domingo, 13 de agosto de 2006

Citações de Deli: Gurcharan Das

"The notable thing about India's rise is not that it is new, but that its path has been unique. Rather than adopting the classic Asian strategy -- exporting labor-intensive, low-priced manufactured goods to the West -- India has relied on its domestic market more than exports, consumption more than investment, services more than industry, and high-tech more than low-skilled manufacturing. This approach has meant that the Indian economy has been mostly insulated from global downturns, showing a degree of stability that is as impressive as the rate of its expansion."

Gurcharan Das, na Foreign Affairs Julho/Agosto (The Rise of India), no seu artigo "The India Model"

Imagens de Deli: Sarahan

Templo de Bhimakali, Sarahan. No estado de Himachal Pradesh, a meio dia de viagem da sua capital Shimla, situa-se na pequena localidade de Sarahan. Em madeira, e com vários séculos de idade, incorpora elementos tibetanos e budistas na arquitectura hindu dos Himalaias. Até o século XIX o templo testemunhava ainda sacrifícios humanos, mas hoje as cerimónias limitam-se a oferecer animais. Sarahan, no vale do imponente Rio Sutlej, é uma aldeia muito pacata, da qual é aliás originário o actual ministro-chefe do estado, do Partido do Congresso. Foi em tempos a capital do principado de Rampur Bushahr.

Desgaste total

O reinício de mais uma época da vida em Deli não poderia ser mais desgastante. Primeiro, "férias na Índia" nunca deixa de ser um eufemismo, a não ser se num daqueles luxuosos pacotes cheios de ar-condicionados, jeeps confortáveis, comida para ocidental e hotéis cinco estrelas. Ora, as minhas "férias na Índia" foram exactamente o contrário, incluindo deliciosas descobertas e aprendizagens, mas igualmente tremendo desgaste em termos de saúde.

Voltado a Deli, sou vítima de um vírus gripal que anda a dar as voltas pela cidade. Dois dia de cama, o que já nem foi mau, tendo em conta os estragos mas prolongados e profundos que fez em outros.

Vítima laboral também. Como se não tivesse bastado o desgaste da cobertura dos atentados de Bombaim, agora com o dia da independência a ser celebrado a 15 de Agosto, está todo o mundo com os olhos postos na Índia, incluindo os meus editores portugueses. Sem falar do trabalho de investigação e da escrita de outros textos mais elaborados para outras publicações.

Vítima da sede energética indiana. Pior do que nunca. Todos os dias, não chegam os dedos de uma mão para contar os cortes de energia. O pior é no meio da noite. Logo que as ventoínhas deixam de funcionar, chegam as brigadas de mosquitos e perco considerável quantidade do meu precioso sangue luso.

Nada de mais. Simplesmente, a continuação da vida em Deli.

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Passagem para a Índia nº 6

O MITO DO PACIFISMO
Constantino Xavier em Nova Deli

A Índia pacifista é um dos mitos mais bem expandidos no imaginário de certa intelectualidade ocidental: uma Índia onde impera a espiritualidade e onde a violência prima pela ausência nas relações sociais e políticas. É como se os raquíticos corpos dos indianos os impedissem de travar qualquer confrontação física, obrigando-os sempre a procurar soluções pacíficas.

Mas, na realidade, a Índia é tão pacifista como Átila, o huno. A própria mitologia hindu representa-o bem: no épico “Ramayana”, composto há mais de dois mil anos, o virtuoso príncipe Rama, acompanhado de um exército de macacos, enfrenta o demónio Ravana, que com as suas dez cabeças e dez armas mantém refém a princesa Sita. Em 24 000 versos, sucedem-se gigantescas batalhas e duelos marciais. Outro exemplo tenebroso é o da deusa guerreira Kali, que é representada com uma espada e um colar de 51 cabeças humanas ensanguentadas.

(...) Em certos círculos românticos, sucumbiu-se à tentação de construir uma Índia pacifista e moralmente sã, onde a violência, como que por milagre, não tem lugar. É o “wishful thinking” posto em prática. É que, justamente, esta imagem nasce nas primeiras décadas do século XX, quando a Europa foi atravessada pelas guerras mais violentas de sempre. Um Gandhi e uma imensa Índia pacifista vinham mesmo a calhar para expurgar os supostos males ocidentais.

Excertos da coluna na p. 44, do número de Agosto da Revista Atlântico

Atentados e afins (no Expresso Online e na RR)

No post anterior, está o artigo publicado na edição impressa do Expresso a 15 de Julho, sobre os atentados de Bombaim. Mas como o assunto chegou ao topo de actualidade internacional, mesmo em Portugal, teve destaque também no Expresso Online.

Um primeiro artigo meu foi publicado logo no próprio dia dos atentados, e depois, no Sábado seguinte, publicada no mesmo espaço uma entrevista na íntegra com B. Raman, ex-operacional dos Serviços de Informação Externa da Índia (RAW) e que dirigiu a sua divisão antiterrorista entre 1988 e 1994. É uma entrevista muito densa, mas que recomendo vivamente, porque se trata de um "insider" com opiniões que só raramente passam para o exterior.

Produzi também uma peça radiofónica para a Rádio Renascença, mas não encontro agora a ligação respectiva para ouvir on-line. Foram assim, os atentados de Bombaim, vistos de Deli, que me custaram inclusivemente uma viagem de três dias de férias a Agra e Gwalior.

Nova frente de guerra (Expresso)

Expresso, Internacional, 15 de Julho de 2006

Índia na rota do terrorismo pan-islâmico

OS BREVES 11 minutos em que, na passada terça-feira, deflagraram oito bombas em sete comboios em Bombaim representaram a abertura de uma nova frente do terrorismo internacional: a Índia.

Acusada pelo Paquistão e grupos separatistas caxemires de manter parte da região de Jamu e Caxemira (de maioria muçulmana) sob ocupação militar desde 1947, a Índia não tinha porém sido vítima de um atentado terrorista de maior envergadura com a marca do extremismo pan-islâmico.

Mas tudo mudou nesta semana. As suspeitas recaíram de imediato sobre o Lashkar-e-Taiba (LeT), um grupo terrorista sediado na Caxemira paquistanesa, e sobre o Movimento dos Estudantes Islâmicos da Índia (SIMI) (ver caixa). Mas a natureza específica dos atentados de Bombaim trouxe à memória Madrid e Londres e parece ter o cunho da Al-Qaeda: durante a hora de ponta, num sistema ferroviário suburbano que transporta diariamente mais de seis milhões de pessoas e tudo de forma quase simultânea.

É essa a opinião defendida por B. Raman, ex-operacional dos Serviços de Informação Externa da Índia (RAW) e que dirigiu a sua divisão antiterrorista entre 1988 e 1994. «Tendo em conta o planeamento, a execução e a sofisticação dos atentados, é impossível ignorar a mão da Al-Qaeda», disse ao EXPRESSO. «Tudo parece indicar que os atentados foram planeados sob sua orientação e inspiração, enquanto o LeT e o SIMI ofereceram os militantes para a operação no terreno».

Para Raman, abre-se uma nova era na luta contra o terrorismo internacional: «Devido ao conflito na Caxemira, a Índia passou a ser um dos alvos da ‘jihad’ global. Estes atentados são só o começo».

Neste sentido, as referências à Índia nas mensagens da Al-Qaeda difundidas semanas depois da visita de George Bush a Nova Deli poderão ter servido de aviso. Osama bin Laden ameaçava então a «nova aliança entre cruzados, sionistas e hindus».

Expansão radical.

Embora seja o país com a maior minoria muçulmana no mundo (cerca de 150 milhões de pessoas), a Índia sempre sublinhou o facto de, até à data, nunca ter havido cidadãos seus nas listas de operacionais da Al-Qaeda. Mas os atentados de Bombaim indicam o contrário e espelham a crescente expansão do extremismo islâmico na sua própria sociedade.

Ainda segundo Raman, algumas franjas da minoria muçulmana têm vindo a radicalizar-se. «Desde os atentados em Nova Iorque, Madrid e Londres que os militantes paquistaneses da Al-Qaeda têm estado sob controlo constante dos serviços de segurança ocidentais. É por isso que os muçulmanos da Índia oferecem agora uma excelente base de recrutamento», afirmou.

Está ainda por contabilizar o número exacto de vítimas mortais (mais de 200, até agora). Mas a oposição dos nacionalistas hindus do Baharatiya Janata Party já acusou o Governo, liderado pelo Partido do Congresso, de criar um «ambiente propício à expansão e promoção do terrorismo no país inteiro». A oposição exige do primeiro-ministro uma «resposta firme», especialmente no plano externo, em relação ao Paquistão, cujos serviços secretos acusa de financiar e treinar os terroristas islâmicos.

Uma nova subida de tensão entre os dois rivais nucleares da Ásia do Sul não é, no entanto, do interesse de Nova Deli, que quer garantir a estabilidade interna e o crescimento económico.
Mas a mensagem telefónica de apoio que o primeiro-ministro Manmohan Singh recebeu, na quinta-feira, de George Bush, foi ouvida com grande agrado na capital, dado que a Índia acusa a comunidade internacional, há já vários anos, de ignorar o seu estatuto de «vítima do terrorismo».

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli


Principais suspeitos

LASKAR-E-TOIBA
É o principal grupo suspeito, embora tenha recusado qualquer envolvimento logo no próprio dia dos atentados, considerando-os «desumanos». A Índia acusa a organização de ter executado a maioria dos atentados bombistas no seu país e de operar com o conhecimento e equipamento dos serviços secretos paquistaneses (ISI). Foi inicialmente activo no Afeganistão, onde contou com o apoio norte-americano na luta contra a ocupação soviética. Veio a estabelecer-se depois no Paquistão, com um quartel-general perto de Lahore, onde Osama bin Laden era, até recentemente, presença frequente. Nos últimos anos, tem procurado internacionalizar-se, em estreita colaboração com a Al-Qaeda. Opera dezenas de campos de treino na Caxemira paquistanesa e movimenta-se facilmente na parte indiana.

MOVIMENTO DOS ESTUDANTES ISLÂMICOS DA ÍNDIA
Com várias centenas de militantes, é o principal grupo extremista islâmico fora da Caxemira. Tem a sua base principal de apoio no Estado do Utar Pradexe, no norte, onde tem estado envolvido em diversos atentados a comboios. Desde que foi interdito pelo Supremo Tribunal de Nova Deli, em 2001, expandiu a sua base de apoio para sul, especialmente para o Estado de Maharastra (de que Bombaim é capital) e para o Estado do Qerala. Alguns dos seus operacionais foram treinados em campos do grupo terrorista Harkat-ul-Jihad-i-Islami (igualmente próximo da Al-Qaeda), implicado na série de 400 atentados bombistas que assolaram o Bangladesh em Agosto de 2005.

