quarta-feira, 28 de março de 2007

A condição diaspórica e a sua crítica

É lançada amanhã a volumosa e muito completa obra (mais de 600 pp) de homenagem (Festschrift) à obra do Professor Teotónio de Souza, catedrático e director do Departamento de História da Universidade Lusófona, em Lisboa. Uma obra merecida para quem tanto tem trabalhado, de forma não poucas vezes polémica, o nosso passado, de Goa a Lisboa. Como não tive tempo para enviar um artigo académico, fiquei-me por um ensaio, incluído entre os vários tributos pessoais que constam da primeira parte. Aqui vão uns excertos.

Referência:
METAHISTÓRIA
Autor: Vários (org. Charles J. Borges, S. J. & Michael N. Pearson)
Nova Vega, Lisboa, 2007
Colecção: Documenta Historica/Série Especial


A CONDIÇÃO DIASPÓRICA E A SUA CRÍTICA (pp. 79-82)

Não é habitual um investigador júnior intrometer-se numa homenagem a um reputado académico sénior. À partida, reconheço, portanto, as minhas joviais limitações, agravadas pelo facto de eu me situar numa área disciplinar diferente da da História, que tanto tem merecido a atenção do Professor Teotónio de Souza. Mas é, talvez, justamente esta condição jovem que me faz merecer esta oportunidade, aliada ao facto de ambos partilharmos uma condição diaspórica goesa. O Professor uma de primeira geração e eu uma de segunda. É sobre esta condição diaspórica, e sobre a urgência da sua permanente crítica, que eu pretendo reflectir neste espaço.

(...)

A importância do trabalho e da carreira do Professor reside no facto de ele nos lembrar que a segunda face, a mais negra, nos acompanha constantemente. E fá-lo por via da crítica. Questionando a celebração, obriga-nos a voltar a pôr os pés em terra e a enfrentar a realidade, por mais que isso nos custe. Recorda-nos que a condição diaspórica que glorificamos é, em larga medida, fruto da nossa imaginação e o espelho dos nossos medos e das nossas ânsias identitárias. E urge-nos a interrogarmo-nos sobre as reais vantagens e desvantagens, bem como as oportunidades e os obstáculos, que rodeiam esta nossa condição.

É justamente aqui que se encontra a explicação pela hostilidade com que alguns sectores da nossa comunidade goesa, mas também da sociedade portuguesa em geral, têm recebido a valiosa obra e as reflexões do Professor. É natural – mas infeliz – que hostilizemos a voz dissidente e crítica, que nos obriga a repensar e a interrogar aquilo que sempre demos por adquirido. Mas, por mais que se tente, é impossível silenciar essa voz que o Professor adoptou para si. Porque essa voz, cheia de interrogações, reside naturalmente e intrinsecamente em toda e qualquer condição diaspórica. O Professor tem-se limitado a activá-la e resgatá-la da passividade a que a procuramos condenar no seio da nossa intimidade – pessoal, associativa ou comunitária. (...)

Imagens de Deli: 1ª Comunhão

Entrada do pároco de Vernã, Goa, para a missa de primeira comunhão do meu primo Carl.

Derrota e críquete

Já se passou há uns dias, mas não pode deixar de ser observado: a Índia foi eliminada do Mundial de críquete, a realizar-se na Jamaica. Perdeu, logo na primeira fase, contra os seus pequeninos e muito mal-amados vizinhos Bangladexe e Sri Lanka. A vitória contra os amadores das Bermudas não evitou o escândalo nacional e provocou dois suicídios. Paixão e a honra nacional obligées.

O mais interessante foi acompanhar a eliminação nos fóruns cibernéticos indianos: repetidas insistências para que o Parlamento indiano legisle a favor da proibição do desporto-rei e repetidos consolos mútuos de que a eliminação só demonstra que "este desporto, de cariz ocidental, não nos está no sangue".

Este último pensamento ataca, de raíz, uma das questões nacionalistas mais centrais da luta anti-colonial em inícios do século XX: "saberemos derrotar os próprios mestres britânicos no desporto em que eles, até recentemente, não nos deixavam sequer participar?". A resposta, obviamente afirmativa, está gravada num dos mais emblemáticos filmes de Bollyood: Lagaan.

O quintal regional (Atlântico)

Excerto da minha Passagem para a Índia, no número de Abril da revista Atlântico, a partir de amanhã nas bancas:

"Para o ministro Pranab Mukherjee, a criação de “um novo paradigma para a vizinhança” é o principal objectivo da política externa indiana, sublinhando ele que “a emergência da Índia como grande potência depende da força, do crescimento e da prosperidade da região”. Embora a orientação não seja nova (lembre-se a doutrina Gujral, nos anos 90), são afirmações que rompem com várias décadas em que o objectivo era diametralmente oposto: os diplomatas indianos procuravam então ignorar o contexto regional e saltar directamente para as luzes da ribalta global. (…) A mensagem é clara. Antes de aspirar a voos mais altos, a Índia quer colocar a sua própria vizinhança em ordem e sob sua alçada."

terça-feira, 27 de março de 2007

Imagens de Deli: Kanyakumari


O em tempos idos nosso e agora muito nacionalista e sagrado Cabo Camorim, de noite (um pouco tremido) e de manhã, ao nascer do sol, com os memoriais em honra do filósofo Vivekananda e do escritor tâmil Tiruvalluvar. É extremo continental Sul da Índia, entre a Baía de Bangala e o Mar Árabe, saudando o imenso Oceano Índico.

Nacionalistas hindus e o Presidente

Com o frenesim da visita presidencial e a minha ida-relâmpago a Goa, acho que me esqueci de mencionar aqui esta notícia exclusiva (publicada no Online do Expresso) que eu "arranjei" para a imprensa portuguesa, quando ninguém sabia ao certo quem eram aqueles miúdos aos berros, insultando o nosso chefe de estado: Nacionalistas dizem ao Expresso que exigem pedido de perdão

sábado, 24 de março de 2007

Citações de Deli: Chetan Bhatt e Parita Mukta

"...within Hindutva discourse, Hinduism is seen primarily as a primordial and perennial civilization; indeed, a civilizational ethos for the whole of humanity, whereas Islam and Christianity are viewed as merely religions or religious ideologies. Hinduism, in this view, is not a religion at all but the primordial way of life revealed for all humanity, the sacred knowledge of which is possessed solely by Hindus."

in "Hindutva in the West: mapping the antinomies of diaspora nationalism", Ethnic and Racial Studies Volume 23 Number 3 May 2000 pp. 407–441

Imagens de Deli: Templo Krishnaswamy (Trivandrum)

Citações de Deli: Sujata Moorti

"The new Indian woman becomes the crucible where the desires and anxieties pertaining to the diaspora are worked through. She is the symbolic and embodied subject who is a repository of an interior, purer and more valuable tradition, and stands opposed to the moral compromises and degradation of the West."

in "Uses of the Diaspora - Indian popular culture and the NRI dilemma", South Asian Popular Culture Vol. 3, No. 1, April 2005, pp. 49–62

sexta-feira, 23 de março de 2007

Uma travessa indiana

A Índia no Século XXI, um livro de Pavan Varma, numa genial recensão de Antunes Ferreira, no seu célebre cantinho blogosférico e muito recomendável Travessa do Ferreira.

Pavan Varma é director-geral do Indian Council for Cultural Relations (Conselho Indiano para as Relações Culturais), o congénere do Instituto Camões na Índia e, por sinal, a minha instituição bolseira.

Henrique Antunes Ferreira, ex-Diário de Notícias, é um bom amigo da minha família. A sua experiência jornalística na Índia (duas vezes, acompanhando delegações oficiais), quando partilhada, como nesta recensão, é soberba. O seu interesse subcontinental é aliás reflexo de uma muito mais ampla e patológica inclinação pelo Oriente: é casado com a goesa Raquel e a sua imensa paixão por Goa (a comida!) leva-o, muitas vezes, a afirmar que é "mais goês do que muitos goeses".

Imagens de Deli: Querala

Para mim, fotógrafo da treta, esta é uma das minhas melhores fotos.

India literária, orientalismo

Hoje, no Diário de Notícias:

A paisagem literária da Índia é tão complexa e paradoxal quanto o seu mapa, reflexo de 28 regiões políticas, 22 línguas, um país multirreligioso, a maior democracia do mundo, com uma diáspora intelectual que levou para fora das suas fronteiras alguns dos nomes mais sonantes

Comentário: Interessante a urgência com que "a Índia" é personalizada e feminizada ao longo de todo o artigo. Não quero aqui lançar uma ofensiva à Isabel Lucas, que não o merece aliás, por esta peça bem conseguida, mas alertar para a persistência da superficialidade orientalista com que ainda abordamos a Índia.

