quinta-feira, 8 de março de 2007
terça-feira, 6 de março de 2007
Compra de legumes
Preços
Imagens de Deli: Vendedores de fruta
Mediano vs. Extremo, na Índia e no Ocidente
Tenho observado o mesmo entre os restantes europeus e ocidentais que por cá andam. Sem chegar a ser uma lei, observa-se, no entanto, uma tendência muito premente para a moderação, uma necessidade quase pavloviana de respondermos 2 quando somos intimidados a escolher entre o 1, o 2 e o 3. Os indianos, ao contrário, tendem a preferir o 1 e o 3. Reitero que esta minha observação se aplica a uma variedade de casos, desde a ideologia política à escolha de um legume no mercado.
No meio académico ocidental, por exemplo, é frequente um autor começar o seu artigo explanando que há três escolas de pensamento, três aproximações possíveis a um objecto de estudo ou três teorias acerca de um fenómeno. Há muito que venho a reparar que, em muitos - talvez a maioria - dos casos, é natural que ele defenda a segunda escola/aproximação/teoria, justificando a sua escolha por se tratar da escola/aproximação/teoria mais "conciliatória", "abrangente", "moderada" ou "de compromisso". Uma estrutura introdutória deste tipo não é, no entanto, frequente na Índia. E, quando veiculada, não é apreendida da mesma forma lógica com que nós a apreendemos na Europa, por exemplo.
Reitero: nós, à partida, revemo-nos nessa escolha da escola/aproximação/teoria intermédia que o autor nos apresenta. Isto é, o 1, 2, 3 não é uma mera organização ao acaso. O 2 perde a sua essência se colocado em primeirou ou terceiro lugar, os extremos do continuum. A sua situação intermédia dá-lhe, desde já, uma mais-valia e legitimidade que, embora limitada e depedente do restante artigo e de demais considerações prévias que o leitor possa fazer, advém do seu mero posicionamento antagónico aos extremos.
Por mais que o mundo académico indiano esteja ocidentalizado - e é-o, em grande medida - não vejo os indianos a extraírem igual legitimidade de uma estrutura destas. Isto é, a mera situação intermédia, em segundo lugar de três, de uma escola/aproximação/teoria, não lhe dá nenhuma mais-valia nem qualquer particularidade em comparação com as outras.
Arriscaria mesmo a afirmar que se observa o contrário. A escola/aproximação/teoria intermédia tende a ser abordada com fortes suspeitas, o seu carácter incerto, híbrido, amorfo ou mediano (qualidades positivas no contexto ocidental) assumindo uma dimensão negativa e indesejada, porque fraca. O mediano é, portanto, eternamente medíocre aos olhos indianos.
Holi
Contra-mão
domingo, 4 de março de 2007
Paradigmas (Atlântico)
"Tentar perceber um país com mil milhões de habitantes, 28 estados e 23 línguas oficias em poucas horas, talvez com a leitura apressada de um guia turístico no avião, obriga à escolha da via fácil que é a da rendição perante os clichés e paradigmas que continuam a dominar o imaginário português da Índia. Em vez de inovarem e refrescarem imagens, os jornalistas limitam-se assim a perpetuá-las e a cristalizá-las, mantendo o público refém de repetidas coberturas superficiais e vesgas. (...) há o inescapável paradigma dos contrastes. A Índia da diversidade das cores, dos cheiros, das religiões e das disparidades. Confrontado com o desconhecido, aflito por se saber incapaz de aprofundamento sem a devida preparação e dedicação, o jornalismo português refugia-se no facilitismo relativista. Os contrastes indianos são a chapa ideal, servindo de linha de fundo a tudo, sem excepção."
sexta-feira, 2 de março de 2007
Naxalitas
Imagens de Deli: Menino pedinte
Explicaram-me tudo há já várias semanas, por isso já não me lembro bem. Mas a ideia geral fica: meninos como este à esquerda só se vêem aos Sábados, especialmente de manhã. Para afastar os azares, é suposto colocar algumas moedas no pote fumegante com óleo. Perguntei a vários amigos meus a origem desta tradição. Ninguém me soube dar explicações exactas. "É assim, há muito tempo", repetiam. O menino ao lado, é claro, vende jornais todos os dias.
5 paisés
Uma Rupia indiana é composta por cem paisés. Como a Índia emerge, e a inflação também, hoje já ninguém quer ouvir falar em paisés. Mas hoje, no banco, vi uma circular do Reserve Bank of India anunciando a retirada de circulação de várias moedas de paisés. As únicas que eu tenho visto são as de 50 paisés. Abaixo disso, nunca me passou nada pelas mãos.Thursday Forum (again)
Na presença de mais de uma vintena de estudantes, o debate foi, como sempre, tórrido e culturamente polifónico, estendendo-se para além da meia-noite: creio que estavam representadas, pelo menos, quinze nacionalidades, para além de um grupo de palestinianos apátridas, refugiados em Nova Deli depois de terem abandonado o seu Iraque adoptivo (desde 1948).
Para além dos estudantes estrangeiros mono-nacionais, imigrantes temporários, havia ainda os casos interessantes de um sudanês de nacionalidade canadiana ou o de uma peruana licenciada nos Estados Unidos, inscrita num mestrado na Alemanha e actualmente de intercâmbio na Índia. Ou o caso da paquistanesa com residência na África do Sul. Um investigador indiano a trabalhar sobre a diáspora afegã em Nova Deli. Um sudanês a viver há 12 anos na Índia. O norte-americano de origem indiana, do Querala. Imigrantes internos: um caxemire e uma bengali. Etc. Resumindo, foi mais um excelente fórum nocturno, essencialmente diaspórico.
quinta-feira, 1 de março de 2007
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
Estive em Lisboa
Dilúvio
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
Goa Bachao (Expresso)
O pequeno paraíso perdido e frágil de Goa está em perigo. Um movimento, Salvar Goa (Goa Bachao), quer preservá-lo
IGREJA da Nossa Senhora da Imaculada Conceição, um ícone da velha Goa É quase um grito de desespero: «Goa Bachao», Salvar Goa! Desde há dois meses, é isto que se ouve em Goa, é disto que se fala neste minúsculo paraíso cada vez menos perdido de 3.700 quilómetros quadrados, uma área só um pouco maior do que o distrito de Leiria. «Devolvam-nos a nossa verde Goa» - «Aamchem goem amka parat zai» - assim apela em concani, a língua local, o médico Óscar Rebelo, um goês que fala um português perfeito e que lidera o movimento: «Que este grito de guerra ressoe em cada aldeia do estado de Goa.»
PROGRESSO Goa tornou-se uma mistura de novos e velhos goeses e muitos imigrantes. Está na encruzilhada entre o progresso e a necessidade de preservar a sua identidade
As pessoas vão chegando, juntando-se rente aos muros onde estão expostos vários mapas, fotografias e recortes de jornais. Falam do Plano Regional de Desenvolvimento 2011, uma espécie de plano de ordenamento territorial, e que está na origem de toda esta confusão. Aprovado pelo Governo goês em Agosto de 2006, nos bastidores políticos, prevê a urbanização acelerada do estado, principalmente junto à costa, o alargamento das zonas mineiras, a transformação de muitas zonas florestais em zonas de habitação, tudo para dar lugar a um turismo maciço. Pelo menos cinco megaprojectos estão previstos com os seus condomínios exclusivos, campos de golfe e «resorts».
