia, no chamado Northeast indiano, em que a população tribal, geralmente cristã, é maioritária e nutre fortes sentimentos separatistas (não é o caso dele).

sábado, 23 de dezembro de 2006

Natal na periferia que se quer centro

Aí falam da vitória do relativismo politicamente correcto, dos presépios que vão parar ao lixo e dos Ids e Divalis que se celebram, ou não, nas instituições públicas.

Aqui está-se tudo nas tintas. O pessoal não faz a mínima ideia de quem seja Jesus e perguntam-me se os cristãos também comem vaca ao Natal, mas andam todos a comprar barretes e a glorificar o Pai Natal como o novo messias, o capitalista.

Natal em Nova Deli? É só mais uma razão para acelerar a combustão consumista que fervilha na Índia. Televisores, ceias em hotéis de cinco estrelas ao preço de três ou quatro salários mínimos, árvores de natal em plástico e os ditos barretes vendidos nos cruzamentos por crianças descalças de mãos gélidas. Serve tudo para acelerar a economia. E mimetizar o Ocidente, procurando expurgar complexos de inferioridade colonial e periférica.

Natal em Nova Deli

É sui generis, mas também não é o fim do mundo. Natal em Deli, sem família, sem espírito natalício qualquer, sem chuva (mas pelo menos está frio). Opção A. Ignorar completamente a festividade que sempe me fez companhia a 24 e 25 de Dezembro. Opção B. Inovar e inventar alguma coisa... sui generis. A escolha, tradition compelling, foi a B.

Sexta-feira, na companhia de amigos (nenhum cristão) programa "Musical Journey through Christmas", num centro cultural alternativo chamado The Attic, no centro da cidade. Um professor indiano de língua alemã, aposentado, que viveu por muitos anos na Europa e se apaixonou pela música clássica, guia-nos de forma soberba pela história musical do Natal, incluindo os carols mais modernos e as sátiras musicais norte-americanos à explosiva comercialização do (agora pouco) santo dia. No fim, um punch quente caseiro com rum e uns belos bolos ingleses. Embora a companhia na sala me fosse pouco familiar, e mesmo um tanto desagradável (a pequena burguesia intelectual urbana e uns diplomatas com crianças berrantes à mistura), foi uma boa abertura das hostilidades... natalícias.

Tudo seguido de um jantar no pouco cristão Andhra Pradesh Bhawan, com um thali picantérrimo de gastronomia típica do estado de Andra Predexo, no Sul da Índia. Passeio pelo India Gate e regresso - muito negociado - de riquexó.

Esta manhã: início das decorações exteriores = abertura das hostilidades na vizinhança. Estou-me nas tintas. Ando eu sem dormir várias noites só porque hoje casa a filha, e a prima e o filho e tal, porque o calendário hindu está polvilhado de feriados religiosos que são autênticas orgias sonoras até de madrugada, para o quê? Deixem-me pendurar, pelo menos, uma estrela de papel iluminada em frente à minha porta. Agora sorriem, mas assim meio incomodados. Especialmente porque os filhos acham um espectáculo e se juntam na entrada do prédio ao fim do dia para verem a estrela do cristão.

Hoje, durante o dia: compras. Se aí a dificuldade é escapar ao consumismo e não faltam opções, aqui o panorama é de um deserto de opções. Há já uns mercados que vendem algumas peças de decoração, a maioria das quais de má qualidade e de mau gosto, mas, no cômputo geral, é preciso procurar. Comida, especialmente. Se o perú está excluído por questões financeiras, ainda cá tenho umas postas de bacalhau e compram-se no mercado uns camarões e uns bifes de frango e tal. E presentes, claro. Basicamente, para mim mesmo.

Amanhã à noite: para quem está habituado aos históricos sons e odores da Basília de Mafra, nem pensar meter os pés na missa de Natal da irlandesa e dominicana Igreja de St. Dominic's aqui das redondezas, um cru bloco de betão da década de setenta. O melhor que se arranja: Sacred Hearth Cathedral, a igreja que serve de epicentro da comunidade católica indiana, com a Conferência Episcopal logo ao lado. Mas, dizem-me ao telefone, a missa do Galo, à meia-noite, é "open-air". Estão dois graus e meio à noite. Mas pronto. Lá pelas dez e meia vou junto com vários amigos e colegas. Curiosamente, a maioria são hindus, muçulmanos e budistas: acompanham-me para observar. Observadores, portanto. Pelo menos não vou sozinho. Mas talvez seja acusado de andar a converter a nova geração. Mas eles já estão mais convertidos do que eu.