Para além do tradicional "É a Índia dos contrastes", há uma contradição grave. Por um lado, afirma-se que é um país "em que quase só as elites lêem", para depois se constatar que "apesar de apenas 5% da população indiana falar a língua de Shakespeare e de a maioria dos livros indianos serem em línguas vernáculas".
Claro que há elites vernáculas, mas a elite a que a autora se refere são, muito provavelmente, as elites anglófonas. E estas estão longe de serem as únicas a lerem no país, bem pelo contrário: as mais ricas tradições literárias indianas, começando pela poesia bakhti, mas também o rico panorama de romances em hindi e línguas regionais, são consumidas pelas classes médias e baixas.

"São esses, os das línguas locais, em franca maioria na Índia, que só agora começam a ser traduzidos fora dela. Segundo a organização, esses autores irão testemunhar um "frenesim de modernidade" que contrasta e tenta atenuar as enormes desigualdades sociais do país."
Aqui o meu alvo é a própria organização e autores desta citação, suspeito eu indianos, que equiparam o misterioso "frenesim da modernidade" a uma suposta emancipação socio-económica. Se fosse só modernidade, talvez até me debruçasse criticamente sobre o assunto. Agora, "frenesim"... deixa antever o que vai na elitista mente orientalista indiana.

Deixemos, então, o Orientalismo e o espírito descobridor Quinhentista acabar em grande:
"Também por isso se fala de uma Índia por descobrir, um país que se vai afirmando além da espiritualidade ancestral conjugada com traços cada vez mais contemporâneos de uma economia em plena expansão".

quinta-feira, 22 de março de 2007

Imagens de Deli: Querala

Supergoa.com

Novidades e actualizações no Supergoa.com:

Turismo de habitação com apoio português

Museu do Oriente abre daqui a um ano

Consultores europeus adoptam Índia

E o sempre agitado Fórum, bem como a actual Agenda.

A vida em Pequim

Da colega correspondente, do outro lado dos Himalaias, um sempre actual blogue sobre o gémeo emergente. A China em Reportagem, de Maria João Belchior, a ler e seguir com atenção.

Imagens de Deli: Trivandrum

Um painel publicitário em Trivandrum, anunciando um empreendimento multimédia:
"u - the arrow
v - the bow
ur - dreams
our - aim"

A moeda de 2 Rupias


Para perceber a mente radical dos que perseguem a ideologia Hindutva, nada melhor do que ler este artigo, em que o autor (um ex-funcionário dos serviços administrativos centrais, IAS) defende que a nova moeda de 2 Rupias é uma tentativa de o Governo propagar a fé cristã na Índia.

An assault on the soul of the nation
V SUNDARAM



Imagens de Deli: Estátua de Indira Gandhi

“Mais vale pagar um aborto que um dote” (Expresso)

Edição 1794, 17 MARÇO 2007

Índia - Desequilíbrio
No país de Gandhi há mais homens que mulheres, porque os pais não querem ter filhas

“Mais vale pagar um aborto que um dote”

Foto
A actriz Karishma Kapoor no dia do casamento. A boa tradição hindu obriga a família da noiva a pagar um valioso dote ao marido SEBASTIAN D´SOUSA/AFP

Não fossem os painéis a anunciar ecografias por menos de 500 rupias (10 euros) e esta rua do sul de Deli - a capital indiana - seria igual a todas as outras do país: barulhenta, movimentada e com vacas a remexer no lixo. É em sítios como este que existem inúmeras clínicas e ginecologistas, onde desaparecem anualmente várias centenas de milhares de crianças do sexo feminino. Para ser mais específico, de fetos do sexo feminino.

É o retrato do lado mais obscuro da classe média indiana. Muitas mães são obrigadas a abortar as filhas que têm no ventre, pressionadas pela tradição social que quase as obriga a preferirem assegurar uma linha de descendência masculina.

É numa dessas clínicas que trabalha a ginecologista Neena Singh (nome fictício). “Quando elas começam a queixar-se de que já têm uma ou duas filhas, eu percebo logo o que querem e corro-as daqui”, diz, adiantando que, na Índia, o aborto é legal até às 20 semanas. Só que a dr.ª Singh diz respeitar a lei de 1994, que proíbe os médicos de comunicarem o sexo do feto à grávida. “Logo depois do parto, ao verem que tiveram uma filha, é frequente as mães chorarem ou entrarem em choque, ameaçando cometer suicídio”, confidencia.

Ao lado da clínica de Bhagat encontrámos uma jovem grávida de 15 semanas que aguarda o resultado de uma ecografia: “Se for mais uma filha, expulsam-me de casa”, diz sob anonimato. A conversa é prontamente interrompida por uma mulher, talvez a mãe ou a sogra.

O drama do feticídio feminino tem números. Segundo o censo de 2001, por cada mil nascimentos masculinos, nascem, em média, 927 crianças do sexo feminino, um dos rácios mais baixos do mundo. Recordando o ditado “educar uma filha é igual a regar o jardim do vizinho”, a médica Sharda Jain, da Comissão Nacional para as Mulheres, lembra que “as filhas são vistas como um peso financeiro e um estigma social”.

A pressão começa na cerimónia do casamento, quando os sacerdotes pedem que a noiva seja “abençoada com oito filhos”, e repete-se nas cerimónias pós-concepção, em que os religiosos procuram converter um feto feminino num masculino.

A preferência pelos rapazes explica-se pela tradição do dote matrimonial, em que os pais são obrigados a desembolsar quantias em dinheiro e bens (no valor de centenas ou até dezenas de milhares de euros) para encontrarem um noivo para as suas filhas.

Há registo de cartazes, em Bombaim, anunciando que “mais vale pagar 500 rupias agora (por uma ecografia) do que 50 mil (de dote) daqui a uns anos”. Outra razão é o facto de, à luz da lei hindu, só um filho homem poder herdar os bens familiares e realizar os ritos funerários do pai.

O que ainda há dez anos era negligenciado, assume hoje contornos dramáticos. O sexo do feto só pode ser determinado com alguma segurança a partir da 12ª semana de gravidez, altura em que o risco de morte para a mãe é sete a dez vezes superior que num aborto realizado no primeiro trimestre. “Elas vão abortando até terem um rapaz”, explica Bhagat, sublinhando os custos para a saúde pública.

Em termos sociais, o impacto também se faz sentir. Nas zonas rurais mais pobres, em que a prática do aborto é reduzida por dificuldades financeiras, as filhas são vendidas por famílias endividadas que querem escapar ao dote.

As jovens são depois revendidas, por redes criminosas, em distritos onde há menos de 800 raparigas por cada mil rapazes e a procura de mulheres em idade de casamento é grande.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli


DIMENSÃO DO FETICÍDIO

- Vinte milhões é o número de abortos de fetos femininos praticados na Índia nos últimos 20 anos. Dados da revista médica ‘The Lancet’

- No estado do Punjab, no distrito de Fatehgarh Sahib, existem menos de 750 raparigas por cada mil rapazes

- O preço de uma esposa varia entre os 100 e os 600 euros, consoante a casta a que esta pertence, grau de educação e características físicas


Má sorte nascer mulher

Nos anos 70 o Governo indiano encorajou o aborto e as esterilizações para controlar o crescimento demográfico. Hoje, o panorama é o oposto. Em 2006 registou-se a primeira condenação de uma médica por executar abortos selectivos.

Renuka Chowdhury, ministra para o Desenvolvimento da Mulher e da Criança, disse recentemente: “É uma vergonha o nosso país crescer a nove por cento, mas continuar a matar as suas filhas”. Por isso, anunciou a abertura de orfanatos públicos para as filhas indesejadas. “Se não as quiserem, pelo menos deixem-nas nascer e entreguem-nas ao Estado”, apelou, esperando desta forma vir a minorar o desequilibrado rácio entre os géneros.

Para Sharda Jain as medidas são bem-vindas, embora os mecanismos para violar a lei sejam imensos. Nota, por exemplo, que a cor com que o médico preenche o relatório, ou o dia da semana em que este é entregue, serve para comunicar o sexo do feto à grávida.

Jain defende a necessidade de, além da fiscalização, consciencializar os médicos para o que chama de ‘doença social’ e de valorizar o papel da mulher na sociedade. “Um exemplo vale por mil panfletos”, afirma, recordando que o próprio primeiro-ministro Manmohan Singh tem três filhas e nenhum filho.

terça-feira, 20 de março de 2007

Imagens de Deli: Viajando

Paradise, in contract

Para quem quer saber mais, para além da minha última reportagem Goa Bachao, ler este excelente artigo da Somini Sengupta, a igualmente excelente correspondente do NYT em Deli.