REDES CRIMINOSAS
Com 16 milhões de habitantes e diversas minorias étnicas e religiosas (principalmente muçulmana), Bombaim alberga poderosas redes criminosas de tráfego de armas, estupefacientes e pessoas, que mantêm relações estreitas com os poderes políticos. Algumas, de orientação religiosa, servem de bases de apoio aos terroristas caxemires e estiveram alegadamente implicadas nos violentos atentados bombistas de 1993, pelos quais Abu Salem (extraditado de Portugal em 2005) é agora acusado. Uma das maiores redes era então liderada por Dawood Ibrahim, o criminoso mais procurado da Índia, actualmente refugiado no vizinho Paquistão.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Imagens de Deli: Adeus

Quatro semanas de maravilhosa, cansativa, decadente, impressionante Índia. Adeus João e Raquel. Obrigado pela visita e companhia. Deixaram-me com belas memórias... e uma gripe tramada! Para os restantes leitores, as fotos seguem dentro de momentos.

terça-feira, 8 de agosto de 2006

De volta

Depois de umas valentes semanas nos Himalaias e no Utar Pradexe, à beira do Ganges, cá estou eu de volta à vida em Deli, por mais dois anos.

domingo, 2 de julho de 2006

Mais uma Passagem para a Índia

ABERTURA
Constantino Xavier em Nova Deli

"No actual momento da globalização, fechar-se sobre si próprio é reduzir-se à insignificância. Em concreto, recusar a abertura ao Oriente significa virar as costas à realidade. Ora, neste contexto, Portugal tem estado a enredar-se em fantasias. Basta abrir os jornais portugueses, cheios de notícias sobre golpes de Estado africanos e fantochadas latino-americanas – se é que se dá atenção ao que se passa “lá fora”. Como que por encantamento, a Índia deixou de existir. Nos corredores governamentais portugueses, o país de Gandhi equivale a uma imensa mancha negra, e, nas carreiras diplomáticas, constitui um verdadeiro “desterro”. Só vai para lá quem quer – e quase ninguém quer. Até finais do ano passado, a embaixada portuguesa em Nova Deli estava entregue a dois diplomatas e um conselheiro cultural. Três pessoas num país de um bilião. Já vão longe os tempos daquela famosa visita presidencial que se saldou num passeio de elefante, em lágrimas de crocodilo e em muitos sacos de compras. E, ao contrário do que muitos possam pensar, Nova Deli tem mais que fazer do que estar à espera de um novo Vasco da Gama. Só se ele se chamasse Bush e chegasse num Boeing."

Excerto da coluna na p. 42, do número de Julho da Revista Atlântico

Gorjeta indiana

Quando levei três professores indianos a comer os Pastéis de Belém ali ao Restelo não adivinhava o impacto que estaria a produzir. A visita fez mais pela renovação da imagem da Índia em Portugal do que dez blogs como este meu. Depois de vir a conta de 3,70 Euros, os homens, tão encantados com o nosso país e o dia passado a visitar Lisboa, deixaram uma gorjeta de 4,30 Euros. Ao saírmos de lá, olhei para os oito Euros na mesa e depois para o empregado estupefacto, e, em jeito de explicação, deixei escapar um incompreensível: "Olhe, é uma gorjeta indiana". O bom homem ficou a olhar para mim ainda mais incrédulo.

domingo, 25 de junho de 2006

Blog Atlântico

De há umas semanas para cá, embora irregularmente, eu também passei a escrever no blog da Revista Atlântico em http://revista-atlantico.blogspot.com. Ideal para os que já estão entediados com as minhas indianices e orientalices. E um teste às minhas capacidades de escrever sobre coisas diferentes. Isto é, normais.

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Repartida

Abalo dia 10 de madrugada, via Amesterdão. Hipótese 1: No dia 9, Portugal ganha a final e, ao embarcar pelas duas da manhã, enquanto que as massas esperam lá fora, cruzo-me com os novos campeões europeus, de chegada de Berlim. Hipótese 2: A Holanda ganha a final e passo uma manhã inteira em Amesterdão, à espera da ligação para Deli, rodeado de laranjinhas eufóricos e bêbados. Não aceito nenhuma outra hipótese. Mas prefiro a primeira.

Confirma-se: She's in fashion

"Once proudly socialist and nonaligned, India is being remade as a roaring capitalist success story and emerging strategic partner of the United States. Economic reforms have raised per capita GDP and lowered poverty rates, while New Delhi's growing self-confidence may help it become the swing state in the global balance of power. In this special lead package, therefore, Foreign Affairs has brought together four top experts to analyze the sources and implications of India's rise — and the policies necessary for it to continue."

Editor's note sobre a edição Julho/Agosto da revista Foreign Affairs: "The Rise of India"

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Redescoberta: Nova Deli

Começo pelo óbvio. Não é nada complicado. Que eu saiba, na língua portuguesa um “lh” soa bastante diferente do “lh” em inglês. O “h” está portanto a mais. Basta Deli. Sem acentos (“Déli”), porque ortograficamente desnecessário. Mas, caso quiséssemos ser fiéis à pronúncia local indostânica, teria que ser “Dili”, tal e qual a capital timorense, mas sem acento. A imprensa indiana em caracteres romanos escreve aliás “Dilli”.

Claro que há os chicos espertos portugueses que gostam de misturar, como os miúdos na escola nas perguntas de resposta múltipla. Assim talvez só errem cinquenta por cento: “Nova Delhi” ou “Nova Délhi”. É por isso pouco surpreendente que a invenção provoque uma pronúncia híbrida ímpar no mundo inteiro: os leitores lêem o “lh” como em “filho” e fica uma “Nova Delhi” muito estranha. E, já agora, porquê “Nova”? Porque é diferente de “Velha”. Há uma Deli antiga, a Norte, e uma Deli Nova, mais a Sul, construída de raiz pelos britânicos.

Tal como os franceses, alemães e ingleses (“Nouvelle Delhi”, “Neu Delhi” e “New Delhi”, respectivamente) também temos o direito de traduzir para “Nova”, porque Deli é afinal feminina, embora não seja a melhor megalópolis para mulheres andarem na rua, especialmente de noite. Vamos lá repetir, todos juntos: Nooova Deeeli.

Imagens de Deli: À espera



Em frente a uma sala de cinema, numa rua de Velha Deli, um homem espera por algo ou por alguém.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Está mesmo na moda

"Even if you've never been to India, eaten its food or watched its movies, there is a good chance you interact with it every day of your life. It might be the place on the other end of that call you call you make if your luggage is lost on a connecting flight, or the guys to whom your company has outsourced its data processing. Every night, young radiologists in Bangalore read CT scans e-mailed to them by emergency-room doctors in the U.S. Few Americans are surprised today to learn that their dentist or lawyer is of Indian origin, and the centrality of Indian brainpower to California's high-tech industry has long been documented. (...) We're all about to discover: that elephant can dance. "

Time, 26 de Junho 2006

domingo, 18 de junho de 2006

Where is India?

Num jornal da noite televisivo, uma pequena peça reporta sobre a 6ª edição da Festa da Diversidade, no meio do Martim Moniz. Obviamente uma festa com fortes orientações políticas à esquerda (basta olhar para os oradores dos dois debates agendados).

Mas com o seu interesse, afinal marcando desta vez o mesmo espaço que já tanto é conotado com a extrema-direita com uns toques cosmopolitas e simpáticos. Ainda bem. Participam (até amanhã) dezenas de associações, clubes, restaurantes etc., um pouco de tudo que a Lisboa global e multicultural nos apresenta hoje em dia. No programa oficial vejo referências à Guiné Bissau, à Moldávia, à Galiza, a Moçambique, a Cuba (claro) e mesmo à associação dos filipinos residentes em Lisboa, para além de um curioso "Colectivo Kilimandjaro".

E a Índia ausente! Nem uma associação, nem uns siques para dar cores com turbante e barba ou uns goeses para dar uns passos de dança? Nem uma barraquinha com umas chamuças? Desculpem lá, mas uma "festa da diversidade" em pleno Martim Moniz sem indianos, é como... arroz sem caril a acompanhar.

Citações de Deli: Fernando Madrinha

"Cada um dos dois gigantes que estão agora a despertar na Ásia é uma potência com condições para rivalizar com o conjunto europeu e para o suplantar, a prazo. (...)O crescimento económico galopante de dois países que, juntos, reúnem mais de 2,4 mil milhões de seres humanos - quase um terço dos seis mil milhões que existem sobre a Terra - vai impor uma redefinação dos centros de poder e dos equilíbrios geoestratégicos. Progressivamente, o despertar da China e da Índia arrastará o crescimento de toda a Ásia."

Fernando Madrinha, editorial, Courrier Internacional (edição portuguesa), nº 56, 28 de Abril 2006: "Nova ordem mundial: China e Índia, os gigantes do futuro"

segunda-feira, 12 de junho de 2006

A Índia e a União Europeia

Realiza-se nos próximos dias 26 e 27 de Junho um "Encontro da Arrábida" intitulado "A Índia e a União Europeia". É uma organizaçãção conjunta da Fundação Oriente e do Instituto Português de Relações Internacionais (Universidade Nova de Lisboa) e conta com a coordenação do Prof. José Esteves Pereira, à frente do "outrora meu" Departamento de Estudos Políticos na FCSH.

A realizar-se no Convento da Arrábida, contará também com a intervenção do meu director de departamento na Jawaharlal Nehru University em Nova Deli, o Prof. Varun Sahni, que tratará o tema do terceiro painel "O futuro das relações entre a União Europeia e a Índia", ao lado do Prof. Carlos Gaspar e do Prof. Jean-Luc Racine (CERI, Paris).

Caberá a mim intervir no primeiro painel ("A emergência da Índia como grande potência"), logo na Segunda-feira à tarde. No mesmo painel intervirão também o Embaixador Joaquim Ferreira Marques, de Nova Deli, o Dr. José Manuel Felix Ribeiro, Subdirector-geral do Departamento de Prospectiva e Planeamento, e um dos maiores teóricos sobre a emergência indiana, o Prof. T. V. Paul (McGill University, Canadá). Pelo meio, o segundo painel irá tratar mais especificamente as relações económicas entre a União Europeia e a Índia.

Para ver o programa completo e aceder ao formulário de inscrição:
http://www.foriente.pt/pt/encontros/en2006_04_prog.asp

Há-de voar

Capa da última edição (3 de Junho) da Economist. Ainda bem que há quem a assine em Portugal. É por esta e por outras vias que os ventos orientais também chegam a Portugal.

domingo, 11 de junho de 2006

Swagatam

Ainda nem sabia eu ligar o rádio da cozinha, porque não chegava ao botão respectivo, e já os sons indianos da Rádio Orbital me acompanhavam todos os Domingos de manhã. E continua. O programa "Swagatam" é emitido em 101.9 FM, todos os Domingos de manhã, entre as 10:00 e às 14:00, procurando "divulgar a música e cultura indiana", segundo a voz do amável locutor, que parece não ter mudado em vinte anos.

"Swagatam" (que significa "bem-vindo" em hindi) é uma ilha de paz na rádio portuguesa. Especialmente por emitir num espaço como o da Rádio Orbital, conhecida pelo seu carácter suburbano e techno reles. Assim, o programa aparece tão rapidamente como desaparece. Num minuto ainda se ouvem as batidas e os zumbidos esquizofrénicos do Crazy Frog, para, subitamente, nos envolverem as equilibradas e suaves melodias e vozes indostânicas.

Pessoalmente, tenho mais um contraste gravado na memória. Os Domingos de manhã eram dias em que a família acordava em conjunto, sem a correria dos dias da semana. Éramos cinco. Enquanto a minha mãe fazia umas apas à moda goesa que nós pouco depois deglutíamos com manteiga e açúcar, o meu pai fazia esforços para nos retirar da cama e nos vestirmos para a missa. Todo esse processo, incluindo os quinze minutos de viagem de carro para a Basílica de Mafra, pelas desertas estradas bucólicas e saloias, fazia-se ao som de "Swagatam", como que as melodias orientais procurando dar-nos algum norte histórico, alguma razão existencial.

O programa é bilingue e cativa portanto gerações e públicos diferentes, dos mais velhos indianos que vivem encalusurados nas suas "Little Indias" periféricas sem falar mais do que dez palavras em português, aos mais novos indianos, que talvez ainda vão a conduzir, de volta de uma noitada em Lisboa nas discotecas da moda, acompanhados pela loura namorada portuguesa.

