terça-feira, 6 de março de 2007

Compra de legumes

Enquanto escolhia uns tomates e uns limões, na margem da ruela, uma vaca ao meu lado penetrava um minúsculo templo com o seu foçinho esfomeado.

Preços

Quanto mais entro adentro, pelas magras e sujas ruelas da aldeia, mais os preços dos legumes baixam.

Imagens de Deli: Vendedores de fruta

É aqui, com um rapazinho de uma dezena de anos de idade, que eu costumo comprar fruta. Engana-me muitas vezes, mas não deixa de sorrir (porque sabe que eu sei) e a lembrar-me que eu sou "special customer" e que devo comprar fruta só com ele.

Mediano vs. Extremo, na Índia e no Ocidente

Tenho dado por mim, em contraste com os meus demais colegas universitários e mundo académico e político indiano, a defender repetidamente opções intermédias, moderadas e centrais numa variedade de debates, mas também em escolhas simples como a de uma caminho, num entroncamento rodoviários com três saídas.

Tenho observado o mesmo entre os restantes europeus e ocidentais que por cá andam. Sem chegar a ser uma lei, observa-se, no entanto, uma tendência muito premente para a moderação, uma necessidade quase pavloviana de respondermos 2 quando somos intimidados a escolher entre o 1, o 2 e o 3. Os indianos, ao contrário, tendem a preferir o 1 e o 3. Reitero que esta minha observação se aplica a uma variedade de casos, desde a ideologia política à escolha de um legume no mercado.

No meio académico ocidental, por exemplo, é frequente um autor começar o seu artigo explanando que há três escolas de pensamento, três aproximações possíveis a um objecto de estudo ou três teorias acerca de um fenómeno. Há muito que venho a reparar que, em muitos - talvez a maioria - dos casos, é natural que ele defenda a segunda escola/aproximação/teoria, justificando a sua escolha por se tratar da escola/aproximação/teoria mais "conciliatória", "abrangente", "moderada" ou "de compromisso". Uma estrutura introdutória deste tipo não é, no entanto, frequente na Índia. E, quando veiculada, não é apreendida da mesma forma lógica com que nós a apreendemos na Europa, por exemplo.

Reitero: nós, à partida, revemo-nos nessa escolha da escola/aproximação/teoria intermédia que o autor nos apresenta. Isto é, o 1, 2, 3 não é uma mera organização ao acaso. O 2 perde a sua essência se colocado em primeirou ou terceiro lugar, os extremos do continuum. A sua situação intermédia dá-lhe, desde já, uma mais-valia e legitimidade que, embora limitada e depedente do restante artigo e de demais considerações prévias que o leitor possa fazer, advém do seu mero posicionamento antagónico aos extremos.

Por mais que o mundo académico indiano esteja ocidentalizado - e é-o, em grande medida - não vejo os indianos a extraírem igual legitimidade de uma estrutura destas. Isto é, a mera situação intermédia, em segundo lugar de três, de uma escola/aproximação/teoria, não lhe dá nenhuma mais-valia nem qualquer particularidade em comparação com as outras.

Arriscaria mesmo a afirmar que se observa o contrário. A escola/aproximação/teoria intermédia tende a ser abordada com fortes suspeitas, o seu carácter incerto, híbrido, amorfo ou mediano (qualidades positivas no contexto ocidental) assumindo uma dimensão negativa e indesejada, porque fraca. O mediano é, portanto, eternamente medíocre aos olhos indianos.

Holi

Ontem celebrou-se o Holi, o chamado festival das cores sobre o qual já escrevi aqui, em anos passados. Depois da orgia de cores de ontem, numa espécie de Carnaval em que vale tudo e as pessoas se cobrem de pós coloridos, água e demais substâncias, hoje reparei em duas coisas: quase todas as pessoas com o cabelo bem lavadinho (coisa rara) e muitas ainda com marcas de cor à volta ou por trás das orelhas, nas mãos ou na nuca.

Imagens de Deli: Carregando lenha

Contra-mão

Nos corredores, e nos locais de passagem pedonal mais apertados, é frequente eu provocar microchoques culturais: à portuguesa (ou continental europeia), coloco-me automaticamente do lado direito e chego a chocar quase de frente com o outro transeunte. Logo que noto o meu erro, passo para a esquerda, só para me deparar de novo frente ao mesmo transeunte, que, de igual forma educada, obedeu à mesma lógica não-confrontacional e passou para o lado igual. Quando se trata de um homem, tudo bem, lá se resolve com um sorriso ou comentário. Quando se trata de uma mulher, porém, vejo a minha vida a andar para trás.

domingo, 4 de março de 2007

Paradigmas (Atlântico)

Mais uma minha Passagem para a Índia, na Atlântico deste mês (nº24), nas bancas esta semana. Essencialmente, sobre a medíocre cobertura que a imprensa portuguesa fez da excelente visita presidencial a este país. Aqui segue um suculento excerto:

"Tentar perceber um país com mil milhões de habitantes, 28 estados e 23 línguas oficias em poucas horas, talvez com a leitura apressada de um guia turístico no avião, obriga à escolha da via fácil que é a da rendição perante os clichés e paradigmas que continuam a dominar o imaginário português da Índia. Em vez de inovarem e refrescarem imagens, os jornalistas limitam-se assim a perpetuá-las e a cristalizá-las, mantendo o público refém de repetidas coberturas superficiais e vesgas. (...) há o inescapável paradigma dos contrastes. A Índia da diversidade das cores, dos cheiros, das religiões e das disparidades. Confrontado com o desconhecido, aflito por se saber incapaz de aprofundamento sem a devida preparação e dedicação, o jornalismo português refugia-se no facilitismo relativista. Os contrastes indianos são a chapa ideal, servindo de linha de fundo a tudo, sem excepção."

Imagens de Deli: Alfaiate

sexta-feira, 2 de março de 2007

Naxalitas

Lendo este bom artigo sobre o fenómeno da resistência naxalita no interior e leste do país, lembro-me da transformação semântica de que a palavra "affected" tem sido alvo na Índia, nos jornais e até nos debates universitários da JNU que primam pelo politicamente correcto. Já não se fala em Naxal-affected districts, mas em Naxal-infested districts ou Naxal-infected districts. Subtil e simbólico.

Imagens de Deli: Menino pedinte

Explicaram-me tudo há já várias semanas, por isso já não me lembro bem. Mas a ideia geral fica: meninos como este à esquerda só se vêem aos Sábados, especialmente de manhã. Para afastar os azares, é suposto colocar algumas moedas no pote fumegante com óleo. Perguntei a vários amigos meus a origem desta tradição. Ninguém me soube dar explicações exactas. "É assim, há muito tempo", repetiam. O menino ao lado, é claro, vende jornais todos os dias.

5 paisés

Uma Rupia indiana é composta por cem paisés. Como a Índia emerge, e a inflação também, hoje já ninguém quer ouvir falar em paisés. Mas hoje, no banco, vi uma circular do Reserve Bank of India anunciando a retirada de circulação de várias moedas de paisés. As únicas que eu tenho visto são as de 50 paisés. Abaixo disso, nunca me passou nada pelas mãos.

Mas que elas existem, existem, e a circular que eu vi é prova disso. A moeda de menos valor a retirar da circulação são 5 paisés, uma bela moeda que, reconheci pela foto ao lado, já tinha visto há uns quinze anos em casa da minha avó, em Goa. Ora, para ficarem com uma ideia, 1 Rupia indiana equivale sensivelmente a 2 cêntimos de Euro. Logo, a linda moeda que está a ser retirada das bolsas indianas tem um valor aproximado de 0,1 cêntimos.

Se me chegar uma destas moedas à mão e se eu conseguir comprar alguma coisa com ela, eu depois aviso aqui.

Thursday Forum (again)

O Thursday Forum, a tertúlia semanal que ajudei a fundar, há dois anos, na Foreign Students' Association da JNU, continua vivo. Prova disso foi a sessão de ontem. O actual coordenador convidou-me para falar sobre migrações e "porque é que somos todos migrantes".

Na presença de mais de uma vintena de estudantes, o debate foi, como sempre, tórrido e culturamente polifónico, estendendo-se para além da meia-noite: creio que estavam representadas, pelo menos, quinze nacionalidades, para além de um grupo de palestinianos apátridas, refugiados em Nova Deli depois de terem abandonado o seu Iraque adoptivo (desde 1948).

Para além dos estudantes estrangeiros mono-nacionais, imigrantes temporários, havia ainda os casos interessantes de um sudanês de nacionalidade canadiana ou o de uma peruana licenciada nos Estados Unidos, inscrita num mestrado na Alemanha e actualmente de intercâmbio na Índia. Ou o caso da paquistanesa com residência na África do Sul. Um investigador indiano a trabalhar sobre a diáspora afegã em Nova Deli. Um sudanês a viver há 12 anos na Índia. O norte-americano de origem indiana, do Querala. Imigrantes internos: um caxemire e uma bengali. Etc. Resumindo, foi mais um excelente fórum nocturno, essencialmente diaspórico.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Estive em Lisboa

Por um momento, um breve momento, estive hoje em Lisboa. Sentado num restaurante tipo ocidental, com saladas, sanduíches e massas, na companhia integralmente portuguesa da Rosa Maria Perez, do Gustavo Cardoso, da Cláudia e da Inês, bem como do João Pedro Faustino, decorria a conversa em bom português quando, distraidamente olho para o meu lado direito e reparo num casal indiano. Por um momento, tinha regressado a Lisboa, suscitando o meu interesse o facto de estarem indianos no mesmo restaurante do que eu. "Olha, indianos", pensei.