Num portefólio, estilo antes e depois, pregado no muro, mostra-se um desses sítios, uma idílica vila piscatória no Sul do estado que foi vendida a um consórcio estrangeiro. O Plano prevê a construção de um «resort» com um hotel de cinco estrelas, 800 «villas», cinemas, casino, restaurantes, bares, «boutiques», sala de conferências e de banquetes, uma marina. Para os habitantes de Quepem, por cujas ruas ainda circulam as vacas e onde só raramente se avista um turista, nada disto faz sentido.

Goa, que no fundo é uma sucessão de pequenas aldeias, tem uma linha de costa de 105 km e um máximo de comprimento para o interior de 65 km. Entre o mar e a fértil terra irrigada por dois grandes rios, o Zuari e o Mandovi, Goa tem um ecossistema frágil e delicado, santuário de muitas espécies protegidas. Para Patrícia Pinto, número dois do movimento Goa Bachao, o pequeno estado está em perigo. Mulher bonita e morena, vereadora municipal na capital Pangim, circula pelo recinto do comício, falando com as pessoas, enquanto no palanque discursa Óscar Rebelo. Em concani, pergunta se eles conhecem o plano e o que ele vai provocar e, numa verdadeira lição de política, diz-lhes que eles «é que elegem os políticos e estes têm de fazer o que eles querem, não o contrário.»
É este o método do Goa Bachao/Save Goa. Criado em Novembro e formado em Dezembro depois de um enorme comício realizado em Pangim, percorre cada aldeia das 12 talukas (concelhos) de Goa e realiza sessões de esclarecimento popular. A ideia, conta ela ao EXPRESSO, é acabar com o plano, «porque é ilegal e errado»: não cumpre as leis que protegem a floresta, nem as que regulam a costa, é contra as Comunidades (gaunkari, a histórica organização rural de Goa) e estrutura mal as cidades.
«Queremos um novo plano que tenha em conta as necessidades das pessoas, que não esteja só focado no imobiliário, que respeite os campos de cultivo e crie infra-estruturas, que não existem. Os políticos não têm visão para o futuro», acusa. «Nós não temos nada contra o facto de Goa ser um destino turístico, mas a terra e as pessoas têm de ser respeitadas.» E pergunta: «Já imaginou meter um pescador ou um agricultor dentro dum apartamento? Que vida vai ser a dele?» Afinal, ao destruírem a beleza de Goa, transformando o território numa selva de betão, acabam precisamente com aquilo que querem promover, conclui Patrícia Pinto.
O dinamismo do movimento, criado a partir de forças espontâneas, gente com influência na sociedade mas sem representação política, e muito ajudado pela Igreja católica, acabou por alarmar o Governo. A 18 de Janeiro, perante o «ultimato» que lhe foi dado pelo movimento, retirou o Plano, mas apenas «com efeitos prospectivos». Os líderes do Goa Bachao querem agora saber o que se vai passar com as obras que estão em andamento e prometem intensificar a pressão se a retirada não for «completa e retroactiva». A decisão, seguramente, será difícil. Se, por um lado, com eleições à vista para Maio, se compreende a destreza do Governo em se ver livre dum problema, melhor se entende que muitos negócios já foram realizados e muito dinheiro passado de mão para mão, conforme dizia um observador.
Mas o problema persiste e ilustra a encruzilhada em que se encontra o minúsculo estado de Goa, confrontado por um lado com as necessidades do progresso e, por outro, com o tremendo impacto da abertura.
Desde logo, é notório o descontentamento face aos imigrantes que foram chegando desde a entrada de Goa na União Indiana, em 1961, primeiro como território da União, depois como 25.º estado da República, em 1987. Ninguém sabe quantos são ao todo, mas pensa-se que, dos 1,3 milhão de habitantes que conta Goa, 500 mil serão oriundos de outros estados indianos. «Tenho medo de perder a Goa que conheço, de sermos exterminados», dizia o jovem jornalista Andrew Pereira, que já não fala o português, é católico, mas não deixa de conhecer a sua divindade hindu, Kamakshi, nesse sincretismo religioso tão próprio dos goeses. «Cada vez são menos os que falam concani. Goa está a ser explorada e nós temos de acordar», dizia.
Sentimentos como o de Andrew não são raros e inúmeros novos movimentos procuram dar-lhe voz, como o Save Dabolim Committee, que se opõe à construção de um novo aeroporto internacional e defende a ampliação do actual (ocupado pela Marinha indiana desde 1961) ou promove o reconhecimento oficial da língua concani em escrita romana (e não só no devanagárico indiano).
Há quem comece a defender opiniões mais radicais, a falar de autonomia e até de separatismo. Tudo efeitos do fatídico dia 18 de Dezembro de 1961 que alguns goeses não parecem ter digerido bem. Se para o discurso oficial foi o dia da «libertação», outros preferem o termo «invasão», vendo no pós-1961 um novo tipo de colonialismo, a partir da longínqua Nova Deli. Há quem se queixe de que nem o hino nacional indiano percebe, porque é cantado em bengali, língua desconhecida em Goa. E quem se afirme cada vez mais como «anti-indiano»: «Goa é diferente», afirma peremptório Anthony Fernandes, um outro jovem, trabalhador numa empresa de telecomunicações.
Mas diferente em quê? A ouvir Nagesh Karmali, poeta e escritor hindu, membro dos chamados Combatentes pela Liberdade, um movimento que lutou contra o regime português, Goa não é diferente em nada do resto da Índia. «Somos social, étnica, cultural e racialmente os mesmos», dizia ele ao EXPRESSO, sentado na cadeira de baloiço da sua casa. Anti-português que fala português perfeitamente, Karmali tem no escritório da sua casa a colecção completa das obras de Fernando Pessoa em português - «porque a sua poesia é universal». Mas o legado português, resume, «não foi nenhum e limita-se às casas e à arquitectura».
AMEAÇA As antigas várzeas onde desde sempre se cultiva o arroz estão agora em perigo de se transformarem em condomínios de luxo para fins turísticos
Narana Coissoró, goês de origem há muito radicado em Portugal, diz o contrário: «Existe uma goanidade, uma identidade goesa forte.» Na sua opinião, ela baseia-se no facto de desde cedo ter tido uma estrutura ocidental de Estado moderno, completamente diferente do que acontecia no resto da Índia e de o Código Civil ser aplicado no território desde finais do século XIX a toda a população, mesmo a hindu. «A 18 de Dezembro de 1961, Goa era administrada totalmente por goeses», afirma ainda, enquanto acrescenta a rir que, em Goa, «até os brâmanes comem carne».