Mas a audiência é internacional também, porque se pode ouvir o programa em directo no site da Orbital. "Temos ouvintes por todo o mundo, nos Estados Unidos, na Inglaterra, em Angola, em Moçambique, em França etc. E recebemos agora um e-mail da Austrália do x, que nos diz que é nascido na Beira, mas que quer dedicar a música y a uma amiga em Lisboa". É assim, tão fácil assim, que pela voz de um locutor num estúdio qualquer num subúrbio qualquer, se galgam fronteiras e espaços e ideias.

Mas o que mais interessa é que no "Swagatam" se fundem não só sons, mas ideias e culturas também, de forma positiva. Bastante ao contrário da RDP África, de que sou um ouvinte regular e de que gosto muito, mas que, pese a sua natureza pública, tende a cair muitas vezes na ratoeira da auto-marginalização e da sectarização cultural. "Angola, chutá bola, vamos prá vitória!".

O melhor do "Swagatam" são os anúncios, lidos numa voz melodiosa pelo próprio locutor ou por uma assistente feminina. Um estilo radiofónico verdadeiramente arcaico, é certo, mas bastante atractivo, pessoal e eventualmente com bastante sucesso também entre a audiência-alvo. "Venha ao estabelecimento x, em Santo António dos Cavaleiros. Grande gama de produtos indianos, masala, gelados indianos, especiarias diversas. Encontra tudo à sua disposição. E agora às Segundas-feiras, venha encontrar legumes e hortaliças fresquíssimas vindas directamente da Índia só para si." E segue-se o endereço e o telefone.

Há ainda os engraçados concursos radiofónicos (patrocinadas, claro, pela Dan Cake e o seu magnata dono indiano), e pontuais chamadas dos ouvintes. Lembro-me que os olhos do meu pai brilhavam sempre que, talvez uma vez ao mês, eles punham uma música goesa, ou talvez marata, e sempre que algum goês ligava para lá, e sempre que o locutor falava umas palavras em concani... ou marata.

“As boas acções não carecem justificação, mas as más não passarão incólumes por Deus, que nos prestará conta por elas por muito muito tempo”, avisa o locutor, no seu "pensamento da semana". Repete numa língua vernacular indiana. Segue-se outra secção, das felicitações. Não antes de o locutor passar um desmentido.

No programa anterior alguém "fez uso da nossa boa vontade passando uma mensagem de noivado falsa, sob identidade falsa", afirma, e lembra que "nos quase 20 anos, milhares de dedicatórias com felicitações para noivados, aniversários, etc. sempre grátis, num serviço à comunidade no seu todo universal, nunca isto aconteceu".

"Não queremos pôr fim a este serviço. Façam uso positivo dele. Não o usem para fins maléficos, atentando ao bom nome de famílias honestas", apela e explica que "passámos este desmentido a pedido do pai da jovem que manifestou indignação perante esta falsa e ignóbil notícia do noivado”.

E voltam os sons indianos, antigos e modernos, do Norte e do Sul, preenchendo e ocupando o meu quarto. O meu pai chama-me. Desligo a rádio. Vou para a cozinha. Já cheira a apas.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Corte de cabelo saloio

Fui ontem à Venda do Pinheiro, ali à margem da EN8, cortar o cabelo. É que o Sr. Fernando aqui do Rogel, que abria o seu anexo aos Sábados de manhã para fazer a barba dos mais velhinhos e cortar o cabelo aos putos, por uns quantos mil reis (5 Euros), fechou. Deixou de haver velhinhos. E os putos querem cabelo como o Ronaldo.

Sou então obrigado a deslocar-me três quilómetros, à civilização que um dia também chegará ao Rogel. O barbeiro - ao qual, enquanto miúdo, ocasionalmente ia quando a minha mãe insistia num corte de cabelo urgente antes de qualquer ida à ópera, visita social ou viagem mais longa - claro que não me reconheceu.

Só depois de eu abrir a conversa com um "então agora os táxis já voltaram a ser como dantes, pretos?" é que ele notou que estava no processo de tosquiar um daqueles dois putos esquisitos, meio indianos, meio alemães ou lá o que é, que lhe costumavam aparecer por debaixo da tesoura há já mais de uma década.

"Tu és lá da Rogel, não é?", inquiriu. Depois de mais algumas perguntas curiosas ("então já acabaste a escola?"), veio então a questão mais complexa: "Atão andas a fazer o quê, agora". E eu, prenunciando a tragédia, limitei-me a um "estou na Índia, a estudar".

Parou de me degolar os cabelos, por um instante, e procurou, na reflexão do espelho, uma minha expressão facial ou olhar que o pudessem acudir. Continuou depois, em silêncio, o seu trabalho. Finalmente, como que impelido pelo seu instinto cabeleireiro, voltou à carga: "Mas as universidades lá são melhores, ou quê?".

Olhando para o monte de jornais tauromárquicos, hesitei por um instante. Mas o meu espírito maquiavélico deu-me logo uma solução. "Sim, são melhores", respondi com grande determinação e clareza, não deixando margem para dúvidas e terminando o assunto de conversa, para imenso alívio meu e dele. Passámos a falar de bola.

Imagens de Deli: Catmandu

Durbar Square, Catmandu, no Nepal. Complexo de templos hindus (a partir do séc. XI), num fim de tarde solarengo.

Série Redescoberta

Depois das Citações de Deli e das Imagens de Deli, inicio hoje uma nova série neste blog, intitulada de "Redescoberta".

Ao longo dos quase dois anos que já levo de jornalismo e de investigação na Índia, tenho-me deparado repetidamente com uma dificuldade muito singular. Trata-se de transcrever ou traduzir palavras, conceitos, títulos honríficos, mas, acima de tudo, nome de cidades, estados, regiões e países e demais realidades geográficas como rios, cordilheiras, planaltos etc para o português.

O processo é complicado. Tem uma dimensão ortográfica: como transcrever da oralidade indiana, ou do alfabeto devanagárico, as palavras para o português? Quais regras se devem seguir: Bangladeche ou Bangladexe? Certamente que Bangladesh, assim como frequentemente é utilizado, não. É esta a dimensão em que eu sou também mais fraco, e recorro frequentemente ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa ou a outros dicionários e pontuários. Os "K"s são aceites ou não? Basicamente: a geografia deve ou não ser refém da ortografia?

Mas há mais duas dimensões. Uma é histórica: muitos dos locais na Índia têm denominações portuguesas muito antigas, mas que foram caindo no desuso. Por exemplo, "Assão" e não "Assam" como se vê por aí. Caíram no desuso não por terem sido substituídas por novas denominações, mas simplesmente por puro desconhecimento e ignorância. Os jornalistas portugueses de hoje preferem retirar o "Assam" de forma incontestada da BBC Online, a concentrarem-se por um minuto e repescar na sua memória a designação original portuguesa para aquela região, que talvez até tenham lido num Fernão Mendes Pinto numa Secundária suburbana.

A dimensão mais complexa é a política. Muitas vezes, os nomes mudam, especialmente na Índia. De Bombay para Mumbai, de Calcutta para Kolkata e, em breve, de Bangalore para Bengaluru. Isto são acções políticas, muitas vezes pós-coloniais e revisionistas, às quais é preciso fazer face, cooptando a mudança, ou mantendo-se fiel à designação tradicional. Como é no português? Bombaim, Mumbai, Mumbay, Bombay?

Antes de mais, o que eu acho necessário é que haja um consenso. A lei do baldas que presentemente impera no jornalismo português referente a estas dimensões supra tem que acabar (o mesmo aplica-se a todas as outras regiões do mundo). Decidam que a partir de agora se passa a adoptar todas as designações inglesas, para impedir confusões e dabates e facilitar a integração global do jornalismo português. Acho que é uma argumentação muito pobre, mas pelo menos é aceitável porque clara e sustentada.

A questão aqui não é ser purista/conservador ou não. Isto não é uma questão de ortodoxia. É, simplesmente, uma questão de disciplina e de consenso e coooperação, logo de bom sentido. Ora bem: Bangladesh. Leiam "Bangladesh" tendo em conta as regras que aprenderam na escola. Não faz sentido, nem soa como deveria soar, por não? Aquele "sh" não serve de nada. É, pura e simplesmente, um anglicismo que não serve os seus propósitos. Porque, a valer, amanhã passo a escrever "Shina" ou "Chavesh" ou "Marrakesh".

Cá por mim, prefiro uma transcrição e adaptação de conceitos estrangeiros assente nas três dimensões: ser o mais fiel possível às regras de ortografia da língua portuguesa, procurar encontrar designações intrinsecamente portuguesas, mesmo que históricas e em desuso, e, finalmente, encontrar um ponto intermédio que respeite as re-designações políticas, mas não rompa com o passado, quando ele existe.

Por outro lado, este debate e estas dimensões todas são simplesmente fúteis e muito complexos. Como se diz, interessa é desbravar o caminho. O primeiro a fazê-lo escolhe o caminho e os outros não terão escolha a não ser seguir pelo mesmo. Ora, tendo em conta essa sabedoria popular, vou desbravar o caminho com esta série Redescoberta, explorando as complexidades de um jornalista e estudante na Índia, percorrendo debates à volta de transcrições de conceitos geográficos e outros da Índia, e apresentando a minha própria escolha (que vou aliás usando nos meus artigos jornalísticos e de investigação).

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Cabinet Meeting

47, nada mais, nada menos. A Índia é governada a partir de Nova Deli por 47 ministérios. Entre eles, o Ministério para os Assuntos Tribais, velando pelos interesses de cerca de 7% da população indiana que faz parte de centenas de tribos, especialmente concentrados nos sete estados enclavados no "Northeast", e no estado central de Jharkhand.

Há ainda o Ministério para as Fontes de Energia Não-Convencionais, o Ministério do Aço, o Ministério dos Químicos e Fertilizantes, ou o Ministério para as Indústrias de Processamento Alimentar. Querem mais? Ora levem lá com um Ministério das Minas, um Ministério para o Desenvolvimento do Oceano ou um Ministério para os Têxteis.

É muita burocracia, muito papel e, acima de tudo, muito pessoal. Logo, requer o Ministério para o Pessoal e as Reformas. E como os indianos estão espalhados pelos quatro cantos do mundo, inventaram há uns anos o Ministério para os Assuntos de Indianos Além-Mar. Aliás, não é caso raro os ministérios aparecerem e desaparecerem de noite para o dia, ou de dia para a noite. São talhados à imagem dos políticos que precisam de uma "pasta", à revelia de qualquer organização e estruturação racional, ou tendo em vista nada mais, nada menos, do que garantir novas fatias específicas do eleitorado (os vote banks).

O que eu gosto de imaginar, é o Conselho de Ministros (Cabinet Meeting), a 47. Aquilo deve ser bem mais animado e produtivo do que muitas sessões da nossa Assembleia da República em São Bento. E imaginar também qual será a próxima invenção ministerial. Talvez um Ministério para a Qualidade Global do Caril? Ou talvez um Ministério para a Dinastia Gandhi. Este, por certo, não seria dissolvido tão rapidamente assim.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Mil milhões não é pouca coisa

Nos debates sobre o futuro da energia, na TSF e no Diário de Notícias, um dos comentadores do primeiro tema (Combustíveis fósseis), lembra que, embora o seu consumo energético seja reduzido, "a China e a Índia têm metade da população mundial". Arredondar é fixe. Mas transformar um terço em metade, e com isso "inventar" mil milhões de chineses e indianos, é verdadeiramente fantástico.

Vamos lá conhecer, dominar e respeitar os factos e números. E debater só depois.

