domingo, 29 de outubro de 2006

Chhath

Há três dias que acordo antes das seis da manhã, sempre que passa uma procissão hindu por debaixo da minha janela. Hoje, Domingo, foi ainda mais barulhento, mas um pouco mais tarde, pelas sete da manhã, com trombones, trompetes e tambores: é o culminar do festival "Chhath", em que, especialmente no Norte da Índia em estados como o de Biar e de Utar Pradexe, os crentes celebram o Sol como divindade. Já agora: Aceitam-se sugestões para a transcrição de "Chhath" para o português, na série "Redescobrindo". Chato, não é?

Redescobrindo: Dálitas

Ora cá me enfrentei com mais uma dificuldade ao escrever um artigo para o Expresso sobre o fenómeno da "intocabilidade" na Índia. Dúvida: como é que me vou referir aos excluídos do sistema de castas indiano? Chamados pelos britânicos de “intocáveis”, por Gandhi de “harijans” (filhos de Deus) e por Ambedkar de “dalits” (oprimidos), a designação oficial é “scheduled castes” (castas recenseadas).

Nem o Livro de Estilo do Público, nem as pesquisas do Google me puderam ajudar. Por duas razões, mais uma vez demonstradoras da falta de conhecimento português sobre a Índia. Primeiro, há pouca coisa escrita sobre a sociedade indiana. Há a Rosa Maria Perez, do ISCTE, mas que se tem concentrado mais sobre as populações tribais. Os poucos novos investigadores portugueses que por cá andam tendem a limitar-se a Goa, onde os "dalits" não fazem parte da agenda política e, quando presentes na sociedade, são conhecidos por outros nomes. Segundo, nas raras ocasiões em que algum jornal noticia o assunto, limita-se a descrevê-los como "intocáveis" ou, num facilitismo primário que já tantas vezes critiquei aqui, transcreve o "dalits" do inglês e utiliza-o assim, com ou sem aspas!

O conceito de "intocável" estava fora de questão, porque os próprios recusam esse termo e acham-no derrogatório. Ninguém o usa, aliás, na Índia. Nem a imprensa estrangeira de qualidade. Portanto, não querendo polvilhar o meu texto com aspas, nem querendo enclausurar o conceito central do texto numas ambíguas aspas, restou-me inovar e trasncrever o "dalit/s" para um português "dálitas".

"Ah e tal, mas nós sempre usamos intocáveis e se usares dálitas ninguém compreende" diz-me um amigo. "Ah e tal não", respondo. Estou farto desses "Ahs e táis". Se a história não nos apresenta termos adequados, então há que inovar, e não sucumbir ao facilitismo das aspas e a estrangeirismos não-esclarecidos. Arrisquei e inovei, transcrevendo, de acordo com a fonética do vernacular indiano e uso anglófono: o dálita, os dálitas (e.g.: o movimento dálita, a mulher dálita, os movimentos dálitas, as dálitas convertidas).

Para quem acompanha esta série já foi avisado: estes são exercícios de redescoberta de nomenclatura e conceitos indianos. Servem, portanto, para um debate alargado em que espero ler mais (e, se justificado, outras) opiniões.

Conversões em massa entre os ‘intocáveis’ (Expresso)

Como resumir em menos de uma página uma questão tão complexa como o sistema de castas hindu, o martírio dos seus excluídos dálitas ("intocáveis") e a actual polémica das coversões na Índia? E tudo isto, para leitores de um semanário no país com a mais baixa taxa de leitura de jornais na Europa e em que a maioria confunde a religião (hindu) com a língua (hindi) é terá dificuldades em apontar a capital do país em questão. Mas, afinal, o que interessa é trazer a Índia e a sua actualidade para a agenda portuguesa. Nota: a frase introdutória (de autoria editorial) afirma obviamente uma inverdade: os dálitas não são a "mais baixa das castas indianas", porque estão *fora* do sistema de castas.

Expresso, 22 de Outubro 2006

Conversões em massa entre os ‘intocáveis’

Os dálitas, ou ‘intocáveis’, a mais baixa das castas indianas, estão a abandonar o hinduísmo para se converterem ao cristianismo e ao budismo

Por toda a Índia, milhões de ‘intocáveis’ celebram este mês o 50º aniversário da conversão do seu falecido líder histórico, o jurista B. R. Ambedkar, ao budismo. Marginalizados há séculos pela hierarquia hindu, procuram afirmação política e social convertendo-se em massa a outras religiões - cristianismo e budismo - provocando a ira dos nacionalistas hindus.

Especialmente no mundo rural, são frequentes os casos em que os dálitas (como preferem ser chamados) são impedidos de aceder a poços de água comuns, proibidos de entrar em espaços públicos e assassinados por casarem com parceiros de castas superiores. Segundo a tradição hindu, as castas evoluíram a partir do corpo divino - os sacerdotes brâmanes da cabeça, os guerreiros xátrias dos braços, os comerciantes vaixás das coxas e, finalmente, os trabalhadores sudras dos pés. Só os ‘intocáveis’ ficaram de fora, impedidos de aspirar à reincarnação.

Mas com a independência e a adopção de um sistema democrático, em 1947, centenas de milhares de dálitas optaram pela conversão. O movimento ganhou novo vigor nos últimos anos e, no sábado passado, converteram-se mais de dois mil ao budismo e ao cristianismo na cidade de Nagpur, no centro do país.

O encontro realizou-se sob fortes medidas de segurança, porque as conversões são condenadas pelos nacionalistas hindus, cujas organizações mais radicais acusam os líderes dálitas, missionários cristãos e monges budistas de interesses dúbios. Nos Estados onde o partido nacionalista do Bharatiya Janata Party forma governo (Rajastão, Guzerate e Madia Pradexe), já foram adoptadas leis que proíbem ou limitam as conversões, impondo, por exemplo, autorização policial prévia.

A Igreja Católica, com uma extensa rede de educação e de apoio social no país, já fez ouvir o seu protesto. Para Henry D’Souza, da Conferência Episcopal Católica da Índia, as conversões são “um sinal positivo de que os dálitas se estão a afirmar, abraçando o direito fundamental da liberdade religiosa num país laico e democrático”. Ao Expresso, o padre recordou que religiosos católicos têm sido alvo de diversos ataques e perseguições, mas afirmam que “nada nos poderá demover de realizar a nossa responsabilidade para com os dálitas”.

correspondente em Nova Deli
Constantino Xavier


OS FACTOS
- Os dálitas (ou intocáveis) são 167 milhões, cerca de 16% da população indiana
- A maioria (60%) vive em cinco dos 29 Estados da Índia
- Vivem de actividades consideradas ‘impuras’, como a recolha do lixo, limpeza de latrinas, abate de animais e transporte de cadáveres
- O seu líder histórico, B.R. Ambedkar, doutorou-se em 1916 pela Universidade de Columbia (EUA) e é considerado o ‘arquitecto’ da Constituição Indiana
- A Constituição concede-lhes uma quota de 15% na administração pública, educação e em todas as eleições


TRÊS PERGUNTAS A

Udit Raj, presidente do Partido Indiano da Justiça
P Por que é que os dálitas se estão a converter?
R Queremos libertar-nos da discriminação imposta pelo sistema de castas. Abandonar o hinduísmo representa a libertação de um sistema que nos sufoca. A conversão é a via mais importante para atingirmos o desenvolvimento sócio-económico.

P Quais as vantagens do budismo e do cristianismo?
R Os dálitas são livres de escolher e exprimir as suas preferências religiosas. Mas o objectivo final é escapar ao estigma da intocabilidade e ser aceite numa comunidade que não nos discrimina por causa do nosso estatuto social e profissional. Ao contrário do hinduísmo, o budismo e o cristianismo oferecem-nos condições de afirmação e libertação.

P Há possibilidade de reforma interna ao hinduísmo?
R Ambedkar, o líder histórico dos dálitas, acreditou em reformas pela via constitucional e legal, mas sem sucesso. Hoje, é óbvio que a maioria dos hindus nunca soube respeitar e compreender as reivindicações das secções mais desfavorecidas e exploradas. Não aprenderam a lição e estão a pagar um preço por isso. O nosso movimento é sobretudo social e, por isso, é natural que tenha impacto político e afecte os principais partidos.

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Fila indiana

Festa de anos, ontem, de uma amiga, numa sala algures no campus. Uma dezena e meia de amigos, a maioria dos quais íntimos, um pouco de música e bebida. Alguns dançam, outros conversam. Ligo a televisão e vejo um pouco de O Senhor dos Anéis.

Um primo de um amigo qualquer aproxima-se e lança, sarcasticamente, sorrindo: "Então, estás a querer dar cabo da festa?". Aliado aos insistentes, coercivos e mesmo fisicamente violentos pedidos para os não-dançantes se juntarem aos dançantes, é um típico sintoma do comunitarismo indiano: a individualidade, a liberdade de escolha e a singularidade pessoal são simplesmente inexistentes.

Não é novidade para mim. Nos serões festivos nos palacetes indo-portugueses de Goa não era muito diferente. Menor ainda, envergonhado pela minha ignorância dançante tão típica de um diaspórico desenraízado, era alvo dos piores arrastões para o meio da pista dançante, seja pela avó ou por uma prima qualquer. "Mas eu não sei dançar!", exclamava, desconhecendo ainda estratégias retóricas mais sofisticadas a que recorro hoje ("não me apetece"). Não interessava. O que interessava era forçar a ovelha preta para dentro do rebanho.

Resumo da discussão que depois se prolongou, noite dentro, cá por casa: por um lado, é um aspecto positivo. Em vez de excluir e discriminar o "outro", os esforços são dirigidos á sua inclusão e assimilação. É também uma medida de compaixão: estender a mão ao que tem dificuldades em se integrar na corrente maioritária.

Mas, por outro lado, o espírito de inclusão e de compaixão transformam-se rapidamente em manobras comunitaristas visando a homogenização e rendição forçada do outro. É a recusa da diferença e da liberdade individual de escolha. Nela, a maioria vê uma dissidência e uma afronta à sua base de legitimação: quem está a ver televisão está conscientemente a provocar a erosão da legitimidade da comunidade homogénea dos dançantes.

É um sentimento intrínseco à maioria dos indianos. Muitos argumentam o contrário e celebram a pluralidade e a liberdade individual, bem como cultura de argumentação, que permeiam a sociedade indiana. Talvez haja elementos que o justifiquem. Mas nada de absolutos, por favor. Para quem anda por cá, nem que por uns poucos dias, observa imediatamente que esta é, acima de tudo, uma sociedade organizada à volta de princípios axiomáticos de tons extremamente dogmáticos, em que as verdades são para ser seguidas e executadas em... fila indiana.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

sábado, 21 de outubro de 2006

Divali na Casa Branca

Um gesto simpático e pluralista, ou mais um passo em direcção ao meramente estético e politicamente correcto, agora do outro lado do Atlântico? Para mim, a perspectiva mais interessante é a diaspórica: é provável que os indianos estejam mais enraízados na Casa Branca do que qualquer outra comunidade imigrante, judeus à parte. Ainda por cima, o artigo não refere nenhuma celebração do Ano Novo Chinês, ou outra data auspiciosa para os chineses.