Segunda de manhã: pequeno-almoço no círculo privado aqui em casa (embora o Tyler se tenha escapado para a Califórnia natal) e depois o tal banquete natalício com os mesmos amigos da véspera. Vai ser difícil, mas o objectivo é empaturrá-los e, assim, dar-lhes a entender o fundamento essencial do Natal. E troca de presentes, é claro. Cada participante foi intimidado a trazer um presente no valor máximo de 50 Rupias, isto é, 95 cêntimos.

Pessoalmente eu testemunho, é certo, uma degeneração natalícia. Depois de ter passado todos os Natais da minha vida no seio da família, e quase sempre na mesma casa, no Rogel, passei os dois últimos Natais em Goa, mas, pelo menos, na companhia de parentes próximos e num ambiente natalício goês que tão convidativo é. Este ano não tem precedentes: Natal em Nova Deli, sozinho. Mas é também uma espécie de iniciação, criando experiência futura para inovar, adaptando a tradição às circunstâncias do presente.

Imagens de Deli: India Gate

É supostamente um dos marcos patrimoniais mais importantes de Deli. O India Gate, imponente e oposto ao Palácio Presidencial Rashtrapathi Bhawan, foi construído, ainda na época colonial, em memória dos mais de 90 000 soldados indianos que pereceram na 1ª Guerra Mundial ao serviço dos britânicos. A adaptação pós-colonial encontra-se no meio, por baixo do arco: é ali que arde a Amar Jawan Jyoti, a chama que honra e memoriza todos os soldados-mártires da República da Índia.

Os três braços das Forças Armadas da Índia revezam-se na guarda, em partes iguais de oito horas cada por dia, sob olhar atento das suas respectivas bandeiras. Mas, formalidade, história e honra à parte, o India Gate é hoje pouco mais do que um local de convívio para turistas indianos e para, ocasionalmente, uma paragem apressada de um grupo de turistas estrangeiros. Sob olhar atento de polícias fortemente armados, há dezenas de vendedores ambulantes que vendem de tudo um pouco: pipocas, balões, brinquedos e gelados. Nos relvados circundantes amontoa-se o respectivo lixo.

Quando está muito calor, no verão, as crianças dos turistas domésticos chapinham na água suja (mas limpa, para eles) de dois canais paralelos à avenida e ao arco. A política só aqui chega quando, muito raramente, alguma associação convoca um protesto ou uma manifestação. Nesse caso os turistas fogem e a polícia aperta o cerco e a concentração tem boas hipóteses de acabar com umas bastonadas. Mas nunca chega a martírio.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Cultura climática

É algo que observo novamente na Índia. A cultura vestuária de um povo nunca é estritamente proporcional às condições climáticas do respectivo contexto geográfico em que vive. Aqui o inverno, embora seja mais frio do que em Portugal, é negiligenciado.

Os acabementos das casas são hostis à conservação do calor e abrem-se e deixam-se abertas inúmeras brechas pelas quais entre o gélido vento dos Himalaias. As janelas, como que querendo servir somente o calor veranesco, teimam em não fechar completamente. As portas, mesmo fechadas, são um convite à circulação aérea. Do chão - de pedra - irradia um gelo mármore. Os riquexós têm só uma capinha lateral mínima, para baixar e cortar o vento gélido logo que se esteja em movimento.

As pessoas também não se vestem de forma apropriada. Um cachecol ou outro, talvez uma camisola fininha ou - raramente - um blusão de cabedal, mas é sempre uma cultura vestuária deficitária tendo em conta as temperaturas e os ventos exteriores. Anda tudo de chinelos e estão 6º.

É símbolo da pobreza, claro, dirão. Também, mas não só. Falo da classe média que vive aqui na minha vizinhança. Têm carrões à porta, mas escolhem viver assim o inverno, de havaianas no pé. Porquê? Por que é a sua própria cultura climática - esta sim, pobre. Pode ser um sinal de desenvolvimento. Qual é a percentagem que um agregado familiar adjudica para fazer face ao clima? Mínima, no caso indiano, e máxima, provavelmente, nos países mais desenvolvidos da Escandinávia. Há portanto uma correlação, embora, na minha opinião, fraca e condicionada a contextos climáticos, hábitos e práticas culturais específicas.