Contacto físico

Reparo que enquanto por lá o contacto faz parte e é reivindicado em qualquer relacionamento social, cá é repudiado. Na Índia, os jovens do mesmo sexo, andam nas ruas de mãos dadas e com os braços à volta dos ombros amigos. Nos quartos, os colegas universitários partilham as mesmas camas e por vezes dormem mesmo abraçados. Nos autocarros as pernas e os braços encostam-se à pele nua de outros passageiros, e é natural, ninguém se recolhe. Os pedintes tocam-nos insistentemente nos braços ou, ajoelhados, nos pés. Os vendedores puxam-nos pelo braço e pela anca para dentro das lojas. Nos estabelecimentos comerciais não há pequenos suportes plásticos para colocar o troco - as moedas são colocadas na mão do cliente.

Mas aqui as pessoas têm medo umas das outras. Tocar é um desafio, é o início da hostilidade. O contacto físico simboliza violência e um simples roçar de peças de vestuário numa rua mais movimentada basta para que se crie um ambiente conflituoso. O contacto físico é evitado a todo o custo. O contacto físico é privatizado e individualizado, logo sacralizado. E com isso morre toda uma essencial dimensão do espaço público, e da sociedade, em geral.

sábado, 3 de junho de 2006

Citações de Deli: Varun Sahni

"In the 1968 movie The Party, Peter Sellers plays an Indian actor who gatecrashes a Hollywood party and, once inside, causes merry mayhem. The apoplectic host, at a particularly precarious stage in the proceedings, turns to Sellers and asks in an outraged voice, 'Who do you think you are?'. The Sellers character responds, 'We Indians don't think who we are. We know who we are.'"

Varun Sahni, in "India's security challenges out to 2020", Strategy, Australian Strategic Policy Institute, December 2005.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

China e Índia

Na pouca cobertura que os dois países têm na imprensa portuguesa, e mesmo na internacional, aparecem sempre misteriosamente colados um ao outro. Nunca "Índia e China", sempre "China e Índia". Como se fossem gémeos siameses. E sempre acompanhados ou associados a um vocabulário repetitivo, com destaque para "emergência", "gigantes" ou "século asiático".

Por um lado, é bom sinal. Lentamente, os dois gigantes emergentes, China e Índia, começam a aparecer no panorama jornalístico português, mesmo que de forma tímida e pontuada. Por outro lado, é confrangedor e uma verdadeira desilusão. A conversa nada mais é do que um amontoado de clichés e conceitos supostamente "chave", que, a intervalos, são retirados das agências internacionais, mal digeridos por jornalistas mal preparados, e depois vomitados cá para fora, com uma pitada de ácido sensacionalista (a deslocalização, a indústria têxtil em crise, o domínio comercial dos chineses no Norte etc.).

É preciso operar os siameses, separá-los. A operação é arriscada, bem sei. Mas sem ela não vamos a lado nenhum. Mais vale um pássaro na mão, do que dois a voar. E continua tudo envolto em preconceitos ou em simples e pura e escura ignorância. É por aqui que se situa Portugal em relação ao Oriente.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Portugal, o Oriente e o Futuro

ENCONTRO DA PRIMAVERA
"A BEM DA NAÇÃO"

8 de Junho de 2006
20,30 horas

Restaurante "A PATEIRA DA TAPADA"
Tel: 213.622.001.
Tapada da Ajuda - Lisboa

O nosso convidado, Dr. Constantino Hermans Xavier, falará sobre
"Portugal e o Oriente na perspectiva do futuro"

Mais informações:
Henrique Salles da Fonseca - Tel: 213.909.939.; Tlm: 964.030.227.; e-mails: salles.fonseca@oninetspeed.com

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Terceira Passagem para a Índia

Excerto da minha terceira contribuição para a revista Atlântico. Crónica completa na edição em papel, hoje nas bancas e nas caixas de correio dos assinantes.

PASSAGEM PARA A ÍNDIA
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

NEO-ORIENTALISMO

Jonas não é só um jovem sueco que percorre as ruas de Jaisalmer,nas profundezas do deserto do Rajastão, entoando cânticos religiosos hindus. É também um símbolo do modo como os países ocidentais olham para a Índia, com um complexo de identidade

Pessoas como Jonas procuram a Índia como um refúgio - uma fuga da família, dos fiordes, mas também da democracia, da igualdade, da modernidade. Jonas vem à procura de uma Índia que
não existe para tentar escapar à sua própria existência. A mesma lógica reina nos movimentos alter-globalização e em certos círculos intelectuais ocidentais. Na sua óptica, o Oriente (ou o não-
Ocidente) representa tudo de bom, tudo o que falta ao Ocidente. A Índia, em particular, representa o genuíno, o autêntico e encarna os valores tradicionais e a espiritualidade. O contraste é tremendo com o Ocidente: este supostamente representa o materialismo, a artificialidade e a falsidade, e tudo o demais considerado negativo. (...) Se há três décadas Edward Said definia o Orientalismo como um instrumento legitimador do colonialismo europeu, hoje em dia, os neo-orientalistas ocidentais vêem-no como uma forma de auto-colonização.

terça-feira, 23 de maio de 2006

Chegada

Chego num Sábado à noite a Lisboa. Depois dos abraços e dos beijinhos, dez minutos depois a nossa viatura aproxima-se da Rotunda do Relógio. Ainda sem me ter consciencializado bem da chegada a Lisboa, observo a seguinte cena.

Um Mercedes dá um toque mínimo nas traseiras de um Polo. Deste, sai lançado um homem de meia idade, com cara cinzenta e ensombrada. Aproxima-se do Mercedes a passos largos, mas calmamente e decididamente. Tudo sem esboçar um som ou uma expressão facial que pudesse descortinar as suas intenções. Abre então a porta do Mercedes, senta-se no banco da frente, fecha a porta com um estrondo, e começa, a poucos centímetros da cara do condutor, aos berros, movimentando os seus punhos de forma ameaçadora. Do Polo, emerge uma senhora de meia-idade também, com um filho no colo e, também aos berros e soluços, pede para o marido voltar.

O sinal fica verde e arrancámos. Estava de volta. Mas, por um momento, hesito. É esta a Lisboa de que tive saudades? É este o Portugal que deixei, há dois anos? É esta a civilização e o tipo de sociedade que quero defender e a que me orgulho de pertencer? Um prenúncio, um símbolo, ou um acaso?

sábado, 20 de maio de 2006

Flughafen Muenchen

Um ano depois, volto para a Europa. Primeira impressao: limpeza, silencio, riqueza.

Um dos fenomenos que mais gosto de observar, em viagem, diz respeito ah tarnsformacao das atitudes dos viajantes e do ambiente, dependendo do local. Por exemplo, no local de partida, sao os nacionais do territorio local que falam mais alto, dominam os movimentos e as accoes, lideram a turba e marcam o ritmo e o ambiente. Ja depois do embarque, e com o decorrer do voo, a situacao transforma-se e comecam a ser os nacionais do pais de destino a ganhar a mao de cima. Eh a sua vez de comecar a falar mais alto, trocar experiencias (e queixas) sobre o pais que acabam de visitar etc. Ja ah chegada, os outrora lideres do pais de partida ficam reduzidos ao silencio e ah irrelevancia, perante os abracos, os risos de felicidade e o natural ah-vontade dos viajantes que chegam a casa. Observo isto especialmente nos voos entre a Europa e a India.

Oito horas separam-me ainda de Lisboa. Mas ja me sinto um pouco em casa. Onde quer que isso seja.

Férias em casa

Quase um ano depois, chegou a altura de voltar a casa e deixar-me, por uns tempos, de coisas delienses. Mas a vida em Deli continua. Só se deslocaliza, por um mês e tal, para Portugal, de onde continuarei a postar. Em Julho repete-se a dose, com mais dois anos de Deli. Até logo, amanhã à noite, em Lisboa!

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Imagens de Deli: Katmandu


Painel em frente ao Palácio Real em Katmandu, com uma citação do rei actual, Gyanendra. Cabe ao rei e aos órgãos soberanos do estado velar pelo respeito e pela aplicação dos direitos individuais, humanos e cívicos... Não deveria ser ao contrário? Um caso clássico que demonstra que por estas bandas as prioridades são por vezes bem entendidas mas mal aplicadas. Também na Índia, a democracia fez-se, ou tentou fazer-se, "por cima". Isto é, na concepção sul-asiática, e em muitos outros países pós-coloniais, a ideia de democracia foi compreendida como uma tarefa estatal, um processo pedagógico e de tutelagem benevolente. É, de certa forma, a herança da época colonial. A independência muitas vezes nada mais representou do que uma transferência de poderes, dos colonialistas para as novas elites instaladas. Mas, mais do que as elites, é esta ideia da prepotência estatal que asfixia qualquer projecto democrático, e este painel demonstra-o perfeitamente. Não é com painéis destes que se cria a democracia, num país com metade da população iletrada.

Nepal primaveril

Foi recorrente: várias vezes ao dia, enquanto deambulava pelas ruas de Katmandu, bebia umas cervejas e conversava com jovens, enquanto lia os jornais do dia ou entrevistava pessoas de vários quadrantes, via-me sempre apoderado por um déja vu. Tudo em Katmandu aponta para o que testemunhei há uns cinco ou seis anos atrás na Europa de Leste, especialmente em Belgrado e em Sófia, menos em Bucareste. Países em profunda transição, vivendo uma primavera política, envoltos de incertezas mas de grande activismo político.

Em Katmandu respira-se política, as pessoas coladas aos rádios e às televisões, as edições dos jornais esgotados em segundos, os sucessivos protestos e confrontos, o papel central dos jovens e estudantes. O Nepal, acima de tudo, vive um profundo momento de ruptura, de transição geracional. Os jovens que lideraram o movimento democrático das semanas passadas, as dezenas de vítimas mortais e várias centenas de feridos, são os jovens que testemunharam - ainda adolescentes e passivos - em 1990 o primeiro movimento democrático do país que culminou na monarquia constitucional que agora está por sua vez em crise perante as reivindicações republicanas.

Os jovens que engrossam o movimento actual são também a primeira geração que cresceu numa economia liberal e que foi exposta a valores exteriores - especialmente indianos e ocidentais, por via da televisão e da Internet. Vêm por isso pôr em causa o cerne da questão, o fundamento de toda a ideia do Nepal: o seu isolamento, o seu estatuto periférico, a sua marginalização e a sua condição ensanduíchada entre dois gigantes. Estes jovens vieram forçar novos horizontes e merecem por isso toda a atençao e apoio - especialmente tendo em conta que os maoístas espreitam ansiosamente o poder dos seus bastiões rurais e sub-desenvolvidos e dos seus bastiões ideológicos e anacrónicos.

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Do reino nepalense

Um curto cumprimento, sem utilizar palavras com acentos porque o teclado o me o nega, do vale de Katmandu, no Nepal. Por aqui ando por alguns dias, a falar com as pessoas e a ver se percebo para que futuro se movimenta este alegre povo dos Himalaias e se o seu reino corre perigo de vida.

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Diplomacias

Nova Deli é de momento um dos melhores locais para fazer estudos de caso comparativos sobre as variantes e diferenças entre várias políticas externas. O caso mais gritante é uma comparação mediática entre o embaixador francês e seu compatriota norte-americano.

Dominique Girard, o alto representante francês, é presença frequente nas páginas dos jornais. Em especial as revistas cor de rosa e as colunas sociais. Lá aparece ele frequentemente a inaugurar uma prova de vinhos, um ciclo de cinema, uma mostra de iluminuras ou um novo programa de intercâmbio para estilistas. Está lá sempre, com o laço ao pescoço, acompanhado da mulher, empunhando um copito de champanhe e sorridente como se o mundo fosse o avatar material da felicidade.