Goa testemunha agora um consenso alargado de que está em perigo. Dos saudosistas lusonostálgicos aos nacionalistas hindus que vandalizam património português de picareta na mão, e até entre as gerações mais novas, há um sentimento geral de pessimismo, de receio perante os novos desafios. Para Vivek Menezes, escritor goês formado nos Estados Unidos, Inglaterra e França mas que optou por ir viver na sua terra-natal, o futuro não se afigura tão mau assim. «Goa foi o epicentro da primeira vaga de globalização, versão 1.0», afirma, comendo um bife no arejado primeiro andar do Clube Vasco da Gama, em Pangim. «500 anos depois, estamos do lado dos perdedores nesta globalização 2.0, mas temos excelentes condições para criarmos a versão 3.0», diz, sublinhando o facto de um movimento local, como o Goa Bachao, estar a provocar repercussões e atenção a nível nacional e mesmo mundial.
Reportagem de Luísa Meireles (textos) e Luiz Carvalho (fotografias), enviados à Índia, com Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli
A autonomia goesa através dos tempos
Século XI
A dinastia goesa dos Kadamba separa-se de outros reinos e governa Goa, com grande autonomia
1629
Entre a saída e a chegada de um novo Vice-Rei, a administração da Índia Portuguesa passa a caber a Conselhos de Governo locais, que incluem goeses
1787
A Revolta dos Pintos, engendrada por padres goeses de ideais republicanos, é abortada pelas autoridades coloniais
1821
Caso único no Ultramar, a Índia Portuguesa passa a ser representada por deputados goeses em Lisboa
1835
Bernardo Peres da Silva é proclamado governador, sendo o primeiro e único goês a ocupar essa posição
1866
O deputado Francisco Luís Gomes publica a sua obra «Os Brahamanes», em que se reflecte um emergente sentimento nacionalista
1928
Com a fundação do Goa Congress Committee, por Tristão de Bragança Cunha, inicia-se o movimento anticolonial a favor da integração na Índia
1945-61
Alfredo de Mello, deputado em Lisboa, e os intelectuais do Círculo de Margão, liderados por António Bruto da Costa, defendem a autonomia ou independência de Goa
1967
Em referendo, a maioria dos goeses vota contra a integração de Goa no estado vizinho do Marástra
1987
Após maciças campanhas de protesto, o Parlamento da Índia reconhece oficialmente a língua concani e Goa como estado
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
Aldrabando: Jornais em segunda mão
O mundo lusófono em Nova Deli
Alunos durante uma das sessõesDurante quinze sessões, entre Setembro e Fevereiro, demos a conhecer a mais de cinquenta estudantes e investigadores indianos, a realidade social, cultural e política do mundo lusófono, cobrindo não só os sete países de expressão oficial portuguesa, mas também assuntos como a CPLP, as comunidades portuguesas, as comunidades lusófonas não-soberanas e as relações entre a Índia e o mundo lusófono.
O grupo de alunos, comigo e o João Pedro ao meioNa sessão de encerramento, há uma semana, entregámos mais de vinte certificados a todos os alunos que assistiram a dois terços das sessões e que entregaram um ensaio final sobre um tema relacionado com a lusofonia. Para nos falar brilhantemente sobre "India, Portugal and the Lusophone World: Past, Present and Future", esteve presente a ex-embaixadora indiana em Portugal, Madhu Bhaduri. No final, foi exibido um documentário sobre Timor-Leste.
A Embaixadora Madhu Bhaduri, durante a entrega de certificados
Foi um curso organizado praticamente a custo zero e que partiu da nossa iniciativa voluntária (e não-remunerada). Foi um curso, ouso dizer agora, em balanço, que promoveu a imagem de Portugal de uma forma inestimável.
Um guineense em Nova Deli
24 horas depois, encontro-me com o Juvenal Cabral, jornalista da Televisão Pública da Guiné-Bissau, frequentando um curso livre sobre jornalismo no Indian Institute of Mass Communication (vizinho à minha universidade). Na Embaixada da Índia, em Dakar, tinham-lhe prometido que iria ter tradutor à disposição, mas, uma vez chegado a Nova Deli, deparou-se com uma terrível barreira linguística: o curso inteiro ministrado em inglês e ele reduzido à língua de Camões. E quatro longos meses indianos e anglófonos à sua frente, longe da mulher e dos filhos.
Sem representação diplomática guineense em Deli, soube pela nossa Embaixada da minha presença e, por via de mais duas ou três coincidências, conseguiu ligar-me. Estava a passar um mau bocado, disse-me. Um passeio pela minha universidade, um chá, umas apresentações a demais estudantes estrangeiros e, acima de tudo, uma bela conversa lusófona e benfiquista, fizeram toda a diferença. Para mim também, foi um prazer redescobrir a África lusófona aqui em Deli, depois dos dois fraternais anos passados em coabitação com o Chacate, de Moçambique.
Entre um "sinto saudades da minha terra" e um "obrigado, hoje já me sinto mais desanuviado", despedi-me e ficou combinado um almoço (bacalhau, é claro) em minha casa. Já iniciava eu a aceleração da minha vespa quando o Juvenal exclama, mãos no ar: "avisa o nosso resultado amanhã, ok?".
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
Do Porto para Wall Street, via Índia (Expresso)
Do Porto para Wall Street, via Índia
Levou na mochila Vinho do Porto, latas de sardinha e computador portátil. A 12 mil quilómetros do sítio onde nasceu, Miguel Costa ganha menos do que colegas seus em Portugal mas viu isso como um investimento
‘CASUAL DAY’. Às sextas, Miguel troca o fato e gravata por algo mais informal. Vai sempre de riquexó para o escritório
Miguel Costa engole a chamuça e lambe os dedos. Balbucia algo em hindi para o vendedor ambulante e entrega-lhe duas rupias (quatro cêntimos), enquanto, ao seu lado, num baldio, uma vaca remexe no lixo. Ao fundo, emergem três brilhantes torres, sedes de multinacionais. Estamos em Gurgaon, um subúrbio da capital indiana, Nova Deli. Este é um dos centros do milagre económico que é a Índia desde 1991. Há um ano que o portuense Miguel Costa, de 23 anos, também faz parte desse milagre.
«Isto há dez anos era só uma aldeia», nota, observando as torres que parecem ter emergido do nada, rodeadas por arruamentos inacabados e alguns campos trabalhados por agricultores resistentes aos ventos da globalização. Tal como Gurgaon, também Miguel vive uma fase turbulenta da sua vida.
Em Fevereiro de 2006, Miguel era só mais um recém-licenciado pela Faculdade de Economia do Porto, com «uma média baixa, 12». Agora está a 12 mil quilómetros, na Índia, a preparar-se para viajar para Nova Iorque. É lá, longe das vacas e das torres indianas, mas também da sua casa na Maia, que irá aconselhar um gestor de um dos dez maiores bancos de investimento do mundo. «É mesmo em Wall Street, já confirmei o código postal», sorri orgulhosamente.
Miguel trabalha na Evalueserve, a empresa pioneira no «outsourcing» de processos empresariais baseados no conhecimento, com 1400 empregados. «Há médicos, economistas, advogados e engenheiros, de todo o mundo. Recolhemos e analisamos dados de vários segmentos de mercados para clientes de todo o mundo», explica. Miguel entra antes do meio-dia e sai depois das dez da noite. Deu-se bem - e o cliente pediu à empresa para que lhe renovasse o contrato e o enviasse para os seus escritórios.