Dilúvio

Se uns pingos de chuva são já uma raridade no Fevereiro deliense, então imaginem um dilúvio. A tromba de água que este início de noite se abateu sobre a cidade capital veio adiar, um pouco mais, o tórrido Verão que se avizinha. À luz dos relâmpagos, o ar urbano nunca esteve tão límpido. Mas se para mim foram momentos estéticos, para muitos outros, foram certamente momentos de aflição, as esburacadas lonas de plástico cedendo água fria para cima das poucas posses e dos muitos queridos.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Goa Bachao (Expresso)

Ora cá está um dos resultados da minha ida-relâmpago a Goa, por dois dias, aquando da visita do Presidente da República a Goa. Acompanhando a Luisa Meireles e o Luiz Carvalho (fotografia), dei-lhes a conhecer uma Goa diferente daquela dos nostálgicos velhinhos goeses lusófonos de olhos azuis em lágrima, ou daquela dos cafés e restaurantes com nomes portugueses. A Goa de hoje, portanto.

Esta reportagem, publicada na Única, é por isso, de certa forma, uma resposta minha às críticas que tenho lançado sobre a forma (displicente, simplista ou superficial e emocional) com que a imprensa portuguesa tem, na maioria dos casos, olhado para Goa e a Índia, em geral. Há excepções, é claro (ver a minha Passagem para a Índia na revista Atlântico de Março). Mas, regra geral, a grande distância que ainda separa Portugal de Goa, deve-se em grande medida a esta incapacidade mediática portuguesa em apreender a Goa de hoje, tal como ela é, para além de todas as saudades e lágrimas.

Expresso, Revista Única, 27 Jan. 07, edição 1787
GOA BACHAO

O pequeno paraíso perdido e frágil de Goa está em perigo. Um movimento, Salvar Goa (Goa Bachao), quer preservá-lo

IGREJA da Nossa Senhora da Imaculada Conceição, um ícone da velha Goa

É quase um grito de desespero: «Goa Bachao», Salvar Goa! Desde há dois meses, é isto que se ouve em Goa, é disto que se fala neste minúsculo paraíso cada vez menos perdido de 3.700 quilómetros quadrados, uma área só um pouco maior do que o distrito de Leiria. «Devolvam-nos a nossa verde Goa» - «Aamchem goem amka parat zai» - assim apela em concani, a língua local, o médico Óscar Rebelo, um goês que fala um português perfeito e que lidera o movimento: «Que este grito de guerra ressoe em cada aldeia do estado de Goa.»

Num domingo à tarde, faz agora 15 dias, era também isto que se ouvia num comício realizado na praça municipal de Quepem, uma pequena vila do interior. Um sol ainda abrasador apesar do adiantado da tarde, mas que não afastava os participantes do pequeno comício: mulheres gastas, idosas, sentadas nas cadeiras com os seus panos na cabeça a protegerem do sol, os homens de pé, junto aos muros. No palco, tudo preparado para receber o estado-maior do movimento Salvar Goa (Goa Bachao Abhiyan), que tarda. São cinco horas e o comício anterior, na cidade de Margão, ainda não acabou.

Bela Hortênsia Matilde Fernandes, de seu nome completo apesar de não falar uma palavra de português, é uma goesa de 53 anos que veio ao comício porque quer protestar: «Estão a vender Goa aos nossos inimigos.» Inimigos? «A gente de fora, estrangeiros e de outros estados.» Junto dela, Ajay Pereira, que se apresenta como um empresário-agricultor de 35 anos e parece ser o elemento de ligação local do movimento, acrescenta que ali, em Goa, «a cultura é diferente do resto da Índia». «É ocidental por causa da herança portuguesa», diz ele, mas não tem ilusões de que são todos indianos. «Acreditamos na Índia, mas não acreditamos nas pessoas que trazem para cá imigrantes, que constroem casas e nos tiram as terras. Como é que depois nos vamos alimentar?», pergunta.

PROGRESSO Goa tornou-se uma mistura de novos e velhos goeses e muitos imigrantes. Está na encruzilhada entre o progresso e a necessidade de preservar a sua identidade

As pessoas vão chegando, juntando-se rente aos muros onde estão expostos vários mapas, fotografias e recortes de jornais. Falam do Plano Regional de Desenvolvimento 2011, uma espécie de plano de ordenamento territorial, e que está na origem de toda esta confusão. Aprovado pelo Governo goês em Agosto de 2006, nos bastidores políticos, prevê a urbanização acelerada do estado, principalmente junto à costa, o alargamento das zonas mineiras, a transformação de muitas zonas florestais em zonas de habitação, tudo para dar lugar a um turismo maciço. Pelo menos cinco megaprojectos estão previstos com os seus condomínios exclusivos, campos de golfe e «resorts».

Num portefólio, estilo antes e depois, pregado no muro, mostra-se um desses sítios, uma idílica vila piscatória no Sul do estado que foi vendida a um consórcio estrangeiro. O Plano prevê a construção de um «resort» com um hotel de cinco estrelas, 800 «villas», cinemas, casino, restaurantes, bares, «boutiques», sala de conferências e de banquetes, uma marina. Para os habitantes de Quepem, por cujas ruas ainda circulam as vacas e onde só raramente se avista um turista, nada disto faz sentido.



Goa, que no fundo é uma sucessão de pequenas aldeias, tem uma linha de costa de 105 km e um máximo de comprimento para o interior de 65 km. Entre o mar e a fértil terra irrigada por dois grandes rios, o Zuari e o Mandovi, Goa tem um ecossistema frágil e delicado, santuário de muitas espécies protegidas. Para Patrícia Pinto, número dois do movimento Goa Bachao, o pequeno estado está em perigo. Mulher bonita e morena, vereadora municipal na capital Pangim, circula pelo recinto do comício, falando com as pessoas, enquanto no palanque discursa Óscar Rebelo. Em concani, pergunta se eles conhecem o plano e o que ele vai provocar e, numa verdadeira lição de política, diz-lhes que eles «é que elegem os políticos e estes têm de fazer o que eles querem, não o contrário.»

LUTA O Salvar Goa/Goa Bachao percorre todas as aldeias do Estado em sessões de esclarecimento popular, explicando as razões por que estão contra um novo plano regional

É este o método do Goa Bachao/Save Goa. Criado em Novembro e formado em Dezembro depois de um enorme comício realizado em Pangim, percorre cada aldeia das 12 talukas (concelhos) de Goa e realiza sessões de esclarecimento popular. A ideia, conta ela ao EXPRESSO, é acabar com o plano, «porque é ilegal e errado»: não cumpre as leis que protegem a floresta, nem as que regulam a costa, é contra as Comunidades (gaunkari, a histórica organização rural de Goa) e estrutura mal as cidades.

«Queremos um novo plano que tenha em conta as necessidades das pessoas, que não esteja só focado no imobiliário, que respeite os campos de cultivo e crie infra-estruturas, que não existem. Os políticos não têm visão para o futuro», acusa. «Nós não temos nada contra o facto de Goa ser um destino turístico, mas a terra e as pessoas têm de ser respeitadas.» E pergunta: «Já imaginou meter um pescador ou um agricultor dentro dum apartamento? Que vida vai ser a dele?» Afinal, ao destruírem a beleza de Goa, transformando o território numa selva de betão, acabam precisamente com aquilo que querem promover, conclui Patrícia Pinto.

O dinamismo do movimento, criado a partir de forças espontâneas, gente com influência na sociedade mas sem representação política, e muito ajudado pela Igreja católica, acabou por alarmar o Governo. A 18 de Janeiro, perante o «ultimato» que lhe foi dado pelo movimento, retirou o Plano, mas apenas «com efeitos prospectivos». Os líderes do Goa Bachao querem agora saber o que se vai passar com as obras que estão em andamento e prometem intensificar a pressão se a retirada não for «completa e retroactiva». A decisão, seguramente, será difícil. Se, por um lado, com eleições à vista para Maio, se compreende a destreza do Governo em se ver livre dum problema, melhor se entende que muitos negócios já foram realizados e muito dinheiro passado de mão para mão, conforme dizia um observador.

Mas o problema persiste e ilustra a encruzilhada em que se encontra o minúsculo estado de Goa, confrontado por um lado com as necessidades do progresso e, por outro, com o tremendo impacto da abertura.

Desde logo, é notório o descontentamento face aos imigrantes que foram chegando desde a entrada de Goa na União Indiana, em 1961, primeiro como território da União, depois como 25.º estado da República, em 1987. Ninguém sabe quantos são ao todo, mas pensa-se que, dos 1,3 milhão de habitantes que conta Goa, 500 mil serão oriundos de outros estados indianos. «Tenho medo de perder a Goa que conheço, de sermos exterminados», dizia o jovem jornalista Andrew Pereira, que já não fala o português, é católico, mas não deixa de conhecer a sua divindade hindu, Kamakshi, nesse sincretismo religioso tão próprio dos goeses. «Cada vez são menos os que falam concani. Goa está a ser explorada e nós temos de acordar», dizia.

Sentimentos como o de Andrew não são raros e inúmeros novos movimentos procuram dar-lhe voz, como o Save Dabolim Committee, que se opõe à construção de um novo aeroporto internacional e defende a ampliação do actual (ocupado pela Marinha indiana desde 1961) ou promove o reconhecimento oficial da língua concani em escrita romana (e não só no devanagárico indiano).

Há quem comece a defender opiniões mais radicais, a falar de autonomia e até de separatismo. Tudo efeitos do fatídico dia 18 de Dezembro de 1961 que alguns goeses não parecem ter digerido bem. Se para o discurso oficial foi o dia da «libertação», outros preferem o termo «invasão», vendo no pós-1961 um novo tipo de colonialismo, a partir da longínqua Nova Deli. Há quem se queixe de que nem o hino nacional indiano percebe, porque é cantado em bengali, língua desconhecida em Goa. E quem se afirme cada vez mais como «anti-indiano»: «Goa é diferente», afirma peremptório Anthony Fernandes, um outro jovem, trabalhador numa empresa de telecomunicações.