É como em Portugal. Naquelas duas ou três semanas do ano em que faz mais frio, anda tudo à rasca, desenrascando-se com umas camisolas extra e tal. Anda tudo a tremelicar e à espera que a temperatura volte a subir. Não há investimento nums bons e quentes cascacões forrados de lã, num impermeável, num cachecol quente. O mesmo aplica-se à Índia, no meu entender.

E quando feito, em ocasiões raras, o investimento é mal aplicado ou mal gerido. Cinemas e estabelecimentos comerciais melhores instalam sistemas de ar-condicionado, mas deixam portas abertas e fica tudo na mesma (menos a contabilidade), ou põem aquilo a uma temperatura tão excessiva que faz todos os clientes suar.

De forma geral, os indianos não têm uma cultura climática muito desenvolvida. Aqui as pessoas aguentam-se e adapatam-se ao clima. Não o pretendem domar, ainda. Muito por causa da falta de condições materiais, é certo, mas também como filosofia de vida: quem somos nós para querermos domar o clima e a natureza?

domingo, 17 de dezembro de 2006

Ele não sabe o que faz

The king of Bhutan abdicated his throne Saturday and announced plans to hand over the reins of power to his Oxford-educated son, the crown prince, who is expected to usher in a new democratic system of governance in the isolated Himalayan kingdom over the next few years.
King Jigme Singye Wangchuck said a year ago he would abdicate in favor of Crown Prince Jigme Khesar Namgyel Wangchuck in 2008 as part of a process of adopting a new constitution which would transform the country from an absolute monarchy to a parliamentary democracy.


Ora cá está um acontecimento interessante, porventura inédito: um rei, confortavelmente instalado no poder há quase 30 anos, num país que politicamente falando não interessa nada, casado com quatro irmãs e dono de uma fortuna, decide que está a mais. Abdica para democratizar o país. Perdoemos-lhe. O homem não sabe o que faz.

Redescobrindo: Deli!

Está visto que em Belém não lêem a série Redescobrindo de A Vida em Deli. É pena, porque assim escrevem mal. O próprio nome da capital.

Presidente da República efectua Visita de Estado à Índia entre 10 e 17 de Janeiro. Em resposta a um convite do Presidente da República da Índia, Dr. Avul Pakir Jainulabdeen Abdul Kalam, o Presidente da República Portuguesa e a Dra. Maria Cavaco Silva efectuarão uma Visita de Estado àquele País, entre 10 e 17 de Janeiro próximo, deslocando-se a Nova Delhi, Goa, Bombaim e Bangalore.

Jantar inter-religioso

Eu sei que pode parecer lamechas, mas enquanto jantava com uns amigos, ontem, aqui em casa, não pude deixar de reparar na constelação inter-religiosa que estava sentada à mesa: um cristão católico português (eu, acho), uma budista teravada tailandesa, um muçulmano sunita caxemire e uma hindu brâmane indiana. É óbvio que falámos de tudo, menos de religião. E que depois fomos ao cinema ver um filme norte-americano.

Acordo nuclear, mas não exagerar

Um acordo nuclear, acima de tudo no sentido não-científico da palavra. Mais do que nunca, indianos e norte-americanos estão a ensaiar uma nova aproximação diplomática. Mas o interessante nesta notícia do DN é o facto de escolher o adjectivo "polémico" para o descrever. Uma escolha muito acertada. É que há por aí (leia-se: Estados Unidos e Europa, Portugal incluído) muitos que já lançaram os foguetes porque vêem na Índia um "novo aliado democrático" na Ásia. Prematuro, na minha opinião. Opinião e argumentos esses que já tantas vezes expressei aqui e nas minhas colunas na Atlântico. Para quem queira saber porquê por si mesmo: visitar a Índia e ver que o seu carácter ocidental não passa de uma máscara, ou estudar o termo "Swaraj", googlando-o.

Horas antes do final da legislatura, o 109º Congresso dos EUA aprovou ontem um polémico acordo com a Índia, que permite a venda de combustível nuclear a Nova Deli, pela primeira vez em 30 anos.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Questões nenhumas

Uma questão de tamanho. A dimensão dos preservativos está a preocupar as autoridades de saúde na Índia (...) A medição precisa dos pénis de 1200 indianos (até ao último milímetro), conclui que 60% dos homens têm menos três a cinco centímetros que os padrões internacionais.