WASHINGTON: The White House celebrated Diwali, the Indian festival of lights, with more than 150 guests attending, among them many prominent members of the Indian American community. In his special message to the Indian community, President George W. Bush said: "Every year during Diwali, Hindus remember their many blessings and celebrate their hope for a brighter future. The festival of lights demonstrates the rich history and traditions of the Hindu faith as friends and family come together in a spirit of love and joy. "This celebration unites people around the world in goodwill and reminds us of the many cultures that enrich our nation."

Divali

É o meu terceiro Divali em terras indianas. O festival hindu das luzes, como é conhecido, celebra a mitologia do regresso do príncipe (e deus) Rama à cidade de Aiôdia (Ayodhya), hoje no Utar Pradexe, depois de derrotar o demónio Ravana e libertar a princesa Sita das suas garras. A longa batalha realiza-se no Sri Lanka, e Rama conta com a ajuda de Hanuman e o seu exército de macacos. Astuto, Rama anunciou que o Mal só poderia voltar à superfície no dia em que se celebra o Divali. Nunca, portanto. É que o feriado é símbolo religioso de luz e barulho, com muitas velas à volta de cada casa, não vá o demónio entrar por uma janela ou porta mais escura. Muito barulho, aliás. O Divali tornou-se, acima de tudo, numa orgia pirotécnica. Começa dias antes e prolonga-se por toda a próxima semana, mas o pico é esta noite. Do mais pequeno aos gigantescos e ensurdecedores petardos e foguetes, vale tudo, a qualquer hora do dia ou da noite.

Se o barulho me põe um pouco nervoso, já o espírito do Divali é, simplesmente, avassalador. Conquista tudo e todos. Para quem está tanto tempo longe de terras cristãs, não há comparação melhor do que o espírito natalício. Para bem, com as famílias em reunião e a troca de presentes, para além do êxtase de cores, sons e movimentos que conquistam e transformam a cidade. Para mal, com o trânsito mais caótico do que nunca, os estabelecimentos comerciais inundados e um consumismo em massa (Deli tem doze milhões de habitantes!) tão desenfreado que assustaria e surpeenderia até o mais liberal economista ocidental.

Alívio climático

Chegou o dia mais apreciado do ano, para quem vive em Deli. O calor abandonou a cidade e chegou o frio. Parece simplista, mas não é. Há um momento x, claramente definível, em que os dois parecem chegar a acordo. De repente, de um dia para o outro, as ventoínhas páram, as janelas permanecem fechadas, os mosquitos desaparecem e passa-se a dormir melhor.

Ao terceiro ano na cidade, passou a ser um momento de celebração ritual para mim também: retirar as camisolas e os cobertores que, envegonhados e poeirentos, permanecem escondidos na profundidade dos armários. A tremenda amplitude e choque que marcam o clime de Deli ficam, aliás, melhor expressos pelo minha própria reacção, quando, no pico do verão, me deparo com as lãs e luvas amontoadas: incrédulo e anestesiado pelo ardente calor e humidade, recuso-me a aceitar que jamais o clima desta cidade poderá exigir de mim o uso daquelas pesadas peças vestuárias. Poucos meses depois, passa-se o oposto: tremendo de frio e agachado à frente do aquecedor, deparo-me com a enorme quantidade de t-shirts, sandálias e calções avolumados no mesmo armário e recuso aceitar que jamais o clima desta cidade poderá exigir de mim tanta leveza e frescura de vestimentos.

Imagens de Deli: Coronation Memorial

Jovens jogadores de críquete em frente ao Coronation Memorial, que marca o local da cerimónia de coroação do rei Jorge V e da raínha Maria, em Dezembro de 1911, perante uma gigantesca audiência da nobreza indiana. Ficou conhecido como Delhi Durbar e não é por acaso que a inscrição no monumento só está em inglês e urdu (escrita árabe): procurando nova legitimação perante os autóctones colonizados, a coroa britânica passou a simbolizar o poder real dos móguis também, construindo o seu poder e a sua legitimidade sobre as ruínas das dinastias islâmicas da Índia que derrotaram em finais do século XIX. O fenómeno também teve expressão geográfica, sendo que durante a cerimónia foi também anunciada a transferência da capital da Índia Britânica de Calcutá para Deli.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Aldrabando: Notas velhas

É a estratégia primária da aldrabagem na Índia: tentar ver-se livre de notas velhas, cortadas, rasuradas, pintadas e desfeitas. A táctica é simples: fazer de conta que nos estão a fazer um favor, dando muitas notas pequenas para nos munirem de troco, mas, escondida no meio, está a tal ovelha negra, toda esburacada por agrafos, com um canto cortado ou tão velha que nem Akbar ou D. Francisco de Almeida a aceitariam. Solução: um zoom óptico a todas as notas e depois virá-las a contrário e repetir o zoom. Caso seja tarde de mais, e já se esteja longe de mais para a devolver, ir a um banco e pedir que a troquem (insistir!).

Vamos a um estudo de caso, que não é necessariamente uma aldraagem, mas uma variante interessante: A conta no restaurante é de 90 Rupias. Entrego uma nota de cem. O que é que o empregado faz: nos bastidores, pede ao patrão que lhe dê a nota de 10 Rupias mais velha e ranhosa que está na caixa. Entrega-me o troco (a tal nota de 10) e o recibo com um respeitoso 'obrigado' e um sorriso. Ele sabe: não quero ter aquela nota, mas, caso tenha planeado não lhe dar gorjeta, agora também não terei coragem para lhe pedir que a substitua. Portanto, acaba de fazer 10 Rupias que, por mais esburacadas que sejam, se juntarão às centenas que deve guardar na sua meia, por debaixo da cama, à espera do dia D em que vão de excursão ao banco.

Aldrabando (intro)

Depois da série "Redescobrindo" em que procuro discutir criticamente a transcrição de localidades e de conceitos indianos para o português (embora me tenha ficado pelo "Nova Deli") e depois da série "Imagens de Deli" em que partilho fotografias da Índia e redondezas, vem aí uma nova série, dedicada ao tema preferido dos turistas na Índia: as 1001 formas de ser aldrabado, enganado e intrujado por estas bandas, "Aldrabando". Serve de curiosidade, mas também de pedagogia a quem por aqui anda ou vier a andar.

Vêm aí as eleições

É o momento alto do ano universitário: as eleições para a Associação de Estudantes (Students' Union, JNUSU) da minha universidade. É também, por mais incrível que possa parecer para ocidentais, um dos momentos altos da "maior democracia do mundo", um dos momentos políticos anuais mais relevantes da Índia.

Já aqui muito escrevi sobre o fenómeno, um dos mais emocionantes e fascinantes que eu jamais testemunhei. Talvez o exemplo mais simbólico é o facto de um ex-presidente da JNUSU (1994-95), Chandrashekhar Prasad, ter sido assassinado em campanha política no estado de Bihar. Tenho sempre a sensação que as eleições (e a vida política na universidade, em geral) são um proceso simplesmente indescritível e que é preciso estar cá para o viver e compreender. Mas esta reportagem, de um ex-colega meu norte-americano, é uma excelente descrição para quem quer ter uma ideia mais próxima, mesmo que distante.

On election day, the maroon tent from the presidential debate reappears on the School of International Studies lawn. In the evening, inside the building, the election committee counts votes while, outside, close to 1000 students gather after hostel messes close at nine to feast on snacks from ‘transplanted’ dhabas. They congregate as ABVP, AISA, SFI and NSUI supporters. Election results will be released in stages over the next 24 hours...

Imagens de Deli: Macacos

Macacos à volta de um painel de aviso policial, na Flagstaff Tower Road, uma zona residencial abastada no Norte de Deli.

domingo, 15 de outubro de 2006

Homi Bhabha

No blog da Revista Atlântico, um apontamento meu sobre a palestra de Homi Bhabha na Fundação Gulbenkian.

Infantilidades (ou Wachstumskraempfe)

India spotted Yunus before Nobel panel
"NEW DELHI: Long before the Nobel committee, India recognised Mohammad Yunus and the pioneering work of his Grameen Bank in popularising the concept of micro credit in Bangladesh. This year's Nobel Peace Prize winner was the recipient of the Indira Gandhi Award for Peace, Disarmament and Development in 1998."

Está tudo na imagem

Shashi Tharoor, brilhante diplomata indiano, perdeu a corrida para o posto de Secretário-Geral das Nações Unidas. Embora não ferida, a Índia interroga-se: porquê um pequeno sul-coreano, em vez do nosso gigante? Para além de todas as geopolíticas dos bastidores da diplomacia, há duas razões principais: primeiro, a Índia já é muito crescidinha para aspirar a um posto daqueles que só é entregue a mãos periféricas e pouco perigosas como as são as norueguesas, birmanesas ou ganesas. Deve, portanto, ver a derrota com bons olhos. O resto do mundo, e a China e os Estados Unidos em particular, já a vêem com outros olhos. Segundo, está tudo na imagem. Por mais genial que o homem seja (bom escritor, por sinal), como é que ele sonha liderar as Nações Unidas com a peculiar estética que espelha na suas fotografias? A cara diz tudo. É um homem que nunca teria sido um bom Secretário-Geral.

Conversões

Thousands of people have been attending mass ceremonies in India at which hundreds of low-caste Hindus (Dalits) converted to Buddhism and Christianity.

Para compreender uma das razões que levam estes "intocáveis" a converterem-se, ver esta excelente reportagem, da revista Frontline, sobre os limpadores de latrinas ("manual scavangers").

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Leonor Beleza e Fundação Champalimaud em Deli

Na residência do Embaixador português na Índia, Dr. Joaquim Ferreira Marques, em Nova Deli, tive na segunda-feira oportunidade de me encontrar com a delegação da Fundação Champalimaud que por cá esteve para lançar o "Prémio António Champalimaud" para a saúde, no Palácio Presidencial, na presença do carismático presidente indiano Dr. Abdul Kalam. O artigo e a entrevista integral que fiz a Leonor Beleza podem ser lidos no Expresso Online.

"Em Nova Deli para o lançamento do “Prémio António Champalimaud” para a ciência, a presidente da Fundação Champalimaud, Leonor Beleza, defende que, em termos de investigação científica, a Índia está a par da Europa e dos Estados Unidos e recorda a sua importância na luta global contra a cegueira.

Apresentado pelo Presidente da Índia, Abdul Kalam, esta segunda-feira, em Nova Deli, o prémio, no valor de um milhão de Euros, visa promover projectos de combate à cegueira no terreno e projectos de investigação relacionados com os problemas de visão.
O prémio, a atribuir anualmente a partir de 2007, é promovido em parceria com a Organização Mundial da Saúde e Gullapalli Rao, médico e cientista indiano que fundou o Prasad Eye Institute em Hiderabad. O júri inclui o nobel Amartya Sen, bem como António Guterres e o ex-comissário europeu, Jacques Delors.

Para além da ex-ministra, a delegação da Fundação Champalimaud incluiu também António Borges e João Silveira Botelho, do conselho de administração, bem como António Coutinho, António Travassos, Daniel Proença de Carvalho, João Raposo Magalhães e Pedro d’Abreu Loureiro, todos membros do conselho de curadores."