David Mulford, ao contrário, é homem quase desconhecido por estas bandas. Quase, porque de vez em quando a comunicação social lá consegue pescar uma frase dele, uma nota de rodapé de uma palestra dele, ou um detalhe que alguém soube por via alguém que ele disse quase de certeza. Essas frases são obviamente bombásticas e abrem a actualidade. Mas parece-me que estes “lapsos” não são tão involuntários assim. Acredito que as supostas “fugas de informação” e as afirmações à imprensa mais apimentadas de Mulford (por exemplo, quando interfere directamente nos assuntos internos, ou propõe mesmo recomendações de política externa aos indianos), são fruto de um agenda cuidadosa e meticulosamente preparada e gerida. Isso integra depois, às vezes, um pedido de desculpas oficial que, no entanto, em nada reduz o impacto do que foi dito. Alguma população poderá aceitar e acreditar que foi uma “má interpretação” ou uma “descontextualização”, mas, quem sabe, sabe que o homem passou a mensagem.

Mas voltemos ao contraste: enquanto da boca do embaixador francês pouca coisa sai sobre a real política e economia, para além da balela multilateral, multipolar e multicultiral do costume, o embaixador norte-americano, quando fala (raramente), parte a louça e abre o debate. Obviamente, num país em que a esquerda primordial ainda tem força considerável, percebe-se o alarido. É, por isso, fascinante compreender as diferentes e mesmo antagónicas lógicas que guiam a diplomacia francesa e norte-americana por estas bandas.

quarta-feira, 10 de maio de 2006

Citações de Deli: Rahul Gandhi

“India is rising, but I want to see it compete successfully with every other country, and I want to transform what you see here — poverty. (...) I would like to help these people have the same living standards you have (...) Better than in the West. We’re not here to take (British) jobs, we’re here to empower ourselves (...) We’re a poor country. We have a lot of people in the villages with tremendous potential for entrepreneurship but it is denied to them. Corruption is holding people back, caste is holding us back.”

Rahul Gandhi, Membro do Parlamento indiano (MP), filho de Sonia e Rajiv Gandhi, neto de Indira Gandhi, em declarações em birtânico The Times. Rahul é visto como o próximo primeiro-ministro indiano na linha dinástica Gandhi. Cá por mim, não presta.

sábado, 6 de maio de 2006

Imagens de Deli: Srinagar-Jamu Highway

Trânsito parado na estrada que liga Srinagar a Jamu. As mulheres estendem a roupa para secar. Os homens vão aliviar a bexiga por detrás dos pinheiros. Foi assim, durante quinze horas. Estivemos mais tempo parados do que em movimento.

O sonho indiano (e eu) em perigo

43ºC, nada mais, nada menos. Deli está em brasa. Mas os jornais anunciam-me, sem vergonha no papel, “but there are no signs yet of a heatwave” e eu pergunto-me se li mal, se eles escreveram mal, ou se eu simplesmente me esqueci que estou no planalto indostânico.

Pó. Tanto pó. Tempestades de pó. Um mosquito suga-me sangue nas costas, vou lá coçar com a mão direita, os dedos voltam escuros e poeirentos. Acordo de manhã. Tudo coberto de pó. Infecções nos olhos é coisa normal. Pele a cair dos dedos e da cara habitual.

O pior: os cortes de energia. Mesmo aqui, no sul de Deli da aí muito conhecida classe média indiana. Na capital do país. Há dias em que a luz falta quinze, vinte vezes. A única maneira de fazer face aos graus centígrados nessa altura é ficar sentado por debaixo do chuveiro – caso haja água, é claro.

A nova medida governamental, anunciada hoje de manhã, é peremptória: todos os centros comerciais passam a fechar mais cedo, às sete e meia, os edifícios públicos deixam de utilizar o ar-condicionado às seis e meia, os parques industriais são obrigados a cancelarem o seu terceiro turno, das seis à meia-noite. E um apelo para que os delienses consumam energia com “sensibilidade”, tendo em conta a escassez energética.

É normal. As águas dos rios dos Himalaias, reforçados pelo contínuo degelo dos glaciares, enfrentam pequenas e antigas barragens, sem capacidade de geração adequada ao explosivo consumo subcontinental. A infraestrutura é antiga e sobrecarregada. E milhões nas cidades consomem ilegalmente ou simplesmente não pagam as contas.

O que me deixa preocupado, mais do que a extensa lista de exames e trabalhos por enfrentar até partir, a caminho das férias em Lisboa, é o sonho indiano. Sem energia, não há poder. Sem poder, não há sonho indiano. E sem sonho indiano, deixa de haver Índia.

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Citações de Deli: Keshabchandra Sen

"By madness I mean heavenly enthusiasm, the highest and most intense spirituality of character, in which faith rules supreme over all sentiments and faculties of the mind....The difference between philosophy and madness is the difference between science and faith, between cold dialectics and fiery earnestness, between the logical deductions of the human understanding and the living force of inspiration, such as that which cometh direct from heaven….Philosophy is divine, and madness too is divine….The question naturally suggest itself – why should not men be equally mad for God? (…) Gentlemen, we are going to combine meditation and science, madness and philosophy, and there is no fear of India relapsing into ancient mysticism”

Keshabchandra Sen (1838-84), filósofo e asceta indiano, líder do Brahmo Samaj, durante a sua palestra “Philosophy and Madness in Religion, proferida em Calcutá a 3 de Março de 1877. Citado em “The Nation and its Fragments”, Partha Chatterjee, p. 40

terça-feira, 2 de maio de 2006

Passagem para a Índia e uma bela revista

PASSAGEM PARA A ÍNDIA
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

MUITA CONFIANÇA

Não se deve conceber a Índia simplesmente como um natural aliado democrático e amigo do Ocidente. Nova Deli namora ao mesmo tempo Washington, Moscovo, Teerão e Pequim. A estratégia é a longo prazo.

"Rajiv é filho de um casal que emigrou dos famintos planaltos indostânicos para os subúrbios de Nova Deli. Na cidade, o ganha-pão da família dependia das pernas do pai, paquete numa repartição pública, e das mãos da mãe, empregada de limpeza. Um dia, ao voltar da escola, Rajiv viu numa papelaria o livro “Teach yourself English in seven days”. Hesitou, mas confiou no dono, que lhe disse que bastavam 900 palavras para dominar a língua. Afinal, pensou, a um ritmo de aprendizagem de 30 palavras novas por dia, seria daqui a três meses fluente na língua de todos os sonhos. Hoje Rajiv é engenheiro informático na Califórnia, vive num apartamento à beira-mar, e tem três televisões, dois frigoríficos, um carro e uma mota. São estes os minúsculos épicos que movimentam a sociedade indiana contemporânea." (excerto)

É a minha segunda Passagem para a Índia no projecto jornalístico e mediático mais interessante do Portugal actual. Ideologicamente aberto e arejado mas sempre acutilante. A secção "Correspondentes de Guerra" é prova disso, rasgando novos horizontes e reabrindo Portugal ao mundo - o de hoje. Parabéns, em especial, ao seu director, o Paulo Pinto Mascarenhas. O projecto contraria a velhice do Restelo que domina esse rectângulo à beira-mar plantado: Portugal está tremendamente atrasado na corrida ao Oriente.

Mais de quinhentos anos depois de termos sido os primeiros a marcar presença nas costas asiáticas, somos hoje os primeiros a primar pela ausência numa das mais importantes capitais diplomáticas do mundo - Nova Deli - e provavelmente os únicos a insistir em ignorar, negar ou simplesmente minimizar as transformações tectónicas a Norte e a Sul dos Himalaias. Felizmente há umas raras ilhotas de excelência lusas que pensam diferentemente. A Revista Atlântico é uma delas.

O número 14 está agora à venda perto de vós, nos bons quiosques, e longe de mim.

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Domingo pouco Domingo

Para mim, um Domingo pode ter vários avatares climatéricos. Aceito um Domingo chuvoso. Um Domingo primaveril. Um Domingo frio. Um Domingo veranesco. Agora, um Domingo deliense como o de hoje, isso não. 43ºC na sombra, o ar abafado, tempestades de pó e areia, isso não faz nem representa um Domingo em terra alguma que se preze. O pior são os cortes de energia. Cíclicos, à média de dois ou três por dia. Um primeiro pelo meio-dia. Um segundo ao fim da tarde, pelas seis. E um final – o mais prolongado e torturante – pela meia-noite. É uma luta constante entre os que se dão ao luxo de possuir um ar-condicionado (eu não) e as redes eléctricas sub-desenvolvidas e exaustas. Eu contento-me com banhos repetidos em água morna e as ventoinhas que se limitam a triturar o pesado ar. Há também a opção de ir para a biblioteca – com ar condicionado – e ler ou... dormir. E vem aí muito pior...

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Citações de Deli: Harish Khare

"Prime Minister Manmohan Singh has to be given the credit for realising that India cannot achieve its potential as a great nation as long as it remains mired in a bleeding confrontation with Pakistan. Having boldly stated to the Pakistani leader that boundaries cannot be redrawn, he is prepared to walk the extra mile. Like most sensible Indians, he too recognises that if India wants to be recognised as a major global player it will have to give evidence of its ability to iron out differences with countries in its own neighbourhood."

Harish Khare, reputado colunista e editor do The Hindu, in Who is afraid of peace with Pakistan?, 26 de Abril 2006

Imagens de Deli: Ladaque

Ao fundo, parte do complexo residencial que alberga o Dalai Lama, aquando da sua visita ao Ladaque. Estes miúdos ajudaram-nos quando, subitamente, a nossa mota avariou, a dezenas de quilómetros de Lê (a capital onde estávamos alojados). Do nada, apareceu então um monge budista. Enquanto que os miúdos, uns transeuntes e eu tínhamos tentado fazer o motor arrancar por dezenas de vezes, ao homem santo bastou uma tentativa. Não satsifeito, no seu traje laranja, desmontou a máquina e afinou-a. A vitória do espiritual sobre o material, ou a aliança entre as duas formas encarnada pelo monge, deixou-nos prosseguir a viagem em segurança.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Imprecisões linguísticas

Ahobhāgyā [? H. Aho, interj]. adj. & m.
1. adj. fortunate. 2. pl. unfortunate. 3. m. good fortune. 4. pl. ill fortune

É a língua Hindi na sua plenitude. Uma palavra com dois significados, totalmente opostos. O mesmo passa-se com kal (‘ontem’ e ‘amanhã’), namaste (‘olá’ e ‘adeus’) ou kam (‘trabalho’ e ‘sexo’). Diz muito sobre a civilização indiana e sobre a dificuldade ocidental em a compreender.

Mas, desculpem-me lá, como é que um país se pode entender e desenvolver assim? Tipo, eu digo ao meu estagiário que quero o trabalho feito para ontem, e ele me o apresenta só amanhã. Tipo, eu dizer adeus quando me despeço ao fim da manhã de uma namorada e ela me responde com um olá. Ou, tipo, no escritório digo à minha secretária que quero trabalhar em silêncio e privacidade e de repente ela me acusa de assédio sexual.

P.S.: Um prémio (visita guiada a Deli) para o linguista que conseguir descobrir o conceito gramatical que define uma palavra que tem significados opostos – se é que existe.

Comentário na RFI

Sobre a situação política no Nepal, entrevistaram-me ontem da Rádio França Internacional (RFI), edição portuguesa (Brasil). Até hoje à noite (Quarta), podem ouvir o meu comentário aqui, no Jornal deles, edição on-line. Começa ao minuto 14. Se quiserem mais opções, ou carregar por inteiro, vejam o site (Jornal das 20:30). Acho que costumam enviar para difusão na Rádio Paris-Lisboa (agora Rádio Europa FM), mas não sei se desta vez o fizeram também.

