sábado, 11 de março de 2006

Plástico e a economia indiana

Uma das coisas que mais me intrigava quando visitava Goa na minha infância, era o hábito de as pessoas manterem os plásticos de embalagem à volta dos produtos recém-comprados. A prática, para além de enigmática e misteriosa, provocava em mim uma profunda irritação, porque a achava contrária às regras elementares da usufruição, do consumo, do produto.

O local em que mais vezes me sentia confrontado com esta prática era no interior dos automóveis. O carro do meu primo, por exemplo, tinha todo os bancos e mesmo o manípulo das mudanças coberto por plásticos transparentes. Ruidosos e pegajentos com a humidade das monções, marcavam presença e resistiam quase um ano depois do carro ter sido comprado, mesmo esfarrapados e sujos.

Nos interiores das casas, a prática repetia-se. O comando da televisão continuava naquele santo invólucro plástico, impedindo mesmo a sua correcta utilização, por vezes escorregando os dedos para um botão errado.

Os computadores e demais aparelhos electrónicos, a mobília e mesmo o frigorífico era alvo desta cobertura plástica de embalagem, e achava aquilo um pouco como utilizar presentes de Natal ainda embrulhados. Para mim era um mistério porque é que as pessoas não davam aquele rasgo final, depois de retirarem o produto da cartolina, e libertavam o bem daquele asséptico e asfixiante cerco sintético.

Vários anos depois, em Nova Deli, volta-me tudo à memória quando me sento nas salas de aula e vejo os bancos e as mesas de madeira ainda semi-cobertas de plástico de embalagem. Mesmo nos novos auditórios, que se querem topo de gama, os plásticos mantêm-se renitentes, colados à madeira das mesas e aos estofos das cadeiras e às poltronas, durante e meses após a inauguração oficial. Nas salas de informática os teclados dão-nos iguais boas-vindas, tornando um e-mail numa sinfonia plástica.

Obrigado a confrontar-me com esta prática, um pouco por todo o lado, vejo-me forçado a tentar a lê-la e compreendê-la. Explicam-na, na minha opinião, dois fenómenos. O primeiro, está relacionado ao clima indiano. O plástico, embora não deixe respirar, protege os aparelhos electrónicos e até certo ponto a mobília também. As monções trazem aqui uma humidade avassaladora que penetra tudo e todos. O verão traz temperaturas e um fino pó que cobrem tudo e todos. Neste sentido, a prática de manter os plásticos de cobertura prende-se com a necessidade de proteger o bem.

Há no entanto uma segundo fenómeno explicativo. O plástico representa um estatuto económico, logo social. O plástico simboliza a novidade, o consumo e, geralmente, o moderno. Quando alguém entra em casa e se senta numa cadeira forrada daquele fino plástico, mesmo que não veja a madeira ou o seu material, sabe imediatamente que é um produto novo.

Mas mais do que novo, estes são bens produzidos em série, isto é, os produtos das novas indústrias da economia de mercado indiana. O plástico é portanto o rótulo de garantia que distingue os novos produtos capitalistas, de marca, dos produtos tradicionais, oriundos da economia tradicional, ou seja, da garagem de artesanato da esquina, do carpinteiro da aldeia ou da pequena indústria pública da região, que vêm embalados em papel de jornal reciclado e protegidos por palha.

O plástico é pois símbolo de status na Índia. Asfixia os produtos, mas protege-os do clima, representa novidade e traduz capacidade de compra e integração do dono na nova economia de mercado.

10 comentários:

  1. Olá Constantino!


    Encontrei por acaso teu blogue e gostei muito.
    Já viveste em Portugal? Escreves muito bem o português.

    cumprimentos.
    :)

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  2. Olá, a net tem destas coisas! Uma pessoa a escrever na língua de Camões,nessa terra tão longínqua e misteriosa que é a Índia. Os meus parabéns pelo teu blog e um abraço de Portugal

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  3. Mais uma Portuguesa que te visita trazida pelos dois comentadores anteriores. Adorei ler-te e em especial este texto do plástico. Aqui no Ocidente a moda do "plástico" é mais mais nas cirurgias "cirurgias plásticas". O plástico é sinonimo de novo "recauchutado" : Já te adicionei á minha lista de blos e passarei a visitar-te.
    Um abraço aqui de Portugal.

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  4. Alanys, Alvega, Grilinha,

    vou ter que vos desiludir: sou um luso, nascido e criado em Portugal, exilado em terras indianas. Espero que ainda assim gostem de ler sobre esta minha vida em Deli e voltem e comentem sempre.

    Um abraço saudoso
    Constantino

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  5. Constantino, não desiludiste :)

    è interessante saber que aí em terras tão distantes está um de nós.

    Aparece por esta Adega http://adega.blogspot.com/
    Tens boa música, bom ambiente, e há sempre um copo para as visitas especiais.

    Abraço luso
    :)
    :)

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  6. Em boa hora a Alanys nos alertou para este blog.
    Foi um prazer ler alguns dos teus textos, mas gostei especilamente deste último em que nos relatas a "mania" dos plásticos e também analisas os seus porquês.

    Um abraço do Vizinho

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  7. Por aqui diz-se "não há duas sem três" e era essa a intenção qdo segui os passos da Alanys, mas descuidei-me a ler e acabei por chegar em 4º lugar! Gostei e prometo voltar

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  8. é tudo mentira. ele nunca viveu em portugal. viveu sempre no rogel, e aquilo n é portugal, é uma aldeia independente, sem rede tmn, sem comunicação para o mundo, logo não pode ser classificada como portugal. por isso é q ele foi para a índia, queria viver num sitio mais desenvolvido.

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  9. Txalo,
    Viveu em "rogel"??? Onde fica isso?
    Aldeia independente? Conta-nos tudo. Gostava de saber mais sobre aldeias independentes em Portugal. :)


    Não tem rede de tmm?!
    Às vezes é preferivel não ter o telemóvel sempre a tocar.


    :)

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  10. Olá, ignorantes, para quem não souber onde fica o Rogel, é só ir à Wikipédia (portuguesa). Está lá.

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