Ver entrevista com Leonor Beleza.

Ele sabe (2)

Por ocasião de mais uma cimeira União Europeia-Índia, a realizar-se na capital finlandesa, hoje, publico aqui o artigo no Expresso, de 10 de Setembro do ano passado, relativo à entrevista que conduzi a José Manuel Durão Barroso, por ocasião da sua visita a Deli para uma igual cimeira.

EXPRESSO, Suplemento Economia & Internacional
Edição 1715, 10.09.2005

A prioridade está no Oriente

O presidente da Comissão Europeia diz que China e Índia passaram a ser tema de política interna da Europa

José Manuel Durão Barroso: «Não podemos simplesmente dizer às pessoas: adaptem-se à competição e arrisquem o vosso bem-estar. Temos de lhes dar uma clara perspectiva de futuro. Não podemos tratar os indivíduos como coisas. Esse é o principal desafio. Nós, dentro da União Europeia, queremos uma reforma económica que seja sensível, com preocupações sociais. Temos de explicar aos cidadãos que têm de se adaptar à globalização, mas que, ao mesmo tempo, há um futuro com emprego e repleto de grandes oportunidades»

O ORIENTE é uma das grandes prioridades da União Europeia e, se alguém tinha dúvidas, as duas cimeiras que esta semana se realizaram, em Pequim e Nova Deli, provam-no amplamente. «Do ponto de vista económico e comercial, a China e a Índia estão a tornar ainda mais urgente a necessidade de adaptação da UE à globalização», disse Durão Barroso ao EXPRESSO, numa entrevista conjunta com os dois principais diários indianos, o «Hindu» e o «Hindustan Times».
O prato-forte das negociações - lideradas, pela parte europeia, pelo presidente da Comissão e o primeiro-ministro Tony Blair, presidente em exercício da UE - foi precisamente a galopante emergência económica dos dois gigantes asiáticos, a par dos direitos humanos e da cooperação ambiental, no caso chinês, e da abolição da pena de morte e do controlo da emigração ilegal, no caso indiano.

Segundo Durão Barroso, existe actualmente «o risco do extraordinário crescimento económico da China e da Índia ser visto, na Europa, como umaameaça», sendo certo que «existem alguns países e sectores europeus com dificuldades na adaptação às novas regras da competição internacional».

Mas, afirma, a globalização não deve ser encarada de forma negativa. «Estamos num novo contexto». As preocupações actuais dos europeus podem ser legítimas, mas dissipar-se-ão no futuro: «A globalização é um desafio, mas não uma ameaça. É esta a abordagem que temos no nosso relacionamento com os dois países, torná-los numa oportunidade».

A Índia e a China têm crescido anualmente entre 6% e 10% pelo que, segundo o dirigente europeu, a abertura da UE é inevitável. «Seria um erro trágico se os europeus pensassem que poderiam manter o seu nível de vida fechando-se sobre si mesmos», defende o presidente da Comissão, justificando a necessidade de abertura pela dependência da UE das exportações: «Se a UE quiser que outros se abram, também terá que se abrir mais. Temos de nos adaptar, mas há que lidar com o novo contexto de uma forma construtiva e estabelecer um período de transição para diminuir o impacto.

O texto e o contexto

A questão é tão importante que, segundo Barroso, está no cerne da recente rejeição do Tratado Constitucional europeu por franceses e holandeses. Diz ele que «num referendo, existe sempre o risco de as pessoas votarem no contexto e não no texto, e o contexto é de crescimento lento e de desemprego». É por isso que «o comércio internacional e as relações com a China e a Índia passaram a ser assuntos de política interna europeia».

Embora Javier Solana tenha afirmado em Pequim que «para a UE, a Índia ainda não atingiu a importância da China», Barroso explicou ao EXPRESSO que não gosta de fazer comparações entre os dois gigantes, adiantando que «o sistema político da Índia é diferente do da China» e que «a Índia e a UE partilham fortes valores democráticos».

Referindo-se às recentes renegociações das quotas de importação de têxteis chineses e aludindo à diplomacia norte-americana, Barroso salientou, por outro lado, a estratégia da UE para enfrentar os dois gigantes: «As quotas são uma medida transitória acordada em parceria com a China, enquanto outros preferem impor o unilateralismo».

Entretanto, em Pequim foi tornada pública a resolução do contencioso quanto à importação de têxteis chineses e reiterado o interesse numa maior cooperação económica sino-europeia, Nova Deli assinou pela primeira vez uma declaração política conjunta com Bruxelas.

A Índia e a UE também anunciaram uma nova plataforma de cooperação contra o terrorismo, a entrada da Índia no projecto de navegação por satélite Galileo e a possibilidade dos indianos participarem na construção do novo reactor de fusão nuclear (ITER), a instalar no Sul de França.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Ele sabe

Ora cá está (num artigo no The Hindu) um homem que sabe o que a Europa vai ter que enfrentar no século XXI e que sabe tirar as consequências disso. Dedicado ao projecto europeu, mas sem medo de enfrentar os colossais desafios orientais que se lhe apresentam. Eu já o tinha percebido quando o entrevistei, há um ano, em Deli, por ocasião da cimeira anual União Europeia-Índia (ver post seguinte). Realiza-se mais uma amanhã, em Helsínquia. A observar com muita atenção, porque daqui a um ano é a nossa vez, durante a Presidência portuguesa, numa cimeira que será nada mais, nada menos, do que aqui mesmo, na capital indiana.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Imagens de Deli: Cuspidor

Este é um cuspidor. Infelizmente, é coisa rara na Índia. Mascar paan, com nozes de betel e outras folhas e especiarias o que dá aos dentes um tom vermelho assustador. O pior é comunicar com os mascantes desse "snack" indiano. Como enfiam a folha inteira recheada na boca, e a vão mastigando lentamente, retirando-lhe os divinos líquidos, sabores e odores, torna-se simplesmente impossível manter uma conversa.

O problema é que os mascantes indianos não se dão conta do facto e, enquanto lhes escorre um fio vermelho pelo lábio abaixo e vão cuspindo um ou outro caroço pequeno, falam como se nada fosse. Vamos então ao que mais interessa: as paredes. Sim, uma parede branca ou recém-pintada - e não o Paquistão - o o alvo a abater. Terminado o deleite da mascança dionisíaca, cospem o resto todo (um líquido avermelhado com resíduos) para fora, para onde mais calhar. Por motivos misteriosos, as esquinas das escadarias dos prédios são os locais mais apetecíveis para o acto.

Neste caso (imagem), louvável mas pouco eficiente como se poderá observar, num museu de Varanasi, houve quem colocasse um balde cuspidor. É visível que a pontaria não é muita. Noutras escadarias há insistentes placas, a cada andar, rogando "Don't Spit Here", alguns prometendo mesmo multas. Portanto, quando vierem à Índia, já sabem: cuidem-se do paan e nunca parem mais do que um segundo numa esquina.

domingo, 8 de outubro de 2006

"Brangelina"?

Poupem-me. Anda tudo excitado porque há um casal de estrelas de Hollyood na Índia. Angelina Jolie e Brad Pitt, em Puna. Como se encontram enclausurados num hotel de cinco estrelas (para fugir à histeria e aos batalhões de paparazzi) e como há urgência de satisfazer a economia mediática, nada melhor do que produzir um evento como este. Sem dúvida que o guarda-costas não tem o direito de se comportar como um pit-bull manhoso. Mas colocarem as fotografias do "ataque" ao "inocente" paparazzi na primeira página e, ao mesmo tempo, não escreverem uma única palavra sobre os malabarismos e ilegalidades que os paparazzi têm cometido ao longo dos últimos três dias para violar a privacidade de um casal e lhes tirar uma fotografia, é inaceitável.

"Incidentally, tired of the cat-and-mouse game, the local media has demanded that Brangelina hold a press conference and divulge details about the shooting, after which they are ready to disperse." Afinal agora são os jornalistas a imporem as regras do jogo e a colocarem exigências em forma de chantagem.

E alguém me explica quem é que tem o direito de lhes chamar publicamente "Brangelina"? Lembra a beringela.

Ainda o ranking

E confirma-se o que eu já suspeitava (surpresa?):

"Na lista do Times, constituída pelas 200 universidades que, à luz dos critérios utilizados na avaliação feita pelo jornal, se saíram melhor, não há uma vez mais nenhuma portuguesa. E a primeira espanhola a aparecer é a Universidade de Barcelona (em 190.º lugar, quando no ranking do ano passado não constava sequer da lista das 200).

Este ranking baseia-se numa sondagem a 3703 académicos de todo o mundo a quem é pedido que indiquem aquelas que consideram ser as 30 melhores instituições nas áreas em que são especialistas. Alguns outros indicadores tidos em conta: a opinião dos empregadores; o rácio professor/aluno; a capacidade de atrair estudantes de outros países; e o número de artigos científicos citados." (Público de hoje)

Inovação, crescimento e emprego

No Público de hoje: 11.ª Conferência Internacional Metropolis sobre migrações, que ontem terminou na Culturgest, em Lisboa. Presidente do Migration Policy Institute, think tank dedicado ao fenónemo migratório Demetrios Papademetriou ao Ocidente (o Norte, pelo menos): "Daqui a 25 anos, partindo do princípio de que o capital se transferiu para a China e Índia, podemos perder os nossos melhores e mais brilhantes cidadãos para esses países. Se tiverem liberdade de movimento, irão para os sítios onde os seus investimentos terão maior retorno. Inovação, crescimento e emprego serão determinados pelos patrões que seleccionam pessoas, não por burocratas."

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

JNU em 183º

Que bom saber que estou numa das duzentas melhores universidades do mundo, segundo o ranking do sempre mediático Times Higher Education Supplement, publicado ontem. No entanto, duvido muito dos critérios adoptados e suspeito mesmo alguma manobra de mareketing para facilitar uma futura entrada do grupo Times por estas bandas, ou, pelo menos, correcção política para não ferir susceptibilidades terceiro mundistas. A capa de hoje, no Times of India, parece confirmá-lo.

De qualquer maneira, a Universidade Jawaharlal Nehru (JNU) está em 183º, o que não é nada mau, tendo em conta que uma instituição universitária quase exclusivamente dedicada às ciências sociais. Espero que o meu departamento (Centre for International Politics, Organisation and Disarmament, School of International Studies), considerado dos mais excelentes na JNU, tenha contribuído para o ranking e que por aí, em terras ocidentais, começem a considerar a possibilidade de emergirem rivais "terceiro mundistas", por mais que isso possa ir contra os paradigmas e dogmas prevalecentes.