...

segunda-feira, 19 de março de 2007

Redescobrindo: Jamu, Caxemira e Ladaque

O estado de Jammu and Kashmir, pelo menos a parte indiana, tem três distritos que, em bom português e na minha opinião, se escrevem assim: Jamu (Jammu, com a capital de mesmo nome), Caxemira (Kashmir, o vale, com a capital em Srinagar) e Ladaque (Ladakh, de maioria budista, com a capital em Lê / Leh ).

Imagens de Deli: Templo em Trivandrum


Europa em vias de extinção?

"Mas os grandes desafios da História que decidem o futuro estão a ser enfrentados, com grandes dificuldades, pela China, Índia, Islão, EUA, África, América Latina. Entretanto a Europa perde relevância e entra em vias de extinção. Porque, achando-se inovadora e progressiva, gasta o seu tempo a promover aborto, homossexualidade, eutanásia, pedofilia, divórcio. Perante isto, a História ri (ou chora?), encolhe os ombros e passa ao lado."

Não sei o que leva o Professor João César das Neves (hoje no DN) pensar que aqui o aborto, a homossexualidade, a eutanásia, a pedofilia e o divórcio sejam non-issues. Nem percebo porque é que afirma, com tanta convicção, que a Europa "entra em vias de extinção". Lá porque agora se fala e sabe um pouco mais do resto do mundo ("China, Índia, Islão, EUA, África, América Latina), não é preciso entrarmos todos em pânico e acharmos que é o fim do mundo. É de louvar que na Europa possamos estar a debater (e não necessariamente só a "promover") questões muito pertinentes, reflectindo espaços de pluralidade que são de uma riqueza insubstituível.

Talvez uma citação, da minha coluna de Fevereiro na revista Atlântico, venha a propósito para esfriar os ânimos de quem acha que vem aí o fim do mundo e de quem gosta muito de falar numa era pós-ocidental ou pós-europeia:

(Passagem para a Índia, Revista Atlântico Fev/07: Reality Check):
"Não há dúvida que algo se passa a Oriente e, no caso indiano, é impossível negar o relativo sucesso do seu sistema democrático ou negligenciar o seu crescimento económico e a sua ruidosa voz no panorama internacional. Mas ao abrirmos os olhos para a Índia, e para esse admirável mundo novo que, na realidade, tem idade para ser o nosso tataravô, convêm que o façamos de forma moderada. Sair da escuridão do armário para enfrentar a luminosidade do mundo, pré-, pós-, ante-, sub-, ou o que quer que ele seja, é um processo doloroso porque nos cega. A solução estará algures entre o defensivo oito dos conservadores do Restelo e o histérico oitenta dos catastrofistas que anunciam o fim do nosso mundo e o início de um novo, o dos Outros. "

Chegou o calor

Agora é definitivo. Foi-se a frescura do Inverno e da Primavera e chegou o bafo do Verão. É quase um momento preciso, sem qualquer transição. Uma pessoa deita-se na cama numa noite, envolta em cobertores e, na manhã seguinte, acorda transpirada e picada por mosquitos. É assim, repentinamente, que se anuncia o mortífero Verão deliense.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Imagens de Deli: Ganexa em Trivandrum

Diáspora feminina indiana

Numa conferência sobre literatura e diáspora, uma senhora comenta: afinal, se formos pelos critérios gerais de quem faz, ou não, parte de uma diáspora, quase todas as mulheres indianas vivem na diáspora, forçadas a cruzarem terras, serras, rios e mares para se unirem ao seus maridos e suas respectivas famílias.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Jashn-e-Azadi

Ontem, no Habitat Centre, tive o prazer de assistir à primeira exibição pública do novo e polémico documentário de Sanjay Kak, Jashn-e-Azadi. É sobre o movimento Azadi e os sentimentos separatistas entre os caxemires, com excelente material recolhido ao longo de três anos no valley. Entre a ilustre audiência, o sempre carismático Yasin Malik, da Jammu and Kashmir Liberation Front, e Arundathi Roy, a agora polémica escritora e activista. No final, grande tensão, com violentos protestos verbais de caxemires pânditas hindus, exilados em campos de refugiados em Jamu, desde o início da violência, em 1989.

Imagens de Deli: Ambulância do Shiv Sena

Irónico? Uma ambulância do partido radical marata Shiv Sena, de Bombaim, em Trivandrum (Querala). O Shiv Sena tem recorrido à violência para alcançar alguns dos seus objectivos, como por exemplo o de estancar a imigração de trabalhadores de outros estados da Índia para o Marástra.

Biblioteca (3)

Às vezes, não há nada melhor do que olhar por cima de um ombro para compreender certas coisas. Como por exemplo quando aguardo a minha vez de aceder ao catálogo informático da biblioteca.

Há estudantes que colocam isto no campo de pesquisa geral, à procura de informação sobre um tópico que lhes foi dado a investigar pelo professor: "European integration policy in the 50s and its impact on french civil society". É óbvio que lhes aparecem 0 resultados. Mas aqui insiste-se. A estudante coloca então: "European integration policy in the 40s and its impact on french civil society".

Biblioteca (2)

No terceiro andar da biblioteca está o Senhor Malik. Chamam-lhe de Sir Malik. Já se encontra reformado, mas continua a vir trabalhar todos os dias. Velhinho, com a face esquerda paralisada, é um autêntico sábio: parece conhecer os títulos e a localização exacta de quase todos os livros da biblioteca. Muitas vezes, os estudantes não encontram um livro no catálogo manual ou informático, mas Sir Malik indica-lhes imediatamente onde é que ele se encontra disponível.

Esse é o mito, pelo menos. Na realidade, o Sir Malik só é útil porque o catálogo é péssimo e está cheio de erros. Na realidade, o Sir Malik não deve conhecer a localização exacta de mais de 90% dos títulos da biblioteca. Mas a adoração de que Malik é alvo representa o crónico desconforto com que os indianos abordam as certezas da modernidade, isto é, os catálogos.

Biblioteca (1)

Na biblioteca há uma secção chamada Textbook Section, em que um funcionário nos entrega um livro em troca de uma ficha pessoal. Normalmente, o estudante pesquisa o catálogo e indica-lhe o código do livro a requerer. Ele procura nas estantes e, uma vez encontrado, entrega-o contra a dita ficha.

Ontem, no entanto, enquanto que eu passava por esse processo e requeria um livro, reparei numa das estantes num outro livro de que eu precisava e que eu procurava há muito tempo. Indiquei-lhe que gostava de requerer aquele livro também. Como o funcionário não fala inglês bem, era escusado eu indicar o título. Apontei então com o dedo, referindo que era the green one, a menos de dois metros dele.

A secção estava deserta e o funcionário não tinha mais nada que fazer, do que ler o jornal do dia. Mesmo assim, sentou-se e recusou-se a dar-me o livro, comunicando que eu precisava de ter o código. "Mas é esse o livro que eu quero, tenho a certeza", referi, timidamente. Nada feito. Para ele o procedimento (inventado por ele mesmo) é sagrado: ver no catálogo e indicar-lhe o código. Outra coisa era inovadora, logo impossível.

terça-feira, 13 de março de 2007

O Orientalismo está vivo!

"Era preciso resolver esta contradição. No mundo ocidental as pessoas são extremamente activas, mas queixam-se de stress. Perdem a paz de espírito. Se formos ao Oriente, a lugares como a Índia, encontramos paz, mas na inacção. Numa parte do mundo há acção e não há paz, na outra há paz mas não há acção."

Ramachandran Bhaskar, mestre da Vedanta Academy que ensina "filosofia oriental" a gestores europeus e norte-americanos, no Público de ontem.

Imagens de Deli: Templo em Trivandrum

Um pai estrangeiro coloca um lungi no filho, enquanto a senhora indiana discute com o condutor do riquexó.

Sofisticação

O instituto de investigação CDS, onde estive em Fevereiro, por uma semana, tem instalações simples e básicas, mas confortáveis e limpas, envoltas da típica vegetação luxuriante do Querala. Foi por isso com espanto que me confrontei com as reacções dos restantes 14 investigadores indianos que participavam no mesmo curso que eu, o único estrangeiro.

Queixavam-se eles constantemente de que era tudo muito rudimentar e que não era tão sofisticado como as instalações dos seus respectivos institutos em Bangalore, Bombaim ou Deli. Ao princípio ainda pensei que estivessem a brincar. Mas não, aquilo não era mesmo suficientemente sofisticado para eles, jovens indianos de uma vintena de anos, preocupados com um bichinho no quarto e com um macaco saltitando entre as bananeiras lá fora.

segunda-feira, 12 de março de 2007

"Adoro" estes e-mails

Para o meu endereço info@supergoa.com:

Exmo senhor,
Preciso de fazer um trabalho sobre a influencia da cultura portuguesa em goa. Será que me pode dar pistas para eu poder desenvover melhor o meu trabalho.
Atenciosamente

...