ALMOÇO. Miguel começa a trabalhar ao meio-dia e sai depois das dez da noite
Choque cultural
Tudo começou quando uma oferta de emprego da Evalueserve cativou o interesse de Miguel na Internet. «Queria mudar de ares. Estava farto da minha vidinha. E a Índia, como potência emergente, oferecia-me boas garantias para o meu futuro», explica.
Ao receber uma resposta positiva da Evalueserve, a comida picante, o choque cultural, o tórrido Verão de Deli e os potenciais riscos associados a uma vida na Índia não o impressionaram. Nem a oposição da mãe. Poucos dias depois, descolava do Aeroporto Sá Carneiro em direcção à Índia. Na sua mochila iam alguma roupa, o computador portátil, umas latas de sardinhas e duas garrafas de vinho do Porto.
«Estou a viver num país complicado e estranho e ganho menos do que muitos dos meus colegas que estão em Portugal. O choque da chegada também foi assustador», admite. «Mas é tudo uma questão de hábito», acrescenta logo. Não houve tempo para ter medo. Menos de vinte e quatro horas depois de ter aterrado no Aeroporto Internacional Indira Gandhi, já tinha ido às compras com novos amigos, conhecido a sua futura namorada, a francesa Marguerite, e sido apresentado na empresa. «Mergulhei e comecei logo a trabalhar», lembra.
Desde então, Miguel embarca todas as manhãs, de fato e gravata, num riquexó verde e amarelo, em direcção ao seu escritório. Às sextas-feiras a empresa autoriza uma vestimenta mais informal - é o «casual day» - o que tem o benefício de atrair menos pedintes nos semáforos.
«Se eu quisesse viver melhor agora teria ficado no Porto», sublinha. É talvez por isso que repete várias vezes que não lhe interessa o dinheiro e se recusa a dizer quanto ganha. Miguel partilha um quarto com a namorada. O que resta do salário no fim do mês é gasto em pequenos fins-de-semana nos Himalaias. Sempre em autocarros e nos hotéis mais baratos, como um indiano da classe média ou baixa.
Para Miguel, esta é «uma estratégia racional e calculada». «Estou a construir uma carreira para chegar aos 30 e ser dono do meu destino. Quero ser eu a dizer onde e como quero trabalhar e quanto quero ganhar. Os meus colegas saem da faculdade e querem ganhar logo 200 ou 300 contos. Mas a maioria fica-se por aí e nunca chega a dar o salto com que tanto sonha» - para Wall Street, entenda-se. «Estar cá é um investimento», sublinha, no seu sotaque nortenho.
Reportagem de Constantino Xavier (correspondente) e Luiz Carvalho (fotografias), enviado à Índia
Como é a vida na Índia
Antes de ir para a Índia é conveniente documentar-se sobre o país, para não sofrer um choque cultural à chegada. No que diz respeito ao emprego, podem ser encontradas ofertas em portais da Internet como os http://www.iagora.com/ , http://www.emploi-international.org/ ou http://www.monsterindia.com/. A fluência em inglês é obrigatória. Em projectos com um país específico, valoriza-se o conhecimento da sua língua e cultura empresarial. Noutras áreas privilegia-se a formação em gestão, finanças e «marketing». A empresa faz uma série de entrevistas telefónicas para testar os conhecimentos do candidato, que, a ser aceite, receberá uma carta de aceitação e um contrato, que deve assinar, para requerer o visto de trabalho na Embaixada da Índia em Lisboa (cerca de 80 euros).
Como se vive
O salário médio situa-se entre os 400 e os 1.000 euros mensais, consoante a actividade. Em Gurgaon, o aluguer de um quarto custa 100 euros (em Bangalore ou Chenai chega a ser metade). A alimentação não passa dos 10 euros/dia. Um bilhete de cinema custa dois euros e uma ligação à Internet 15 euros/mês. As empresas internacionais têm, geralmente, dezenas de empregados de diversas nacionalidades, o que cria um ambiente cosmopolita. As despesas com a saúde são reduzidas, mesmo nos hospitais de luxo. Uma consulta com um especialista custa oito euros.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
Protesto II
El povo, unido, jamas sera vencido!
The people, united, shall always be victorious!
Protesto I
Ho, Ho, Ho Chi Minh!
We shall fight, we shall win!
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
Redescobrindo: Querala
Um dálita e um brâmane
Citações de Deli: Dalit reservations
"The National Commission for the Scheduled Castes has rejected the demand for reservation for the Dalit Muslims and Christians on the ground that untouchability — the main criteria for reservation for this community — was peculiar to Hindu religion only. (...) However, Mr. Vaghela clarified that Sikh and Buddhist Dalits were entitled to reservation because both these religious sects were considered part of Hinduism under the Constitution."
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007
Quanto custa uma empregada na Índia?
Jasmina has been a member of India's child labor force for more than a year now. After her father died, her mother sent her and her sister from their West Bengal village to work as maids here. Each month, she is paid 100 rupees, or $2.25.domingo, 18 de fevereiro de 2007
Redescobrindo: Chenai
Aldrabando: Livros falsos
Imagens de Deli: Advocate
Uma nação de rosto corado (Expresso)
Expresso, Internacional, 1785, 13 Janeiro 07
Uma nação de rosto corado
Centenas de esculturas eróticas pontuam os templos hindus de Khajuraho, símbolos de uma sensualidade entretanto esquecida e rotulada de anormalidade ocidental
No final de 2006, a Índia festejou efusivamente o segundo lugar alcançado por Santhi Soundarajan nos 800 metros femininos dos Jogos Asiáticos. Mas, quando poucos dias depois o Conselho Olímpico da Ásia anunciou a desqualificação da atleta, por esta ter falhado num teste médico que visava confirmar o seu sexo, o país inteiro reagiu com um profundo silêncio. Soundarajan foi, mesmo assim, condecorada pelo Governo do seu estado, recebendo um prémio de cerca de 25 mil euros. O facto de a medalha de prata já não estar na sua posse foi, simplesmente, ignorado.
O silêncio envergonhado compreende-se à luz dos estigmas que rodeiam a sexualidade na Índia. Longe vão os tempos do ‘Kama Sutra’, a obra em que o filósofo indiano Vatsyayana descreve centenas de práticas sexuais, ou o período em que foram construídos os templos hindus de Khajuraho, decorados com centenas de esculturas eróticas.