A vida em Deli: Vendedor de artigos para turistas

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Sayida

Já vos tinha aqui falado da Sayida, a nossa empregada de limpeza desde que eu cheguei a Deli, há dois anos. Muçulmana, do paupérrimo estado de Bihar. Talvez se lembrem dos seus dois filhos, Gudu e Ruby, a quem eu, duas vezes por semana, ensinava a ler e a escrever. Entretanto, o Gudu cresceu e abandonou a escola. É aprendiz de mecânico. A Ruby, fruto de dificuldades financeiras, teve que ficar na aldeia natal desde o verão passado. Na cidade custa mais manter uma boca faminta. Depois há o mais velho, o Mohammed Kash. Embora seja parcialmente invisual, é o que mais sucesso teve, dada a ajuda e apoios sociais públicas e privadas. Andou numa escola especial para invisuais, é o único da família que sabe ler e escrever inglês e hindi fluentemente, dá aulas privadas de Tae-kwon Do e participa em competições nacionais de natação para deficientes físicos e parece que já ganhou uma medalha ou outra.

Este post era para escrever sobre a nossa nova empregada, a Leja. Mas a Índia é assim. Obriga-nos a parar e a penetrar detalhes. E, portanto, parece que me fico pela história da Sayida. Pequenina e magrinha, farta-se de trabalhar. É empregada de limpeza em três casas ao mesmo tempo. Não limpa lá muito bem, e está sempre a resmungar. Mas sabe também sorrir e ser amável como poucas pessoas, sempre prestável e sempre tratando-me a mim, e a todos os meus outros companheiros de apartamento durante dois últimos anos, como um filho.

O marido é de alguma forma, misteriosa, incapacitado e só raramente trabalha. Talvez, parece-me, seja alcoólico. Está sempre, sorridente, sentado no canto do quarto que alberga a família. Eles vivem na aldeia de Munirka (Munirka Village ou Munirka Gaon) que contrasta com a "nossa" Munirka, os Munirka DDA Flats, uma zona residencial que para níveis indianos é semi-luxuosa. Numa das claustrofóbicas ruelas em que até um GPS de melhor qualidade de pouco serviria, vira-se umas tantas vezes à direita e à esquerda, para baixo e para cima, até se chegar ao prédio da Sayida, do marido, do Mohammed Kash, do Gudu e da Ruby. Entra-se para um páteo interior para o qual dão diversos quartos pequenos, menores que a maioria das casas-de-banho dos novos apartamentos em Lisboa. É num desses quartos que eles vivem.

Vem isto tudo ao acaso porque a Sayida deixou de aparecer. Como nós lhe pagamos quase o dobro do salário normal e ela se tornou praticamente parte da "família", começamos a estranhar depois de alguns dias. Finalmente, ligou-me o filho mais novo, mas o meu hindi só deu para compreender que ela estava doente. Uns dias depois aventurámo-nos para a aldeia urbana. Pela janela, do páteo, vi-a sorridente. Claro que, logo que ela se apercebeu da nossa chegada, a expressão facial mudou, exprimindo dor e exaustão. De facto, percebemos logo que nos sentámos e nos deram os documentos médicos, Sayida está com tuberculose. Ficámos à conversa por uma meia hora e, responsabilidade de hóspede, fomos obrigados a beber chá e comer uns bicoitos.

As coisas estão mal para a Sayida. Está agora em tratamento, mas parece que a situação não é de gravidade. Mas o tratamento deverá impossibilitá-la laboralmente por vários meses. Vamos então à ultima peça deste trágico, mas tão normal, puzzle de um quotidiano familiar indiano.

Ainda não me referi à filha mais velha (escapa-me o nome), de dezoito anos de idade. Há dois anos que eles tentam arranjar-lhe um casamento. Por duas vezes a Sayida conseguiu um noivo na aldeia natal, juntou um dote considerável (com generosa participção nossa) e partiu por vários meses para a terra, para preparar e realizar o casamento. Da primeira vez, nas vésperas do dia D, o noivo e a família desapareceram com o dote. Da segunda vez, foi tudo abortado quando a família do (segundo) noivo pediu, também nas vésperas, uma televisão e uma mota. A filha mais velha ficou agora na aldeia, a tomar conta da Ruby, sob auspícios dos familiares.

É este um pequeno pedaço da história da vida da Sayida. A história da Leja, que agora substitui a Sayida, fica então para um outro dia.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Índia em Frankfurt

Como que por arrasto, depois da dimensão económica e política, é agora a Índia literária que emerge no panorama mundial. Não é novidade per se. Há muito que o subcontinente encarna o fascíneo orientalista dos ocidentais. Mas a descoberta é agora massificada. O lugar de honra no palco dos palcos, a Feira do Livro de Frankfurt, confirma-o.

Depois dos Estados Unidos e da Grã -Bretanha, a Índia, com 80 mil livros publicados anualmente, ocupa o terceiro lugar a nível mundial na edição de livros em inglês. "A literatura indiana já não é considerada como qualquer coisa de exótico. Ela tornou-se banal nos EUA e na Grã-Bretanha", diz Thomas Abraham presidente da Penguin India, um dos maiores editores do país. Diz bem. A questão é quando é que passará a ser "banal" em Portugal também. E quando é que algum olheiro literário/editorial se lembrará de vir explorar o mercado aqui.


"Pensamos que há toda uma Índia por descobrir: não é apenas o Taj Mahal, o arroz, Goa ou a cultura hippie. É o país dos media electrónicos, da ciência e da economia. Nós já não reconhecemos aquilo que Herman Hesse (autor de Siddartha em 1922) escreveu. É a maior democracia do mundo que funciona apesar das suas 24 línguas e com pessoas que não se entendem", diz o director da feira, Jürgen Boss, ao Público de hoje.

Uma afirmação que, certamente, está polvilhada de clichés. Mas, afinal, é isso que interessa. Já não são só uma dezena de gatos pingados hippies a repetirem um ou dois clichés sobre a Índia. Agora temos um imenso e plural conjunto de clichés sobre a Índia, constantemente debatidos e postos em causa. Há muito mais no horizonte indiano, para além das pequenas coisas.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Quem é ele?

Hoje a Índia celebrou o nascimento deste menino (nesta foto), a 2 de Outubro de 1869. Quem é ele? O autor da primeira resposta correcta na caixa de comentários ganha uma visita guiada de um dia a Nova Deli, com guia de língua materna portuguesa.

domingo, 1 de outubro de 2006

Eu já tinha avisado

Está tudo a alinhar-se. Onde há fumo, há fogo. Eu bem que dizia. Isto vai animar (um eufemismo) ou explodir (uma hipérbole):

In a declaration likely to increase tensions on this subcontinent, the Indian police on Saturday accused Pakistan’s intelligence agency of being behind the July 11 train bombings that killed more than 180 people in Mumbai.

Imagens de Deli: Menino do lixo

Talvez um dia passe a ser um homem do lixo. Mas, por enquanto, não passa de um menino. Que recolhe lixo e restos nas animadas zonas comerciais e consumistas de Deli. De vez em quando alguém - como neste caso - dá-lhe um doce, uma peça de roupa ou uma moeda. Neste caso, um copo de leite. Na zona em questão - Priya, aqui perto - há uma ONG que, uma vez por semana, junta os meninos todos e lhes ensina a desenhar e a escrever. O resultado são pequenos desenhos e pinturas que eles assinam com o próprio nome e depois vendem a transeuntes, por algumas Rupias.

Taizé em Calcutá

Acabei de receber a visita de três portugueses e de um polaco. Vêm de Portugal e chegaram na noite passada a Deli, a caminho de Calcutá, onde se realiza um encontro mundial de Taizé entre 5 e 9 de Outubro. Deixaram cá alguma da bagagem, porque, afinal, não devem precisar de bikins e calções de banho na capital da Bengala Ocidental (mas sim, na visita posterior a Goa) . Um deles é o meu amigo Nuno Antão (que conheço dos Jantares dos Jovens de Goa, Damão e Diu em Lisboa), "goês de gema", mas que está pela primeira vez na Índia e vai, claro, visitar Goa também. Pelo que sei, haverá mais jovens católicos portugueses presentes em Calcutá. É um bom sinal, ainda por cima porque a maioria aproveita para visitar alguns outros locais da Índia e passear pelo país.

Seis polícias no meu apartamento (1)

Ontem à noite tive um encontro mais imediato com o estado indiano. Pouco antes da uma da manhã, irromperam seis polícias pela nosso aparamento dentro, aos berros, insultando, confiscando um passaporte, exigindo a ida de três colegas meus para a esquadra. Tudo devido a uma conversa prolongada e (um pouco) regada de uma dez pessoas no nosso terraço, com música em volume baixo de um portátil num dos quartos - e uma queixa de um vizinho que não tem nada que fazer na vida. Como o meu colega norte-americano Tyler, actvista de um partido estudantil de extrema-esquerda começou logo aos berros "Hamara haq hai" (é o nosso direito), os homens da autoridade estatal não gostaram muito e a coisa - que se poderia ter resolvido pacificamente logo aí - escalou para níveis impensáveis. Um relato mais pormernorizado, em breve, aqui, na Vida em Deli.

sábado, 30 de setembro de 2006

No bolso

Amanhã de manhã - prometeu-me o dono da livraria no campus - tenho-o no bolso, por 850 Rupias e pronto para ser recenseado.

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Imagens de Deli: Benção

Um pandita, sacerdote hindu, abençoa uma viatura recém-comprada por um casal. Complexo religioso de Chattarpur Mandir, no Sul de Deli.

Atlântico: Swaraj

Passagem para a Índia (nº6)

SWARAJ
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

(...) Por outro lado, deparamo-nos com uma causa mais tradicional, profunda e subconsciente, adequadamente representada pelo conceito “Swaraj” – a bandeira simbólica do movimento indiano pela independência. Nas palavras do nacionalista Chittaranjan Das (1870-1925), durante o Congresso Indiano de 1924, “Swaraj é mais do que a simples independência política e formal. É a independência de todos os obstáculos no caminho para a auto-realização”.

Num país que oferece terreno fértil para as teses do neo-colonialismo, o conceito de Swaraj permaneceu bem enraizado, simbolizando a preocupação indiana de se auto-realizar e desenvolver, independentemente de tudo e de todos. É uma Índia ciente de autonomia total, de liberdade de escolha máxima e de uma multiplicidade de opções infinita. Uma Índia com muitas relações amigáveis, mas com poucos amigos de verdade.

Engana-se, por isso, quem acha que a Índia, lá por ser democrática e falar inglês, vai cair “que nem um patinho” na órbita da águia norte-americana. Vislumbram-se provas contrárias, por todo o lado. Enquanto que as negociações sobre o acordo de cooperação civil nuclear e o “tu cá, tu lá” entre Nova Deli e Washington se arrastam há mais de um ano, está em pleno curso o Ano da Amizade Sino-Indiana, está iminente um acordo nuclear e militar com a França e Manmohan Singh não dispensa de telefonar ao iraniano Ahmadinejad, recordando-lhe que conta com o seu petróleo para daqui a uns anos. (...)

Excerto da coluna "Passagem para a Índia", do número de Outubro da Revista Atlântico. Nas bancas desde esta Quinta-feira passada.