Imagens de Deli: Família e balões

Logo em frente a minha casa, uma família desfaz balões, utilizados na inauguração de um novo jardim infantil, para reutilizar ou vender o seu plástico.

Zelo ferroviário

Na estação de comboios, há uma placa indicando o atraso aproximado de cada comboio por chegar. A sua organização é, no entanto, peculiar, demonstrativa do iletrado zelo do funcionário ferroviário responsável pela sua actualização: 56 horas.

Zelo bibliotecário

Na biblioteca, há uma estante com uma enciclopédia de vários volumes anuais. Mais precisamente, estão lá dez, de 1996 a 2005. A sua organização é, no entanto, peculiar, demonstrativa do iletrado zelo do bibliotecário responsável pela estante: 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 1996, 1997, 1998, 1999.

Vegetarianismo

Hitler e Gandhi queriam mudar o mundo através do consumo de vegetais. E os portugueses na Índia acreditavam que perderiam a virilidade se se tornassem vegetarianos.

quinta-feira, 8 de março de 2007

O bibliotecário-chefe

Na Biblioteca da JNU há uma sala de leitura para várias dezenas de estudantes poderem estudar em silêncio. Todos respeitam esta urgência silenciosa. Todos? Não. Os funcionários da biblioteca e os raros professores que por aqui se aventuram, teimam em fazer ouvir a sua voz quando a atravessam.

Tenho observado um fenómeno interessante: quanto mais alto/importante fôr o funcionário, ou mais ilustre o académico, mais barulho faz. O bibliotecário-chefe é o pior: fazendo-se acompanhar pela sua côrte privada, conversa sempre a alto e bom som, soltando ruidosas gargalhadas.

Isto leva-me a deduzir a seguinte afirmação: aqui, nesta biblioteca da JNU (e ao que me parece, na restante Índia também) a autoridade é simbolicamente conquistada por via do desrespeito (e não respeito) pelas leis democráticas e de civismo. O bibliotecário-chefe demonstra a sua superioridade justamente por via do desrespeito pela lei geral. Logo, só os fracos e os comuns devem respeitar a lei.

Como nunca ninguém protesta, ainda por cima entre estudantes tão politicamente activos como estes na JNU, presumo também o seguinte: o bibliotecário-chefe tem o direito de falar e rir, e assim perturbar o estudo de uma centena de estudantes. Se ele passasse mudo e silencioso, não seria reconhecido como bibliotecário-chefe.

Corte de cabelo Deli/Paris

Ontem fui cortar o cabelo. Custou-me 30 cêntimos e, ainda por cima, tive uma aula gratuita de hindi. Enquanto estudava em Paris, em 2002, lembro-me de ter pago quase 20 Euros pelo mesmo serviço, mas o cabelereiro não abriu a boca.

O gato preto

Ontem, ao início da noite, uma palestra sobre Caxemira e as leis internacionais, no refeitório de uma residência. Bancos alinhados, dezenas de estudantes escutando três ilustres oradores.

Uma advogada, senhora-rebelde e anti-poder, defensora da causa de Geelani e Afzal, dois dos caxemires acusados de envolvimento no ataque terrorista ao Parlamento indiano, em 2001. Filha de um dos burocratas mais poderosos das últimas décadas, ela pega em causas em quem ninguém mais quer pegar, que todos receiam. E isso significa vir falar em espaços como a JNU.

Um professor comunista e um outro advogado no Supremo Tribunal completam a tribuna oratória. Está frio e escuro. Numa mesa ao lado dos oradores ainda estão amontoados dezenas de tabuleiros sujos, com restos do jantar. Um gato preto entra e serve-se. Ninguém repara. O debate continua, até depois da meia-noite, aquecido por pequenas chávenas de chá.

Imagens de Deli: Talho e inflação

É deste talho, com este senhor, que eu costumo comprar frango. Há dois anos e meio, custava 65 Rupias/kg. Ontem estava a 100.

Citações de Deli: Estratégica Birmânia

What's the secret to the generals' staying power? Thank the neighbors. The junta has deftly played them off one another, notably China and India, as they compete for regional influence and natural resources, including Myanmar's natural gas reserves, the world's 10th largest.

terça-feira, 6 de março de 2007

Compra de legumes

Enquanto escolhia uns tomates e uns limões, na margem da ruela, uma vaca ao meu lado penetrava um minúsculo templo com o seu foçinho esfomeado.

Preços

Quanto mais entro adentro, pelas magras e sujas ruelas da aldeia, mais os preços dos legumes baixam.

Imagens de Deli: Vendedores de fruta

É aqui, com um rapazinho de uma dezena de anos de idade, que eu costumo comprar fruta. Engana-me muitas vezes, mas não deixa de sorrir (porque sabe que eu sei) e a lembrar-me que eu sou "special customer" e que devo comprar fruta só com ele.

Mediano vs. Extremo, na Índia e no Ocidente

Tenho dado por mim, em contraste com os meus demais colegas universitários e mundo académico e político indiano, a defender repetidamente opções intermédias, moderadas e centrais numa variedade de debates, mas também em escolhas simples como a de uma caminho, num entroncamento rodoviários com três saídas.

Tenho observado o mesmo entre os restantes europeus e ocidentais que por cá andam. Sem chegar a ser uma lei, observa-se, no entanto, uma tendência muito premente para a moderação, uma necessidade quase pavloviana de respondermos 2 quando somos intimidados a escolher entre o 1, o 2 e o 3. Os indianos, ao contrário, tendem a preferir o 1 e o 3. Reitero que esta minha observação se aplica a uma variedade de casos, desde a ideologia política à escolha de um legume no mercado.

No meio académico ocidental, por exemplo, é frequente um autor começar o seu artigo explanando que há três escolas de pensamento, três aproximações possíveis a um objecto de estudo ou três teorias acerca de um fenómeno. Há muito que venho a reparar que, em muitos - talvez a maioria - dos casos, é natural que ele defenda a segunda escola/aproximação/teoria, justificando a sua escolha por se tratar da escola/aproximação/teoria mais "conciliatória", "abrangente", "moderada" ou "de compromisso". Uma estrutura introdutória deste tipo não é, no entanto, frequente na Índia. E, quando veiculada, não é apreendida da mesma forma lógica com que nós a apreendemos na Europa, por exemplo.

Reitero: nós, à partida, revemo-nos nessa escolha da escola/aproximação/teoria intermédia que o autor nos apresenta. Isto é, o 1, 2, 3 não é uma mera organização ao acaso. O 2 perde a sua essência se colocado em primeirou ou terceiro lugar, os extremos do continuum. A sua situação intermédia dá-lhe, desde já, uma mais-valia e legitimidade que, embora limitada e depedente do restante artigo e de demais considerações prévias que o leitor possa fazer, advém do seu mero posicionamento antagónico aos extremos.

Por mais que o mundo académico indiano esteja ocidentalizado - e é-o, em grande medida - não vejo os indianos a extraírem igual legitimidade de uma estrutura destas. Isto é, a mera situação intermédia, em segundo lugar de três, de uma escola/aproximação/teoria, não lhe dá nenhuma mais-valia nem qualquer particularidade em comparação com as outras.

Arriscaria mesmo a afirmar que se observa o contrário. A escola/aproximação/teoria intermédia tende a ser abordada com fortes suspeitas, o seu carácter incerto, híbrido, amorfo ou mediano (qualidades positivas no contexto ocidental) assumindo uma dimensão negativa e indesejada, porque fraca. O mediano é, portanto, eternamente medíocre aos olhos indianos.

Holi

Ontem celebrou-se o Holi, o chamado festival das cores sobre o qual já escrevi aqui, em anos passados. Depois da orgia de cores de ontem, numa espécie de Carnaval em que vale tudo e as pessoas se cobrem de pós coloridos, água e demais substâncias, hoje reparei em duas coisas: quase todas as pessoas com o cabelo bem lavadinho (coisa rara) e muitas ainda com marcas de cor à volta ou por trás das orelhas, nas mãos ou na nuca.