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Pontualidade indiana

Na semana passada prestei os meus serviços de intérprete à Embaixada do Brasil e a uma delegação de vinte economistas em visita oficial à Índia. Acompanhei-os durante três dias a várias instituições, incluindo a minha própria universidade e órgãos como a importante Planning Commission (que elabora os planos quinquenais para a economia indiana – um resquício do socialismo nehruviano) e demais federações de câmaras de comércio e indústria, bem como a Indian Economists Association, para além da minha própria universidade.

Para além da experiência enriquecedora em termos profissionais e de ter alargado os meus conhecimentos económicos sobre a Índia, observei repetidamente um fenómeno que marcava o final de todas as reuniões. Seguindo à risca o programa estabelecido, os responsáveis (directores, administradores, professores etc.) indianos terminavam cada encontro de forma abrupta, no momento exacto em que o ponteiro mais comprido do relógio apontava para a hora marcada para o fim da reunião. Sem papas na língua, alguns referiam mesmo “our time is over” e iniciavam os agradecimentos e demais formalidades finais, perante uma vintena de economistas brasileiros estupefactos, alguns dos quais já se tinham inscrito para colocar perguntas.

Claro, sem margem de manobra, não restava aos brasileiros nada mais do que aceder e terminar o encontro, os indianos desaparecendo nos corredores da sua instituição o tão rapidamente como tinham aparecido, à hora marcada. Transparecia então no ar brasileiro um pequeno estado de choque. A maioria estava disposta, talvez, a beber mais uns cafés e continuar a discutir depois ao almoço ou ao jantar, respectivamente. Pelo menos é o que me pareceu. O chefe de delegação chegou mesmo a mandar uma “boca” aos indianos, que educadamente (e controversamente) não traduzi, para não ferir susceptibilidades locais.

Esta experiência demonstra um fenómeno curioso. Nas altas instâncias governamentais, a pontualidade parece reinar na Índia. Talvez uma herança britânica. Mas note-se que não estabeleço a equivalência entre pontualidade e produtividade. Parece-me que é simplesmente uma tradição fortemente enraizada, uma forma de trabalhar bastante anglo-saxónica e norte-europeia; pouco latina, pouco brasileira.

Isto, no entanto, ao contrário do resto da sociedade, em que o conceito de pontualidade é tremendamente demissionário. Na semana passada realizou-se a cerimónia e festa de despedida para o meu ano, que termina agora em Maio o curso. Os convites anunciavam o início da festa para as 19:30, mas, até às 21:15, só se encontravam no local cinco gatos pingados, todos estrangeiros, eu incluído. Pelas 21:30, duas horas depois do início oficialmente anunciado, lá se reuniu a primeira vintena dos setenta estudantes convidados.

sábado, 22 de abril de 2006

Assimilação

Diz-se que a Índia sempre teve um grande poder de atracção, conquistando os seus invasores por via da assimilação. É o caso dos arianos em tempos imemoráveis, das dinastias islâmicas turcas da Ásia Central a partir do século X, do império mógul na época medieval e mesmo dos colonialistas europeus – basta recordar os Anglo-Indians e os casos de Goa e Pondichérry.

De certa forma, também eu estou a ser vítima deste poder indiano. Há um ano que ando numa mota, embora não tenha carta de condução válida, nem qualquer seguro ou título de propriedade, muito menos o certificado ambiental que agora também introduziram por estas bandas. Em vez de me dar ao trabalho dessa burocracia toda, preferi apostar no Siddarth Singh, o jovem polícia cá da zona, onde mais me movimento. É ele o principal responsável pelas operações Stop, escondendo-se por detrás de uma árvore, para, de repente, saltar para a frente de um veículo contra-ordenador e coligir o seu suplemento salarial mensal.

Depois de me apanhar algumas vezes e me deixar passar com umas multas simpáticas e muitas perguntas curiosas sobre o meu país, contra-ataquei e conquistei-o com um método indiano poderosíssimo. Ele tinha-me referido que colecciona moedas estrangeiras, e percebi logo a dica. Na semana passada parei voluntariamente quando passava por ele, sem capacete. Os condutores à volta estranharam um pouco, mas perceberam logo quando saquei da minha carteira para lhe colocar nas mãos umas moedas em Euros, Rupias do Sri Lanka e Bhats da Tailândia. Ficou combinado que para a próxima vamos beber um chá.

Imagens de Deli: Leh

Leh (Lê) é a capital do distrito de Ladakh (Ladaque), no estado de Jamu e Caxemira. Fica situada num vale estratégico, escavado pelo magnífico Rio Indus (bom para rafting) e numa das antigas rotas comerciais que as mulas e os mercadores percorriam, entre o Tibete, os planaltos indostânicos e as cordilheiras da Ásia Central. De maioria budista, com uma importante minoria muçulmana, o Ladaque é conhecido como o Tibete indiano, apresentando aos seus visitantes centenas de templos budistas (gompas) e maravilhosos circuitos para a prática do montanhismo, com os seus gélidos cumes que tocam os 7000 metros de altura.

Até à década de noventa o turismo aqui era restrito por imposições do Governo. Embora presença militar do Exército indiano ainda pese muito e haja áreas em que é necessária uma autorização especial de visita (especialmente nas zonas fronteiriças disputadas com a China e o Paquistão), hoje o Ladaque é um dos destinos turísticos preferidos na Índia. Não há ligação ferroviária e as duas únicas estradas (pistas) que aqui chegam só se encontram transitáveis no verão, entre Junho e Setembro. De resto, só mesmo voando.

Na imagem, o Palácio de Lê, sede da dinastia reinante até há três séculos atrás, quando o Ladaque foi conquistado e anexado pelos hindus e siques de Jamu. O palácio é visto como uma miniatura do seu congénere Potala, na Lhasa tibetana, mas respira pouca vida - os monarcas locais procuraram exílio em Stock, uma pequena vila a quinze quilómetros de Lê, onde ainda hoje residem os seus descendentes. Como tantas outras famílias reais indianas no pós-independência, perderam o seu esplendor. Ainda tentou a adaptação ao sistema parlamentar e a rainha local foi eleita como deputada pelo círculo de Ladaque, mas os seus descendentes sucumbiram ao caciquismo e ao despesismo, tombando no esquecimento e na periferia política da região.

Citações de Deli: V. S. Ramachandran

"Your blog, your i-way-, i-view, email, webmail - we are all being already assimilated into the brahman of cyberspace. What is the individual, but a node in this huge Internet? We are approaching that stage where we are becoming like the brain in the vat. "

Dr. V. S. Ramachandran, Director do Centre for Brain and Cognition na University of California, San Diego, em entrevista à Frontline. É autor do best-seller "The Emerging Mind", Profile Books, London, 2003

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Reino em perigo (Expresso)

Expresso, edição 1746, Internacional, 14 de Abril de 2006

Nepal: Confrontos ameaçam a frágil democracia

O tímido apoio popular à oposição democrática tem permitido evitar uma ruptura política definitiva no Nepal, apesar dos violentos confrontos desta semana

ESTA semana, violentos confrontos entre manifestantes pró-democracia e forças policiais e militares provocaram várias vítimas mortais e centenas de feridos na capital do Nepal, Katmandu. O recolher obrigatório foi violado por milhares de manifestantes, e centenas de políticos, jornalistas e activistas foram detidos. Os confrontos põem em causa a viabilidade da frágil democracia nepalesa, em vigor desde o fim oficial do absolutismo real, em 1990.

Há pouco mais de um ano, o soberano nepalês, Gyanendra, declarava o estado de emergência, demitia o Governo e acumulava, de forma absolutista, as funções de chefe de Estado e de Executivo. Declarou então que o fazia em nome da «paz, democracia e segurança» do seu pequeno reino hindu de 26 milhões de habitantes.

Mas as promessas reais esfumaram-se ao longo de 14 meses e o país submergiu numa profunda instabilidade, chegando a guerrilha armada maoísta (que controla quase dois terços do território) a cercar Katmandu.

Um dos partidos que se opõem ao monarca já reivindicou a instauração de uma nova República e os maoístas há muito que vêem a família real como símbolo de «despotismo e feudalismo medieval». Gyanendra tomou posse em 2001, depois de o príncipe e pretendente ao trono, Dipendra, se ter suicidado, após ter assassinado os seus pais monarcas.

O que, no entanto, parece ter adiado até agora uma ruptura maior é o tímido apoio popular à oposição democrática. Segundo uma sondagem recente, os nepaleses repartem as culpas pela crise actual de forma igual entre o rei, os maoístas e os partidos. Os receios que o fim abrupto da monarquia afunde o país no caos político e militar também contribuem para a reserva da opinião pública.

Mas para Jhalanath Khanal, ex-ministro pelo Partido Comunista do Nepal (CPN-UML), as manifestações desta semana espelham uma mudança. «Pela primeira vez, centenas de milhares de pessoas estão na rua. O rei não poderá resistir a esta oposição popular», afirmou ao EXPRESSO o deputado da segunda maior formação no Parlamento que Gyanendra dissolveu em 2002.

Acordo histórico.

Procurando estabelecer uma alternativa credível de governo, os sete principais partidos e os maoístas assinaram, em Novembro passado, um acordo histórico em que exigem um governo interino e eleições para uma nova Assembleia Constituinte. «Os maoístas saberão e deverão fazer parte desta transformação pacífica», diz Khanal, lembrando que os seus líderes se comprometeram com uma democracia multipartidária.

Também Narayan Wagle, editor do jornal «Kantipur Daily», defende uma nova Constituição e avisa que «se este processo democrático falhar, o Nepal sucumbirá à guerra civil». Wagle defende «sanções internacionais», para isolar Gyanendra, e que sejam «repostos os direitos cívicos elementares». A organização internacional Repórteres Sem Fronteiras estima que, em 2005, metade dos casos de censura registados no mundo inteiro tenha tido lugar no Nepal.

Contudo, a comunidade internacional tem-se mostrado reticente em apoiar as aspirações dos partidos. Os Estados Unidos têm criticado os «métodos autocráticos», mas apelam ao diálogo e à continuação da monarquia constitucional. Já a vizinha Índia receia o impacto da crise no seu território, onde vivem milhões de emigrantes nepaleses e operam grupos armados aliados dos maoístas.

O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, dependendo 80% da sua população da agricultura. Calcula-se que o conflito entre a insurreição maoísta e o Exército provocou, desde 1996, cerca de 13 mil mortos e mais de 100 mil refugiados internos.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Os indianos desaparecidos

Num país tão grande como o é a Índia, com 1030 milhões de pessoas, compreendo que haja dificuldade em saber com precisão, a cada momento, onde cada vivalma se situa. Ou apurar as décimas e as centésimas do crescimento demográfico, das taxas de natalidade ou da alfabetização.

O que, no entanto, mais me faz estranhar, é um curioso desaparecimento de, nada mais nada menos do que... uns 300 milhões de indianos. Os media internacionais, bem como os parcos livros publicados sobre a Índia contemporânea no estrangeiro, costumam, quase sempre, focar dois fenómenos socio-económicos quando analisam a demografia do país.

Primeiro, fazem referência à “gigante” classe média indiana que estimam normalmente situar-se entre os 300 e os 400 milhões de indivíduos. Referem-se a este estrato social como sendo o “motor” do crescimento económico, o banco de votos preferencial dos nacionalistas hindus do BJP e o símbolo da emergência de uma “nova Índia”, urbana e moderna, consumista.

Depois, na linha do “há sempre um lado oposto por explorar na Índia”, apoiam-se em estatísticas para falar dos que são “excluídos” pelas reformas económicas, a Índia das vozes empobrecidas, miseráveis e famintas, estimando haver, novamente, 300 a 400 milhões de pessoas a viver abaixo do limar da pobreza.

Ora, no melhor dos casos, faltam-nos aqui umas 230 milhões de pessoas. No pior, 430 milhões. Pergunto-me onde estarão estes indianos? A Índia merece um pouco mais de atenção. Não deixem escapar três ou quatro centenas de milhões, se faz favor. Talvez venham a fazer uma diferença considerável.