Quando li a respectiva "notícia", há uns dias, num jornal indiano de duvidosa e sensacionalista qualidade (o sempre genial Times of India), como que por intuição e reacção pavloviana, pensei: ora aqui está um assunto sobre a Índia a que, aposto, a comunicação social portuguesa vai dar grande relevo.

Ora bem, nada mais, nada menos do que no "meu" Expresso (entre muitos outros jornais), cá está o assunto repescado das agências internacionais e re-escrito em tons (pouco) humorísticos. É um bom exemplo da maneira com que a nossa imprensa (salvo raras excepções, como o Público e, obviamente!, o Internacional do Expresso) tem escolhido abordar a Índia. Ignorando mil e uma questões de grande importância e interesse (humorístico incluído) e abraçando questões nenhumas como esta.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Pedro Adão (1969-2006)

Não cheguei a travar conhecimento pessoal com ele, a não ser por e-mail e telefone, mas a morte do Cônsul Geral de Portugal em Goa, Pedro Cabral Adão, de 37 anos de idade, é daqueles eventos que nos ficam guardados na memória. Para o resto da vida, presumo.

Avisado por uma breve notícia do Correio da Manhã, e por uma mensagem de alguém no MNE, soube do seu falecimento e, prontamente, noticiei o facto no Supergoa.com. O que me surpreendeu, no entanto, foi o relativo (se não total) silêncio com que a imprensa portuguesa e indiana, goesa em particular, bem como os espaços habituais do mundo cibernético goês e indo-português, brindaram o assunto. Questão, por sinal, mencionada também nas Notas Verbais.

Notas oportunas

Afinal, a menos de um mês da chegada de Cavaco, em visita oficial, há quem dedique algum tempo à análise do actual estado (dormente) das relações entre a Índia e Portugal. Uma excelente perspectiva no blog Notas Verbais, traçando o passado e o actual estado da situação, bem como apontando para eventuais desenvolvimentos futuros.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Monges, soldados, comunistas e jovens

Há duas semanas, cruzava eu o centro do poder político indiano, no coração de Deli, num riquexó apressado, observei uma rara e curiosa constelação de pessoas. Em frente a um edifício governamental em que se encontrava o presidente chinês Hu Jintao, de visita oficial à Índia, quatro grupos de pessoas distintos e tão diferentes, cada qual com o seu intuito, mas todos atraídos pela presença do governante chinês.

De vermelho e amarelo, as cores dos seus robes religiosos, monges budistas tibetantos. Velhos e novos, mulheres e homens, sentados ou em pé, todos alinhados pacientemente, silenciosamente. Nem um pio. Olhar calmo, mas determinado. Os mais pequenos saltitam num jogo qualquer. Alguém prepara chá, butter tea.

De camuflagem azulada, pouco apropriada para uma zona urbana, militares da força de choque Rapid Action Force. Munidos de sofisticados bastões e escudos de plexiflex, com capacetes à prova de bala e botas que mais se propiciavam aos lamacentos e gélidos Himalaias. Um pouco entediados, alguns jogavam às cartas.

De bandeiras vermelhas em riste, com a foiçe e o martelo em branco, militantes dos partidos comunistas (Left Parties), ruidosos e cientes de atenção mediática. Aglomeram-se à volta de uma barraquinha decorada com cartazes apelando contra o "imperialismo chinês" e defendendo a libertação do Tibete. Em curso está também uma pequena peça dramática, "street theater" espontâneo.

Já engavetados nas carrinhas de choque, jovens tibetanos mais militantes, prontos para serem levados para a esquadra e, porventura, julgados em tribunal. Não lhes reconheço nada a não ser as cabeças e os olhos que espreitam por detrás dos gradeamentos azulados. De repente, ergue-se um braço e um pano com a bandeira do movimento independentista tibetano. Antes de um polícia atento lhe o rasgar da mão, vislumbro uma cor que envolve o restante braço: o azul claro de um blusão de ganga.