Imagens de Deli: Carregando lenha

Contra-mão

Nos corredores, e nos locais de passagem pedonal mais apertados, é frequente eu provocar microchoques culturais: à portuguesa (ou continental europeia), coloco-me automaticamente do lado direito e chego a chocar quase de frente com o outro transeunte. Logo que noto o meu erro, passo para a esquerda, só para me deparar de novo frente ao mesmo transeunte, que, de igual forma educada, obedeu à mesma lógica não-confrontacional e passou para o lado igual. Quando se trata de um homem, tudo bem, lá se resolve com um sorriso ou comentário. Quando se trata de uma mulher, porém, vejo a minha vida a andar para trás.

domingo, 4 de março de 2007

Paradigmas (Atlântico)

Mais uma minha Passagem para a Índia, na Atlântico deste mês (nº24), nas bancas esta semana. Essencialmente, sobre a medíocre cobertura que a imprensa portuguesa fez da excelente visita presidencial a este país. Aqui segue um suculento excerto:

"Tentar perceber um país com mil milhões de habitantes, 28 estados e 23 línguas oficias em poucas horas, talvez com a leitura apressada de um guia turístico no avião, obriga à escolha da via fácil que é a da rendição perante os clichés e paradigmas que continuam a dominar o imaginário português da Índia. Em vez de inovarem e refrescarem imagens, os jornalistas limitam-se assim a perpetuá-las e a cristalizá-las, mantendo o público refém de repetidas coberturas superficiais e vesgas. (...) há o inescapável paradigma dos contrastes. A Índia da diversidade das cores, dos cheiros, das religiões e das disparidades. Confrontado com o desconhecido, aflito por se saber incapaz de aprofundamento sem a devida preparação e dedicação, o jornalismo português refugia-se no facilitismo relativista. Os contrastes indianos são a chapa ideal, servindo de linha de fundo a tudo, sem excepção."

Imagens de Deli: Alfaiate

sexta-feira, 2 de março de 2007

Naxalitas

Lendo este bom artigo sobre o fenómeno da resistência naxalita no interior e leste do país, lembro-me da transformação semântica de que a palavra "affected" tem sido alvo na Índia, nos jornais e até nos debates universitários da JNU que primam pelo politicamente correcto. Já não se fala em Naxal-affected districts, mas em Naxal-infested districts ou Naxal-infected districts. Subtil e simbólico.

Imagens de Deli: Menino pedinte

Explicaram-me tudo há já várias semanas, por isso já não me lembro bem. Mas a ideia geral fica: meninos como este à esquerda só se vêem aos Sábados, especialmente de manhã. Para afastar os azares, é suposto colocar algumas moedas no pote fumegante com óleo. Perguntei a vários amigos meus a origem desta tradição. Ninguém me soube dar explicações exactas. "É assim, há muito tempo", repetiam. O menino ao lado, é claro, vende jornais todos os dias.

5 paisés

Uma Rupia indiana é composta por cem paisés. Como a Índia emerge, e a inflação também, hoje já ninguém quer ouvir falar em paisés. Mas hoje, no banco, vi uma circular do Reserve Bank of India anunciando a retirada de circulação de várias moedas de paisés. As únicas que eu tenho visto são as de 50 paisés. Abaixo disso, nunca me passou nada pelas mãos.

Mas que elas existem, existem, e a circular que eu vi é prova disso. A moeda de menos valor a retirar da circulação são 5 paisés, uma bela moeda que, reconheci pela foto ao lado, já tinha visto há uns quinze anos em casa da minha avó, em Goa. Ora, para ficarem com uma ideia, 1 Rupia indiana equivale sensivelmente a 2 cêntimos de Euro. Logo, a linda moeda que está a ser retirada das bolsas indianas tem um valor aproximado de 0,1 cêntimos.

Se me chegar uma destas moedas à mão e se eu conseguir comprar alguma coisa com ela, eu depois aviso aqui.

Thursday Forum (again)

O Thursday Forum, a tertúlia semanal que ajudei a fundar, há dois anos, na Foreign Students' Association da JNU, continua vivo. Prova disso foi a sessão de ontem. O actual coordenador convidou-me para falar sobre migrações e "porque é que somos todos migrantes".

Na presença de mais de uma vintena de estudantes, o debate foi, como sempre, tórrido e culturamente polifónico, estendendo-se para além da meia-noite: creio que estavam representadas, pelo menos, quinze nacionalidades, para além de um grupo de palestinianos apátridas, refugiados em Nova Deli depois de terem abandonado o seu Iraque adoptivo (desde 1948).

Para além dos estudantes estrangeiros mono-nacionais, imigrantes temporários, havia ainda os casos interessantes de um sudanês de nacionalidade canadiana ou o de uma peruana licenciada nos Estados Unidos, inscrita num mestrado na Alemanha e actualmente de intercâmbio na Índia. Ou o caso da paquistanesa com residência na África do Sul. Um investigador indiano a trabalhar sobre a diáspora afegã em Nova Deli. Um sudanês a viver há 12 anos na Índia. O norte-americano de origem indiana, do Querala. Imigrantes internos: um caxemire e uma bengali. Etc. Resumindo, foi mais um excelente fórum nocturno, essencialmente diaspórico.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Estive em Lisboa

Por um momento, um breve momento, estive hoje em Lisboa. Sentado num restaurante tipo ocidental, com saladas, sanduíches e massas, na companhia integralmente portuguesa da Rosa Maria Perez, do Gustavo Cardoso, da Cláudia e da Inês, bem como do João Pedro Faustino, decorria a conversa em bom português quando, distraidamente olho para o meu lado direito e reparo num casal indiano. Por um momento, tinha regressado a Lisboa, suscitando o meu interesse o facto de estarem indianos no mesmo restaurante do que eu. "Olha, indianos", pensei.

Dilúvio

Se uns pingos de chuva são já uma raridade no Fevereiro deliense, então imaginem um dilúvio. A tromba de água que este início de noite se abateu sobre a cidade capital veio adiar, um pouco mais, o tórrido Verão que se avizinha. À luz dos relâmpagos, o ar urbano nunca esteve tão límpido. Mas se para mim foram momentos estéticos, para muitos outros, foram certamente momentos de aflição, as esburacadas lonas de plástico cedendo água fria para cima das poucas posses e dos muitos queridos.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Goa Bachao (Expresso)

Ora cá está um dos resultados da minha ida-relâmpago a Goa, por dois dias, aquando da visita do Presidente da República a Goa. Acompanhando a Luisa Meireles e o Luiz Carvalho (fotografia), dei-lhes a conhecer uma Goa diferente daquela dos nostálgicos velhinhos goeses lusófonos de olhos azuis em lágrima, ou daquela dos cafés e restaurantes com nomes portugueses. A Goa de hoje, portanto.

Esta reportagem, publicada na Única, é por isso, de certa forma, uma resposta minha às críticas que tenho lançado sobre a forma (displicente, simplista ou superficial e emocional) com que a imprensa portuguesa tem, na maioria dos casos, olhado para Goa e a Índia, em geral. Há excepções, é claro (ver a minha Passagem para a Índia na revista Atlântico de Março). Mas, regra geral, a grande distância que ainda separa Portugal de Goa, deve-se em grande medida a esta incapacidade mediática portuguesa em apreender a Goa de hoje, tal como ela é, para além de todas as saudades e lágrimas.

Expresso, Revista Única, 27 Jan. 07, edição 1787
GOA BACHAO

O pequeno paraíso perdido e frágil de Goa está em perigo. Um movimento, Salvar Goa (Goa Bachao), quer preservá-lo

IGREJA da Nossa Senhora da Imaculada Conceição, um ícone da velha Goa

É quase um grito de desespero: «Goa Bachao», Salvar Goa! Desde há dois meses, é isto que se ouve em Goa, é disto que se fala neste minúsculo paraíso cada vez menos perdido de 3.700 quilómetros quadrados, uma área só um pouco maior do que o distrito de Leiria. «Devolvam-nos a nossa verde Goa» - «Aamchem goem amka parat zai» - assim apela em concani, a língua local, o médico Óscar Rebelo, um goês que fala um português perfeito e que lidera o movimento: «Que este grito de guerra ressoe em cada aldeia do estado de Goa.»

Num domingo à tarde, faz agora 15 dias, era também isto que se ouvia num comício realizado na praça municipal de Quepem, uma pequena vila do interior. Um sol ainda abrasador apesar do adiantado da tarde, mas que não afastava os participantes do pequeno comício: mulheres gastas, idosas, sentadas nas cadeiras com os seus panos na cabeça a protegerem do sol, os homens de pé, junto aos muros. No palco, tudo preparado para receber o estado-maior do movimento Salvar Goa (Goa Bachao Abhiyan), que tarda. São cinco horas e o comício anterior, na cidade de Margão, ainda não acabou.