Espaço

Leio, quase todos os dias, jornalismo em inglês, francês, espanhol e alemão. Por todo o lado há um tipo de texto chamado "feature", há novos estilos e novos formatos. Há espaço e inovação. Lê-se "we", "nous" e "wir" ou "I", "moi" e "ich" sem complexos. Há reportagem. Há olhares e perspectivas. E, depois, olho para Portugal e entristeco-me. Tenho 1001 ideias e poderia escrever, sem dificuldades, uma ou duas features por mês, mais um ou dois artigos mais específicos, sobre a actualidade. Mas, pura e simplesmente, não há espaço. Para quando, um grande diário ou semanário de referência, em Portugal? Culto, sóbrio e intelectual? Inovador, arejado e crítico?

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Greve de fome

Mais uma vez, o campus está em polvorosa. A JNUSU (Jawaharlal Nehru University Students Union) denunciou que a "Charter of Demands" apresentada à Administração (Reitoria) foi recusada em grande medida. Questão central: a reivinidicação estudantil de um aumento da bolsa "Merit-Cum-Means" (MCM) para todos os estudantes necessitados, de 800 para 1500 Rupias mensais (sensivelmente de 16 para 30 Euros). Medida adoptada: greve de fome. Primeiro rotativa ("relay", os estudantes participantes mudam de 24 em 24 horas). Agora contínua ("indefinite", os estudantes participam até serem hospitalizados à força pela polícia). Com o Vice-Chancellor (Reitor) por dez dias em Paris, prevêem-se muitas hospitalizações...

Óscar indiano?

Depois do alarido de "Lagaan", filme que chegou a ser nomeado em 2001 para os Óscares da Academia, agora é a vez de "Rang de Basanti". Ou melhor, poderá vir a ser a vez de, porque foi nomeado pelos indianos para uma nomeação.

O filme foca de forma soberba a transformação e os dilemas geracionais da Índia: tradição e modernidade, casta e classe, nação e mundo. A estrela Aamir Khan desempenha um papel excelente. O director, Om Prakash Mehra, rompe com o enredo clássico de Bollywood ao ponto de instigar directamente contra as autoridades estatais e premiar a audiência com um final... nada feliz.

Altamente recomendável para quem queira conhecer um pouco da Índia de hoje, dos jovens urbanos e da nova classe média que tantos arrepios está a provocar a Ocidente. Há dinheiro, há motas, há muito alcóol, há desinteresse pela história, mas há também conflitos de casta, de ideologia e de religião. Acima de tudo, no fim, há revolução.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

A globalização não pára nem perdoa

Thomas Friedman, no New York Times ("Anyone, Anything, Anywhere"):

"It turns out that many multinationals like the idea of spreading out their risks and not having all their outsourcing done from India — especially after one big U.S. bank nearly had to shut down last year when a flood in Mumbai paralyzed its India data center the same day a hurricane paralyzed its Florida operation. And there is no risk of nuclear war with Pakistan here. "When I first approached this big U.S. bank to outsource some of its services to Montevideo, instead of India," recalled Mr. Rozman, "the guy I was speaking with said, 'I don't even know where Montevideo is.' So I said to him, 'That's the point!' ".

Lançamento

É hoje, o lançamento de "In the Line of Fire", do militar e presidente paquistanês Pervez Musharraf. Muito aguardado. E muito polémico, tendo em conta as afirmações dos últimos dias, primeiro em Havana, depois em Washington. A imprensa indiana há dias que publica recensões e análises, estando alguns exemplares já em circulação em território indiano (mas não à venda, por enquanto). Isto tudo (Balochistão, "Acordo" com talibãs, movimentação de tropas ao longo da Caxemira, "bombardeamentos até à Idade da Pedra", mecanismos bilaterais anti-terrorismo etc. e tal) cheira-me a profundas mudanças tectónicas com epicentro na Ásia do Sul, muito em breve.

domingo, 24 de setembro de 2006

Chegou o Outono

Finalmente, depois de uma monção asfixiante em que a temperatura e a humidade se aliaram de uma forma verdadeiramente violenta e provocaram surtos de gripe viral por toda a cidade e pelo campus universitário (e cá em casa), chegou o ameno e agradável Outono deliense. Tudo a postos para seis deliciosos meses em termos climatéricos, com tempo seco, noites frias e dias solarengos.

sábado, 23 de setembro de 2006

Clássico

É clássico: há um golpe de estado militar na Tailândia e a imprensa portuguesa vai a reboque (de quem, ninguém sabe ao certo) e dá-lhe ampla cobertura. A questão não é a importância dos acontecimentos da semana passada em Bangequoque. A questão diz respeito aos critérios de selecção adoptados. Sempre o disse: é assombroso observar os critérios (ou melhor, a ausência deles) jornalísticos da comunicação social portuguesa em termos de política internacional.

Golpes de estado em repúblicas fantoche sul-americanas ou em autênticas zonas negras africanas (lembro-me da República Centro-Africana) são apresentados com grande alarido e desproporção. Entretanto, outras temáticas, muito mais relevantes e essenciais para a políticia internacional e porventura para Portugal, permanecem marginalizadas e, por consequência, na periferia do imaginário político, cultural e económico da sociedade. É óbvio que integro a Índia nesta última categoria, havendo, no entanto, dezenas de outros exemplos. Não é só clássico. É, simplesmente, assustador.

Pão pão, queijo queijo

É nisto que dá a hibridez e a multiculturalidade. Uma tremenda esquizofrenia diaspórica que nos obriga a reconceber toda uma modernidade e todo um esquema conceptual e organizacional.
"Two Indians in Forbes list of richest Americans"
Como é? São indianos ou americanos? Como é?

Imagens de Deli: Barqueiros em Varanasi

Foto de Raquel Galvão Silva, numa manhã solarenga no Rio Ganges.

Jawaharlal Nehru University

Para quem está interessado em saber um pouco mais sobre a instituição que me acolhe nesta minha vida em Deli, bem como sobre a crescente tendência de estudantes ocidentais frequentarem cursos superiores na Índia, sugiro o seguinte artigo:

Jawaharlal Nehru University, or JNU as it is popularly known, is one of the most prestigious educational institutions in India which attracts students from all over the world. ... According to Professor Varun Sahni, advisor of foreign students at JNU, the university has become a hub for students from Europe in the past few years. He said: “As interest in India grows it has become an attractive destination for youngsters. There is a huge difference between coming here as a full-time student and taking a quick trip to India for a holiday.” In the academic year 2001-2002, JNU had 186 foreign students from 34 countries, many of them from Europe and the US and others from South-East Asia, Central Asia and Africa.

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

À descoberta do mito Bangalore (Expresso)

No ‘Silicon Valley’ da Ásia, um grupo de MBA portugueses tomou o pulso à revolução indiana

“Contrastes”, “oportunidades” e “confiança”. Foi com estas palavras que os quarenta e três participantes portugueses do programa «Evolving Indian Business Environment», realizado este mês, no Indian Institute of Management de Bangalore (IIMB), descreveram a Índia e a sua economia emergente.

A iniciativa, inédita em Portugal, visa permitir anualmente aos alunos do MBA da AESE, Escola de Direcção e Negócios, “redescobrir uma nova Índia”, segundo Viassa Monteiro, professor na mesma instituição. “A distância psicológica que separa Portugal da Índia é bem maior do que a geográfica”, alerta, sublinhando que o objectivo é permitir aos alunos “observarem de perto o epicentro do crescimento económico indiano”. Bangalore, que na década de noventa cresceu a taxas superiores a 20%, é conhecida como o “Silicon Valley indiano”.

Foram, contudo, os contrastes socio-económicos que mais atraíram a atenção dos jovens profissionais portugueses. “Com 150 milhões de indianos a viverem em grande prosperidade, é um desafio gigante alargar a riqueza aos restantes 900 milhões”, diz Gabriel Abrantes, do planeamento estratégico da Sonaecom. “Está tudo por fazer”, refere, destacando os sectores dos serviços e das infra-estruturas.

Para Anabela Barata, os contrastes reflectem “tremendas oportunidades de investimento, com um crescimento sustentado e uma mão-de-obra qualificada e competitiva a nível global”. Contudo, para a consultora financeira, os desafios culturais e os obstáculos burocráticos e políticos exigem uma perspectiva a médio ou longo prazo. “Aqui não há espaço para ambições de lucro fácil”, assinala.

Luís Costa Afonso, gestor da Milefiore e importador de acessórios de moda da Índia, defende que a exploração do potencial indiano requer um comprometimento sustentado: “Não pode ser feito à distância. Implica conhecer o terreno e identificar nichos adequados às capacidades das pequenas e médias empresas portuguesas”, refere, salientando a importância de se conhecerem a cultura e as práticas locais de negócio.

Os elevados índices de confiança entre empresários, gestores e decisores indianos, foram um outro aspecto observado pelos participantes. Teresa Mesquita, profissional na área das tecnologias de informação, sublinha que estes “não se colocam à sombra do sucesso actual. Têm uma visão estratégica, racional e madura, o que surpreende num país saído de um longo período de paralisia e planeamento estatal”. O fenómeno também foi constatado no contexto académico. Quando inquirido sobre as estratégias a adoptar pela Europa para fazer face ao crescente poderio asiático, um dos professores do IIMB recusou-se a responder, explicando que “estamos a jogar pelas regras que vocês mesmo nos impuseram há três séculos”.

Para Narandra Agrawal, professor no IIMB, a atenção internacional de que Bangalore tem sido alvo é uma “mais-valia” para a inserção indiana na globalização. O instituto, que trabalha em rede com as escolas de negócio de Harvard nos Estados Unidos, McGill no Canadá e INSEAD em França, é considerado como uma “instituição de elite” na Índia. “Em termos de qualidade da educação estamos ao melhor nível mundial”, sublinha Agrawal.

Constantino Xavier, enviado a Bangalore


Caixa

200 multinacionais ocuparam boa parte das dezenas de parques tecnológicos. Entre directores executivos, técnicos e operadores são já mais de 15.000 os estrangeiros a viver em condomínios de luxo.

Até 2010 serão criados 120 mil novos postos de trabalho em «call-centers» para outras línguas europeias, que não o inglês.

30% dos agregados familiares de Bangalore possuem só uma bicicleta, enquanto que 9% possuem uma viatura ligeira, um jipe ou um monovolume.

Bangalore regista a sexta mais alta taxa de criminalidade entre as 35 megacidades indianas (com mais de um milhão de habitantes).

Mais de 200.000 jovens candidatam-se anualmente às 250 vagas oferecidas pelo Indian Institute of Management de Bangalore em cursos de pós-graduação.

Desde 2000, Bangalore atraiu em média cerca de 250 milhões de euros de investimento directo estrangeiro por ano, quase 8% do total indiano.

Por dia, Bangalore consome quase oito milhões de litros de água e produz cerca de três mil toneladas de resíduos sólidos.

O volume de tráfego rodoviário em Bangalore cresce a um ritmo anual de 7 a 10%, estando actualmente registados mais de 1,6 milhões de veículos motorizados.