Imagens de Deli: Estação ferroviária em Sanchi

Estação de comboios de Sanchi, poucas dezenas de qulómetros a Norte de Bhopal, cidade capital do estado de Madya Pradexe. Esta pequena vila apresenta um conjunto monumental de templos e edifícios budistas (stupas), lembrando que a Índia é o berço desta religião e foi, em tempos, predominantemente budista. Sanchi é Património Mundial da UNESCO e um dos locais que mais gostei de visitar na Índia.

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Estados falhados

Há toda uma literatura teórica e uma recente fascinação académica pelo conceito de “estados falhados”, lastimáveis zonas negras do nosso mapa mundo em que não há rei nem roque e impera o imaginário da desordem, das AK 47, dos sucessivos golpes militares e de “capacetes azuis” desarmados cercados por tribais de canas e espadas em punho.

Por outro lado, há todo um misticismo à volta dos reinos tropicais ou montanhosos, rodeados de densa floresta quasi-impenetrável ou encostados a cumes cobertos de neve e gelo, em que o homem natural vive em perfeita harmonia com o ambiente e os seus congéneres, sob auspícios equilibradores do soberano, talvez uma encarnação de uma divindade mitológica.

Ao preparar o meu artigo sobre a situação actual no Nepal (sai amanhã no Expresso), deparei-me com estes dois imaginários e ideais. Já me tinha acontecido quando escrevi, em Agosto passado, sobre a “ameaça” do islamismo político que paira actualmente sobre o Bangladesh. Devo dizer que da mescla destes imaginários resultou uma visão mais realista e moderada das coisas do mundo.

Para dar mais profundidade aos textos, procuro sempre entrevistar individualidades nos respectivos países ou especialistas nas respectivas áreas. Lembro-me, que no verão passado, vi-me aflito para o conseguir no caso do Bangladesh. Tinham então passado poucos dias sobre os mais de 500 atentados bombistas que flagelaram dezenas dos seus distritos, de forma praticamente simultânea.

Não quero imaginar como será num caso de verdadeiro golpe de estado (situação que Daca já testemunhou várias vezes ao longo das últimas décadas), mas descobri então como é difícil sequer conseguir ligação telefónica para os meus entrevistados. Ou comunicar com uma panóplia de assistentes e secretárias que não sabiam falar inglês, para além do ensurdecedor ruído de fundo que marca as conversações e os repetidos cortes.

Ontem, passou-se o mesmo no caso nepalês em que o monarca Gyanendra (visto como uma encarnação da divindade hindu Vixnu) é oposto por milhares de manifestantes. O governo pôs as operadoras de telecomunicações móveis fora de serviço e a maioria das ligações de rede fixa para onde falei ontem estavam certamente sob escuta: vários editores (os que ainda não foram presos), alguns secretários e um ex-ministro e deputado do segundo maior partido (comunista: CPN-UML). Este último, claro, muito disposto a ser entrevistado, passou quase um minuto – na boa tradição estalinista – a enumerar todo e qualquer grupo profissional que dizia estar na rua a protestar contra o rei e espelhar “o povo unido”: “doctors, teachers, nurses, engineers, union workers, journalists, teachers, union workers, peasants, union workers” etc.

É interessante também observar a reacção dos entrevistados, depois de eu me apresentar e colocar-lhes o intuito do contacto. Perguntam, primeiro, para eu repetir o nome do país: “From where is your newspaper??”, mas safa-me o nome Expresso, familiar aos ouvidos anglo-saxónicos. Meu Deus, o que seria de mim se fosse correspondente do Diário de Notícias ou do Correio da Manhã. Desligavam-me o telefone na cara, provavelmente ofendidos. Depois as reacções repartem-se pelos que aceitam logo, os que dão o e-mail e dizem preferir uma entrevista por escrito (o que poder ser um “não” educadamente asiático), e os raros que querem mais detalhes, o meu nome, o do meu editor etc.

Embora depois destas experiências eu me sinta tentado a legitimar a teoria dos “estados falhados”, por outro lado, estou também inclinado a conceder que há pouco de “falhado” e que, afinal, a vida continua, seja em Lisboa, Deli, Daca ou Katmandu. Os jornais vão funcionando, os editores dão-se ao trabalho e ao tempo de me responderem por e-mail num espaço de poucos minutos e os políticos trabalham para o seu ganha-pão e popularidade. Salvo em casos extremos, talvez muitos deles em África, o resto do mundo está longe de ser composto por falhas. Há muito ainda por se realizar plenamente, é certo, mas, afinal, errar e falhar é humano. E estatal.

sábado, 8 de abril de 2006

Glorioso

Como qualquer ser humano jovem, ou menos jovem, também eu passo por cíclicas crises por coabitar há já quase dois anos com a mesma pessoa. Neste caso, é o Chacate, o moçambicano, que vive no quarto que dá para Sul (eu estou no meio e o quarto que dá para Norte é do americano Tyler, que já conheceram). Criam-se hábitos, descobrem-se defeitos. Convive-se diariamente, nocturnamente.

Ambos de um ramo em que tanto se debate apaixonadamente – as Relações Internacionais – e separados muitas vezes pela ideologia (ele, militante da Frelimo e namorado do marxismo-leninismo, eu não sei bem o quê, mas mais virado para a Tailândia), as discussões animam, aquecem e, por vezes, azedam rapidamente. O colonialismo, os Estados Unidos, Chirac, o Togo, os brasileiros, a democracia ou, simplesmente, a Índia levam-nos a isso. Mas, no cômputo geral, somos bons amigos. A vida em Deli juntou-nos, por acaso, e duvido que esse laço jamais desaparecerá.

Certamente, é a língua que mais nos aproxima. Já tinha reparado nisso durante a minha estadia em França. A língua tem um potencial enorme de juntar e separar as pessoas. Há muitas coisas que ficam por dizer quando dois interlocutores não partilham a mesma língua materna. Entendemo-nos em português, em Nova Deli. Se houvesse um Chacate nigeriano, que pudesse somente comunicar comigo em inglês, não seria tão amigo meu como este Chacate lusófono.

No nosso caso, no entanto, há um laço de união mais forte. Chama-se Sport Lisboa e Benfica. Vibramos, sofremos, exultamos com o Benfica, à distância de milhares de quilómetros. No ano passado descobrimos um canal de desporto indiano que mostrava os derbies lusos em directo, de madrugada. Este ano parece que não renovaram o contrato de direitos de transmissão, mas fomos compensados pela fabulosa campanha na Liga dos Campeões e com a sorte de nos calharem duas equipas inglesas como adversários, porque a Índia futebolística rege-se ainda pelos critérios britânicos e são esses os jogos televisionados.

De noite, já passa da meia-noite, reunimo-nos à frente do pequeno televisor no quarto moçambicano e sofremos igualmente, como dois benfiquistas, berramos, saltamos e abraçamo-nos a cada golo, bebemos cerveja, comemos amendoins e, quando a imagem desaparece porque o operador do serviço de cabo adormeceu, contentamo-nos com o relato radiofónico via Internet.

Às vezes encontramo-nos com outros estudantes estrangeiros e colegas indianos e vemos os jogos na universidade. Graças ao reduzido merchandising encarnado que possuimos e importámos de Lisboa, vários deles já se converteram ao Glorioso. Falta pouco e abrimos uma segunda Casa do Benfica lá na universidade, porque uma já temos, nesta casa lusófona.

O Luís Filipe Vieira que se deixe de chinesices e venha para a Índia. Em finais da década de cinquenta, o meu avô, então no Conselho de Desportos do Estado da Índia Portuguesa, trouxe a equipa de reservas do Benfica a Goa. Espero um dia vir a poder trazer Simão e Cia. a estas longínquas, mas não menos benfiquistas e gloriosas, terras. Em que há muitos que se dizem orgulhosamente benfiquistas... em português.

Imagens de Deli: Entrega de bilhas de gás

Aqui a Deli, ainda não chegaram as mini-saias da "menina do gás". Mas o serviço de entrega de bilhas de gás depende igualmente das pernas. Magras, suadas e pedalando.

O calor e o trabalho apertam

O calor - sim, Deli já namora a casa dos quarenta graus - e o redobrado trabalho nesta altura da época académica fizeram esta Vida em Deli desacelerar. Logo que amanhã voltar da minha apresentação de grupo "Sunset, Sunrise: France and China" na cadeira "Great Powers in the International System", voltarei a teclar e a postar sobre esta minha vida deliense.

terça-feira, 4 de abril de 2006

Imagens de Deli: Várzea em Goa

No extremo sul de Goa, no concelho de Canácona, perto da aldeia de Galgibaga. A meio da tarde, num quente final de Dezembro, correm-se as várzeas em busca do ingrediente principal da dieta goesa: o arroz. É assim há séculos. Será assim por poucos anos mais. Estive a pensar: ainda haverá pescadores em Lagos, no Algarve? Ou aquela costa toda já só depende do turismo? Receio que o mesmo possa vir a acontecer muito em breve em Goa. Com todos os benefícios e todas as desvantagem que daí advirão.

Back to the future

Há aqueles ditados que nos mandam ser romano em Roma. E outros que valorizam a sapiência das pessoas da “terra”, os locais. Há uma admiração dos modernos turistas pela tradição popular, que às vezes, supostamente, consegue mesmo derrotar os aparelhos, as máquinas e as ciências racionais. O tal camponês que sem relógio sabe acordar matematicamente – durante todo o ano – exactos cinco minutos antes de o sol nascer. São os pequenos mitos, alguns verdadeiros, que nos fazem lembrar que houve um mundo pré-moderno, tradicional, e que nós nos afastámos dele, munindo-nos de dependências materiais e científicas para maximizar produtividade, saúde, ou, simplesmente, pontualidade.

Politicamente manipuladas, estas emoções podem levar à recusa do moderno, à negação do avanço científico e tecnológico e explicam, talvez, a razão pela qual milhares de alemães e escandinavos que todos os anos abandonam as suas promissoras carreiras, as suas confortáveis casas e os seus colossais carros para irem vivem numa ilhota no Pacífico, numa aldeia rural indiana ou na floresta tropical africana em busca de algo primitivo e essencialmente puro. É o mito do bom selvagem na prática. As yogas, os zens, as Naturas e os sumos com polpa enquadram-se nesta onda.

Sem querer negar este direito ao auto-exílio e ao regresso à natureza a quem assim prefira, ponho, no entanto, em causa o mito que “o natural/tradicional é sempre melhor”. Lembro-me de, recentemente, estarmos numa pequena aldeia nos Himalaias. Tinha que apanhar um autocarro para outra aldeia. A família que nos albergava anunciou-nos com segurança e sabedoria que o autocarro partia sempre às nove da manhã, em ponto, há anos. Desconfiado e ocidental como sou, fui abrir o meu Lonely Planet de 2003 e este anunciava que o dito autocarro partia às oito e meia da manhã, todos os dias. Ou seja, meia hora mais cedo. Inseguro, e sem querer ferir susceptibilidades (ou seja, ocidentalmente), lá decidi seguir as instruções populares. Quando nos aproximávamos da avenida principal, pouco passava das nove da manhã, o autocarro passou velozmente por nós, deixando uma grande nuvem de pó e muitas certezas quanto à superioridade de quem faz guias turísticos à distância de milhares de quilómetros, algures em Sydney.

sexta-feira, 31 de março de 2006

Citações de Deli: Stephen P. Cohen

"In the view of some Americans, the Indian negotiating style consists of one stage in which Indian negotiators attempt to establish their moral superiority over their American counterparts. (...) Most American negotiators are so taken aback by what they perceive as Indian arrogance that they find it difficult to engage in lengthy and complicated negotiations with New Delhi. Indeed, the Indian style is a deterrent to negotiations."