Bela Hortênsia Matilde Fernandes, de seu nome completo apesar de não falar uma palavra de português, é uma goesa de 53 anos que veio ao comício porque quer protestar: «Estão a vender Goa aos nossos inimigos.» Inimigos? «A gente de fora, estrangeiros e de outros estados.» Junto dela, Ajay Pereira, que se apresenta como um empresário-agricultor de 35 anos e parece ser o elemento de ligação local do movimento, acrescenta que ali, em Goa, «a cultura é diferente do resto da Índia». «É ocidental por causa da herança portuguesa», diz ele, mas não tem ilusões de que são todos indianos. «Acreditamos na Índia, mas não acreditamos nas pessoas que trazem para cá imigrantes, que constroem casas e nos tiram as terras. Como é que depois nos vamos alimentar?», pergunta.

PROGRESSO Goa tornou-se uma mistura de novos e velhos goeses e muitos imigrantes. Está na encruzilhada entre o progresso e a necessidade de preservar a sua identidade

As pessoas vão chegando, juntando-se rente aos muros onde estão expostos vários mapas, fotografias e recortes de jornais. Falam do Plano Regional de Desenvolvimento 2011, uma espécie de plano de ordenamento territorial, e que está na origem de toda esta confusão. Aprovado pelo Governo goês em Agosto de 2006, nos bastidores políticos, prevê a urbanização acelerada do estado, principalmente junto à costa, o alargamento das zonas mineiras, a transformação de muitas zonas florestais em zonas de habitação, tudo para dar lugar a um turismo maciço. Pelo menos cinco megaprojectos estão previstos com os seus condomínios exclusivos, campos de golfe e «resorts».

Num portefólio, estilo antes e depois, pregado no muro, mostra-se um desses sítios, uma idílica vila piscatória no Sul do estado que foi vendida a um consórcio estrangeiro. O Plano prevê a construção de um «resort» com um hotel de cinco estrelas, 800 «villas», cinemas, casino, restaurantes, bares, «boutiques», sala de conferências e de banquetes, uma marina. Para os habitantes de Quepem, por cujas ruas ainda circulam as vacas e onde só raramente se avista um turista, nada disto faz sentido.



Goa, que no fundo é uma sucessão de pequenas aldeias, tem uma linha de costa de 105 km e um máximo de comprimento para o interior de 65 km. Entre o mar e a fértil terra irrigada por dois grandes rios, o Zuari e o Mandovi, Goa tem um ecossistema frágil e delicado, santuário de muitas espécies protegidas. Para Patrícia Pinto, número dois do movimento Goa Bachao, o pequeno estado está em perigo. Mulher bonita e morena, vereadora municipal na capital Pangim, circula pelo recinto do comício, falando com as pessoas, enquanto no palanque discursa Óscar Rebelo. Em concani, pergunta se eles conhecem o plano e o que ele vai provocar e, numa verdadeira lição de política, diz-lhes que eles «é que elegem os políticos e estes têm de fazer o que eles querem, não o contrário.»

LUTA O Salvar Goa/Goa Bachao percorre todas as aldeias do Estado em sessões de esclarecimento popular, explicando as razões por que estão contra um novo plano regional

É este o método do Goa Bachao/Save Goa. Criado em Novembro e formado em Dezembro depois de um enorme comício realizado em Pangim, percorre cada aldeia das 12 talukas (concelhos) de Goa e realiza sessões de esclarecimento popular. A ideia, conta ela ao EXPRESSO, é acabar com o plano, «porque é ilegal e errado»: não cumpre as leis que protegem a floresta, nem as que regulam a costa, é contra as Comunidades (gaunkari, a histórica organização rural de Goa) e estrutura mal as cidades.

«Queremos um novo plano que tenha em conta as necessidades das pessoas, que não esteja só focado no imobiliário, que respeite os campos de cultivo e crie infra-estruturas, que não existem. Os políticos não têm visão para o futuro», acusa. «Nós não temos nada contra o facto de Goa ser um destino turístico, mas a terra e as pessoas têm de ser respeitadas.» E pergunta: «Já imaginou meter um pescador ou um agricultor dentro dum apartamento? Que vida vai ser a dele?» Afinal, ao destruírem a beleza de Goa, transformando o território numa selva de betão, acabam precisamente com aquilo que querem promover, conclui Patrícia Pinto.

O dinamismo do movimento, criado a partir de forças espontâneas, gente com influência na sociedade mas sem representação política, e muito ajudado pela Igreja católica, acabou por alarmar o Governo. A 18 de Janeiro, perante o «ultimato» que lhe foi dado pelo movimento, retirou o Plano, mas apenas «com efeitos prospectivos». Os líderes do Goa Bachao querem agora saber o que se vai passar com as obras que estão em andamento e prometem intensificar a pressão se a retirada não for «completa e retroactiva». A decisão, seguramente, será difícil. Se, por um lado, com eleições à vista para Maio, se compreende a destreza do Governo em se ver livre dum problema, melhor se entende que muitos negócios já foram realizados e muito dinheiro passado de mão para mão, conforme dizia um observador.

Mas o problema persiste e ilustra a encruzilhada em que se encontra o minúsculo estado de Goa, confrontado por um lado com as necessidades do progresso e, por outro, com o tremendo impacto da abertura.

Desde logo, é notório o descontentamento face aos imigrantes que foram chegando desde a entrada de Goa na União Indiana, em 1961, primeiro como território da União, depois como 25.º estado da República, em 1987. Ninguém sabe quantos são ao todo, mas pensa-se que, dos 1,3 milhão de habitantes que conta Goa, 500 mil serão oriundos de outros estados indianos. «Tenho medo de perder a Goa que conheço, de sermos exterminados», dizia o jovem jornalista Andrew Pereira, que já não fala o português, é católico, mas não deixa de conhecer a sua divindade hindu, Kamakshi, nesse sincretismo religioso tão próprio dos goeses. «Cada vez são menos os que falam concani. Goa está a ser explorada e nós temos de acordar», dizia.

Sentimentos como o de Andrew não são raros e inúmeros novos movimentos procuram dar-lhe voz, como o Save Dabolim Committee, que se opõe à construção de um novo aeroporto internacional e defende a ampliação do actual (ocupado pela Marinha indiana desde 1961) ou promove o reconhecimento oficial da língua concani em escrita romana (e não só no devanagárico indiano).

Há quem comece a defender opiniões mais radicais, a falar de autonomia e até de separatismo. Tudo efeitos do fatídico dia 18 de Dezembro de 1961 que alguns goeses não parecem ter digerido bem. Se para o discurso oficial foi o dia da «libertação», outros preferem o termo «invasão», vendo no pós-1961 um novo tipo de colonialismo, a partir da longínqua Nova Deli. Há quem se queixe de que nem o hino nacional indiano percebe, porque é cantado em bengali, língua desconhecida em Goa. E quem se afirme cada vez mais como «anti-indiano»: «Goa é diferente», afirma peremptório Anthony Fernandes, um outro jovem, trabalhador numa empresa de telecomunicações.

Mas diferente em quê? A ouvir Nagesh Karmali, poeta e escritor hindu, membro dos chamados Combatentes pela Liberdade, um movimento que lutou contra o regime português, Goa não é diferente em nada do resto da Índia. «Somos social, étnica, cultural e racialmente os mesmos», dizia ele ao EXPRESSO, sentado na cadeira de baloiço da sua casa. Anti-português que fala português perfeitamente, Karmali tem no escritório da sua casa a colecção completa das obras de Fernando Pessoa em português - «porque a sua poesia é universal». Mas o legado português, resume, «não foi nenhum e limita-se às casas e à arquitectura».


AMEAÇA As antigas várzeas onde desde sempre se cultiva o arroz estão agora em perigo de se transformarem em condomínios de luxo para fins turísticos


Narana Coissoró, goês de origem há muito radicado em Portugal, diz o contrário: «Existe uma goanidade, uma identidade goesa forte.» Na sua opinião, ela baseia-se no facto de desde cedo ter tido uma estrutura ocidental de Estado moderno, completamente diferente do que acontecia no resto da Índia e de o Código Civil ser aplicado no território desde finais do século XIX a toda a população, mesmo a hindu. «A 18 de Dezembro de 1961, Goa era administrada totalmente por goeses», afirma ainda, enquanto acrescenta a rir que, em Goa, «até os brâmanes comem carne».

