sábado, 8 de abril de 2006

Glorioso

Como qualquer ser humano jovem, ou menos jovem, também eu passo por cíclicas crises por coabitar há já quase dois anos com a mesma pessoa. Neste caso, é o Chacate, o moçambicano, que vive no quarto que dá para Sul (eu estou no meio e o quarto que dá para Norte é do americano Tyler, que já conheceram). Criam-se hábitos, descobrem-se defeitos. Convive-se diariamente, nocturnamente.

Ambos de um ramo em que tanto se debate apaixonadamente – as Relações Internacionais – e separados muitas vezes pela ideologia (ele, militante da Frelimo e namorado do marxismo-leninismo, eu não sei bem o quê, mas mais virado para a Tailândia), as discussões animam, aquecem e, por vezes, azedam rapidamente. O colonialismo, os Estados Unidos, Chirac, o Togo, os brasileiros, a democracia ou, simplesmente, a Índia levam-nos a isso. Mas, no cômputo geral, somos bons amigos. A vida em Deli juntou-nos, por acaso, e duvido que esse laço jamais desaparecerá.

Certamente, é a língua que mais nos aproxima. Já tinha reparado nisso durante a minha estadia em França. A língua tem um potencial enorme de juntar e separar as pessoas. Há muitas coisas que ficam por dizer quando dois interlocutores não partilham a mesma língua materna. Entendemo-nos em português, em Nova Deli. Se houvesse um Chacate nigeriano, que pudesse somente comunicar comigo em inglês, não seria tão amigo meu como este Chacate lusófono.

No nosso caso, no entanto, há um laço de união mais forte. Chama-se Sport Lisboa e Benfica. Vibramos, sofremos, exultamos com o Benfica, à distância de milhares de quilómetros. No ano passado descobrimos um canal de desporto indiano que mostrava os derbies lusos em directo, de madrugada. Este ano parece que não renovaram o contrato de direitos de transmissão, mas fomos compensados pela fabulosa campanha na Liga dos Campeões e com a sorte de nos calharem duas equipas inglesas como adversários, porque a Índia futebolística rege-se ainda pelos critérios britânicos e são esses os jogos televisionados.

De noite, já passa da meia-noite, reunimo-nos à frente do pequeno televisor no quarto moçambicano e sofremos igualmente, como dois benfiquistas, berramos, saltamos e abraçamo-nos a cada golo, bebemos cerveja, comemos amendoins e, quando a imagem desaparece porque o operador do serviço de cabo adormeceu, contentamo-nos com o relato radiofónico via Internet.

Às vezes encontramo-nos com outros estudantes estrangeiros e colegas indianos e vemos os jogos na universidade. Graças ao reduzido merchandising encarnado que possuimos e importámos de Lisboa, vários deles já se converteram ao Glorioso. Falta pouco e abrimos uma segunda Casa do Benfica lá na universidade, porque uma já temos, nesta casa lusófona.

O Luís Filipe Vieira que se deixe de chinesices e venha para a Índia. Em finais da década de cinquenta, o meu avô, então no Conselho de Desportos do Estado da Índia Portuguesa, trouxe a equipa de reservas do Benfica a Goa. Espero um dia vir a poder trazer Simão e Cia. a estas longínquas, mas não menos benfiquistas e gloriosas, terras. Em que há muitos que se dizem orgulhosamente benfiquistas... em português.

5 comentários:

  1. este post é dedicado ao Txalo (txalos.blogspot.com

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  2. ACHO EXTREMAMENTE INTERESSANTE ISTO CONTINUAR A ACONTECER - Seja o Benfica sejam outros clubes ainda "existem" nos sitios onde estiveram portugueses, tal como em Moçambique, em Angola e por ai fora.!

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  3. Aqui vem a lagarta defender o seu Sporting...
    Compreendo perfeitamente essa ligação clubística além-fronteiras!
    Aliás, em Paris fui ver um jogo do Sporting ao estádio de Charlety e vi poucos pela tv...não se resiste...sofre-se, chora-se, salta-se e entra-se em euforia...comportamentos verdadeiros e espontâneos.
    temos esta divergência entre o verde e o vermelho (que nunca será alterada) mas a mesma devoção aos nossos clubes.
    beijinho, raquel

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  4. Aqui vem a lagarta defender o seu Sporting...
    Compreendo perfeitamente essa ligação clubística além-fronteiras!
    Aliás, em Paris fui ver um jogo do Sporting ao estádio de Charlety e vi poucos pela tv...não se resiste...sofre-se, chora-se, salta-se e entra-se em euforia...comportamentos verdadeiros e espontâneos.
    temos esta divergência entre o verde e o vermelho (que nunca será alterada) mas a mesma devoção aos nossos clubes.
    beijinho, raquel

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  5. E a Briosa, não se esqueça da Briosa. A Académica esteve em Goa há pouco tempo.

    cpts

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