"Em Directo"

Gabriel Abrantes, PLANEAMENTO ESTRATÉGICO SONAECOM
“1990 simbolizou um momento de ruptura, marcando o início da transição do planeamento socialista para a economia de mercado”

Anabela Barata, CONSULTORA FINANCEIRA
“Aos olhos europeus a pobreza é chocante, mas o crescimento fala por si e promete grandes transformações”

Luís Costa Afonso, GESTOR DA MILEFIORE
“A atitude dos empresários é quase fabril: não colocam dificuldades, assumem riscos e tornam tudo possível. Primeiro ouve-se um sim, depois um talvez e só raramente um não”

Nélson Rodrigues, ENGENHEIRO CIVIL
“Para um engenheiro civil há aqui negócios fabulosos para uma vida inteira”

Pedro Vasconcelos, ENGENHEIRO DE TELECOMUNICAÇÕES
“Ao fim de quinze anos de grande crescimento económico, em vez de o clima ser de euforia e arrogância, afirmou-se entre os indianos uma visão consciente, optimista e sóbria das suas capacidades e fraquezas”

Teresa Mesquita, COORDENADORA SIBS
“A visão estratégica das elites está ao nível europeu e norte-americano, fiel a uma constante introspecção e autocrítica”


O artigo, com mapa e fotografias, está disponível em linha no sítio do Expresso, esta semana com acesso gratuito (porque o sol apareceu no horizonte).

Imagens de Deli: Paula & Ricardo

Já que estamos com a mão na massa - falando de portugueses em Deli - é urgente eu publicar esta fotografia, tirada há uns meses, na primavera. São a Paula e o Ricardo, dois mestrandos (numa área das ciências de que não me recordo) da Universidade do Minho. Tirando partido de uma rede de investigação conjunta com a Índia, obviamente financiada por Bruxelas, tiveram a bela ideia de vir ao reputado Indian Institute of Technology de Deli (IIT Delhi). Durante mais de seis meses pesquisaram em laboratórios sobre têxteis, com mais ou menos dificuldades ("é pá, eles não nos deixam trabalhar e só nos dizem para tirarmos férias!").

Embora vivessem noutra parte da cidade, ainda nos encontrámos várias vezes. Lembro-me, aliás, perfeitamente do dia em que o Ricardo me ligou pela primeira vez, a tratar-me por "senhor", contando-me que lhe tinham dado o meu número na Embaixada e que precisava de ajuda na procura de casa e "em geral".

Esta foto foi tirada num festival de gastronomia internacional na minha universidade, em que eles puderam saborear não um bom bacalhau, mas comidas de 1001 países de que só raramente se ouve falar. De Deli, um abraço para os dois, onde quer que agora estejam.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Hoje acordei

Hoje acordei, cedinho de manhã, com o barulho de um canalizador a esfrangalhar a parede de uma das nossas casas-de-banho. Deve ter sido o senhorio a pedir a obra. Mas não tenho a certeza, é claro. Também não interessa.

Estudar história

He recollected that during the liberation struggle of Goa, the PCP’s clandestine magazine was the only one in Portugal to demand liberation for Goa. (...) "Like we supported the people of Goa then, we support the people of Palestine, Venezuela and Cuba now. We also support the workers and poor people of India. This visit is to exchange ideas toward that end", he said.

Palavras de Jerónimo de Sousa, secretário-geral do Partido Comunista Português, de visita a Goa. Convidado pelo CPI-M e CPI, os principais "sister-parties" comunistas da Índia, vai, conjuntamente com Ângelo Alves (Comissão Política), visitar também Deli e Calcutá.

O que me intriga, no entanto, é o seguinte: O que é que levou os comunistas portugueses a defenderem para o povo colonial de Goa uma "libertação" e uma "auto-determinação" diferente, se não antagónica, da exigida para todos os outros povos coloniais, da Guiné a Timor? Libertação, afinal, em que termos? Como soube o PCP presumir o que ia na mente dos goeses, se nunca houve um partido de libertação anti-colonial de massas, tal como o foi o Congresso na Índia Britânica ou o conjunto Frelimo/Renamo em Moçambique? Porque esta "excepção indiana", interpretando libertação como integração noutro país?

Terá sido por influência dos militares comunistas? Segundo Josep Sánchez Cervelló, historiador, havia no final da década de sessenta alguns militares do Exército português dispostos a receber directivas do Comité Central, estando estes “organizados desde os tempos de Goa coronéis do Exército, que tinham passado pela Índia como capitães, e que ali tinham vivido o pós-independência e contactado com o comunismo e com as ideias de libertação do Terceiro Mundo. Pessoas como Vasco Gonçalves, Varela Gomes ou Vicente da Silva”.

O que importa é saber se o Sr. Jerónimo tem a sua lição de história bem estudada e se é capaz de explicar e defender esta ambiguidade, mais de quatro décadas depois da integração forçada do Estado da Índia Portuguesa na União Indiana, e três décadas depois de o seu camarada Vasco Gonçalves ter chefiado o III Governo Provisório, cujo Ministro dos Negócios Estrangeiros (Mário Soares) assinou o tratado biliateral que reconheceu a soberania indiana sobre o território.

Até em termos de investigação, para as ciências sociais portuguesas, este é um mistério que deveria ser estudado melhor. Que siginificado, afinal, para a libertação?

PS: Com o apelido que tem, presumo que Jerónimo de Sousa já deve ter recebido, no seu quarto de hotel, uma dezena de telefonemas de velhinhas goesas tentando convencê-lo de que ele é um primo-neto-enteado "afastado" delas.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Póssobens simbólicos

Atenção que estes "póssobens" podem significar muita coisa (especialmente quando um dos intervenientes agarra o outro... pelo pulso!). Foi, aliás, em previsão deste mesmo "póssobem" que eu escrevi a minha coluna "Passagem para a Índia" que sai no número de Outubro da Revista Atlântico e é intitulada "Swaraj". Em finais deste mês nas bancas, ou nas caixas de correio dos assinantes.

sábado, 16 de setembro de 2006

A globalização do tali?

Sempre que vou a um dos restaurantes Saravana Bhavan (uma cadeia indiana com dezenas de restaurantes em vários países), para além de ficar deliciado com a comida vegetariana do Sul da Índia, fico convencido de que estamos mais próximos dos dias em que o mundo será menos ocidental. Daí não advém que será mais oriental. Mas será, certamente, menos ocidental e mais heterogéneo. As suas bases e os seus fundamentos, bem como a estutura, serão de cariz ocidental. Mas o conteúdo e a essência passarão a ser, mais e mais, autóctones, periféricos, creolizados ou misceginizados, entre o tribal e o cosmopolita. Tanto na gastronomia, como no pensamento académico ou na ideologia política.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Soberania do sono

Para um ocidental na Índia não há episódio mais desconcertante do que ver um motorista de riquexó recusá-lo como passageiro só porque está no meio da sua soneca ou porque simplesmente não lhe apatece por o seu triciclo em circulação.

Há dezenas ou centenas de milhares de riquexós em Nova Deli e entre eles existe uma tremenda, e por vezes mesmo fratricida, rivalidade e competição. Um passageiro é quase como uma benção, especialmente um estrangeiro, pronto para ser enganado com uma volta extra ao bloco residencial ou uma infeliz viragem à esquerda quando a placa para o destino aponta para a direita. É também escusado lembrar que o quotidiano na Índia é uma batalha contínua pela sobrevivência de tons muito darwinistas. Quem não explora as oportunidades, arrisca-se a perder no grande jogo que é a economia indiana dos pequeninos.

Então, porque raio é que o motorista se recusa a fazer umas Rupias? Há ocidentais que, perante a recusa, ficam nervosos e irritados. Perante os incompreensíveis e negativos olhos dorminhocos do condutor, deixam-se levar pela frustração. É que ele nem perde tempo. Abriu os olhos, disse "não", e fechou-os novamente, de uma forma tão natural como se estivesse a despachar um charlatão à porta de casa.

Este é um daqueles mistérios interculturais que devem ser compreendidos e percebidos, mas não resolvidos. O ocidental, educado num sistema racionalista em que há um prestador de serviço e um consumidor respectivo em perfeita harmonia, encontra-se perante uma irracionalidade, logo "incompreensível". "Este homem não precisa de dinheiro para comer, para educar os filhos ou para a saúde e para tirar férias?", pergunta-se o ocidental, ainda mal refeito do susto e à procura de um outro riquexó.

Não. Aquele homem, naquele momento precisa de sono. Ou melhor, quer sono. Aquele condutor tomou uma decisão soberana: quero descansar e não me apetece prestar serviço a ninguém. É, mesmo dentro do contexto ocidental, uma decisão racional, calculada e pensada. Naquele momento, o condutor prefere estar parado e reunir esforços ou recuperar calma espiritual. Chamemos-lhe preguiçoso, irracional ou atrasado - não importa. Ele, como indivíduo, tomou uma decisão privada que em nada nos deve afectar (pois não se trata de um serviço público).

Na Escola Alemã, fartavam-se de nos contar a história do pescador mediterrânico que dormitava no seu barquinho e do turista alemão que lhe vinha enumerar as vantagens de trabalhar em vez de tirar a sesta: depois de um mês poderia comprar um segundo barco, pescava mais, vendia mais no mercado, fazia mais dinheiro, comprava uma traineira, pescava mais, empregava uns ajduantes, vendia mais, re-investia, e por aí adiante, até ser o dono de uma milionária frota pesqueira. "E depois?", irrompia o pescador latino, já chateado com tanto paleio germânico. "E depois", dizia o turista, "depois você é tão rico e tão poderoso que pode passar as tardes todas a dormitar à beira-mar". "Isso já o faço agora", retorquia o pescador e recomeçava a ressonar.

Não quero aqui romantizar em demasia a atitude do motorista (ou do pescador). É preciso valorizar o trabalho e é so com investimento e confiança que se mudam as condições miseráveis em que uma grande parte da população vive hoje. Se ele trabalhasse em vez de dormir à tarde, talvez tivesse umas Rupias a mais, ao fim do mês, para contratar um explicador para os filhos ou para, quando a mulher adoecesse, a levar a um hospital melhor.

Mas ele sabe isso e muito mais. Ele sabe o que é a batalha do quotidiano indiano. Quem somos nós para lhe darmos lições de economia e o forçar a interromper o seu sagrado e soberano sono?

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Sul-Sul

Um eixo emergente a ter em conta no século XXI. Índia-Brasil-África do Sul, ou, IBSA (G3). Mete muita energia, comércio internacional, Embraers, um pouco de etanol, bastante África, muito Conselho de Segurança, e alguma cultura pelo meio.

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, reafirmaram nesta terça-feira, durante encontro em Brasília, que os dois países querem estabelecer uma parceria estratégia e vão continuar atuando juntos em temas relacionados à Organização Mundial do Comércio (OMC) e à reforma do Conselho de Segurança da ONU. (...) Nesta quarta-feira, Lula recebe também o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, para a primeira reunião de cúpula do G3, criado em 2003 para promover a concertação política entre estes países e tentar aumentar a influência dos países em desenvolvimento."

Imagens de Deli: Bangalore

Contrastes

Eu em algumas cadeiras tenho colegas que sabem mais do que muitos dos professores que eu já tive em Lisboa e Paris e, ao mesmo tempo, colegas que não sabem exprimir-se em inglês (chegam a intervir em hindi), nem escrever "research methodology" sem erros.