Goa testemunha agora um consenso alargado de que está em perigo. Dos saudosistas lusonostálgicos aos nacionalistas hindus que vandalizam património português de picareta na mão, e até entre as gerações mais novas, há um sentimento geral de pessimismo, de receio perante os novos desafios. Para Vivek Menezes, escritor goês formado nos Estados Unidos, Inglaterra e França mas que optou por ir viver na sua terra-natal, o futuro não se afigura tão mau assim. «Goa foi o epicentro da primeira vaga de globalização, versão 1.0», afirma, comendo um bife no arejado primeiro andar do Clube Vasco da Gama, em Pangim. «500 anos depois, estamos do lado dos perdedores nesta globalização 2.0, mas temos excelentes condições para criarmos a versão 3.0», diz, sublinhando o facto de um movimento local, como o Goa Bachao, estar a provocar repercussões e atenção a nível nacional e mesmo mundial.

Reportagem de Luísa Meireles (textos) e Luiz Carvalho (fotografias), enviados à Índia, com Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli


A autonomia goesa através dos tempos

Século XI
A dinastia goesa dos Kadamba separa-se de outros reinos e governa Goa, com grande autonomia


1629
Entre a saída e a chegada de um novo Vice-Rei, a administração da Índia Portuguesa passa a caber a Conselhos de Governo locais, que incluem goeses

1787
A Revolta dos Pintos, engendrada por padres goeses de ideais republicanos, é abortada pelas autoridades coloniais


1821
Caso único no Ultramar, a Índia Portuguesa passa a ser representada por deputados goeses em Lisboa


1835
Bernardo Peres da Silva é proclamado governador, sendo o primeiro e único goês a ocupar essa posição


1866
O deputado Francisco Luís Gomes publica a sua obra «Os Brahamanes», em que se reflecte um emergente sentimento nacionalista


1928
Com a fundação do Goa Congress Committee, por Tristão de Bragança Cunha, inicia-se o movimento anticolonial a favor da integração na Índia


1945-61
Alfredo de Mello, deputado em Lisboa, e os intelectuais do Círculo de Margão, liderados por António Bruto da Costa, defendem a autonomia ou independência de Goa


1967
Em referendo, a maioria dos goeses vota contra a integração de Goa no estado vizinho do Marástra


1987
Após maciças campanhas de protesto, o Parlamento da Índia reconhece oficialmente a língua concani e Goa como estado

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Aldrabando: Jornais em segunda mão

Consta que na papelaria central de Connaught Place, onde se acede à maior oferta de imprensa internacional, há jornais em segunda (ou terceira e quarta) mão a serem vendidos como novos. Prova: num Nouvel Observateur o Sudoku vem preenchido e alguns artigos vêm anotados. Cortesia, provavelmente, de um qualquer entediado passageiro francês, de um empreendedor empregado de limpeza aeroportuário e de um pouco escrupuloso dono de papelaria.

Imagens de Deli: Trânsito

O mundo lusófono em Nova Deli

Alunos durante uma das sessões

Como terão acompanhado por aqui, coordenei em conjunto com o João Pedro Faustino (leitor do Instituto Camões) um curso sobre "The Lusophone World: Social, Cultural and Political Aspects" na Universidade de Deli.

Durante quinze sessões, entre Setembro e Fevereiro, demos a conhecer a mais de cinquenta estudantes e investigadores indianos, a realidade social, cultural e política do mundo lusófono, cobrindo não só os sete países de expressão oficial portuguesa, mas também assuntos como a CPLP, as comunidades portuguesas, as comunidades lusófonas não-soberanas e as relações entre a Índia e o mundo lusófono.



O grupo de alunos, comigo e o João Pedro ao meio

Na maioria das sessões contámos com a presença de convidados de vários países lusófonos. Foi o caso da Priscila Tróia, uma brasileira directora de um centro de cultura latina, do Filipe Honrado, conselheiro económico na Embaixada de Portugal, da Elisa, estudante moçambicana na Universidade de Deli, do Miguel Costa, jovem profissional português em Gurgaon, da Marilda Batista, professora brasileira na Universidade Jawaharal Nehru, entre outros.

Na sessão de encerramento, há uma semana, entregámos mais de vinte certificados a todos os alunos que assistiram a dois terços das sessões e que entregaram um ensaio final sobre um tema relacionado com a lusofonia. Para nos falar brilhantemente sobre "India, Portugal and the Lusophone World: Past, Present and Future", esteve presente a ex-embaixadora indiana em Portugal, Madhu Bhaduri. No final, foi exibido um documentário sobre Timor-Leste.

A Embaixadora Madhu Bhaduri, durante a entrega de certificados

Foi um curso organizado praticamente a custo zero e que partiu da nossa iniciativa voluntária (e não-remunerada). Foi um curso, ouso dizer agora, em balanço, que promoveu a imagem de Portugal de uma forma inestimável.

Um guineense em Nova Deli

Liga-me ontem alguém da Foreign Students' Association: "ligou alguém a perguntar pelo teu contacto, mas não fala inglês".

24 horas depois, encontro-me com o Juvenal Cabral, jornalista da Televisão Pública da Guiné-Bissau, frequentando um curso livre sobre jornalismo no Indian Institute of Mass Communication (vizinho à minha universidade). Na Embaixada da Índia, em Dakar, tinham-lhe prometido que iria ter tradutor à disposição, mas, uma vez chegado a Nova Deli, deparou-se com uma terrível barreira linguística: o curso inteiro ministrado em inglês e ele reduzido à língua de Camões. E quatro longos meses indianos e anglófonos à sua frente, longe da mulher e dos filhos.

Sem representação diplomática guineense em Deli, soube pela nossa Embaixada da minha presença e, por via de mais duas ou três coincidências, conseguiu ligar-me. Estava a passar um mau bocado, disse-me. Um passeio pela minha universidade, um chá, umas apresentações a demais estudantes estrangeiros e, acima de tudo, uma bela conversa lusófona e benfiquista, fizeram toda a diferença. Para mim também, foi um prazer redescobrir a África lusófona aqui em Deli, depois dos dois fraternais anos passados em coabitação com o Chacate, de Moçambique.

Entre um "sinto saudades da minha terra" e um "obrigado, hoje já me sinto mais desanuviado", despedi-me e ficou combinado um almoço (bacalhau, é claro) em minha casa. Já iniciava eu a aceleração da minha vespa quando o Juvenal exclama, mãos no ar: "avisa o nosso resultado amanhã, ok?".

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Do Porto para Wall Street, via Índia (Expresso)

Aqui vai mais uma peça minha, no contexto da orgia indiana que assolou a imprensa portuguesa em Janeiro passado, sobre um dos poucos portugueses que por aqui se aventuram, o meu amigo Miguel.
Expresso, Revista Única, 20 Jan. 07, edição 1786

Do Porto para Wall Street, via Índia

Levou na mochila Vinho do Porto, latas de sardinha e computador portátil. A 12 mil quilómetros do sítio onde nasceu, Miguel Costa ganha menos do que colegas seus em Portugal mas viu isso como um investimento

‘CASUAL DAY’. Às sextas, Miguel troca o fato e gravata por algo mais informal. Vai sempre de riquexó para o escritório


Miguel Costa engole a chamuça e lambe os dedos. Balbucia algo em hindi para o vendedor ambulante e entrega-lhe duas rupias (quatro cêntimos), enquanto, ao seu lado, num baldio, uma vaca remexe no lixo. Ao fundo, emergem três brilhantes torres, sedes de multinacionais. Estamos em Gurgaon, um subúrbio da capital indiana, Nova Deli. Este é um dos centros do milagre económico que é a Índia desde 1991. Há um ano que o portuense Miguel Costa, de 23 anos, também faz parte desse milagre.

«Isto há dez anos era só uma aldeia», nota, observando as torres que parecem ter emergido do nada, rodeadas por arruamentos inacabados e alguns campos trabalhados por agricultores resistentes aos ventos da globalização. Tal como Gurgaon, também Miguel vive uma fase turbulenta da sua vida.

Em Fevereiro de 2006, Miguel era só mais um recém-licenciado pela Faculdade de Economia do Porto, com «uma média baixa, 12». Agora está a 12 mil quilómetros, na Índia, a preparar-se para viajar para Nova Iorque. É lá, longe das vacas e das torres indianas, mas também da sua casa na Maia, que irá aconselhar um gestor de um dos dez maiores bancos de investimento do mundo. «É mesmo em Wall Street, já confirmei o código postal», sorri orgulhosamente.

Miguel trabalha na Evalueserve, a empresa pioneira no «outsourcing» de processos empresariais baseados no conhecimento, com 1400 empregados. «Há médicos, economistas, advogados e engenheiros, de todo o mundo. Recolhemos e analisamos dados de vários segmentos de mercados para clientes de todo o mundo», explica. Miguel entra antes do meio-dia e sai depois das dez da noite. Deu-se bem - e o cliente pediu à empresa para que lhe renovasse o contrato e o enviasse para os seus escritórios.