A Índia sensual, em que o amor era celebrado de forma divina, deu lugar a uma Índia em que a intimidade física, o desejo e o prazer são vistos como uma anormalidade importada do Ocidente. “Qualquer debate público sobre questões de sexualidade é imediatamente ridicularizado ou hostilizado”, lembra o jovem Partha Pratim Shil, fundador da associação para as questões sexuais - «Parwaaz» -, da Universidade Jawaharlal Nehru. “Vivemos asfixiados entre os partidos nacionalistas, que nos acusam de promovermos valores ocidentais e anti-indianos, e os partidos de esquerda, que nos acusam de exagerarmos um problema marginal e elitista”.Polícias contra namorados
Todos os anos, no dia de São Valentim, saem às ruas não só namorados, mas também centenas de manifestantes nacionalistas hindus que acusam a celebração de ser um “insulto à cultura e ética indiana”. Não são raras as ocasiões em que polícias passam parques públicos a pente fino para agredirem e insultarem jovens casais partilhando momentos mais íntimos.
Já os milhões de espectadores da indústria cinematográfica de Bollywood só raramente assistem a um beijo na tela. Resultado do longo período de domínio islâmico no Norte da Índia, bem como do colonialismo britânico e dos seus valores vitorianos, este puritanismo social tem, contudo, elevados custos.
Estima-se que só um em 70 crimes de violação é denunciado às autoridades policiais. Dos acusados - nos raros casos em que as mulheres decidem enfrentar o estigma público de um processo judicial -, só 20% são condenados. A média de idade de matrimónio para as mulheres - pouco mais de 18 anos - reflecte o hábito de casar menores à força.
O elevado dote que os pais da noiva são obrigados a pagar ao noivo conduz à prática maciça de abortos e a que, em certas regiões, por cada mil crianças do sexo masculino, nasçam menos de 800 do sexo feminino. Em estados mais pobres, o preço de uma menor chega a ser três vezes inferior ao de um mero búfalo.O estigma aplica-se também aos homossexuais. Embora a comunidade dos hijras, eunucos que assumem a identidade de uma divindade feminina, seja parte integrante do sistema hindu de castas há séculos, a homossexualidade é severamente punida como comportamento público. O próprio código penal mantém em vigor uma lei, datada de 1860, que criminaliza práticas sexuais ‘contra a ordem da natureza’.
A falta de educação sexual também tem provocado graves problemas de saúde pública. A Índia é o país do mundo com o maior número de infectados com o vírus da sida - mais de cinco milhões de pessoas - e quase 90% das transmissões dão-se pela via sexual.
Para Mahesh Nawal, dirigente da Associação Nacional de Sexologia, é tudo uma questão de sensibilização. “Mais de 70% dos problemas dos meus pacientes explicam-se com a falta de informação, fruto de inúmeros tabus e mitos que assolam a sociedade”, refere o médico. Entre os camionistas de longa distância reina, por exemplo, a crença de que a prática de relações sexuais com uma virgem serve de antídoto contra o vírus da sida.
Com as reformas económicas dos anos 90, e a rápida ocidentalização da sua sociedade, a Índia está contudo a passar por uma fase de grande mudança. O sucesso de revistas orientadas exclusivamente para públicos femininos ou masculinos, os novos hábitos de consumo e a emergente vida nocturna entre as gerações mais novas, especialmente nas metrópoles, têm ajudado a promover o debate.
Nawal alerta, no entanto, para o perigo de efeitos secundários: “As estrelas e modelos ocidentais que aparecem estilizadas nas revistas e na televisão passaram a servir de critério de comparação e isso tem graves consequências a nível psicológico”.
Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli
Notas soltas
Reality Check (Atlântico)
"Não há dúvida que algo se passa a Oriente e, no caso indiano, é impossível negar o relativo sucesso do seu sistema democrático ou negligenciar o seu crescimento económico e a sua ruidosa voz no panorama internacional. Mas ao abrirmos os olhos para a Índia, e para esse admirável mundo novo que, na realidade, tem idade para ser o nosso tataravô, convêm que o façamos de forma moderada. Sair da escuridão do armário para enfrentar a luminosidade do mundo, pré-, pós-, ante-, sub-, ou o que quer que ele seja, é um processo doloroso porque nos cega. A solução estará algures entre o defensivo oito dos conservadores do Restelo e o histérico oitenta dos catastrofistas que anunciam o fim do nosso mundo e o início de um novo, o dos Outros."
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
64 horas de comboio
Foi com espanto, portanto, que um meu colega do curso da semana passada, me disse que ele tinha passado 64 horas no comboio, de Lucknow até Trivandrum. Mais impressionante ainda é o facto de ter embarcado novamente, cinco dias depois, no mesmo comboio, na direcção contrária. Tudo com a maior naturalidade possível, como se de uma curta viagem de metro se tratasse. Os comboios na Índia não se limitam a um meio de transporte epifenomenal. São um mundo em si, em que se vive viajando.
Chuva
Aterrar em Trivandrum
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007
A/F
De volta
sábado, 3 de fevereiro de 2007
Southwards
Sigo amanhã para a ponta Sul deste país, para o Centre for Development Studies em Trivandrum, Kerala. Entre avião (4 horas) e comboio (55 horas) a escolha foi óbvia, embora a magra carteira tenha registado o seu protesto. Fui seleccionado para participar num curso intensivo sobre métodos e investigação em migrações internacionais. Uma temática que, como já devem saber, concentra os meus esforços académicos. Na volta, breve paragem em Goa. Por isso, contem com menos actualizações desta vida em Deli, pelo menos durante os próximos sete dias.
Deli, horizontes e Teerão
Pakistan's anti-Iranian posture will drive India closer to Tehran, since Delhi never sees much farther than its own troubled borders.
Modernidade
Nós, na Europa, vemos a modernidade como fazendo parte do passado. Desprezamos a modernidade. Estamos constantemente a procurar vias que nos permitam negociar novas e plurais modernidades. Ser moderno é ser cinzento, conservador, ultrapassado. A modernidade constrange.Aqui, por mais rodeado que eu esteja de intelectuais indianos que advogam o contrário, sinto que o acesso à modernidade, pelo menos para a grande população, ainda é um privilégio. A modernidade liberta. O problema é quando os interlocutores indianos ignoram estas concepções e aplicações espacio-temporais diferentes do conceito de modernidade vigente no Ocidente. Quando as elites indianas, influenciadas e às vezes patrocinadas pelos nossos intelectuais, começam a olhar para a modernidade com desprezo, esquecendo que ela representa, muito provavelmente, a única via libertadora para a maioria dos indianos.