Andamos a despir-nos

Converso, ao almoço, com um ilustre amigo marxista-leninista meu e outros colegas. Falo sobre a tendência ocidental de procurar escapar ao peso, custo e burocracia do sistema judicial, encorajando-se o díalogo e as medidas alternativas (cordiais e extra-judiciais) de resolução de conflitos. Que, de certa maneira, isso representa um regresso ao passado pré-moderno e aos mecanismos e valores inter-individuais de resolução de conflitos, embora presuma a existência de uma plataforma democrática liberal comum a todos os cidadãos.

Responde-me o marxista-leninista: "Olha para eles. A propagarem a modernidade e o modelo burocrático, racional e legalista da justiça pelos quatro cantos do mundo, enquanto eles mesmo voltam ao tribalismo. Falta pouco e começam-se a despir todos e a andar nus por aí."

Responde um outro: "Já o andam a fazer há muito tempo, não reparaste?".

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Expresso: Como o medo mudou o mundo

O 11 de Setembro assemelhou-se a um sismo à escala global com epicentro em Nova Iorque e réplicas nos quatro cantos do mundo.

(...) Em 2006, foi a vez da Índia. A 11 de Julho passado, 1.200 pessoas morreram ou ficaram feridas nos atentados de Bombaim. Num país com grande diversidade étnica e religiosa - a sua Constituição reconhece 23 línguas oficiais -, com a segunda maior população muçulmana do mundo e com vários movimentos separatistas, a violência sempre fez parte do quotidiano dos indianos, mas nunca com a dimensão de há dois meses. Desde então, o país de Mahatma Gandhi vive em clima de alerta constante. A 15 de Agosto, feriado comemorativo da independência, o primeiro-ministro discursou em Nova Deli rodeado por atiradores e baterias antiaéreas e sobrevoado por helicópteros militares. Na recém-inaugurada rede de metro da capital, os produtos líquidos têm de ficar à superfície. E edifícios como o Parlamento ou o mítico Taj Mahal estão mais seguros do que nunca, rodeados por centenas de polícias e paramilitares. Bangalore, o «Silicon Valley indiano», onde operam várias multinacionais norte-americanas, vive em autêntico estado de sítio. E em milhares de cibercafés indianos, os utilizadores são obrigados a preencher um formulário com dados pessoais. (...)

Extracto da minha autoria, retirado do artigo maior "Como o medo mudou o mundo" publicado na edição de 9 de Setembro do Expresso, na revista Única.

Atlântico: O espírito de Bombaim

Passagem para a Índia (nº6)

O ESPÍRITO DE BOMBAIM
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

Tal como Nova Iorque, há cinco anos, também Bombaim terá que passar agora por um doloroso processo de cicatrização das feridas abertas pelo terrorismo. Mas o mais impressionante no pós-11 de Julho de Bombaim é que a vida continuou normalmente no dia seguinte ao horror, como se nada tivesse acontecido. É claro que num país em desenvolvimento, como a Índia, as pessoas não se podem dar ao luxo de faltar ao trabalho ou de passar a andar de táxi para escapar à violência de uns radicais pouco escrupulosos. Mas a realidade é que “Mumbai” provou ter aquilo de que Nova Iorque tanto se orgulhou após o colapso das Torres Gémeas. Aquilo a que se poderia chamar de espírito de uma megalópole global, tenaz e resistente.

(...) Para quem conhece a identidade de Bombaim e o estilo de vida dos seus cerca de quinze milhões de habitantes, não há nada a estranhar. A cidade tem um espírito tão dinâmico que pouco ou nada a consegue travar. Bombaim, talvez pela sua própria localização costeira, sempre foi uma cidade aberta ao mundo; um local de passagem, de conquista e de comércio para árabes, portugueses e ingleses. Bombaim pode não ser um “melting pot” por excelência, mas é um local onde diversas maneiras de estar na vida foram interagindo e negociando compromissos. É hoje uma imensa amálgama cultural e religiosa que inclui artistas parses zoroastrianos, comerciantes guzerates muçulmanos, médicos maratas hindus, varredores de rua intocáveis convertidos ao budismo e advogados goeses católicos. A sua própria geografia faz com que os raros motins étnicos e religiosos não passem de uma excepção à regra: a península, historicamente criada a partir de sete ilhas, reforça o sentimento de coesão e não permite fugir à coexistência pacífica.

Excerto da coluna "Passagem para a Índia", do número de Setembro da Revista Atlântico

domingo, 10 de setembro de 2006

O mundo lusófono em curso em Deli

Dois anos depois, muitas propostas e projectos depois, materializa-se uma antiga ideia minha. No Sábado realizou-se a primeira de quinze sessões do curso livre "The Lusophone World: Social, Cultural and Political Aspects", na Universidade de Delhi, Faculty of Arts.

Coordenado pelo João Pedro Faustino (o leitor do Instituto Camões em Deli) e por mim, e apoiado pelo Department of Romance and Germanic Studies e pelo Centro de Língua, Instituto Camões-Goa, prolonga-se por quatro meses, até à cerimónia final em finais de Janeiro.

Com recursos mínimos pusemos em prática um projecto essencial para a diplomacia cultural (e não só) portuguesa por estas bandas. Um curso livre, em inglês (mas com elementos em português), sobre o mundo lusófono, com especial ênfase para a contemporaneidade. Moldado para estudantes, mas não só, interessados em conhecer mais desses oito países e centenas de comunidades lusófonas, num formato interactivo, com recursos audiovisuais e convidados.

Havendo tantos alunos da Delhi University e na minha Jawaharlal Nehru University a estudarem a língua portuguesa, presumimos que haveria interesse e resposta. Especialmente porque um outro objectivo é dar elementos e conhecimentos que os alunos depois poderão aplicar como mais-valia na sua futura carreira profissional como tradutores, intérpretes, guias, administrativos de embaixadas, etc.

Sábado de manhã, na primeira sessão (em que eu abordei a temática "A chronological background: Portugal and its major historical moments – from Afonso Henriques to Cavaco Silva"), estavam, nada mais, nada menos, do que 60 e tal participantes. Todos desejosos por saberem mais sobre a lusofonia, sobre Portugal, sobre o Adamastor, sobre o Brasil, sobre Lula da Silva, sobre Moçambique, sobre Mia Couto, ou sobre Goa e Timor. O programa completo está aqui.

Imagens de Deli: Portugueses!

Dois anos depois, portugueses à vista. Eu já desconfiava, que nem Robinson Crusoe. Umas pegadas aqui e acolá. Um burburinho. Um pressentimento. E hoje confirmou-se. I am not the only one. Liga-me a Chanchal, aluna de português na Universidade de Deli, a avisar que se ia encontrar com "mais dois portugueses" e que eu estava convidado. Com uma hora e meia de atraso, lá chegaram os dois conterrâneos (tinham-se enganado no centro comercial).

Miguel Costa, que trabalha na Evalueserve, na área da análise económica e de gestão. É licenciado em Economia pela Universidade do Porto e está cá por um ano. Sónia Évora, que veio num estágio da AIESEC mas foi ficando, dando aulas de cultura portuguesa (pôs, numa escola, miúdos a dançar o malhão) e servindo como voluntária numa ONG. Licenciou-se na "minha" Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (UNL) e chegou a especializar-se no "meu" curso de Relações Internacionais. Chegamos a tirar as mesmas cadeira e a partilhar alguns amigos, mas foi necessário virmos a Deli para travarmos conhecimento pessoal!

Os dois vivem em Gurgaon, a nova cidade-subúrbio a 30 km de Deli. A conversa estendeu-se por quase duas horas. Foi verdadeiramente bom partilhar experiências e conhecimentos. A Sónia volta no fim do mês a Portugal mas tanto que se integrou e apaixonou pela Índia que promete ("Eu sei que sim") voltar em breve. E parece que há um terceiro português, Vasco, a trabalhar para a IBM, igualmente em Gurgaon. Ficou, claro, combinado muita coisa para os próximos tempos (embora o Miguel seja "tripeiro" e portanto não será autorizado a integrar o Núcleo Benfiquista de Deli a que presido, de que sou fundador e actualmente sócio único - depois da saída co Chacate que liderava a subsecção moçambicana).

Finalmente, portugueses à vista em Deli. Sinal dos tempos?

India's new regional policy

Muito significativas, as afirmaçoes do Foreign Secretary Shyam Saran, numa palestra no Indian Council of World Affairs. Reflectem toda uma nova visão indiana para a região e uma grande mudança paradigmática, mais madura e estratégica. De "bully" a "patrono". Da força militar às "confidence-building measures" e à integração económica. O abandono do "tit-for-tat" e da condição da reciprocidade. É uma Índia generosa, regionalista e descentralizada que emerge na Ásia do Sul. Uma Índia que percebeu que, perante as manobras chinesas na vizinhança, só lhe resta o mesmo caminho: conquistar a região com muitos incentivos e mimos.

Em termos diplomáticos, académicos e na sociedade civil esta corrente de pensamento (a de "amaciar" as fronteiras e de integrar a região da Ásia do Sul) não é tão nova assim, no entanto. Está bem presente em alguns (minoritários) discursos diplomáticos mais recentes, de que Saran parece ser oriundo, está fortemente estabelecida na imprensa de referência, por via da revista Himal (Catmandu), e, no terreno, sempre foi uma realidade, como o próprio Saran admite, quando diz que se está ainda longe de reactivar os laços íntimos que ligavam as regiões fronteiriças indo-paquistanesas ou sino-indianas etc. antes de 1947. Para quem visita essas regiões, especialmente nos Himalaias, é muito óbvio que aquelas pessoas, aquela cultura e aquela economia estavam tradicionalmente muito mais ligada a Lhasa e ao Tibete do que a Deli, Calcutá e à Índia Britânica.

Mr. Saran said the treatment of the country's periphery as somehow less important than its heartland was a "relic of the past." Borders, he said, were connectors and that was why the government in recent years had made a conscious attempt to treat the country's border regions as integral to its foreign policy. "The sobering reality is that despite the initiatives of the past few years with Pakistan, Bangladesh, China, Myanmar and others, we have not even been able to get back to the connectivity which existed in South Asia before 1947," he noted.

sábado, 9 de setembro de 2006

Eu já suspeitava

No último dia de palestras no Indian Institute of Managment, Bangalore (IIMB), os quarenta e tal estudantes de MBA da AESE (Escola de Direcção e Negócios, Lisboa) de visita à Índia, levaram com uma terapia de choque inédita e extremamente valiosa. Recebidos com imensa hospitalidade e profissionalismo numa das instituições de educação de elite, guiados pela cidade que é conhecida como o "Silicon Valley indiano", mimados com palavras bonitas e afirmações moderadas, de repente, do nada, emergiu uma opinião que - já suspeitava eu - está bem enraizada na psique indiana.

Um dos MBAs pergunta a um dos professores quais seriam, na opinião dele, as medidas mais adequadas para as empresas portuguesas e europeias responderem à ofensiva da internacionalização das empresas indianas e à fuga de empregos para a Índia. Responde o académico, num perfeito inglês e sem margem para dúvidas:

"We have absolutely no sympathy for you, because you have been doing this to us for 300 years. We are playing by the exact same rules you taught us and imposed on us".