ALMOÇO. Miguel começa a trabalhar ao meio-dia e sai depois das dez da noite

Choque cultural

Tudo começou quando uma oferta de emprego da Evalueserve cativou o interesse de Miguel na Internet. «Queria mudar de ares. Estava farto da minha vidinha. E a Índia, como potência emergente, oferecia-me boas garantias para o meu futuro», explica.

Ao receber uma resposta positiva da Evalueserve, a comida picante, o choque cultural, o tórrido Verão de Deli e os potenciais riscos associados a uma vida na Índia não o impressionaram. Nem a oposição da mãe. Poucos dias depois, descolava do Aeroporto Sá Carneiro em direcção à Índia. Na sua mochila iam alguma roupa, o computador portátil, umas latas de sardinhas e duas garrafas de vinho do Porto.

«Estou a viver num país complicado e estranho e ganho menos do que muitos dos meus colegas que estão em Portugal. O choque da chegada também foi assustador», admite. «Mas é tudo uma questão de hábito», acrescenta logo. Não houve tempo para ter medo. Menos de vinte e quatro horas depois de ter aterrado no Aeroporto Internacional Indira Gandhi, já tinha ido às compras com novos amigos, conhecido a sua futura namorada, a francesa Marguerite, e sido apresentado na empresa. «Mergulhei e comecei logo a trabalhar», lembra.

Desde então, Miguel embarca todas as manhãs, de fato e gravata, num riquexó verde e amarelo, em direcção ao seu escritório. Às sextas-feiras a empresa autoriza uma vestimenta mais informal - é o «casual day» - o que tem o benefício de atrair menos pedintes nos semáforos.

«Se eu quisesse viver melhor agora teria ficado no Porto», sublinha. É talvez por isso que repete várias vezes que não lhe interessa o dinheiro e se recusa a dizer quanto ganha. Miguel partilha um quarto com a namorada. O que resta do salário no fim do mês é gasto em pequenos fins-de-semana nos Himalaias. Sempre em autocarros e nos hotéis mais baratos, como um indiano da classe média ou baixa.

Para Miguel, esta é «uma estratégia racional e calculada». «Estou a construir uma carreira para chegar aos 30 e ser dono do meu destino. Quero ser eu a dizer onde e como quero trabalhar e quanto quero ganhar. Os meus colegas saem da faculdade e querem ganhar logo 200 ou 300 contos. Mas a maioria fica-se por aí e nunca chega a dar o salto com que tanto sonha» - para Wall Street, entenda-se. «Estar cá é um investimento», sublinha, no seu sotaque nortenho.

Reportagem de Constantino Xavier (correspondente) e Luiz Carvalho (fotografias), enviado à Índia

Como é a vida na Índia

Antes de ir para a Índia é conveniente documentar-se sobre o país, para não sofrer um choque cultural à chegada. No que diz respeito ao emprego, podem ser encontradas ofertas em portais da Internet como os http://www.iagora.com/ , http://www.emploi-international.org/ ou http://www.monsterindia.com/. A fluência em inglês é obrigatória. Em projectos com um país específico, valoriza-se o conhecimento da sua língua e cultura empresarial. Noutras áreas privilegia-se a formação em gestão, finanças e «marketing». A empresa faz uma série de entrevistas telefónicas para testar os conhecimentos do candidato, que, a ser aceite, receberá uma carta de aceitação e um contrato, que deve assinar, para requerer o visto de trabalho na Embaixada da Índia em Lisboa (cerca de 80 euros).


Como se vive

O salário médio situa-se entre os 400 e os 1.000 euros mensais, consoante a actividade. Em Gurgaon, o aluguer de um quarto custa 100 euros (em Bangalore ou Chenai chega a ser metade). A alimentação não passa dos 10 euros/dia. Um bilhete de cinema custa dois euros e uma ligação à Internet 15 euros/mês. As empresas internacionais têm, geralmente, dezenas de empregados de diversas nacionalidades, o que cria um ambiente cosmopolita. As despesas com a saúde são reduzidas, mesmo nos hospitais de luxo. Uma consulta com um especialista custa oito euros.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Imagens de Deli: Vendedor de especiarias

Protesto II

Esta noite, numa manifestação estudantil pela "cultura democrática e contra a administração da universidade", no campus da JNU:
El povo, unido, jamas sera vencido!
The people, united, shall always be victorious!

Protesto I

Esta noite, numa manifestação estudantil pela "cultura democrática e contra a administração da universidade", no campus da JNU:
Ho, Ho, Ho Chi Minh!
We shall fight, we shall win!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Imagens de Deli: Leiteiro

Redescobrindo: Querala

A rainha do Malabar, a região onde aportaram Vasco da Gama e demais nevegadores portugueses, chama-se e escreve-se, no meu entender, Querala (e não Kerala). Eu ainda hesitava em substituir o K por um Qu, mas, como todos sabemos, em bom português não há k nenhum. Há, no entanto um problema. Querala em português é, muitas vezes, lido com ênfase na primeira sílaba (quer-ála), o que é errado pelas nossas próprias regras, mas também se tivermos em conta a pronúncia indiana, que afoga a segunda e terceira sílaba. Deve-se, portanto, dizer algo como que-rála, mas sem pausa, enfatizando (embora o menos possível), a segunda sílaba.

Um dálita e um brâmane

Há experiências de vida que são impagáveis e que me escapam mesmo aqui, em Deli. Durante o curso de investigação sobre métodos em migrações, no CDS, em Trivandrum, partilhei o quarto com mais dois colegas. Um dálita, ou "intocável", convencido de que a religião é a fonte de todos os males e condenando incessantemente as castas altas por minarem a harmonia social indiana. Outro brâmane, fiel observador dos ritos sagrados hindus. Comigo pelo meio, imaginarão a magnitude, a intensidade e a riqueza dos debates com que premiámos todas as noites.

Samjhauta Express / Schadenfreude

Veio mesmo a calhar para alguém em Islamabad.

Citações de Deli: Dalit reservations

Estas duas frases escondem a complexidade de todo um país que, pela sua diversidade, mais se assemelha a uma civilização inteira.

"The National Commission for the Scheduled Castes has rejected the demand for reservation for the Dalit Muslims and Christians on the ground that untouchability — the main criteria for reservation for this community — was peculiar to Hindu religion only. (...) However, Mr. Vaghela clarified that Sikh and Buddhist Dalits were entitled to reservation because both these religious sects were considered part of Hinduism under the Constitution."

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Quanto custa uma empregada na Índia?

Jasmina has been a member of India's child labor force for more than a year now. After her father died, her mother sent her and her sister from their West Bengal village to work as maids here. Each month, she is paid 100 rupees, or $2.25.

É, no entanto, frustrante observar que este tipo de artigos acaba, quase sempre, no mesmo tom: "...she said she dreams of another life. "I'd like to be at school," she (Jasmina) said with a crooked smile, swinging her spindly legs. "I want to be a teacher."
Menoriza e desvaloriza todo o restante artigo e empacota a sua mensagem principal de uma forma tão sentimental, clássica e típica que quase elimina qualquer impacto prévio porventura alcançado no leitor.

Imagens de Deli: Assinatura de contrato

Processo burocrático aquando da nossa assinatura de contrato de arrendamento de apartamento, em Janeiro último. Uma manhã inteira, dezenas de impressões digitais e assinaturas, muita papelada e pouca paciência.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Redescobrindo: Chenai

Há quem ainda prefere o clássico Mádras ou Madrasta, ou os que, como sempre, sucumbem ao anglicismo de Chennai. Eu, cá por mim, prefiro e sugiro Chenai, pura e simplesmente. Embora, respeitando a fonética indiana, em português, algo como Tchéné fosse mais correcto.

Aldrabando: Livros falsos

Não que os livros sejam falsos, no sentido de serem cópias ilegais (também o há, é claro). Mas nos semáforos de Deli, há sempre crianças e jovens que nos vendem livros, geralmente romances bestsellers em inglês. Vêm sempre cuidadosamente empacotados numa capa de plástico. Não por causa de um qualquer tique higiénico dos vendedores. Simplesmente porque, em muitos casos, os livros são defeituosos, faltando-lhes partes inteiras. Na pressa do "vermelho quase verde", é normal que os compradores não se dêem ao trabalho de abrir o livro e de verificarem se ele se encontra mutilado ou não. Assim, não é raro levarem para casa um livro que termina abruptamente numa página x, ou em que falta um qualquer capítulo no meio. Um livro falso, portanto.

Imagens de Deli: Advocate

Num notário no sul de Deli, um advocate espera por clientes, ao sol matinal. Basta um diploma qualquer tirado numa instituição qualquer numa década qualquer, uma cadeira, uma malita, uma garrafa de água, e um casaco e uma gravata.