Não é por acaso que os activistas dálitas ("intocáveis") seguem o seu líder histórico Ambedkar e insistem muitas vezes em vestirem um fato com gravata no espaço público, como no caso das campanhas eleitorais aqui na JNU. O fato e a gravata ajudam-lhes na libertação do sistema pré-moderno, assolado de hierarquias e tradições, especialmente estéticas. Parece tudo um pouco ridículo aos nossos rebeldes olhos europeus, em que impera a era casual. Mas é assim, aqui. Outro espaço, outro tempo.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
Remodelação
Reparar em coisas
Reparei hoje no seguinte. Em Portugal, quando ando com um atacador solto, em espaços públicos, é raro alguém me chamar à atenção para o facto. Não sei porquê, mas aqui na Índia, sempre que tal acontece, há imediatamente alguém a avisar-me. No entanto, tenho a sensação que, ao contrário do que se passa em Portugal, se aqui andasse pela rua com uma saia amarela ou com uma peruca fluoroscente, ninguém repararia sequer.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
Um despedimento
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
Citações de Deli: Sonia Gandhi
"The world's nuclear weapon states have more than adequate atomic arsenal to destroy humanity many times over. And it is not just nuclear weapons. We also confront the spectre of chemical and biological weapons. Yes, India has nuclear weapons. This became a strategic compulsion for us, born out of the failure to persuade the world to abolish nuclear weapons"
Think again: India
Think Again: India
Americans have a love affair with India, seduced by a colorful culture, one of the world’s great cuisines, and the sense that these two great democracies are a lot alike. In reality, however, the two countries have very little in common, and a lot that could pull them apart.
segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
Pontes indianas
Estas pontes indianas são de fazer inveja aos portugueses. Sexta-feira foi o Dia da República, com as tradicionais marchas militares na longa avenida Rajpath que liga o palácio presidencial ao India Gate. Hoje, Terça-feira, é a vez de um feriado religioso islâmico, o Muharram. Teoricamente, são cinco dias de férias. De ponte.Mas a diferença é que, ao contrário das portuguesas, bem pavimentadas de fio a pavio, as pontes indianas se encontram sempre profundamente esburacadas. Trabalha-se no Sábado de manhã. Talvez ao Domingo. Obviamente à Segunda e, outra vez, talvez na Terça.
Aldrabando: Contrato de aluguer
Buzinas
Estive a pensar, a ouvir e a observar. Especialmente nas viagens mais longas de riquexó pela cidade em que tenho pouco com que me entreter. Na realidade, não há caos nenhum. Há uma certa ordem na acção indiana do buzinar. E, por sinal, essa ordem é oposta à nossa.
Nós, em Portugal e, regra geral, na Europa e no Ocidente, buzinamos a posteriori. Em Lisboa, por exemplo, recorre-se maioritariamente à buzina como reacção, protesto, exclamação (porventura por alegria desportiva ou política). Isto é, a buzina é uma resposta.
Aqui, na Índia, regra geral, buzina-se a priori. A emissão sonora serve de sinalização, de aviso e de intenção de manobra. Tal e qual um radar GPS, em que podemos observar outros objectos móveis sinalizados por pontos luminosos, o radar indiano é sonoro, indicando por via da buzina a localização precisa dos outros objectos. Aqui buzina-se, quase sempre, para avisar os outros. É extremamente raro alguém utilizar a buzina à nossa maneira, isto é, para reagir à manobra de algum outro veículo ou transeunte ou animal. Basta um ligeiro desvio. E a vida continua, sem stresse.
Mais. O GPS sonoro indiano tem uma sofisticação adicional. O tipo de emissão sonora reflecte o tipo de objecto. Camiões de longa distância, autocarros, carrinhas, jeeps, limousines, táxis, carros normais, auto-rquexós, motas de gama alta, motas de gama média, motas de gama baixa, bicicletas, ciclo-riquexós, carroças, transeuntes e até animais: todos têm buzinas (ou outra fonte sonora) emitindo sons peculiares e originais, permitindo permear o sistema de uma ordem que, imperceptível aos nossos olhos e ouvidos, nos parece assumir contornos caóticos.
Não é, portanto, exagero quando alguns estrangeiros dizem, a brincar, que os indianos parecem conduzir de olhos fechados. É mesmo verdade. Basta a buzina.
domingo, 28 de janeiro de 2007
Indian soft power
Um texto de opinião interessante de um dos mais conhecidos diplomatas indianos, o estiloso Shashi Tharoor, no Times of India de hoje. Faz parte da campanha "India Poised" que o jornal lançou este mês, tendo por objectivo inculcar nos indianos um novo sentimento de patriotismo e orgulho nacional.Observers speak of India's geo-strategic advantages, its economic dynamism and record growth, political stability, proven military capabilities, its nuclear, space and missile programmes, the entrepreneurial energy of our people and the country's growing pool of young and skilled manpower as assuring India's future. But the greatest asset of all may be something less tangibly measurable — our soft power.
Redescobrindo: Lucknow, avadh, nawab
Imagens de Deli: Chota Imambara (Lucknow)
sábado, 27 de janeiro de 2007
Recomendações
Educação à indiana (Atlântico)
"...em vez de “rasca”, os estudantes indianos são a “nata”. Não esbanjam fundos comunitários em semestres de intercâmbio Erasmus, para se embebedarem nas noitadas e se orgulharem de não terem posto os pés nas aulas. Aqui, quem não dá o máximo arrisca-se a ser substituído. Mais de 200 000 jovens candidatam-se anualmente ao Indian Institute of Managment de Bangalore. Apenas 250 são aceites. É o reino da competitividade pura, dura e, acima de tudo, justa. (...) Figuras como Zarkaria, Sen, Nooyi e Mittal não são fruto do acaso ou representantes de uma típica elite terceiro-mundista assimilada. Reflectem a emergência indiana por via da educação e simbolizam o sucesso de um sistema flexível, democrático e inovador que, apesar de todas as suas limitações, está a provocar profundos rombos no casco do velho galeão que é a educação na Europa."
sexta-feira, 26 de janeiro de 2007
Aldrabando: Balança manual (papel)
quinta-feira, 25 de janeiro de 2007
Nova casa
Já mudei de casa, já escrevo do novo apartamento. Aconteceu tudo com uma semana de atraso. Razão: já depois de termos assinado o contrato, soubemos que, por alguma manha que nos escapou (provavelmente a de nos termos fiado na palavra "honrada" que nos deram), o dono da casa e o agente imobiliário conseguiram ocultar o facto de haver um problema de canalização e de nela não haver um pingo de água. Uma semana depois, conseguimos finalmente apropriar-nos daquilo que é legalmente nosso. Por enquanto, depois de umas reparações provisórias, só com água na cozinha e numa das duas casas de banho ("indian style").
Duas bolsas para mil milhões (Expresso)
Duas bolsas para mil milhões
“Aprendemos português porque queremos trabalho, é só isso”, diz Prem Kumar, um jovem indiano, fluente na língua de Camões, que trabalha numa multinacional em Bangalore. “A maioria dos estudantes não quer saber de Portugal, nem da sua cultura”, lembra, adiantando que é, acima de tudo, o mercado brasileiro que os atrai.
Prem é um caso típico entre os milhares de jovens indianos que vêem na aprendizagem da língua portuguesa uma oportunidade para fazer parte do milagre económico do seu país. Aos jovens que dominam minimamente a língua é oferecido um salário mensal de, no mínimo, vinte mil rupias. São cerca de 360 euros mensais para contabilidade lusófona ou a atender chamadas do Brasil e de Portugal também. “As empresas até preferem que falemos com sotaque brasileiro”, confidencia.A autêntica caça aos falantes de português leva a que empresas de Bangalore e Chenai coloquem anúncios de uma página inteira nos jornais de Goa, a antiga colónia portuguesa, apelando a candidatos. O salário mensal para um operador de língua portuguesa, para assistência informática, chega a ultrapassar os mil euros. Mas há também uma grande procura para o sector de turismo e das traduções, reflexo da intensificação das relações económicas entre a Índia e os países lusófonos.