Mas diferente em quê? A ouvir Nagesh Karmali, poeta e escritor hindu, membro dos chamados Combatentes pela Liberdade, um movimento que lutou contra o regime português, Goa não é diferente em nada do resto da Índia. «Somos social, étnica, cultural e racialmente os mesmos», dizia ele ao EXPRESSO, sentado na cadeira de baloiço da sua casa. Anti-português que fala português perfeitamente, Karmali tem no escritório da sua casa a colecção completa das obras de Fernando Pessoa em português - «porque a sua poesia é universal». Mas o legado português, resume, «não foi nenhum e limita-se às casas e à arquitectura».


AMEAÇA As antigas várzeas onde desde sempre se cultiva o arroz estão agora em perigo de se transformarem em condomínios de luxo para fins turísticos


Narana Coissoró, goês de origem há muito radicado em Portugal, diz o contrário: «Existe uma goanidade, uma identidade goesa forte.» Na sua opinião, ela baseia-se no facto de desde cedo ter tido uma estrutura ocidental de Estado moderno, completamente diferente do que acontecia no resto da Índia e de o Código Civil ser aplicado no território desde finais do século XIX a toda a população, mesmo a hindu. «A 18 de Dezembro de 1961, Goa era administrada totalmente por goeses», afirma ainda, enquanto acrescenta a rir que, em Goa, «até os brâmanes comem carne».

Goa testemunha agora um consenso alargado de que está em perigo. Dos saudosistas lusonostálgicos aos nacionalistas hindus que vandalizam património português de picareta na mão, e até entre as gerações mais novas, há um sentimento geral de pessimismo, de receio perante os novos desafios. Para Vivek Menezes, escritor goês formado nos Estados Unidos, Inglaterra e França mas que optou por ir viver na sua terra-natal, o futuro não se afigura tão mau assim. «Goa foi o epicentro da primeira vaga de globalização, versão 1.0», afirma, comendo um bife no arejado primeiro andar do Clube Vasco da Gama, em Pangim. «500 anos depois, estamos do lado dos perdedores nesta globalização 2.0, mas temos excelentes condições para criarmos a versão 3.0», diz, sublinhando o facto de um movimento local, como o Goa Bachao, estar a provocar repercussões e atenção a nível nacional e mesmo mundial.

Reportagem de Luísa Meireles (textos) e Luiz Carvalho (fotografias), enviados à Índia, com Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli


A autonomia goesa através dos tempos

Século XI
A dinastia goesa dos Kadamba separa-se de outros reinos e governa Goa, com grande autonomia


1629
Entre a saída e a chegada de um novo Vice-Rei, a administração da Índia Portuguesa passa a caber a Conselhos de Governo locais, que incluem goeses

1787
A Revolta dos Pintos, engendrada por padres goeses de ideais republicanos, é abortada pelas autoridades coloniais


1821
Caso único no Ultramar, a Índia Portuguesa passa a ser representada por deputados goeses em Lisboa


1835
Bernardo Peres da Silva é proclamado governador, sendo o primeiro e único goês a ocupar essa posição


1866
O deputado Francisco Luís Gomes publica a sua obra «Os Brahamanes», em que se reflecte um emergente sentimento nacionalista


1928
Com a fundação do Goa Congress Committee, por Tristão de Bragança Cunha, inicia-se o movimento anticolonial a favor da integração na Índia


1945-61
Alfredo de Mello, deputado em Lisboa, e os intelectuais do Círculo de Margão, liderados por António Bruto da Costa, defendem a autonomia ou independência de Goa


1967
Em referendo, a maioria dos goeses vota contra a integração de Goa no estado vizinho do Marástra


1987
Após maciças campanhas de protesto, o Parlamento da Índia reconhece oficialmente a língua concani e Goa como estado

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Aldrabando: Jornais em segunda mão

Consta que na papelaria central de Connaught Place, onde se acede à maior oferta de imprensa internacional, há jornais em segunda (ou terceira e quarta) mão a serem vendidos como novos. Prova: num Nouvel Observateur o Sudoku vem preenchido e alguns artigos vêm anotados. Cortesia, provavelmente, de um qualquer entediado passageiro francês, de um empreendedor empregado de limpeza aeroportuário e de um pouco escrupuloso dono de papelaria.

Imagens de Deli: Trânsito

O mundo lusófono em Nova Deli

Alunos durante uma das sessões

Como terão acompanhado por aqui, coordenei em conjunto com o João Pedro Faustino (leitor do Instituto Camões) um curso sobre "The Lusophone World: Social, Cultural and Political Aspects" na Universidade de Deli.

Durante quinze sessões, entre Setembro e Fevereiro, demos a conhecer a mais de cinquenta estudantes e investigadores indianos, a realidade social, cultural e política do mundo lusófono, cobrindo não só os sete países de expressão oficial portuguesa, mas também assuntos como a CPLP, as comunidades portuguesas, as comunidades lusófonas não-soberanas e as relações entre a Índia e o mundo lusófono.



O grupo de alunos, comigo e o João Pedro ao meio

Na maioria das sessões contámos com a presença de convidados de vários países lusófonos. Foi o caso da Priscila Tróia, uma brasileira directora de um centro de cultura latina, do Filipe Honrado, conselheiro económico na Embaixada de Portugal, da Elisa, estudante moçambicana na Universidade de Deli, do Miguel Costa, jovem profissional português em Gurgaon, da Marilda Batista, professora brasileira na Universidade Jawaharal Nehru, entre outros.

Na sessão de encerramento, há uma semana, entregámos mais de vinte certificados a todos os alunos que assistiram a dois terços das sessões e que entregaram um ensaio final sobre um tema relacionado com a lusofonia. Para nos falar brilhantemente sobre "India, Portugal and the Lusophone World: Past, Present and Future", esteve presente a ex-embaixadora indiana em Portugal, Madhu Bhaduri. No final, foi exibido um documentário sobre Timor-Leste.

A Embaixadora Madhu Bhaduri, durante a entrega de certificados

Foi um curso organizado praticamente a custo zero e que partiu da nossa iniciativa voluntária (e não-remunerada). Foi um curso, ouso dizer agora, em balanço, que promoveu a imagem de Portugal de uma forma inestimável.

Um guineense em Nova Deli

Liga-me ontem alguém da Foreign Students' Association: "ligou alguém a perguntar pelo teu contacto, mas não fala inglês".

24 horas depois, encontro-me com o Juvenal Cabral, jornalista da Televisão Pública da Guiné-Bissau, frequentando um curso livre sobre jornalismo no Indian Institute of Mass Communication (vizinho à minha universidade). Na Embaixada da Índia, em Dakar, tinham-lhe prometido que iria ter tradutor à disposição, mas, uma vez chegado a Nova Deli, deparou-se com uma terrível barreira linguística: o curso inteiro ministrado em inglês e ele reduzido à língua de Camões. E quatro longos meses indianos e anglófonos à sua frente, longe da mulher e dos filhos.

Sem representação diplomática guineense em Deli, soube pela nossa Embaixada da minha presença e, por via de mais duas ou três coincidências, conseguiu ligar-me. Estava a passar um mau bocado, disse-me. Um passeio pela minha universidade, um chá, umas apresentações a demais estudantes estrangeiros e, acima de tudo, uma bela conversa lusófona e benfiquista, fizeram toda a diferença. Para mim também, foi um prazer redescobrir a África lusófona aqui em Deli, depois dos dois fraternais anos passados em coabitação com o Chacate, de Moçambique.

Entre um "sinto saudades da minha terra" e um "obrigado, hoje já me sinto mais desanuviado", despedi-me e ficou combinado um almoço (bacalhau, é claro) em minha casa. Já iniciava eu a aceleração da minha vespa quando o Juvenal exclama, mãos no ar: "avisa o nosso resultado amanhã, ok?".

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Do Porto para Wall Street, via Índia (Expresso)

Aqui vai mais uma peça minha, no contexto da orgia indiana que assolou a imprensa portuguesa em Janeiro passado, sobre um dos poucos portugueses que por aqui se aventuram, o meu amigo Miguel.
Expresso, Revista Única, 20 Jan. 07, edição 1786

Do Porto para Wall Street, via Índia

Levou na mochila Vinho do Porto, latas de sardinha e computador portátil. A 12 mil quilómetros do sítio onde nasceu, Miguel Costa ganha menos do que colegas seus em Portugal mas viu isso como um investimento

‘CASUAL DAY’. Às sextas, Miguel troca o fato e gravata por algo mais informal. Vai sempre de riquexó para o escritório


Miguel Costa engole a chamuça e lambe os dedos. Balbucia algo em hindi para o vendedor ambulante e entrega-lhe duas rupias (quatro cêntimos), enquanto, ao seu lado, num baldio, uma vaca remexe no lixo. Ao fundo, emergem três brilhantes torres, sedes de multinacionais. Estamos em Gurgaon, um subúrbio da capital indiana, Nova Deli. Este é um dos centros do milagre económico que é a Índia desde 1991. Há um ano que o portuense Miguel Costa, de 23 anos, também faz parte desse milagre.

«Isto há dez anos era só uma aldeia», nota, observando as torres que parecem ter emergido do nada, rodeadas por arruamentos inacabados e alguns campos trabalhados por agricultores resistentes aos ventos da globalização. Tal como Gurgaon, também Miguel vive uma fase turbulenta da sua vida.