Se os estudantes e jovens profissionais portugueses tiraram uma única lição da sua vinda à Índia, é esta: há muita confiança e bastante rancor.

Servidores e bloggers

Isto, desde os atentados de Bombaim, está pior e pior. Agora também me afectou a mim. Sabe-se lá porquê, mas os gatunos cibernéticos aqui do bairro (que detêm o monopólio do serviço para esta parte da cidade) mudaram-me para outro servidor. E, de repente, deixei de poder aceder aos sites blogspot.com e de enviar mensagens via Outlook. Depois de umas investigações em sites de "nerds" descobri que, por ordem do Governo indiano, vários portais de bloggers e mesmo o Yahoogroups foram parcialmente interditos em solo indiano. Para voltar a relatar-vos a vida em Deli, imaginam certamente a dor de cabeça que foi reverter o processo e voltar ao servidor antigo. Felizmente, tudo correu bem, e cá estou eu, com mais ou menos atentados.

domingo, 3 de setembro de 2006

Imagens de Deli: Jama Masjid

A mesquita central de Deli, a Jama Masjid, domina a Velha Deli e os seus animados bazaars. É a maior mesquita na Índia e provavelmente uma das maiores fora do Médio Oriente. Na fotografia, tirada do cimo de uns dos seus dois minaretes, vê-se, ao fundo, o imponente Forte Vermelho (Lal Quila). É do seu Portão Lahore (no extremo esquerdo da fotografia) que Jawaharlal Nehru declarou a independência da Índia à meia-noite do dia 15 de Agosto de 1947, enquanto que hindus e muçulmanos se cruzavam e chacinavam ao longo da nova fronteira indo-paquistanesa. É do Lahore Gate que discursa, todos os anos, o primeiro-ministro da Índia, durante as comemorações do Dia da Independência (Independence Day).

Portugal em Bangalore

Estou de volta à Índia. Acabei de aterrar ontem à noite m Deli, vindo de ... Bangalore! Não. Bangalore ainda não se tornou num verdadeiro Silicon Valley e em mais uma "Goa", ou seja, uma ilha quase estrangeira em solo indiano.

Estive em Bangalore, no Indian Institute of Managment, a acompanhar a visita do grupo de estudantes do MBA Executivo da AESE, Escola de Direcção e Negócios, Lisboa. 40 e tal portugueses numa autêntica redescoberta da Índia, tanto perante os professores de gestão indianos no anfiteatro, bem como perante os mendigos e pedintes na rua. Um excelente porgrama de uma semana coordenado pelo Prof. Viassa Monteiro (como sempre, um goês a fazer a ponte entre Ocidente e Oriente), com oradores muito reputados e visitas a empresas e indústrias de grande relevância para o futuro da economia... portuguesa.

Acima de tudo, os participantes trouxeram consigo um pouco de Portugal. Para bem e para mal, mas soube-me bem beber um pouco de Portugal em Bangalore. Em especial, em conversas e observações, permitiu-me olhar de novo para a Índia com a mente virgem e pura, como se fosse a minha primeira vez também.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Imagens de Deli: Mosteiro de Ki (Spiti)


(Fotografia: João Reis Nunes)

Templo dos Vistos

A poucos quilómetros de Hiderabad, capital do estado de Andra Pradexe, encontra-se situado um dos mais belos exemplos da capacidade indiana de negociar, interpretar e assimilar as influências externas. Não é por acaso que a Índia apresenta-se como um dos objectos de estudo preferidos dos investigadores internacionais que se debruçam sobre a globalização.

O Templo Chilkur Balaji, dedicado a uma divindade local representando Vixnu, é popularmente conhecido como Templo dos Vistos ("Visa Temple"). É que, crê-se, abençoa os que se candidatam a vistos de trabalho para entrarem nos Estados Unidos. Sendo esse um dos objectivos mais preciosos na Índia contemporânea, o templo (arquitectonicamente muito pobre) atrai milhares de peregrinos de toda a Índia que aqui vêm orar e pedir que a divindade lhes conceda um visto de entrada. Chega a atrair mais de 100 mil pessoas numa semana.

Reza a tradição que, poucos dias antes da vital entrevista pessoal no consulado ou na embaixada norte-americana, os candidatos-devotos devem circundar (pradikshan) o templo e louvar a divindade entoando cânticos. Caso lhe seja concedido o visto (por Vixnu, claro), devem voltar e voltar a circundar o templo, nada mais, nada menos, do que 108 vezes.

Para quando um templo destes em Portugal? Talvez um Templo do Benfica tivesse mais sucesso. Afinal, quem é que precisa de vistos, e para quê?!

domingo, 27 de agosto de 2006

Sofisticação

Tudo começou quando, nas minhas leituras matinais, me deparei no Times of India com uma afirmação de um qualquer funcionário de uma multinacional do sector da aviação comercial. Comentando o episódio em que um avião da norte-americana Northwest Airlines interrompeu o seu percurso Amesterdão-Bombaim e foi escoltado de volta por caças F16 para a Holanda, por suposta ameaça terrorista, o sujeito diz que "isto são coisas que acontecem quando pessoas não-sofisticadas começam a voar".

Basicamente, o pessoal de bordo e os "marshalls" à paisana, avisaram o capitão que havia "sujeitos suspeitos muçulmanos" a trocarem de lugar sem autorização, a trocarem entre si sacos e telemóveis (um deles chegou a soar no momento de descolagem). Aqui está, portanto, a "não-sofisticação" que levou caças holandeses a descolar, um avião inteiro a dar meia-volta e doze indianos a serem detidos, revistados e interrogados. Entretanto, os "não-sofisticados" já chegaram à Índia e aos seus lares nos subúrbios de Bombaim, estando mais do que provado que são tão terroristas como Jesus Cristo. Afinal, onde é que está a sofisticação toda?

A história lembra-me um "cartoon" num jornal indiano. Aludindo ao facto de as novas companhias aéreas de custo reduzido estarem a revolucionar o sector de transportes na Índia e possibilitarem mais e mais pessoas a optar pela via aérea, vêem-se dois sujeitos sentados lado a lado num avião. O primeiro, um homem de classe alta, bem vestido, com pasta de negócios por debaixo do braço, confortavelmente instalado. O segundo, um homem de classe baixa, mal vestido, com a trouxa por cima do ombro, pouco à-vontade. Exclama o rico, do alto da sua suposta superioridade e cheio de escárnio : "Da próxima vez vou mas é de comboio!".

sábado, 26 de agosto de 2006

Imagens de Deli: Mosteiro de Kungri (Spiti)

Leituras indianas (1)

Já aqui tinha referido o sucesso literário do Mein Kampf por estas bandas. Na minha universidade não são poucas as cópias do livro de Adolfo que eu vi, naturalmente abertas numa página qualquer, numa esplanada ou num quarto de residência. Inquiridos sobre o porquê desta leitura, a maioria responde que se trata de um "clássico" e que, "muito bem escrito", dá "ideias claras e puras".

É verdade que não são necessariamente os jovens comunistas a lerem o livro. Entre os casos que observei, contam-se especialmente os jovens alistados no ABVP, a juventude partidária dos nacionalistas hindus do Bharatiya Janata Party, que formou governo entre 1999 e 2004. O que deixa adivinhar os motivos de interesse pelo livro alemão. Há uma tremenda tentação indiana de sucumbir ao autoritarismo e à disciplina totalitária.

A discussão sobre o perído de Emergência, em que Indira Gandhi governou o país com mão de ferro nos anos 70, é, alías, das mais apaixonadas. Fê-lo em nome da democracia, ou a custo da democracia? Fê-lo em nome da maioria, ou a custo da maioria? "Regenerou" ou "dilapidou" o património democrático indiano?

Confrontados com uma sociedade assente em pilares que negam toda e qualquer racionalidade de cunho moderno, há esta vontade de disciplinar o caos. O caos do tráfego rodoviário, mas também o caos das centenas de castas e subcastas, e o próprio caos cósmico hindu.

Quando começam a falhar os mecanismos tradicionais de ordenamento social (a religião, por exemplo), e quando se lhe junta o namoro com a doce opção da modernidade racional e formal (especialmente num campus universitário nehruviano), emergem alternativas radicais, como a proposta pelo nacional-socialismo.

Não é, portanto, a simples vontade de exterminar minorias ou homogenizar a sociedade que leva estes jovens a ler "A minha luta" com admiração. É mais do que isso: é a necessidade de procurarem métodos e fórmulas alternativas de reorganização da sua sociedade, ou civilização, afectada por uma turbulenta fase de transição. Não querem ser párias, escravos, órfãos ou mestiços. Querem continuar a ser "indianos".

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

A força do dinheiro

Anda tudo à procura de novos mercados e mais consumidores. A linguagem do dinheiro não conhece fronteiras. Faz homens e mulheres viajarem milhares de quilómetros e juntar as mãos, por exemplo.

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Imagens de Deli: De autocarro em Spiti

Alerta máximo

Mais duas ligações para duas peças radiofónicas para a RR produzidas nos últimos dias, sobre o alerta máximo que a Índia vive depois dos atentados de Bombaim, dos avisos dados pelos serviços de informação norte-americanos e dos planeados atentados transatlânticos de Londres. Um primeiro directo para o noticiário das oito da manhã no dia, no dia 11, e um segundo comentário, com um título um pouco estranho, no dia 13.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Papagaios independentes

É dos espectáculos mais deliciosos a que jamais assisti. Por tradiçao, em cada Dia da Independência, a 15 de Agosto, as crianças sobem aos telhados de Deli e lançam milhares de papagaios ao ar. Como que festejando a sua própria independência das paredes que normalmente as rodeiam.

Alguns papagaios são modestos, à medida da posse dos donos e feitos em casa, outros magníficos, comprados nas lojas da moda e em forma de Homem Aranha ou Homem Morcego que dão no Disney Channel. Os céus enchem-se de cores e de gritos e exclamações de alegria. Os mais malandros organizam concursos e competições: quem consegue alcançar as maiores alturas, fazer os movimentos mais complexos ou a velocidade mais estonteante.

Outros constroem autênticas máquinas: o fio é passado por cola e depois passado por estilhaços de vidro e munido de picos metálicos, tudo para cortar os fios dos outros papagaios e conquistar o monopólio das atenções. Obviamente, a consequência são batalhas aéreas impressionantes e... muitos papagaios moribundos, caídos nas ruas e nos telhados.

É esse dos momentos que eu mais aprecio: enquanto estou no quarto, a ler ou ao computador, e vejo um papagaio colorido a cair lentamente no meu terraço, sem dono, para o seu repouso final.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Estado de sítio

Hoje, 15 de Agosto, é Dia da Independência na Índia, celebrando a data em que o Reino Unido deixou de ter uma patada colonial no subcontinente. Mas o problema agora é outro. Mais do que nunca, especialmente depois de Bombaim, a Índia receia atentados terroristas. Sendo esta a sua capital, onde amanhã o seu primeiro-ministro discursará das muralhas do histórico Forte Vermelho, respira-se por todo o lado o estado de sítio. 10 000 polícias e paramilitares, baterias anti-áereas, controlos rodoviários, um pouco de tudo. Acho que vou ficar em casa.