Mas os obstáculos são imensos e o Instituto Camões (IC) é alvo de fortes críticas por parte de vários estudantes. É o caso de Prem, que já usufruiu uma bolsa de um ano, do IC, mas só pôde ir a Lisboa porque a acumulou com uma outra, da Fundação Oriente. “Em Portugal devem pensar que somos ricos”, queixa-se, lembrando que a bolsa exclui os custos de viagem e se limita a 450 euros mensais. Prem, originário do Bihar, um dos estados mais pobres da Índia, critica ainda o facto de haver só “uma única bolsa anual para centenas de interessados”. Na realidade, com a outra bolsa oferecida em Goa, são duas para toda a Índia.
Outros exemplos reflectem o abandono a que tem sido votada a política cultural portuguesa na Índia. Na cidade capital do segundo maior país do mundo há só um leitor, na Universidade de Deli, enquanto que na Universidade Jawaharlal Nehru, onde Prem estudou, o ensino da língua está nas mãos de dois professores de espanhol e de uma leitora paga pelo Governo do Brasil. No próprio Centro Cultural da Embaixada, a falta de fundos leva a que os alunos fotocopiem os manuais. Também ali o ensino da língua tem estado nas mãos de professores indianos, moçambicanos e brasileiros.
Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli
Entrevista (Antena 1)
domingo, 21 de janeiro de 2007
New India?
O editor do Hindustan Times, Vir Sanghvi, sobre os insultos racistas dirigidos a uma actriz indiana num reality show inglês. Vindo de quem vem - um liberal, ocidentalizado, bon-vivant e bastante inteligente - é representativo do espírito que se vive por estes dias na Índia e a que eu tenho aludido nos meus escritos.
sábado, 20 de janeiro de 2007
Portugal beckons (Hindustan Times)
Portugal beckons
Constantino Xavier, January 10, 2007
As Portuguese President Cavaco Silva begins his official visit to India today, he will observe a country quite different from the one that greeted Vasco da Gama back in 1498. Unlike then, when mighty Portuguese cannons ruled the seas and set the rules, it is India that now occupies a central position in the international system.
The ironies of history are truly remarkable. Half a millennium ago, Portuguese vessels roamed the Malabar coast, searching for ports of entry to the rich Indian and Eastern spice markets. Today, Portugal comes to India promoting itself as a port of entry to the West and as a strategic platform for Indian interests in Europe, Africa and Latin America.
What advantages does Portugal offer to India in this ‘Asian century’? Above all, its strategic situation at the western-most tip of Europe, facing the Atlantic Ocean, with a dynamic economy, from a booming tourist industry to world-class services, textiles and automobile industries, all ready to be a part of India’s economic miracle. It thus serves as a privileged gateway for India to explore the emerging Portuguese-speaking markets of Brazil, Angola and Mozambique. Portuguese is the native language of more than 200 million people, being the official language of eight countries in four continents.
As a member of the European Union, Portugal is also of great political importance to India. The rotating presidency of the EU will, from June onwards, be in Portuguese hands and Prime Minister Jose Socrates will represent the European side at the next EU-India summit in New Delhi in November. Thirty-two years after the re-establishment of diplomatic ties between the countries in December 1974, Socrates will be the first-ever Portuguese Prime Minister to pay a bilateral visit to India.
Another important bridge is the 70,000 members-strong Indian community in Portugal — the third largest in Europe — its members hailing mostly from Goa and Gujarat. The Hindu community of Portugal is a well-organised and influential minority in the country. It is, therefore, no surprise to see many People of Indian Origin in the Portuguese presidential delegation: the President of the Islamic Community of Lisbon and of Efisa bank, Abdol Vakil; the Communist Party-elected MP Abílio Fernandes; the former MP and President of Lisbon’s Oriental Studies Institute Narana Coissoro; and business magnate and owner of confectionaries Dan Cake, Kantilal Jamnadas, among others.
Cavaco Silva has accorded great importance to this State visit. Three ministers, two secretaries of State and 70 of Portugal’s best business managers are part of his delegation. And next week, he will be a guest of honour at the Leadership Summit in Bangalore. All this transmits a clear message: it is now India’s time to discover Portugal and its opportunities for Indian interests.
Constantino Xavier is a Portuguese research scholar at the Jawaharlal Nehru University, New Delhi.
Imagens de Deli: Arrumador
Aqui, no terceiro mundo, os arrumadores são civilizados. Velhinhos - como este - ou miúdos (na maioria dos casos) têm um pequeno bloco e uma caneta. À chegada de cada veículo, anotam a matrícula respectiva no bloco, dão-nos o papelinho e pagam-se 5 Rupias por motociclo ou 10 por viatura ligeira. Na sua grande maiora, são autorizados pelo município de Nova Deli e, em mais de dois anos, nunca vi qualquer problema ou qualquer veículo riscado. Uma lição para as cidades portuguesas? Ou um serviço a que só um país rico em mão-de-obra, como o é a Índia, se pode dar ao luxo?
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
Mais uma casa
Mais um semestre
Portugal visto da Índia (Jornal de Negócios)
Portugal visto da Índia
Constantino Xavier*
Finalmente, com um atraso de vários anos, também Portugal acordou para a necessidade de redescobrir a Índia, quinhentos e sete anos depois de Vasco da Gama. Prova-o a visita oficial que Cavaco Silva presta, a partir desta Quinta-feira, a uma economia que, daqui a menos de trinta anos, deverá ser a terceira maior do mundo.
Mas, tendo em conta a experiência dos raros empresários e investidores lusos que por aqui se têm aventurado, são inúmeros os obstáculos que ainda se nos colocam, no terreno.
Em termos populacionais, a Índia é cem vezes maior do que Portugal (só Bombaim tem quase vinte milhões de habitantes) e as disparidades entre o arcaico mundo rural e as cosmopolitas bolsas urbanas são gritantes. As práticas de negócio são condicionadas pelo sistema de casta hindu, pela estrutura política federal (28 estados e 604 distritos) e pela grande diversidade religiosa (maior minoria muçulmana do mundo) e linguística (23 línguas oficiais). Há que enfrentar ainda a titânica burocracia e a endémica corrupção (os índices são recordistas a nível internacional), bem como o crónico subdesenvolvimento infra-estrutural (cortes de energia são frequentes, até na capital).
Se todas estas dificuldades podem, de uma maneira ou outra, ser ultrapassadas com o apoio de parceiros locais, um aspecto permanece, no entanto, central ao sucesso português na Índia. É o da nossa imagem naquele país. Por um lado, Portugal goza de um imenso (e, por enquanto, subaproveitado) capital de simpatia, especialmente em áreas de influência histórica portuguesa, como o são Goa, Damão e Diu, onde Portugal representa uma poderosa imagem de marca e um símbolo de prestígio para o consumidor.