Em Fevereiro de 2006, Miguel era só mais um recém-licenciado pela Faculdade de Economia do Porto, com «uma média baixa, 12». Agora está a 12 mil quilómetros, na Índia, a preparar-se para viajar para Nova Iorque. É lá, longe das vacas e das torres indianas, mas também da sua casa na Maia, que irá aconselhar um gestor de um dos dez maiores bancos de investimento do mundo. «É mesmo em Wall Street, já confirmei o código postal», sorri orgulhosamente.

Miguel trabalha na Evalueserve, a empresa pioneira no «outsourcing» de processos empresariais baseados no conhecimento, com 1400 empregados. «Há médicos, economistas, advogados e engenheiros, de todo o mundo. Recolhemos e analisamos dados de vários segmentos de mercados para clientes de todo o mundo», explica. Miguel entra antes do meio-dia e sai depois das dez da noite. Deu-se bem - e o cliente pediu à empresa para que lhe renovasse o contrato e o enviasse para os seus escritórios.


ALMOÇO. Miguel começa a trabalhar ao meio-dia e sai depois das dez da noite

Choque cultural

Tudo começou quando uma oferta de emprego da Evalueserve cativou o interesse de Miguel na Internet. «Queria mudar de ares. Estava farto da minha vidinha. E a Índia, como potência emergente, oferecia-me boas garantias para o meu futuro», explica.

Ao receber uma resposta positiva da Evalueserve, a comida picante, o choque cultural, o tórrido Verão de Deli e os potenciais riscos associados a uma vida na Índia não o impressionaram. Nem a oposição da mãe. Poucos dias depois, descolava do Aeroporto Sá Carneiro em direcção à Índia. Na sua mochila iam alguma roupa, o computador portátil, umas latas de sardinhas e duas garrafas de vinho do Porto.

«Estou a viver num país complicado e estranho e ganho menos do que muitos dos meus colegas que estão em Portugal. O choque da chegada também foi assustador», admite. «Mas é tudo uma questão de hábito», acrescenta logo. Não houve tempo para ter medo. Menos de vinte e quatro horas depois de ter aterrado no Aeroporto Internacional Indira Gandhi, já tinha ido às compras com novos amigos, conhecido a sua futura namorada, a francesa Marguerite, e sido apresentado na empresa. «Mergulhei e comecei logo a trabalhar», lembra.

Desde então, Miguel embarca todas as manhãs, de fato e gravata, num riquexó verde e amarelo, em direcção ao seu escritório. Às sextas-feiras a empresa autoriza uma vestimenta mais informal - é o «casual day» - o que tem o benefício de atrair menos pedintes nos semáforos.

«Se eu quisesse viver melhor agora teria ficado no Porto», sublinha. É talvez por isso que repete várias vezes que não lhe interessa o dinheiro e se recusa a dizer quanto ganha. Miguel partilha um quarto com a namorada. O que resta do salário no fim do mês é gasto em pequenos fins-de-semana nos Himalaias. Sempre em autocarros e nos hotéis mais baratos, como um indiano da classe média ou baixa.

Para Miguel, esta é «uma estratégia racional e calculada». «Estou a construir uma carreira para chegar aos 30 e ser dono do meu destino. Quero ser eu a dizer onde e como quero trabalhar e quanto quero ganhar. Os meus colegas saem da faculdade e querem ganhar logo 200 ou 300 contos. Mas a maioria fica-se por aí e nunca chega a dar o salto com que tanto sonha» - para Wall Street, entenda-se. «Estar cá é um investimento», sublinha, no seu sotaque nortenho.

Reportagem de Constantino Xavier (correspondente) e Luiz Carvalho (fotografias), enviado à Índia

Como é a vida na Índia

Antes de ir para a Índia é conveniente documentar-se sobre o país, para não sofrer um choque cultural à chegada. No que diz respeito ao emprego, podem ser encontradas ofertas em portais da Internet como os http://www.iagora.com/ , http://www.emploi-international.org/ ou http://www.monsterindia.com/. A fluência em inglês é obrigatória. Em projectos com um país específico, valoriza-se o conhecimento da sua língua e cultura empresarial. Noutras áreas privilegia-se a formação em gestão, finanças e «marketing». A empresa faz uma série de entrevistas telefónicas para testar os conhecimentos do candidato, que, a ser aceite, receberá uma carta de aceitação e um contrato, que deve assinar, para requerer o visto de trabalho na Embaixada da Índia em Lisboa (cerca de 80 euros).


Como se vive

O salário médio situa-se entre os 400 e os 1.000 euros mensais, consoante a actividade. Em Gurgaon, o aluguer de um quarto custa 100 euros (em Bangalore ou Chenai chega a ser metade). A alimentação não passa dos 10 euros/dia. Um bilhete de cinema custa dois euros e uma ligação à Internet 15 euros/mês. As empresas internacionais têm, geralmente, dezenas de empregados de diversas nacionalidades, o que cria um ambiente cosmopolita. As despesas com a saúde são reduzidas, mesmo nos hospitais de luxo. Uma consulta com um especialista custa oito euros.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Imagens de Deli: Vendedor de especiarias

Protesto II

Esta noite, numa manifestação estudantil pela "cultura democrática e contra a administração da universidade", no campus da JNU:
El povo, unido, jamas sera vencido!
The people, united, shall always be victorious!

Protesto I

Esta noite, numa manifestação estudantil pela "cultura democrática e contra a administração da universidade", no campus da JNU:
Ho, Ho, Ho Chi Minh!
We shall fight, we shall win!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Imagens de Deli: Leiteiro

Redescobrindo: Querala

A rainha do Malabar, a região onde aportaram Vasco da Gama e demais nevegadores portugueses, chama-se e escreve-se, no meu entender, Querala (e não Kerala). Eu ainda hesitava em substituir o K por um Qu, mas, como todos sabemos, em bom português não há k nenhum. Há, no entanto um problema. Querala em português é, muitas vezes, lido com ênfase na primeira sílaba (quer-ála), o que é errado pelas nossas próprias regras, mas também se tivermos em conta a pronúncia indiana, que afoga a segunda e terceira sílaba. Deve-se, portanto, dizer algo como que-rála, mas sem pausa, enfatizando (embora o menos possível), a segunda sílaba.

Um dálita e um brâmane

Há experiências de vida que são impagáveis e que me escapam mesmo aqui, em Deli. Durante o curso de investigação sobre métodos em migrações, no CDS, em Trivandrum, partilhei o quarto com mais dois colegas. Um dálita, ou "intocável", convencido de que a religião é a fonte de todos os males e condenando incessantemente as castas altas por minarem a harmonia social indiana. Outro brâmane, fiel observador dos ritos sagrados hindus. Comigo pelo meio, imaginarão a magnitude, a intensidade e a riqueza dos debates com que premiámos todas as noites.

Samjhauta Express / Schadenfreude

Veio mesmo a calhar para alguém em Islamabad.

Citações de Deli: Dalit reservations

Estas duas frases escondem a complexidade de todo um país que, pela sua diversidade, mais se assemelha a uma civilização inteira.

"The National Commission for the Scheduled Castes has rejected the demand for reservation for the Dalit Muslims and Christians on the ground that untouchability — the main criteria for reservation for this community — was peculiar to Hindu religion only. (...) However, Mr. Vaghela clarified that Sikh and Buddhist Dalits were entitled to reservation because both these religious sects were considered part of Hinduism under the Constitution."

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Quanto custa uma empregada na Índia?

Jasmina has been a member of India's child labor force for more than a year now. After her father died, her mother sent her and her sister from their West Bengal village to work as maids here. Each month, she is paid 100 rupees, or $2.25.

É, no entanto, frustrante observar que este tipo de artigos acaba, quase sempre, no mesmo tom: "...she said she dreams of another life. "I'd like to be at school," she (Jasmina) said with a crooked smile, swinging her spindly legs. "I want to be a teacher."
Menoriza e desvaloriza todo o restante artigo e empacota a sua mensagem principal de uma forma tão sentimental, clássica e típica que quase elimina qualquer impacto prévio porventura alcançado no leitor.

Imagens de Deli: Assinatura de contrato

Processo burocrático aquando da nossa assinatura de contrato de arrendamento de apartamento, em Janeiro último. Uma manhã inteira, dezenas de impressões digitais e assinaturas, muita papelada e pouca paciência.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Redescobrindo: Chenai

Há quem ainda prefere o clássico Mádras ou Madrasta, ou os que, como sempre, sucumbem ao anglicismo de Chennai. Eu, cá por mim, prefiro e sugiro Chenai, pura e simplesmente. Embora, respeitando a fonética indiana, em português, algo como Tchéné fosse mais correcto.

Aldrabando: Livros falsos

Não que os livros sejam falsos, no sentido de serem cópias ilegais (também o há, é claro). Mas nos semáforos de Deli, há sempre crianças e jovens que nos vendem livros, geralmente romances bestsellers em inglês. Vêm sempre cuidadosamente empacotados numa capa de plástico. Não por causa de um qualquer tique higiénico dos vendedores. Simplesmente porque, em muitos casos, os livros são defeituosos, faltando-lhes partes inteiras. Na pressa do "vermelho quase verde", é normal que os compradores não se dêem ao trabalho de abrir o livro e de verificarem se ele se encontra mutilado ou não. Assim, não é raro levarem para casa um livro que termina abruptamente numa página x, ou em que falta um qualquer capítulo no meio. Um livro falso, portanto.

Imagens de Deli: Advocate

Num notário no sul de Deli, um advocate espera por clientes, ao sol matinal. Basta um diploma qualquer tirado numa instituição qualquer numa década qualquer, uma cadeira, uma malita, uma garrafa de água, e um casaco e uma gravata.