Imagens de Deli: Manifestação Catmandu

Manifestação popular de um partido budista em frente ao parlamento nacional do Nepal, em Catmandu, em Maio último.

sábado, 9 de dezembro de 2006

De tudo um pouco, menos da Ásia

Numa grande entrevista no Público de hoje, o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, reconhece que o dossier constitucional vai pesar significativamente na presidência portuguesa da União Europeia e alerta para um conjunto de outras prioridades, como África, o espaço mediterrânico, o Médio Oriente, a Europa de Leste, o fundamentalismo islâmico ("que constitui hoje o principal factor de instabilidade do sistema internacional"!), o Líbano, a Turquia etc. e tal. Tudo e mais alguma coisa portanto, no que a entrevistadora Teresa de Sousa resume como uma "Presidência de alto risco".

Alto lá. Impressionante. Uma presidência europeia do nosso país, mas nem uma única menção ou palavra ao continente asiático e aos importantes desafios (mesmo que a longo termo) que a sua emergência coloca à Europa. Ainda por cima quando as duas cimeiras anuais UE-China e UE-Índia calham exactamente nos "nossos" seis meses. Ignorância, negiligência ou prioridades trocadas? Talvez de tudo um pouco, à boa maneira da nossa tradicional política externa.

Imagens de Deli: Indo-portugueses de Cochim

Três membros da comunidade indo-portuguesa de Vaipim, a ilha que fica oposta ao Forte de Cochim, no Kerala. Estive lá em 2005, a convite da Fundação Oriente que financiou o restauro dos altares portugueses da sua rica igreja de Nossa Senhora de Esperança. Deambulando pelas ruelas da aldeia, fui logo rodeado pelas pessoas que, ao saberem que eu era português, tentaram logo entrar em diálogo com os seus limitados e arcaicos conhecimentos da língua de Camões. A herança lusa restringe-se, no entanto, ao campo da memória e das emoções, à gastronomia e à música, incluindo os cânticos religiosos. Anexo o artigo que escrevi na ocasião (sobre a razão principal da minha viagem), mas que não chegou a ser publicado no Expresso.

(Fevereiro 2005)
Seminário internacional discute fortalezas portuguesas da Índia
Constantino Hermanns Xavier (enviado a Cannanore)

A histórica cidade de Cannanore, no estado indiano de Querala, acolheu esta semana o seminário internacional "Feitorias e Fortalezas Portuguesas na Índia", uma organização do Instituto indiano para a Investigação em Ciências e Sociais e Humanas (Kannur) com o financiamento da Fundação Oriente e apoios da Fundação Calouste Gulbenkian e Instituto Camões.

Dezenas de historiadores internacionais abordaram a temática da expansão militar portuguesa no subcontinente indiano nos séculos XVI e XVII, focando particularmente a fortaleza de St. Ângelo (Cannanore) que o organizador do evento e especialista em história indo-portuguesa, K. S. Mathew, considera ser "a mais antiga fortificação portuguesa intacta na Índia, fazendo parte da rede de fortalezas planeada pelo primeiro Vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida, ao longo da costa ocidental". O seminário comemora o quinto centenário sobre a colocação da pedra fundadora da fortaleza em 1505.

Depois de uma primeira passagem de Vasco da Gama, a presença portuguesa em Cannanore consolidou-se em 1501 com o estabelecimento de relações diplomáticas entre Pedro Álvares Cabral e o rei local e a edificação de uma feitoria. Afirmando-se rapidamente como ponto estratégico na expansão portuguesa na Índia, Cannanore chegou a contar em 1523 com 700 habitantes cristãos e uma vasta população de lusodescendentes, resultado da política de casamentos mistos iniciada por Afonso de Albuquerque. A fortaleza passou em 1663 para domínio holandês.

O seminário marcou também mais uma etapa no degelo entre as comunidades académicas portuguesas e indianas. Sérgio Mascarenhas de Almeida, delegado da Fundação Oriente na Índia, defende que "o discurso historiográfico indo-português é hoje menos ideológico e neste seminário há já uma nova geração de investigadores indianos com novas imagens acerca de Portugal". Referindo-se à polémica luso-indiana aquando das comemorações do quinto centenário da chegada de Vasco da Gama à Índia em 1998, afirma que "resta saber se os académicos portugueses e indianos têm agora a capacidade para passar a mensagem para as respectivas sociedades civis, para que os erros não se repitam". Do lado indiano K. S. Mathew também assume uma transformação: "Estamos a preencher um vácuo académico. Temos conseguido realizar diversos seminários indo-portugueses e manter-nos longe das correntes anti-portuguesas e dos discursos fundamentalistas".