Contudo, essa mais-valia sentimental limita-se a pequenos nichos territoriais, insignificantes ao nível nacional. Nas metrópoles indianas – os motores do consumo e crescimento económico – a imagem de Portugal é, pura e simplesmente, inexistente. Não é raro persistir a imagem de um Portugal subdesenvolvido, isolado e conservador. Para os indianos o azeite pode ser espanhol, a tecnologia belga, a engenharia espanhola, os aviões brasileiros e o vinho chileno e australiano. Português, talvez só o Figo e o Ronaldo, embora nem o futebol nos sirva de porta de entrada para um país em que reina o críquete.
Para todos os efeitos, Portugal situa-se na periferia do imaginário internacional da classe média indiana e é esse o principal obstáculo ao sucesso dos nossos empresários que, por sua vez, também sofrem os efeitos nefastos da pobre imagem que prevalece da Índia em Portugal, dissuadindo-os de explorar as grandes oportunidades que nos oferece a “nova Índia”, no “século da Ásia”.
É neste contexto sombrio que a visita presidencial a Nova Deli, Goa, Bombaim e Bangalore se afigura como uma excelente oportunidade para que se refresquem imagens mútuas e se identifiquem novos nichos e oportunidades, a Oriente e a Ocidente.
*Investigador, Universidade Jawaharlal Nehru, Nova Deli
quinta-feira, 18 de janeiro de 2007
Imagens de Nova Deli: Prakash Karat
Prakash Karat (de camisa branca) é o secretário-geral do Partido Comunista Indiano - Marxista (principal partido comunista, com assento parlamentar) , discursando para uma plateia de estudantes na residência Tapti, na minha universidade, há cerca de dois meses. Fala bem, de forma articulada e arejada: "não somos contra todo e qualquer investimento estrangeiro ou toda e qualquer privatização, mas queremos que a abertura e as reformas económicas sejam feitas respeitando os interesses de toda a população, e não só de uma minoria".Basicamente, foi este o seu ponto principal, naquela tórrida noite, naquele refeitório com mesas rachando sob o peso da ideologia estudantil, com o ar abafado, húmido e mal-cheiroso. Um ponto típico entre os reformistas comunistas indianos, orfãos do socialismo soviético e invejosos do socialismo chinês. Esta é, no entanto, uma universidade que vive e testemunha um debate contínuo. Um universidae da qual os líderes de partidos, ministros e activistas não fogem. Onde, mais do que uma honra, falar é um dever para com o pluralismo de pensamento.
Esta é uma das razões pelas quais eu decidi estudar na JNU. Não há nada que substitua isto em Portugal.
quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
Nós e a Índia, de Calecut a Nova Deli (DN)
Texto de opinião publicado no Nacional do Diário de Notícias, de 10 de Janeiro de 2007 (ver versão Online). Nessa manhã, recebi logo vários e-mails com reacções diversas, de elogios a críticas acérrimas e acusações. Ainda bem.
Nós e a Índia, de Calecut a Nova Deli
Constantino Xavier, constantino.xavier@gmail.com
Investigador na Universidade Jawaharlal Nehru de Nova Deli
Calecut, 1502. Na sua segunda viagem à Índia, Vasco da Gama manda as suas naus bombardearem a cidade, durante dois dias e duas noites. Eram então os canhões portugueses a ditarem as regras do jogo naquela parte do mundo. Nova Deli, 2007. Ao aterrar, esta semana, no Aeroporto Internacional Indira Gandhi, a comitiva presidencial portuguesa, liderada por Cavaco Silva, já não terá canhões à sua disposição. Na competitiva hierarquia da diplomacia e da comunicação social indiana, a visita portuguesa irá, muito provavelmente, ficar abaixo da de um gestor de uma multinacional norte-americana, alemã ou japonesa.
É natural que algo tenha mudado desde Gama e Calecut. É agora uma Índia confiante e segura de si que emerge no sistema internacional. Desde 2004, mais de cinquenta chefes de Estado e líderes de Governo fizeram-lhe visita oficial, oferecendo atractivos acordos de cooperação política, económica, cultural e militar. Bangalore e Bollywood, Tata e Mittal, Agni e Bhagwati, Nooyi e Naipaul são alguns dos nomes que passaram a ser fundamentais no léxico dos que querem compreender e explorar as transformações vividas na Índia, neste chamado "século da Ásia".
Portugal parte com atraso. Enquanto que, em termos de trocas comerciais e investimentos na Índia, o nosso país tem vindo a ocupar os últimos lugares entre os 25 parceiros europeus, o ICEP prima pela ausência naquela que, daqui a menos de trinta anos, deverá ser a terceira maior economia do mundo. No plano político, nunca um primeiro-ministro português visitou a Índia e os ministros que o fizeram contam-se pelos dedos.
Quanto à cultura, a falta de financiamento leva a que os postos para leitores do Instituto Camões se mantenham, muitas vezes, vagos, e isto perante milhares de jovens indianos que vêem a nossa língua como uma mais-valia profissional para explorarem os mercados lusófonos. O desinteresse com que temos olhado para um sexto da humanidade também se reflecte no facto de não haver um único correspondente profissional português em toda a Índia - só na capital os espanhóis da EFE têm sete.
É neste contexto sombrio que 2007 se apresenta como uma oportunidade. Ao fazer-se acompanhar por três ministros e dois secretários de Estado, Cavaco Silva dá um sinal claro de que esta visita pretende voltar a colocar a Índia no nosso horizonte estratégico. A sua ida a Bangalore (o chamado Silicon Valley indiano) para falar na abertura do prestigiado fórum económico "Leadership Summit", bem como a presença de dezenas de gestores e empresários lusos na delegação oficial, promete refrescar as desactualizadas imagens mútuas entre os dois países. Uma outra oportunidade para o reavivar do histórico eixo luso-indiano será a visita bilateral que José Sócrates irá fazer a Nova Deli, em Novembro, no contexto da presidência portuguesa da União Europeia e da respectiva cimeira com a Índia.
Para que as oportunidades de 2007 sejam devidamente exploradas é, no entanto, urgente assumirmos o custo da negligência a que temos votado a Índia e sabermos descontar as glórias da história que nos continuam a iludir. Este humilde processo de desilusão passa pelo reconhecimento de que Portugal é hoje recebido como um visitante de segunda categoria pela mesma Índia que, há cinco séculos, conquistou à canhonada.
No avião presidencial
O Luiz e o Instante Fatal
Como já escrevi no blogue dele Instante Fatal, com uma excelente cobertura não só fotográfica da viagem presidencial à Índia, foi um prazer conhecer e trabalhar com o Luiz de Carvalho em Deli e em Goa. Ele é o coordenador de fotografia do Expresso e veio com a Luísa Meireles na comitiva do Cavaco Silva.Depois de algumas experiências menos boas com fotógrafos portugueses, foi reconfortante ver o Luiz trabalhar. Às vezes, parecia um tigre enjaulado pelo programa oficial asfixiante que não lhe dava a liberdade que a Índia exige de todos os que a querem fotografar. Tenho a certeza que ele vai voltar um dia.
Foto: Luiz de Carvalho, de pinta na testa e colar de flores, e Leica M8 à chegada ao Hotel Taj Palace em Nova Deli.





