Uma nação de rosto corado (Expresso)

Quase que me ia esquecendo de partilhar aqui convosco esta minha peça que trata de uma temática sempre muito cativante para quem lida com a Índia. Uma temática que merece ser tratada em livros, mas que, por razões óbvias, fui obrigado a tratar num espaço muito limitado (em todos os sentidos).


Expresso, Internacional, 1785, 13 Janeiro 07


Uma nação de rosto corado

Centenas de esculturas eróticas pontuam os templos hindus de Khajuraho, símbolos de uma sensualidade entretanto esquecida e rotulada de anormalidade ocidental

No final de 2006, a Índia festejou efusivamente o segundo lugar alcançado por Santhi Soundarajan nos 800 metros femininos dos Jogos Asiáticos. Mas, quando poucos dias depois o Conselho Olímpico da Ásia anunciou a desqualificação da atleta, por esta ter falhado num teste médico que visava confirmar o seu sexo, o país inteiro reagiu com um profundo silêncio. Soundarajan foi, mesmo assim, condecorada pelo Governo do seu estado, recebendo um prémio de cerca de 25 mil euros. O facto de a medalha de prata já não estar na sua posse foi, simplesmente, ignorado.

O silêncio envergonhado compreende-se à luz dos estigmas que rodeiam a sexualidade na Índia. Longe vão os tempos do ‘Kama Sutra’, a obra em que o filósofo indiano Vatsyayana descreve centenas de práticas sexuais, ou o período em que foram construídos os templos hindus de Khajuraho, decorados com centenas de esculturas eróticas.

A Índia sensual, em que o amor era celebrado de forma divina, deu lugar a uma Índia em que a intimidade física, o desejo e o prazer são vistos como uma anormalidade importada do Ocidente. “Qualquer debate público sobre questões de sexualidade é imediatamente ridicularizado ou hostilizado”, lembra o jovem Partha Pratim Shil, fundador da associação para as questões sexuais - «Parwaaz» -, da Universidade Jawaharlal Nehru. “Vivemos asfixiados entre os partidos nacionalistas, que nos acusam de promovermos valores ocidentais e anti-indianos, e os partidos de esquerda, que nos acusam de exagerarmos um problema marginal e elitista”.

Polícias contra namorados

Todos os anos, no dia de São Valentim, saem às ruas não só namorados, mas também centenas de manifestantes nacionalistas hindus que acusam a celebração de ser um “insulto à cultura e ética indiana”. Não são raras as ocasiões em que polícias passam parques públicos a pente fino para agredirem e insultarem jovens casais partilhando momentos mais íntimos.

Já os milhões de espectadores da indústria cinematográfica de Bollywood só raramente assistem a um beijo na tela. Resultado do longo período de domínio islâmico no Norte da Índia, bem como do colonialismo britânico e dos seus valores vitorianos, este puritanismo social tem, contudo, elevados custos.

Estima-se que só um em 70 crimes de violação é denunciado às autoridades policiais. Dos acusados - nos raros casos em que as mulheres decidem enfrentar o estigma público de um processo judicial -, só 20% são condenados. A média de idade de matrimónio para as mulheres - pouco mais de 18 anos - reflecte o hábito de casar menores à força.


O elevado dote que os pais da noiva são obrigados a pagar ao noivo conduz à prática maciça de abortos e a que, em certas regiões, por cada mil crianças do sexo masculino, nasçam menos de 800 do sexo feminino. Em estados mais pobres, o preço de uma menor chega a ser três vezes inferior ao de um mero búfalo.

O estigma aplica-se também aos homossexuais. Embora a comunidade dos hijras, eunucos que assumem a identidade de uma divindade feminina, seja parte integrante do sistema hindu de castas há séculos, a homossexualidade é severamente punida como comportamento público. O próprio código penal mantém em vigor uma lei, datada de 1860, que criminaliza práticas sexuais ‘contra a ordem da natureza’.

A falta de educação sexual também tem provocado graves problemas de saúde pública. A Índia é o país do mundo com o maior número de infectados com o vírus da sida - mais de cinco milhões de pessoas - e quase 90% das transmissões dão-se pela via sexual.

Para Mahesh Nawal, dirigente da Associação Nacional de Sexologia, é tudo uma questão de sensibilização. “Mais de 70% dos problemas dos meus pacientes explicam-se com a falta de informação, fruto de inúmeros tabus e mitos que assolam a sociedade”, refere o médico. Entre os camionistas de longa distância reina, por exemplo, a crença de que a prática de relações sexuais com uma virgem serve de antídoto contra o vírus da sida.

Com as reformas económicas dos anos 90, e a rápida ocidentalização da sua sociedade, a Índia está contudo a passar por uma fase de grande mudança. O sucesso de revistas orientadas exclusivamente para públicos femininos ou masculinos, os novos hábitos de consumo e a emergente vida nocturna entre as gerações mais novas, especialmente nas metrópoles, têm ajudado a promover o debate.

Nawal alerta, no entanto, para o perigo de efeitos secundários: “As estrelas e modelos ocidentais que aparecem estilizadas nas revistas e na televisão passaram a servir de critério de comparação e isso tem graves consequências a nível psicológico”.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

Imagens de Deli

Notas soltas

Na revista Atlântico deste mês, para além da habitual Passagem para a Índia, há ainda duas Notas Soltas (A Atlântico em Deli I e II) deste correspondente.

Reality Check (Atlântico)

Excerto da minha crónica Passagem para a Índia, na revista Atlântico deste mês de Fevereiro, ainda nas bancas.

"Não há dúvida que algo se passa a Oriente e, no caso indiano, é impossível negar o relativo sucesso do seu sistema democrático ou negligenciar o seu crescimento económico e a sua ruidosa voz no panorama internacional. Mas ao abrirmos os olhos para a Índia, e para esse admirável mundo novo que, na realidade, tem idade para ser o nosso tataravô, convêm que o façamos de forma moderada. Sair da escuridão do armário para enfrentar a luminosidade do mundo, pré-, pós-, ante-, sub-, ou o que quer que ele seja, é um processo doloroso porque nos cega. A solução estará algures entre o defensivo oito dos conservadores do Restelo e o histérico oitenta dos catastrofistas que anunciam o fim do nosso mundo e o início de um novo, o dos Outros."

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Imagens de Deli: Músicos de casamento

Escritório de um grupo de músicos especializados na animação de festas de casamento e de outras festividades. O manequim veste a farda típica.

64 horas de comboio

Andava eu convencido que as 36 horas de comboio que fiz entre Goa e Jaipur, em 2002, eram um limite humanamente inultrapassável. Já sabia do famoso Himsagar Express que, uma vez por semana, demora quase 75 horas a cobrir a distância entre Jamu e Kanyakumari (Cabo Camorim), unindo a Índia de Norte a Sul. E até tenho planeado, por várias vezes, embarcar nele e escrever uma reportagem sem precedentes para a imprensa portuguesa. Mas não deixava de ser um sonho e um mito: só um louco se submeteria a tal experiência.

Foi com espanto, portanto, que um meu colega do curso da semana passada, me disse que ele tinha passado 64 horas no comboio, de Lucknow até Trivandrum. Mais impressionante ainda é o facto de ter embarcado novamente, cinco dias depois, no mesmo comboio, na direcção contrária. Tudo com a maior naturalidade possível, como se de uma curta viagem de metro se tratasse. Os comboios na Índia não se limitam a um meio de transporte epifenomenal. São um mundo em si, em que se vive viajando.

Chuva

Curioso e anormal: há dez dias que vai chovendo, de vez em quando, e as temperaturas voltaram a descer. Chuva em Deli é uma raridade, mesmo nas monções. Por isso, reina aqui um espírito de férias. Ainda por cima com o feriado e o fim-de-semana comprido de amanhã.

Aterrar em Trivandrum

Deveria ser "Aterrar em Thiruvananthapuram". É esse o nome oficial da cidade, depois de ter sido alvo de mais um revisionismo histórico. Aprendam, que é fácil: Thiruv-anantha-puram. Mas o que me interessa descrever aqui é a vista aquando da aterragem. O Kerala abraça-nos, ao primeiro encontro, com os seus imensos e verdejantes palmeirais, com um mar quente e azul e com altos e luxuosos minaretes, em memória dos petrodólares que continuam a chegar do Golfo.

Imagens de Deli: Carl

O meu primo Carl, de Goa, numa loja de roupa no INA Market.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

A/F

Os carros de diplomatas, aqui em Deli, costumam ter uma matrícula azul. As viaturas adquiridas recentemente ostentam só uns poucos dígitos e um misterioso "A/F". Durante dois anos, os meus amigos e conhecidos indianos explicavam-me que eram as iniciais para "Ask For". Isto é, o A/F intimidava as autoridades policiais a parar o condutor e a inquirir sobre o estado da viatura e o seu estatuto legal. Na verdade, disse-me recentemente um diplomata estrangeiro, A/F significa "Applied For". Às vezes a interpretação de duas simples letras reflecte toda uma subjectividade diferente.

De volta

Estou de volta à capital e de volta à vida em Deli. Uma semana muito produtiva em Trivandrum, no CDS, seguida de dois dias na nova casa em Goa.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Imagens de Deli: Lodhi Gardens

Southwards

Sigo amanhã para a ponta Sul deste país, para o Centre for Development Studies em Trivandrum, Kerala. Entre avião (4 horas) e comboio (55 horas) a escolha foi óbvia, embora a magra carteira tenha registado o seu protesto. Fui seleccionado para participar num curso intensivo sobre métodos e investigação em migrações internacionais. Uma temática que, como já devem saber, concentra os meus esforços académicos. Na volta, breve paragem em Goa. Por isso, contem com menos actualizações desta vida em Deli, pelo menos durante os próximos sete dias.

Deli, horizontes e Teerão

Num artigo muito fraquito, uma frase que não deixa de esconder muita, mas nem toda a verdade.

Pakistan's anti-Iranian posture will drive India closer to Tehran, since Delhi never sees much farther than its own troubled borders.

Modernidade

Nós, na Europa, vemos a modernidade como fazendo parte do passado. Desprezamos a modernidade. Estamos constantemente a procurar vias que nos permitam negociar novas e plurais modernidades. Ser moderno é ser cinzento, conservador, ultrapassado. A modernidade constrange.

Aqui, por mais rodeado que eu esteja de intelectuais indianos que advogam o contrário, sinto que o acesso à modernidade, pelo menos para a grande população, ainda é um privilégio. A modernidade liberta. O problema é quando os interlocutores indianos ignoram estas concepções e aplicações espacio-temporais diferentes do conceito de modernidade vigente no Ocidente. Quando as elites indianas, influenciadas e às vezes patrocinadas pelos nossos intelectuais, começam a olhar para a modernidade com desprezo, esquecendo que ela representa, muito provavelmente, a única via libertadora para a maioria dos indianos.

Não é por acaso que os activistas dálitas ("intocáveis") seguem o seu líder histórico Ambedkar e insistem muitas vezes em vestirem um fato com gravata no espaço público, como no caso das campanhas eleitorais aqui na JNU. O fato e a gravata ajudam-lhes na libertação do sistema pré-moderno, assolado de hierarquias e tradições, especialmente estéticas. Parece tudo um pouco ridículo aos nossos rebeldes olhos europeus, em que impera a era casual. Mas é assim, aqui. Outro espaço, outro tempo.

Imagens de Deli: Soneca

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Remodelação

A caminho de completar três anos, esta Vida em Deli estava a precisar de uma ligeira remodelação gráfica.

Euforia Tata

Reparar em coisas

Reparei hoje no seguinte. Em Portugal, quando ando com um atacador solto, em espaços públicos, é raro alguém me chamar à atenção para o facto. Não sei porquê, mas aqui na Índia, sempre que tal acontece, há imediatamente alguém a avisar-me. No entanto, tenho a sensação que, ao contrário do que se passa em Portugal, se aqui andasse pela rua com uma saia amarela ou com uma peruca fluoroscente, ninguém repararia sequer.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Um despedimento

Vamos despedir a nossa empregada. Ao fim de dois anos descobrimos que é mais rápido, efectivo e barato fazermos nós próprios todos os trabalhos domésticos. Pelo menos até voltar a nossa querida empregada de sempre, a Sayida, que por esta altura prepara o casamento da sua filha, provavelmente afogada em dívidas por causa do dote matrimonial para a família do noivo, no longínquo e miserável estado de Bihar.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Citações de Deli: Sonia Gandhi

Decorreu até hoje a conferência internacional sobre "Peace, Non-violence and Empowerment, Gandhian Philosophy in the 21st Century", patrocinada pelo Governo indiano. Diversos oradores reputados, vários nobelistas, e até o nosso Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, João Gomes Cravinho. Na primeira página de hoje, do Hindu, uma citação de Sonia Gandhi, a nº1 do Partido do Congresso e, ao que se diz, a nº2 neste país. Uma citação que teima em não me deixar em paz.

"The world's nuclear weapon states have more than adequate atomic arsenal to destroy humanity many times over. And it is not just nuclear weapons. We also confront the spectre of chemical and biological weapons. Yes, India has nuclear weapons. This became a strategic compulsion for us, born out of the failure to persuade the world to abolish nuclear weapons"

Imagens de Deli: Coral

A minha prima Coral, de Goa, numa loja de roupa no mercado de Sarojini Nagar.

Think again: India

A ler em conjunto com a minha próxima Passagem para a Índia, já nas bancas, na revista Atlântico de Fevereiro. Chama-se "Reality Check" e proponho-me a reavaliar a real importância da emergência indiana e as suas qualidades democráticas, desfazendo assim alguns mitos.

Think Again: India
Americans have a love affair with India, seduced by a colorful culture, one of the world’s great cuisines, and the sense that these two great democracies are a lot alike. In reality, however, the two countries have very little in common, and a lot that could pull them apart.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Pontes indianas

Estas pontes indianas são de fazer inveja aos portugueses. Sexta-feira foi o Dia da República, com as tradicionais marchas militares na longa avenida Rajpath que liga o palácio presidencial ao India Gate. Hoje, Terça-feira, é a vez de um feriado religioso islâmico, o Muharram. Teoricamente, são cinco dias de férias. De ponte.

Mas a diferença é que, ao contrário das portuguesas, bem pavimentadas de fio a pavio, as pontes indianas se encontram sempre profundamente esburacadas. Trabalha-se no Sábado de manhã. Talvez ao Domingo. Obviamente à Segunda e, outra vez, talvez na Terça.

Aldrabando: Contrato de aluguer

Na semana passada fomos a um notário assinar o contrato de aluguer para a nossa nova casa. No meio do processo, reparámos que nos estavam a mandar assinar dois contratos. Um no valor de 9 000 Rupias e o outro no valor de 6 000 Rupias, em vez de um único no valor acordado da renda mensal, nomeadamente 15 000 Rupias. Inquiridos, o agente imobiliário e o dono da casa murmuraram que era para "facilitar questões fiscais".

Buzinas

É normal os visitantes estrangeiros a Nova Deli referirem-se à sua extrema poluição sonora como um caos de buzinadelas. Foi assim, aliás, que se referiu à cidade a jornalista Leonete Botelho, do Público, numa caixinha de curiosidade paralela à cobertura da visita oficial de Cavaco Silva à capital indiana. Para quem, pela primeira vez, aterra na Índia, a primeira reacção, legítima, é mesmo essa: os condutores indianos buzinam por tudo e por nada. Uma cacofonia sem rei, nem roque. Incompreensibilidade. Logo caos.

Estive a pensar, a ouvir e a observar. Especialmente nas viagens mais longas de riquexó pela cidade em que tenho pouco com que me entreter. Na realidade, não há caos nenhum. Há uma certa ordem na acção indiana do buzinar. E, por sinal, essa ordem é oposta à nossa.

Nós, em Portugal e, regra geral, na Europa e no Ocidente, buzinamos a posteriori. Em Lisboa, por exemplo, recorre-se maioritariamente à buzina como reacção, protesto, exclamação (porventura por alegria desportiva ou política). Isto é, a buzina é uma resposta.

Aqui, na Índia, regra geral, buzina-se a priori. A emissão sonora serve de sinalização, de aviso e de intenção de manobra. Tal e qual um radar GPS, em que podemos observar outros objectos móveis sinalizados por pontos luminosos, o radar indiano é sonoro, indicando por via da buzina a localização precisa dos outros objectos. Aqui buzina-se, quase sempre, para avisar os outros. É extremamente raro alguém utilizar a buzina à nossa maneira, isto é, para reagir à manobra de algum outro veículo ou transeunte ou animal. Basta um ligeiro desvio. E a vida continua, sem stresse.

Mais. O GPS sonoro indiano tem uma sofisticação adicional. O tipo de emissão sonora reflecte o tipo de objecto. Camiões de longa distância, autocarros, carrinhas, jeeps, limousines, táxis, carros normais, auto-rquexós, motas de gama alta, motas de gama média, motas de gama baixa, bicicletas, ciclo-riquexós, carroças, transeuntes e até animais: todos têm buzinas (ou outra fonte sonora) emitindo sons peculiares e originais, permitindo permear o sistema de uma ordem que, imperceptível aos nossos olhos e ouvidos, nos parece assumir contornos caóticos.

Não é, portanto, exagero quando alguns estrangeiros dizem, a brincar, que os indianos parecem conduzir de olhos fechados. É mesmo verdade. Basta a buzina.

domingo, 28 de janeiro de 2007

Indian soft power

Um texto de opinião interessante de um dos mais conhecidos diplomatas indianos, o estiloso Shashi Tharoor, no Times of India de hoje. Faz parte da campanha "India Poised" que o jornal lançou este mês, tendo por objectivo inculcar nos indianos um novo sentimento de patriotismo e orgulho nacional.

Observers speak of India's geo-strategic advantages, its economic dynamism and record growth, political stability, proven military capabilities, its nuclear, space and missile programmes, the entrepreneurial energy of our people and the country's growing pool of young and skilled manpower as assuring India's future. But the greatest asset of all may be something less tangibly measurable — our soft power.

Redescobrindo: Lucknow, avadh, nawab

Ora aqui estão termos locais para os quais não tenho a mínima solução. Como transcrevê-los para o português? Lucknow é a capital do maior estado da Índia e por conseguinte merece uma transcrição. Já a eventual transcrição dos termos "avadh" (a dinastia que dela reinou por vários séculos) e "nawab" (o soberano, também utilizado noutros contextos regionais) merece particular atenção por parte dos historiadores. Aceitam-se sugestões na caixa de comentários.

Imagens de Deli: Chota Imambara (Lucknow)

A mais pequena das duas célebres mesquitas da cidade de Lucknow, capital do estado do Utar Pradexe. Construída em 1840, faz parte do monumental conjunto arquitectónico da dinastia avadh que aqui reinou até finais do século XIX.

sábado, 27 de janeiro de 2007

Recomendações

Obrigado, Miguel Albano, pela recomendação desta Vida em Deli no teu blogue. Idem para o Luiz de Carvalho, no seu Instante Fatal. Recomendações retribuídas.

Educação à indiana (Atlântico)

"Educação à indiana" é o título da minha mais recente coluna Passagem para a Índia na revista Atlântico de Janeiro, ainda nas bancas.

"...em vez de “rasca”, os estudantes indianos são a “nata”. Não esbanjam fundos comunitários em semestres de intercâmbio Erasmus, para se embebedarem nas noitadas e se orgulharem de não terem posto os pés nas aulas. Aqui, quem não dá o máximo arrisca-se a ser substituído. Mais de 200 000 jovens candidatam-se anualmente ao Indian Institute of Managment de Bangalore. Apenas 250 são aceites. É o reino da competitividade pura, dura e, acima de tudo, justa. (...) Figuras como Zarkaria, Sen, Nooyi e Mittal não são fruto do acaso ou representantes de uma típica elite terceiro-mundista assimilada. Reflectem a emergência indiana por via da educação e simbolizam o sucesso de um sistema flexível, democrático e inovador que, apesar de todas as suas limitações, está a provocar profundos rombos no casco do velho galeão que é a educação na Europa."

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Aldrabando: Balança manual (papel)

De vez em quando recebo a visita dos paper-wallahs, indivíduos que percorrem os bairros de bicicleta, visitando cada casa em busca de papel e cartolina para reciclagem. Compram ao quilo, no valor de cerca de 5 Rupias (10 cêntimos). Mas vêm munidos de umas balanças manuais e de uma experiência aguda: com uns gestos de pulso conseguem sempre fazer com que oitocentos e tal gramas de papel de jornal pesem mil gramas. Como chegam de manhã, cedíssimo, pelas sete, é obvio que não estou em condições de ripostar, ainda por cima por um punhado de Rupias.

Imagens de Deli: Bangalore

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Nova casa

Já mudei de casa, já escrevo do novo apartamento. Aconteceu tudo com uma semana de atraso. Razão: já depois de termos assinado o contrato, soubemos que, por alguma manha que nos escapou (provavelmente a de nos termos fiado na palavra "honrada" que nos deram), o dono da casa e o agente imobiliário conseguiram ocultar o facto de haver um problema de canalização e de nela não haver um pingo de água. Uma semana depois, conseguimos finalmente apropriar-nos daquilo que é legalmente nosso. Por enquanto, depois de umas reparações provisórias, só com água na cozinha e numa das duas casas de banho ("indian style").

Duas bolsas para mil milhões (Expresso)

No 1ºCaderno do Expresso de 13 de Janeiro, nº 1785

Duas bolsas para mil milhões

“Aprendemos português porque queremos trabalho, é só isso”, diz Prem Kumar, um jovem indiano, fluente na língua de Camões, que trabalha numa multinacional em Bangalore. “A maioria dos estudantes não quer saber de Portugal, nem da sua cultura”, lembra, adiantando que é, acima de tudo, o mercado brasileiro que os atrai.

Prem é um caso típico entre os milhares de jovens indianos que vêem na aprendizagem da língua portuguesa uma oportunidade para fazer parte do milagre económico do seu país. Aos jovens que dominam minimamente a língua é oferecido um salário mensal de, no mínimo, vinte mil rupias. São cerca de 360 euros mensais para contabilidade lusófona ou a atender chamadas do Brasil e de Portugal também. “As empresas até preferem que falemos com sotaque brasileiro”, confidencia.

A autêntica caça aos falantes de português leva a que empresas de Bangalore e Chenai coloquem anúncios de uma página inteira nos jornais de Goa, a antiga colónia portuguesa, apelando a candidatos. O salário mensal para um operador de língua portuguesa, para assistência informática, chega a ultrapassar os mil euros. Mas há também uma grande procura para o sector de turismo e das traduções, reflexo da intensificação das relações económicas entre a Índia e os países lusófonos.

Mas os obstáculos são imensos e o Instituto Camões (IC) é alvo de fortes críticas por parte de vários estudantes. É o caso de Prem, que já usufruiu uma bolsa de um ano, do IC, mas só pôde ir a Lisboa porque a acumulou com uma outra, da Fundação Oriente. “Em Portugal devem pensar que somos ricos”, queixa-se, lembrando que a bolsa exclui os custos de viagem e se limita a 450 euros mensais. Prem, originário do Bihar, um dos estados mais pobres da Índia, critica ainda o facto de haver só “uma única bolsa anual para centenas de interessados”. Na realidade, com a outra bolsa oferecida em Goa, são duas para toda a Índia.

Outros exemplos reflectem o abandono a que tem sido votada a política cultural portuguesa na Índia. Na cidade capital do segundo maior país do mundo há só um leitor, na Universidade de Deli, enquanto que na Universidade Jawaharlal Nehru, onde Prem estudou, o ensino da língua está nas mãos de dois professores de espanhol e de uma leitora paga pelo Governo do Brasil. No próprio Centro Cultural da Embaixada, a falta de fundos leva a que os alunos fotocopiem os manuais. Também ali o ensino da língua tem estado nas mãos de professores indianos, moçambicanos e brasileiros.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

Entrevista (Antena 1)

No programa Visão Global, de Ricardo Alexandre, na Antena 1, uma breve entrevista comigo sobre a visita presidencial entre 10 e 17 de Janeiro passado. Começa pouco depois do minuto 4. Seguido do Embaixador José Cutileiro que simpaticamente se refere a mim como "compatriota em Nova Deli". Versão áudio aqui (para Windows Media Player) ou aqui (Real Audio).

sábado, 20 de janeiro de 2007

Portugal beckons (Hindustan Times)

Há uns meses, um diplomata português queixava-se para comigo que era "impossível" fazer com que a imprensa indiana dê atenção a uma visita oficial portuguesa à Índia. Assumi o desafio e cá esta o resultado, publicado no passado dia dez, num dos dois maiores diários de língua inglesa na Índia, o Hindustan Times (ligação directa).

Portugal beckons
Constantino Xavier, January 10, 2007

As Portuguese President Cavaco Silva begins his official visit to India today, he will observe a country quite different from the one that greeted Vasco da Gama back in 1498. Unlike then, when mighty Portuguese cannons ruled the seas and set the rules, it is India that now occupies a central position in the international system.

The ironies of history are truly remarkable. Half a millennium ago, Portuguese vessels roamed the Malabar coast, searching for ports of entry to the rich Indian and Eastern spice markets. Today, Portugal comes to India promoting itself as a port of entry to the West and as a strategic platform for Indian interests in Europe, Africa and Latin America.

What advantages does Portugal offer to India in this ‘Asian century’? Above all, its strategic situation at the western-most tip of Europe, facing the Atlantic Ocean, with a dynamic economy, from a booming tourist industry to world-class services, textiles and automobile industries, all ready to be a part of India’s economic miracle. It thus serves as a privileged gateway for India to explore the emerging Portuguese-speaking markets of Brazil, Angola and Mozambique. Portuguese is the native language of more than 200 million people, being the official language of eight countries in four continents.

As a member of the European Union, Portugal is also of great political importance to India. The rotating presidency of the EU will, from June onwards, be in Portuguese hands and Prime Minister Jose Socrates will represent the European side at the next EU-India summit in New Delhi in November. Thirty-two years after the re-establishment of diplomatic ties between the countries in December 1974, Socrates will be the first-ever Portuguese Prime Minister to pay a bilateral visit to India.

Another important bridge is the 70,000 members-strong Indian community in Portugal — the third largest in Europe — its members hailing mostly from Goa and Gujarat. The Hindu community of Portugal is a well-organised and influential minority in the country. It is, therefore, no surprise to see many People of Indian Origin in the Portuguese presidential delegation: the President of the Islamic Community of Lisbon and of Efisa bank, Abdol Vakil; the Communist Party-elected MP Abílio Fernandes; the former MP and President of Lisbon’s Oriental Studies Institute Narana Coissoro; and business magnate and owner of confectionaries Dan Cake, Kantilal Jamnadas, among others.

Cavaco Silva has accorded great importance to this State visit. Three ministers, two secretaries of State and 70 of Portugal’s best business managers are part of his delegation. And next week, he will be a guest of honour at the Leadership Summit in Bangalore. All this transmits a clear message: it is now India’s time to discover Portugal and its opportunities for Indian interests.

Constantino Xavier is a Portuguese research scholar at the Jawaharlal Nehru University, New Delhi.

Imagens de Deli: Arrumador

Aqui, no terceiro mundo, os arrumadores são civilizados. Velhinhos - como este - ou miúdos (na maioria dos casos) têm um pequeno bloco e uma caneta. À chegada de cada veículo, anotam a matrícula respectiva no bloco, dão-nos o papelinho e pagam-se 5 Rupias por motociclo ou 10 por viatura ligeira. Na sua grande maiora, são autorizados pelo município de Nova Deli e, em mais de dois anos, nunca vi qualquer problema ou qualquer veículo riscado. Uma lição para as cidades portuguesas? Ou um serviço a que só um país rico em mão-de-obra, como o é a Índia, se pode dar ao luxo?

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Mais uma casa

Três anos e meio e já vou na segunda mudança, para a terceira casa. Finalmente, conseguimos um apartamento aqui perto, na mesma área residencial. A renda mensal é de 15 000 Rupias, aproximadamente 280 Euros, dividida por três (que a bolsa não dá para mais). Desenvolvimento interessante: há três anos, quando cheguei, a renda estava em 10 ou 12 000. É a explosão do mercado imobiliário indiano (deliense).

Mais um semestre

Começou esta semana mais um semestre. É o meu sexto na Índia. Três cadeiras: 1. Research Methodology (Varun Sahni), 2. Realism and World Politics (Rajesh Rajagopalan), 3. Culture, Norms and Ideas in World Politics (Siddharth Mallavarapu).

Portugal visto da Índia (Jornal de Negócios)

Um artigo meu virado mais para o mundo empresarial português, publicado no Jornal de Negócios de 10 de Janeiro.

Portugal visto da Índia
Constantino Xavier*

Finalmente, com um atraso de vários anos, também Portugal acordou para a necessidade de redescobrir a Índia, quinhentos e sete anos depois de Vasco da Gama. Prova-o a visita oficial que Cavaco Silva presta, a partir desta Quinta-feira, a uma economia que, daqui a menos de trinta anos, deverá ser a terceira maior do mundo.

Mas, tendo em conta a experiência dos raros empresários e investidores lusos que por aqui se têm aventurado, são inúmeros os obstáculos que ainda se nos colocam, no terreno.

Em termos populacionais, a Índia é cem vezes maior do que Portugal (só Bombaim tem quase vinte milhões de habitantes) e as disparidades entre o arcaico mundo rural e as cosmopolitas bolsas urbanas são gritantes. As práticas de negócio são condicionadas pelo sistema de casta hindu, pela estrutura política federal (28 estados e 604 distritos) e pela grande diversidade religiosa (maior minoria muçulmana do mundo) e linguística (23 línguas oficiais). Há que enfrentar ainda a titânica burocracia e a endémica corrupção (os índices são recordistas a nível internacional), bem como o crónico subdesenvolvimento infra-estrutural (cortes de energia são frequentes, até na capital).

Se todas estas dificuldades podem, de uma maneira ou outra, ser ultrapassadas com o apoio de parceiros locais, um aspecto permanece, no entanto, central ao sucesso português na Índia. É o da nossa imagem naquele país. Por um lado, Portugal goza de um imenso (e, por enquanto, subaproveitado) capital de simpatia, especialmente em áreas de influência histórica portuguesa, como o são Goa, Damão e Diu, onde Portugal representa uma poderosa imagem de marca e um símbolo de prestígio para o consumidor.

Contudo, essa mais-valia sentimental limita-se a pequenos nichos territoriais, insignificantes ao nível nacional. Nas metrópoles indianas – os motores do consumo e crescimento económico – a imagem de Portugal é, pura e simplesmente, inexistente. Não é raro persistir a imagem de um Portugal subdesenvolvido, isolado e conservador. Para os indianos o azeite pode ser espanhol, a tecnologia belga, a engenharia espanhola, os aviões brasileiros e o vinho chileno e australiano. Português, talvez só o Figo e o Ronaldo, embora nem o futebol nos sirva de porta de entrada para um país em que reina o críquete.

Para todos os efeitos, Portugal situa-se na periferia do imaginário internacional da classe média indiana e é esse o principal obstáculo ao sucesso dos nossos empresários que, por sua vez, também sofrem os efeitos nefastos da pobre imagem que prevalece da Índia em Portugal, dissuadindo-os de explorar as grandes oportunidades que nos oferece a “nova Índia”, no “século da Ásia”.

É neste contexto sombrio que a visita presidencial a Nova Deli, Goa, Bombaim e Bangalore se afigura como uma excelente oportunidade para que se refresquem imagens mútuas e se identifiquem novos nichos e oportunidades, a Oriente e a Ocidente.

*Investigador, Universidade Jawaharlal Nehru, Nova Deli

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Imagens de Nova Deli: Prakash Karat

Prakash Karat (de camisa branca) é o secretário-geral do Partido Comunista Indiano - Marxista (principal partido comunista, com assento parlamentar) , discursando para uma plateia de estudantes na residência Tapti, na minha universidade, há cerca de dois meses. Fala bem, de forma articulada e arejada: "não somos contra todo e qualquer investimento estrangeiro ou toda e qualquer privatização, mas queremos que a abertura e as reformas económicas sejam feitas respeitando os interesses de toda a população, e não só de uma minoria".

Basicamente, foi este o seu ponto principal, naquela tórrida noite, naquele refeitório com mesas rachando sob o peso da ideologia estudantil, com o ar abafado, húmido e mal-cheiroso. Um ponto típico entre os reformistas comunistas indianos, orfãos do socialismo soviético e invejosos do socialismo chinês. Esta é, no entanto, uma universidade que vive e testemunha um debate contínuo. Um universidae da qual os líderes de partidos, ministros e activistas não fogem. Onde, mais do que uma honra, falar é um dever para com o pluralismo de pensamento.

Esta é uma das razões pelas quais eu decidi estudar na JNU. Não há nada que substitua isto em Portugal.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Nós e a Índia, de Calecut a Nova Deli (DN)

Texto de opinião publicado no Nacional do Diário de Notícias, de 10 de Janeiro de 2007 (ver versão Online). Nessa manhã, recebi logo vários e-mails com reacções diversas, de elogios a críticas acérrimas e acusações. Ainda bem.

Nós e a Índia, de Calecut a Nova Deli

Constantino Xavier, constantino.xavier@gmail.com
Investigador na Universidade Jawaharlal Nehru de Nova Deli


Calecut, 1502. Na sua segunda viagem à Índia, Vasco da Gama manda as suas naus bombardearem a cidade, durante dois dias e duas noites. Eram então os canhões portugueses a ditarem as regras do jogo naquela parte do mundo. Nova Deli, 2007. Ao aterrar, esta semana, no Aeroporto Internacional Indira Gandhi, a comitiva presidencial portuguesa, liderada por Cavaco Silva, já não terá canhões à sua disposição. Na competitiva hierarquia da diplomacia e da comunicação social indiana, a visita portuguesa irá, muito provavelmente, ficar abaixo da de um gestor de uma multinacional norte-americana, alemã ou japonesa.

É natural que algo tenha mudado desde Gama e Calecut. É agora uma Índia confiante e segura de si que emerge no sistema internacional. Desde 2004, mais de cinquenta chefes de Estado e líderes de Governo fizeram-lhe visita oficial, oferecendo atractivos acordos de cooperação política, económica, cultural e militar. Bangalore e Bollywood, Tata e Mittal, Agni e Bhagwati, Nooyi e Naipaul são alguns dos nomes que passaram a ser fundamentais no léxico dos que querem compreender e explorar as transformações vividas na Índia, neste chamado "século da Ásia".

Portugal parte com atraso. Enquanto que, em termos de trocas comerciais e investimentos na Índia, o nosso país tem vindo a ocupar os últimos lugares entre os 25 parceiros europeus, o ICEP prima pela ausência naquela que, daqui a menos de trinta anos, deverá ser a terceira maior economia do mundo. No plano político, nunca um primeiro-ministro português visitou a Índia e os ministros que o fizeram contam-se pelos dedos.

Quanto à cultura, a falta de financiamento leva a que os postos para leitores do Instituto Camões se mantenham, muitas vezes, vagos, e isto perante milhares de jovens indianos que vêem a nossa língua como uma mais-valia profissional para explorarem os mercados lusófonos. O desinteresse com que temos olhado para um sexto da humanidade também se reflecte no facto de não haver um único correspondente profissional português em toda a Índia - só na capital os espanhóis da EFE têm sete.

É neste contexto sombrio que 2007 se apresenta como uma oportunidade. Ao fazer-se acompanhar por três ministros e dois secretários de Estado, Cavaco Silva dá um sinal claro de que esta visita pretende voltar a colocar a Índia no nosso horizonte estratégico. A sua ida a Bangalore (o chamado Silicon Valley indiano) para falar na abertura do prestigiado fórum económico "Leadership Summit", bem como a presença de dezenas de gestores e empresários lusos na delegação oficial, promete refrescar as desactualizadas imagens mútuas entre os dois países. Uma outra oportunidade para o reavivar do histórico eixo luso-indiano será a visita bilateral que José Sócrates irá fazer a Nova Deli, em Novembro, no contexto da presidência portuguesa da União Europeia e da respectiva cimeira com a Índia.

Para que as oportunidades de 2007 sejam devidamente exploradas é, no entanto, urgente assumirmos o custo da negligência a que temos votado a Índia e sabermos descontar as glórias da história que nos continuam a iludir. Este humilde processo de desilusão passa pelo reconhecimento de que Portugal é hoje recebido como um visitante de segunda categoria pela mesma Índia que, há cinco séculos, conquistou à canhonada.

No avião presidencial

Fotografia do Luiz de Carvalho.
Cavaco Silva canta os parabéns a uma jornalista, enquanto que o avião começa a descida para o aeroporto de Dabolim, em Goa (eu estava sentado logo ao lado esquerdo). Como a Luísa Meireles, minha ex-editora do Internacional e agora no Nacional do Expresso, precisava de mim~em Goa, fui presenteado com uma amável boleia presidencial, no Airbus da SATA. Lá no fundo, com os jornalistas, de Deli a Goa, durante três horas. Já que eu não vou a Portugal, e se avolumam as saudades, nada como um avião português vir à Índia e eu matar saudades e cantar os "Parabéns". Ao lado do Presidente.

O Luiz e o Instante Fatal

Como já escrevi no blogue dele Instante Fatal, com uma excelente cobertura não só fotográfica da viagem presidencial à Índia, foi um prazer conhecer e trabalhar com o Luiz de Carvalho em Deli e em Goa. Ele é o coordenador de fotografia do Expresso e veio com a Luísa Meireles na comitiva do Cavaco Silva.

Depois de algumas experiências menos boas com fotógrafos portugueses, foi reconfortante ver o Luiz trabalhar. Às vezes, parecia um tigre enjaulado pelo programa oficial asfixiante que não lhe dava a liberdade que a Índia exige de todos os que a querem fotografar. Tenho a certeza que ele vai voltar um dia.

Foto: Luiz de Carvalho, de pinta na testa e colar de flores, e Leica M8 à chegada ao Hotel Taj Palace em Nova Deli.