Stephen P. Cohen, in "India, Emerging Power", (New Delhi: Oxford University Press, 2001), p. 86

Imagens de Deli: Corbett National Park

Corbett National Park, no estado de Utaranchal Pradexe, perto dos Himalaias. O parque alberga tigres e elefantes selvagens, crocodilos, águias etc. Os tigres em extinção, claro. Os elefantes mais e mais domesticados (estes, na foto, totalmente). Estive lá há um ano e vale a pena. Enquanto dura.

quinta-feira, 30 de março de 2006

Grandes pensadores

Estou a preparar um trabalho sobre a transformação do conceito indiano Swaraj (equivalente a auto-determinação ou independência) ao longo das primeiras décadas do século XX. Cubro o período 1906-1947, desde que foi primeiramente utilizado no discurso político do movimento nacionalista indiano, numa conferência do Partido do Congresso em Calcutá, até à data da independência.

Swami Dayanand, Tilak, Dadabhai Naoroji, Motilal Nehru.

Vagueando por entre as poeirentas prateleiras da minha biblioteca, lendo e folheando as velhas páginas de papel amarelecido, deparo-me com a imensa vastidão, em termos quantitativos e qualitativos, de grandes pensadores indianos. Editores, activistas, oradores, advogados, filósofos, religiosos: Há de tudo, une-os uma excelência devota à independência, uma capacidade crítica tremenda, uma relação franca e íntima com as massas populares.

M. G. Ranade, Tagore, Gandhi, M. A. Kalam Azad.

Há, claro, várias interpretações do conceito (o meu estudo versa justamente sobre essas disparidades) e várias correntes ideológicas. Mas o que mais me tem impressionado é o seu profundo conhecimento da civilização ocidental, a sua versatilidade na língua inglesa, as suas viagens pelo mundo inteiro, do Japão aos Estados Unidos. E, mesmo assim, a sua profunda dedicação e conhecimento da causa indiana, das particularidades do seu próprio contexto, levando-os a passar longos, às vezes infinitos, anos a apodrecer nas prisões.

Savarkar, Gokhale, Lajpat Rai, Bipin Chandra Pal.

E, claro, pus-me a duvidar: teve naquele período (porque depois disso, é óbvio que não) Portugal pensadores e homens deste calibre? Mais: tivemos, ao longo de todo o último milénio, pensadores e homens deste calibre? Sim, Portugal é um país pequeno e a Índia talvez uma civilização. Mesmo assim, às vezes é bom sair do armário e duvidar e questionar um pouquinho.

terça-feira, 28 de março de 2006

Passagem para a Índia

Atlântico, Abril de 2006, p. 33
Correspondentes de Guerra (crónica mensal)

PASSAGEM PARA A ÍNDIA
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

O ATLÂNTICO JÁ CHEGOU À ÍNDIA

"A Índia parece disposta a esquecer a herança não-alinhada, o namoro russo e mesmo a face pacifista, espiritual e oriental com que se apresentou durante quase um século. Esqueçam Brama, Vishnu e Shiva e as centenas de divindades que completam o panteão hindu. A malta agora quer é McDonald's, “outsourcing”, Disney Channel e NATO, de preferência a liderar."

É um excerto do meu texto-estreia na revista Atlântico, uma publicação inovadora e que merece ser seguida (e lida) com muita atenção. Com a "Passagem para a Índia" vou tentar soprar alguns ventos orientais para o panorama jornalístico e de opinião em Portugal. E explicar porque é que (não) é preciso ter medo da Índia. A revista (vejam a capa aqui) está nas bancas a partir desta Quinta-feira, 30 de Março. Como não a costumo encontrar nos quiosques cá da zona, façam-me um favor, e comprem-na por mim!

Imagens de Deli: Cartaz político na JNU

segunda-feira, 27 de março de 2006

Racismo e os africanos em Deli

Há certas regras que me parecem profundamente enraizadas na nossa maneira de pensar, pelo menos entre as pessoas minimamente moderadas e formadas. Uma delas, com que cresci, é a conhecida regra universalista e humanista, que estabelece que todas as pessoas são iguais. Que os seres humanos, independentemente da sua origem étnica, religião, estatuto socio-económio, independentemente de qualquer particularidade, têm as mesmas necessidades, os mesmos sentimentos e as mesmas aspirações. Neste sentido, o momento fracturante é o da nascença, porque, teoricamente, até esse momento, somos todos iguais, e só depois os caminhos e as ideias se divorciam, dependendo do contexto em que crescemos.

Contudo, a regra é moldada pela experiência e faz-nos crer que uns são mais iguais que outros. A historiografia ocidental, portuguesa incluída, confronta-nos com um passado em que, juntando a e b, somos levados a crer que o racismo é algo de predominantemente ocidental. Unilateral, da civilização branca para com as suas congéneres. Não quero dizer que nos ensinam isto nos livros (às vezes sim). Mas, expondo a regra da igualdade ao passado e à experiência do nosso dia-a-dia, acredito que a grande maioria associe o racismo às pessoas ocidentais e conceba o racismo de forma a ser um constituinte identitário, se não exclusivo, das pessoas brancas. Por exemplo, é raro abrirmos o jornal e ler que uma pessoa branca foi discriminada em Lisboa, sendo o caso contrário (um negro ou um asiático, por exemplo) frequente.

Talvez por isso esta minha experiência na Índia me esteja a surpreender. Estou a descobrir essa mesma associação inconsciente que praticava quando me movimentava por Portugal, pela Europa e pelo mundo ocidental. Estou a confirmar a regra básica e fundamental (todos são iguais), e a descobrir que embora a aplicasse em termos teóricos, não a praticava nem em termos analíticos, nem práticos. Não é portanto uma descoberta, mas simplesmente uma redescoberta.

Esta minha redescoberta prende-se com as minhas observações num centro comercial aqui das redondezas, onde passo algum do meu tempo livre. Frequentam-no muitos africanos, na sua maioria nigerianos, mas de muitas outras nacionalidades também. Encontram-se às dezenas em certos locais. Um desses, é o estabelecimento de chamadas telefónicas internacionais a custo reduzido a que recorre grande parte dos estrangeiros que reside na área. Enquanto nas minhas centenas de idas ao local vi eslavos, europeus, americanos e asiáticos utilizarem o serviço normalmente, sem reclamarem, e à saída entregarem a quantia devida ao funcionário, observei mais de meia dezena de episódios profundamente chocantes, exclusivamente com africanos.

O funcionário, que é gerente da loja em regime franchising, é um pequeno, magro e jovem indiano. Nos casos dos utilizadores africanos abusivos que observei, inventam reclamações, mentem e inventam de formas variadas (afirmam que não fizeram chamada nenhuma, que não havia sinal, que a chamada devia ser gratuita, que não trouxeram dinheiro, que ele os anda a enganar, etc.), passam para um tom de voz ameaçador e chegam a empurrá-lo e a abusá-lo com todos a assistirem. São obviamente grandes e fortes e nem o velhinho segurança de carabina na mão intervém nesses momentos, deixando-os sair calmamente sem pagar. Há dois anos que observo estes episódios no mesmo local.

Ontem, no McDonalds, assisti a outro caso similar. Numa loja repleta, rodeados de famílias e crianças, dois africanos exigiam troco de mil rupias do operador de caixa, quando lhe tinham entregue somente quinhentas (embora afirmassem o contrário, eu próprio vi que tinham dado só quinhentas). Empurraram violentamente as pessoas à volta, gritaram que iam partir a loja toda quando voltassem, insultaram os operadores indianos que respondiam com um silêncio amedrontado. E saíram depois, a sorrir.

Outro caso que já observei nas ruas de Deli é a maneira autoritária e mesmo violenta com que muitos africanos tratam os condutores de riquexó. Como já vos escrevi anteriormente, os condutores de riquexós são, na minha opinião, da classe empregada mais discriminada na cidade. Os africanos aprenderam rapidamente. Já assisti a episódios em que esmurraram condutores, entre outros abusos físicos e verbais. Novamente, nunca vi nenhum outro estrangeiro comportar-se de tal forma.

Os três exemplos terão que ser testados. Primeiro, será este comportamento reflexo de uma condição socio-económica marginal? Será possível explicar que os africanos se comportam assim porque têm um estatuto diferente dos restantes estrangeiros em Nova Deli? Não. Vestem-se bem, têm telemóveis topo de gama, e embora alguns estejam envolvidos em redes criminosas (especialmente nigerianos), vivem na sua grande maioria em condições económicas boas, muitos dos casos que observei envolviam mesmo diplomatas ou os seus familiares e estudantes E, para contrastar, escuso de lembrar a pobreza em que vive a grande maioria dos indianos em Nova Deli.

Segundo, será este comportamento reflexo de um sentimento de discriminação? Será que os africanos são igualmente discriminados e violentados na sua integridade? É possível. Os indianos tratam as pessoas negras com um profundo desrespeito e desconsideração, num racismo primitivo que é expandido, até em centros urbanos e em universidades como a minha. Mas isto só vem confirmar a minha perspectivas, de que todo e qualquer ser humano tem potencial igual para discriminar racialmente. Contudo, devo dizer que tenho as minhas dúvidas se o comportamento africano em Nova Deli se deve somente a este estatuto de vítima. Seria desculpabilizar a vítima, coisa que a priori não gosto de fazer. Nunca vi um indiano bater num africano, mas ao contrário sim. E isto numa cidade em que os africanos são uma minoria ínfima.

Terceiro, e é esta a questão fundamental, são os comportamentos acima descritos baseados numa crença racial, ou simplesmente reflexo de uma expressão e forma de viver cultural, diferente da dos indianos e de todos os outros estrangeiros que vivem em Nova Deli? Aqui, igualmente, recuso refugiar-me no relativismo cultural, ainda por cima tendo a experiência da observação do meu lado. É complicado ler o que vai na mente de uma pessoa, mas em todos os casos de abusos e violência africana contra indianos, estava lá o elemento racial, nas palavras, na expressão facial ou nos gestos. Um ódio não para com a pessoa violentada, mas um ódio e um ataque ao indiano, à pele castanha, ao cabelo oleoso, ao corpo frágil e magro, ao despojado e fraco.

Teria tido as minhas dificuldades em escrever este texto em Lisboa. E teria tido medo de estar a minar a própria regra em que acredito – que a raça não predetermina comportamentos – e de estar a legitimar um racismo contra as pessoas negras, contra os africanos. Isto só confirma a minha suposição que seguimos uma regra na teoria, mas só a aplicamos parcialmente na prática, que temos medo de compreender as coisas realmente de forma igual e que sofremos daquilo a que muitos chamam “white man’s burden”. Felizmente a Índia confrontou-me com esta experiência e me ajudou a compreender que, de facto, todos somos, ou podemos ser, igualmente racistas ou vítimas de racismo.

sábado, 25 de março de 2006

Citações de Deli: João Lin Yun

"...sem formação de recursos humanos especializados, sem investigação e inovação, os Estados Unidos e a Europa em geral, e Portugal em particular, arriscam-se a ficar para trás, a perderem a qualidade de vida que actualmente possuem. Nos tempos actuais, já não é impensável que durante o século XXI, o centro de gravidade do mundo se desloque progressivamente da Europa e Estados Unidos para a Ásia, e que um dia, os netos da actual população mundial pensem em ir a Pequim ou Nova Deli para estudarem, para fazerem os negócios mais importantes, ou para procurarem uma vida melhor."

João Lin Yun, in "Século XXI: o século da Ásia?", Expresso (Economia), Sábado, 25 de Março 2006