Outras comunicações apresentadas durante o seminário incluíram "As estratégias comerciais e militares portuguesas no Oceano Índico" por Pius Malekandathil, "Desenvolvimento urbano de Nagapatão sob domínio português (1542-1658)" por Jayaseela Stephen e "A organização da Santa Casa de Misericórdia em Cannanore" por James John.

Entre as presenças portuguesas destacaram-se as comunicações de Zoltan Biederman, da Universidade Nova de Lisboa, que analisou o desenvolvimento urbano da cidade ceilonesa de Colombo sob domínio português e holandês, e de Vítor Rodrigues, do Instituto de Investigação Científica Tropical, que apresentou um trabalho desenvolvido em colaboração com João Paulo Oliveira e Costa sobre Lourenço de Brito, primeiro capitão de Cannanore. Já Luis Dias Antunes, do mesmo instituto, estudou o papel de Inácio Sarmento de Carvalho, último Governador português de Cochim (1661-1663).

Citações de Deli: duas perguntas cruciais

But there are at least two questions that are key to Asia’s future that we do not generally ask.
First, for all the talk about the rise of Asia in the “knowledge age” that we live in, are these countries ultimately constrained in their potential to be great nations by their lack of top-flight systems of higher education? And second, is the Asian region any more than a series of nation-states obsessed with guarding their sovereignty — and do they have the ability to interact peacefully and constructively, much as the European Union is trying to do, to pool their individual strengths for the betterment of their region and the world beyond it?
(Jeffrey Garten, no NYT)

De baixa

Um problema de saúde que eu deixei arrastar por demasiado tempo tramou-me esta segunda-feira passada e deixou-me KO durante dois dias e obrigou-me a adiar dois exames de fim de semestre. Está agora tudo sob controlo e a caminho da normalização. O susto deixou moral: lembrei-me que, no final de contas, ainda vivo na Índia e que há que manter precauções mínimas. O susto custou-me mais um jantar VIP: tive que cancelar a minha ida à casa do nosso Embaixador para um jantar com o "nosso" Alto Comissário das NU para os Refugiados, Eng. António Guterres. O susto foi também educativo: a minha imersão nos serviços de saúde indianos - dos centros de saúde públicos às clínicas de luxo - permitiu-me descobrir mais uma faceta sub-continental. Que por aqui irei partilhar, claro.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Atlântico: Recensão

Excerto da recensão que escrevi sobre o livro que já aqui tinha comentado. Na revista Atlântico deste mês, já nas bancas. Onde, por sinal e por erro infeliz, falta a minha habitual e mensal crónica Passagem para a Índia. Mas para o mês há mais.
PÓS-OCIDENTALISMO
Ashutosh Seshabalaya, Made in Índia, Lisboa, Centro Atlântico, 2006, 388 pp.
Por Constantino Xavier

"Oriundo “de uma família de notáveis da Índia”, representa uma elite que vive um momento de êxtase e de afirmação, tanto na diáspora, bem como nos corredores diplomáticos de Nova Deli, na bolsa Sensex de Bombaim e nos parques tecnológicos de Bangalore. A sua prosa é, por isso, material indispensável para uma abordagem sociológica aos que estão por trás da emergência indiana, aos seus interesses económicos pró-ocidentais, bem como aos seus complexos históricos e políticos, pós-colonialistas e anti-ocidentais."

Jantar ex-presidencial

Jantar hoje, na residência do nosso embaixador, com Jorge Sampaio, esposa Maria José Rita e filhos Vera e André. Estão de visita (privada) à Índia, nos próximos dias. Como seguem cedo de manhã para Agra, não deu para grandes conversas, mas não deixou de ser uma honra jantar à mesma mesa do nosso ex-Presidente e da sua família e partilhar da sua rica experiência. Está, aliás, agora ao serviço das Nações Unidas, no combate mundial contra a tubercolose. A Indonésia (de onde veio ontem e onde discursou numa conferência internacional em Jacarta), a China e a Índia registam, juntas, quase metade dos novos casos anuais da doença.

Classes: transporte

Classe alta:

Classe média-alta:


Classe média:


Classe baixa:


Classe nada: