sábado, 19 de maio de 2007

Filmes de Deli: Namastey London

Para quem quiser compreender a forma complexa com que as gerações mais novas de indianos procuram renegociar os termos de relacionamento com o Ocidente, não haverá filme mais recomendável do que este Namastey London.

A história não diverge muito do enredo típico dos filmes Bollywood sobre a diáspora indiana, actualmente muito na moda. Em Londres, os pais indianos querem arranjar um casamento para a sua bela filha Jasmeet (Katrina Kairf) que, no entanto, vive fascinada pela cultura ocidental e olha de soslaio para a Índia: prefere falar em inglês, recusa o nome indiano e adopta uma alcunha trendy (Jazz), gosta de sair à noite e tem um namorado aristocrata inglês (Clive Stande, que assume o papel de "Charlie Brown").

Jasmeet embarca assim, contra a sua vontade, com os pais, para a Índia, redescobrindo-a em confrontação, com epicentro na aldeia natal do pai, num feudo rural do Punjab. É aqui que emerge o campónio Arjun (Akshay Kumar), intelectualmente limitado mas com um belo coração que logo se apaixona pela indiana diaspórica.

Para escapar à pressão, Jasmeet torna-se maquiavélica. Deixa-se casar com Arjun (numa cerimónia tradicional) só para poder voltar para o seu namorado em Londres, onde anuncia à família que o laço matrimonial contraído na Índia é legalmente inválido no Reino Unido, por falta de qualquer documento comprovativo. É uma vingança dirigida aos pais, mas é Arjun, abandonado em Londres, sem saber falar inglês, que é a principal vítima do fogo cruzado inter-geracional.

A dicotomia maniqueísta do director Vipul Amrutlal Shah assume assim, a meio do filme, contornos explícitos: Jasmeet iludida pelo Ocidente anuncia o seu casamento com Charlie que, por esta altura, já deu a entender que é um playboy milionário que se está nas tintas para Jasmeet e se recusa a defendê-la contra as insinuações racistas dos seus familiares. Aqui está então a diaspórica indiana degenerada, pronta para ser devorada pelos brutos e reacionários ocidentais (outro exemplo: o seu amigo paquistanês recusa casar-se com a sua namorada inglesa porque os pais dela o obrigam a converter-se ao... Catolicismo!).

O momento alto do filme é, sem surpresa, um discurso de Arjun sobre alguns factos e números que supostamente reflectem a grandeza da Índia. Durante a cerimónia de anúncio do noivado entre Jasmeet e Charlie, um tio do noivo, ex-militar britânico na Índia, provoca Jasmeet e outros indianos com comentários racistas (equiparando os indianos a macacos, entre outras piadas). Emerge então Arjun, com uma "lição" que deixa os ocidentais boquiabertos:





O tremendo sucesso deste filme deve-se, na minha opinião, acima de tudo a este discurso. É, sem dúvida, "ridículo", porque explicitamente nacionalista. É também curioso, porque escolhe critérios de grandeza que reflectem termos impostos pelo colonialismo, pela modernidade e, assim, pelo Ocidente: secularismo, crescimento económico, ciência, militarismo, educação etc.

A estratégia não é nova: já no início do século XX, durante a sua luta contra o colonialismo britânico, uma das principais estratégias indianas passava por demonstrar que podiam derrotar os britânicos no seu jogo, o críquete de que tinham sido impedidos de participação durante tantos anos (um déja vu em Namastey London, onde a equipa indo-paquistanesa composta por familiares de Jasmeet derrota os britânicos liderados por Charlie, num jogo de râguebi). Ganhar aos colonizadores no críquete representava o domínio de uma técnica e de instrumentos que, no discurso colonialista, nunca poderiam ser dominados pelos autóctones.
O facto de este discurso de Arjun ser a parte mais visualizada do filme no YouTube e uma leitura dos vários comentários com que o discurso é elogiado, é demonstrativo da imensa vontade de afirmação entre as novas gerações indianas. É uma necessidade pós-colonial de afirmação em termos de igualdade para com o ex-colonizador (em termos gerais, o Ocidente) que pode assumir atributos radicais, nomeademente no caso do nacionalismo hindu.

É neste sentido que devo admitir que compreendo o sucesso, e também a mensagem, deste filme. Não concordo, mas compreendo, porque é, nada mais, nada menos, do que uma simples resposta, uma reacção, à forma discriminatória e racista com que os indianos são muitas vezes recebidos no Ocidente e à forma, ainda condescendente, com que a Índia é tratada no Ocidente.

É fácil de mais acusarmos os aplausos indianos a Namastey London de racistas e nacionalistas, porque somos nós mesmo que criamos as condições para o sucesso de um filme com uma mensagem destas. É por isso mesmo que recomendo vivamente Namastey London a todos os que querem compreender o que vai na mente de muitos jovens indianos. Antes de, mais uma vez, levantarmos o nosso dedo inquisidor, cheio de moral e pedagogia.

A ameaça do neo-orientalismo

É impressionante. 2007 marca claramente a descoberta da Índia, em peso, pelas gerações mais novas de portugueses. Durante os últimos meses tenho recebido dezenas de pedidos de amigos, amigos de amigos, de primos de amigos, entre outros, todos pedindo informações sobre locais a visitar, alojamento, preços etc.

Começa assim, a haver uma cultura backpacking lusa, distinta das demais nacionalidades que vadiam pela Índia. Nos hotéis os recepcionistas já não nos dizem que "you are the first Portuguese guest I have had". Já acontece ouvir-se falar em português no centro de Deli. Já não se contam pelos dedos os portugueses que se encontram na cidade capital. Encontro um, e este conta-me logo que sabe de outros, que encontrou por acaso durante a viagem ou com quem combinou encontrar-se aqui ou acolá, ao longo da viagem, normalmente em Goa.

Ainda estamos longe do momento em que iremos desprezar e procurar evitar um encontro com conterrâneos nossos na Índia. Isso acontece, actualmente, entre muitos jovens franceses e israelitas, por exemplo. Vão para a Índia à procurda de algo inédito, o eterno off the beaten track, e ficam extremamente arreliados quando por lá encontram um outro seu compatriota. Quase todos munidos dos mesmos guias, quase todos com os mesmos orçamentos e limitações temporais, o encontro é, no entanto, inevitável.

Mas, finalmente, a Índia também passou a estar na moda em Portugal. A minha suposição confirmou-se hoje de manhã, ao ouvir o programa Ambientassons, na Antena 3, um espaço chill-out musical para quem volta das noitadas lisboetas. O DJ Nuno Miguel colocou vários sons indianos, entre os quais um cântico religioso hindu "Ohm Namaya Shiva".

É claro que já há décadas que há jovens portugueses a visitar a Índia. O que é novo é a massificação do fenómeno, reflectindo-se também no facto de os preços de passagens aéreas Lisboa-Nova Deli e Lisboa-Bombaim se encontrarem mais baixos do que nunca, pelo menos nos últimos cinco a dez anos. Da minha parte, só posso registar a mudança com bons olhos: assim já vão mais longe os tempos em que a minha partida para a Índia, há três anos, era vista com incredulidade e equiparada a um desterro para o fim do mundo. E perdem, assim também, acutilância as minhas críticas então dirigidas aos limitados horizontes internacionais dos portugueses.

Mantêm-se, no entanto, a minha denúncia de um certo neo-orientalismo, a que dei expressão em vários escritos meus neste espaço e nas crónicas da revista Atlântico. A forma particular como a Índia é apresentada em Portugal, seja pelo DJ Nuno Miguel na Antena 3 ou pela imprensa no seu tratamento da actualidade política indiana, e a forma particular com que os jovens portugueses apreendem a Índia durante a sua estadia neste país, reflectem certos complexos e ansiedades. A Índia é assim, muitas vezes, vítima de um processo de exotização, assumindo uma identidade e uma carga normativa que são reflexo dos nossos próprios complexos e das nossas ansiedades. Imaginamos a Índia de uma forma prepotente, e muito superficial, de modo a servir os nossos interesses, nomeadamente o de exorcitar aquilo que vemos como limitações da nossa própria cultura e estilo de vida (o excessivo materialismo, por exemplo).

É, portanto, bem-vinda esta descoberta da Índia e a vinda de mais e mais jovens e turistas portugueses. O que importa agora, nesta nova fase que se nos apresenta, é evitar que esta descoberta seja apreendida por um único paradigma, por um código normativo pré-estabelecido, ou seja, por preconceitos. O que importa, agora, é que as inúmeras descobertas individuais possam confrontar-se com a diferença da Índia de uma forma aberta e arejada. Isto é, pluralizar, ao máximo, as formas de interacção com a diferença, libertando-as do presente domínio claustrofóbico de um único paradigma, o neo-orientalista.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

McDonald's

Os McDonald's na Índia estão há quase três anos sem mudarem o menú. Não é preciso. A clientela continua a devorar o logotipo, a imagem de marca, o papel e a cartolina. A comida é o que menos interessa.

Imagens de Deli: Capela na praia (Goa)


Crise de meia idade

Relendo alguns dos meus textos mais antigos e confrontando-me ultimamente com repetidas faltas de inspiração para produzir novos, apercebo-me do facto de estar a viver uma crise de meia idade. É uma crise de perspectiva.

Ao chegarmos à Índia, ou a outro qualquer novo destino e ambiente, tudo nos parece novo e estranho. Cada minuto representa um conjunto de centenas de impressões e percepções que, uma vez em casa, traduzimos para a escrita, na forma de um diário ou de um blogue. Foi assim comigo, nos primeiros anos de Deli. Cheguei a fazer-me acompanhar por um bloco de notas e uma caneta, onde apontava ideias para textos para este espaço. Preparavo-os com cuidado, mas com grande facilidade e naturalidade. Eram só certezas.

Estou agora, como dizia no princípio, numa crise de meia idade. Já não vejo tudo com esses entusiasmados olhos de iniciante, chocado, fascinado e apavorado. As certezas e os contrastes, límpidos e seguros, têm-se transformado, de forma progressiva, em incertezas, dúvidas e imensas zonas acinzentadas. É talvez assim que se explique a minha crítica à forma superficial, como muitas vezes a chamei aqui, com que muitos desses iniciantes reduzem a Índia a um Carnaval de contrastes. Os contrastes são fáceis e confortáveis. Explica-se tudo com os contrastes. Também eu o fiz e ainda me sinto tentado a fazê-lo.

Ora, devo admitir que a Índia é realmente um país de contrastes. Mas é-o só ao primeiro olhar. O problema é que esta crise de idade média não me permitiu ainda aceder a uma nova linguagem conceptual, nem dominar uma nova metodologia e perspectiva para compreender a Índia para além desses contrastes. Isto é, pressinto que há mais, mas sou ainda incapaz de o explorar, compreeder e transmitir.

É aqui que mais se espelham as minhas limitações literárias. A minha agenda diária não me permite desenvolver essas técnicas de que eu me sinto órfão. Essas técnicas só as conseguimos desenvolver, na Índia, com muito tempo, calma e dedicação. O problema é que a Índia nos convida a escrever, mas só poucos realmente sabem passar a Índia para o papel. Há portanto uma proliferação de perspectivas literárias. Qualquer diário de viagem minimamente aceitável dá hoje um bom e bem vendido livro no mercado português. A Índia está na moda e quando as coisas estão na moda a procura sobre e a qualidade desce quase sempre. O mesmo aplica-se, aliás, ao mercado literário indiano, em língua inglesa. O mundo está com vontade de redescobrir a Índia e fá-lo, de forma ávida, por via de centenas de escritores - europeus e indianos - de segunda, que exploram os clichés e as banalidades do costume, os contrastes a abrir.

Há uma última questão que eu gostaria de denunciar. Ao assumir uma crise de meia idade, e afirmar que "sou ainda incapaz de (...) explorar, compreeder e transmitir (a Índia não-superficial)", assumo, de forma subentendida, a real possibilidade de eu, ou alguém, vir a ser capaz de atingir esse nível superior, de apreender uma Índia real e autêntica.

Estou, obviamente, a cair na mesma ratoeira que denuncio quando critico o paradigma dos contrastes. Não há uma Índia real e autêntica, pronta para ser digerida por uma perspectiva, metodologia ou técnica mais "apurada e desenvolvida". O facto de me sentir rodeado, a cada dia que passa, por mais e mais incertezas e dúvidas é um fenómeno de cariz crónico e persistente.

Em vez de a rejeitar e desprezar, talvez deva celebrar esta condição: afinal, são as complexidades das incertezas e das dúvidas que nos despertam a curiosidade e nos encorajam a explorar os vastos interstícios cinzentos da simplicidade superficial que é a Índia dos contrastes, a preto e branco.

«Babuch»

O concani não é bem dialecto, é mais língua, mas não deixa de ser notório o toque étnico goês que os jornalistas têm dado às mini-biografias que por aí andam a circular sobre António Costa, filho de Orlando Costa.

Aos dez anos, com o pseudónimo «Babuch» (menino, em dialecto concani, de Goa), já escrevia críticas de televisão para o Século Ilustrado e conta que decidiu ser socialista aos 12 anos.

Quiosques


Luís Vidigal:

terça-feira, 15 de maio de 2007

Imagens de Deli: Bairro das Fontainhas (Goa)


Sachin Pilot em Portugal

No Supergoa.com:

"Daqui a uma semana, já no âmbito dos Arrábida Meetings (20 a 22 de Maio) coordenados por Lord Carrington (Ex-ministro britânico dos Negócios Estrangeiro), Carlos Monjardino (Presidente do Conselho de Administração da Fundação Oriente) e José Cutileiro (Ex-secretário-geral da União Europeia Ocidental), o deputado Sachin Pilot, do partido do Congresso indiano, intervêm na sessão dedicada à procura de recursos energéticos e matérias primas pela China e pela Índia e o impacte na economia global."

Sobre o mais jovem parlamentar indiano de sempre: Sachin Pilot

The Terminal, versão indiana

Two Bangladeshi men lived in New Delhi airport for 48 days as they did not have passports to return home in a reprise of a role played by Tom Hanks in the Hollywood film "The Terminal," a newspaper said on Thursday. The men were sent back to the Indian capital by Saudi Arabian authorities in March for arriving without proper papers on a Dhaka-Delhi-Riyadh Air India flight, the Times of India newspaper reported.

Imagens de Deli: Bairro das Fontainhas (Goa)


domingo, 13 de maio de 2007

Gurgão farestina

Gurgão (Gurgaon), nos subúrbios de Deli, é o fareste do século vinte e um. É uma das last frontier do capital internacional, a leste. De um dia para o outro a paisagem é rasgada por novas torres, brilhantes e reluzentes. No seu interior recebem-se e enviam-se milhões de dados em fracções de segundo, para Denver, São Paulo, Joanesburgo ou Xangai. No seu exterior as crianças rebolam na lama, cuspindo sangue, enquanto que as mães grávidas carregam sacos de betão nos seus ombros e os pais, semi-alcoolizados, descansam à sombra. Das torres.

Mas para além dos contrastes, a Gurgão farestina também é uma terra de oportunidades, o sonho dos mortais comuns. É possível penetrar o íntimo interior das torres, e todos o sabem, todos o tentam, quase todos o conseguem. Uma vez no seu interior, é subir, piso a piso, até atingir o topo. E no topo há uma plataforma de aterragem para os helicópteros que rasgam o próprio céu.

Gurgão é cosmopolita. Aqui a casta, a língua e outras bagagens culturais são desinteressantes, embora ainda presentes. Para além dos imigrantes do resto da Índia, Gurgão atrai também milhares de jovens, de todo o mundo. Especialmente de países desenvolvidos, da Europa e da América do Norte. Também para eles, recém-licenciados, desempregados ou simplesmente desiludidos, Gurgão é uma terra de oportunidades.

Gurgão encontra-se em eterna construção e ebulição. Tal e qual os xérifes vintecentistas norte-americanos, faorestinos, aqui os polícias andam à caça de gangues criminosos (que também procuram penetrar as torres), há tiroteios e mortes. Há restaurantes e discotecas, mais ou menos cosmopolitas, há restaurantes e, acima de tudo, há muita luz néon, colorida, intermitente.

Para mim, e demais observadores externos e visitantes pontuais, Gurgão representa o fim do mundo e assume assim atributos ameaçadores. É justamente por isso que Gurgão reflecte também o início de um outro e novo mundo. Gurgão é fim e início, ao mesmo tempo.

Tehelka: netistan

No sempre recomendável semanário Tehelka (assinatura anual edição impressa: menos de 2 Euros), um excelente dossier sobre a Internet e as novas gerações indianas, cobrindo diferentes facetas de um país em ebulição.

Imagens de Deli: Bairro das Fontainhas (Goa)

No bairro tradicional das Fontainhas, de arquitectura tipicamente indo-portuguesa e com muita influência colonial portuguesa, uma placa toponímica em azulejo destruída (à picareta) por nacionalistas hindus.

Domingos matrimoniais: Wanted brides/cosmopolitan

No Times of India de hoje:

"A reputed veershaiv family of Pune seeks a beautiful fair looking girl. highly qualified, software engineer or post-graduate; height must be above 5.4'' from respected & pure vegetarian family; for their son 29/6'1'' tall, handsome software engineer working in top, I.T. co., of U.S.A. based at Hinjewadi, Pune. 8.5 lacs p.a. own dux bungalow, car (Hondacity) had been 3 times U.S.A. Elder brother & his wife live in U.S.A. Send Bio-Data & photograph reply. (caste no bar) lalitsb@... Box No: X 4...."

Novidades Supergoa.com

Novidades do Supergoa.com
AGENDA:
A Aula de Marinha de Goa, dos sécs. XVII a XIX (Palestra) Terça, 8 de Maio 2007
http://www.supergoa.com/pt/agenda/agenda_event.asp?c=485

7º Encontro Anual dos Beirenses (Quinta Velanciana) Sábado, 19 de Maio 2007 http://www.supergoa.com/pt/agenda/agenda_event.asp?c=483

Comemorações do 50º aniversário da chegada dos batalhões de caçadores «Da Índia» e «Vasco da Gama" à Índia Portuguesa Sábado, 19 de Maio 2007 http://www.supergoa.com/pt/agenda/agenda_event.asp?c=516

Convenção da Diáspora Goesa - De Goa para o Mundo (Lisboa) Sexta, 15 de Junho 2007 http://www.supergoa.com/pt/agenda/agenda_event.asp?c=499

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relíquias de rainha ligam Geórgia, Goa e Portugal
Domingo, 6 de Maio 2007
Um artigo que relata a história da rainha geórgia Ketevan, cujos restos mortais uma comissão geórgia afirma ter encontrado recentemente em Goa, nas ruínas do Convento dos Agostinhos, na Velha Goa. Uma reportagem que redescobre uma fascinante história, entre a Geórgia, Goa e Portugal. http://www.supergoa.com/pt/read/news_noticia.asp?c_news=697

Lançado número cinco da Ecos do Oriente Domingo, 6 de Maio 2007 http://www.supergoa.com/pt/read/news_noticia.asp?c_news=696

Nalini de Sousa e Christopher Rego: «Cônsul Pedro Adão encorajou-nos» Sábado, 5 de Maio 2007 http://www.supergoa.com/pt/read/news_noticia.asp?c_news=695

Gigante indiano quer fabricar carros em Portugal Sexta, 4 de Maio 2007 http://www.supergoa.com/pt/read/news_noticia.asp?c_news=692

NOTÍCIAS ANTERIORES:

Macau acolhe Núcleo de Animação Cultural de Goa, Damão e Diu 3/5/2007
Belmonte anuncia Museu dos Descobrimentos 1/5/2007
Matosinhos acolhe um olhar português sobre a Índia 23/4/2007
Renovado o programa de cooperação científica e tecnológica 20/4/2007
Marine engineer from Bihar in Portugal prison 20/4/2007
Faleiro promove centro de estudos indianos em Portugal 17/4/2007
Os novos caminhos para a Índia 16/4/2007
Bardez acolhe Casa dos Dragões goesa
em: http://www.supergoa.com/pt/read/news_ultimas.asp

ÚLTIMAS CRÓNICAS
Goa é a Chave de Toda a Índia (Catarina Madeira Santos)
Categoria: Lendo, vendo e ouvindo
Domingo, 6 de Maio 2007
Uma recensão de Ângela Barreto Xavier a um dos livros sobre a história dos descobrimentos que mais debate tem provocado no meio historiográfico português nos últimos anos. A obra de Catarina Madeira Santos procura compreender as razões pelas quais Goa assumiu um papel central no império português do Oriente. http://www.supergoa.com/pt/read/news_cronica.asp?c_news=698

Famílias Católicas Goesas: entre dois mundos e dois referenciais de nobreza Categoria: Academia
Sábado, 5 de Maio 2007
http://www.supergoa.com/pt/read/news_cronica.asp?c_news=694

José António Ismael Gracias (1857-1919) Categoria: Galeria de Goeses Ilustres
Sexta, 4 de Maio 2007 http://www.supergoa.com/pt/read/news_cronica.asp?c_news=693

40 milhões de novas linha telefónicas fixas Categoria: Newsletters AAPUI
Terça, 1 de Maio 2007 http://www.supergoa.com/pt/read/news_cronica.asp?c_news=689

FÓRUM:
Últimas mensagens • Miséria quase cordia.. • Voltando à carga. • Casa longe... • Viva Afonso de Albuq.. • Piratas... • Outra rectificação • Sim,sim... • Rectificação
http://www.supergoa.com/pt/forum/

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Uma nova era política

Com a impressionante vitória de hoje, nas eleições legislativas no Utar Pradexe (população equivalente a duas Alemanhas), o maior estado indiano, confirma-se a subida ao poder de Mayawati, uma das faces da nova era política que se anuncia na Índia. A seguir, com muita atenção.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Imagens de Deli: Numa estação de comboios

Domingos matrimoniais: shaadi.com

Como não tive tempo de, no passado Domingo, transcrever um anúncio matrimonial do jornal, resta-me recomendar o Shaadi.com: "The World's Largest Matrimonial Service".

Pontes

Quando os mitos da história impedem o desenvolvimento:

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Blog Atlântico: Teoria das Relações Internacionais

Em véspera de exame na cadeira Realism and World Politics, uns comentários meus sobre uma recensão de hoje no Público, e duas escolas rivais na teoria das relações internacionais: o neorealismo e o realismo neoclássico. Aqui.

Imagens de Deli: Basílica do Bom Jesus (Goa)

Leituras de Deli: The Circle of Reason (Amitav Ghosh)

Um autêntica raga literária de um dos mais aclamados escritores indianos anglófonos da actualidade: começa lentamente e arrasta-se por dias inteiros, dando-nos a conhecer uma Calcutá e uma Bengala hoje desaparecidas no meio do fumo das indústrias e da incerteza quanto à forma de preservar a riqueza cultural do passado no electrónico futuro capitalista que se anuncia na voz dos próprios comunistas.

E depois acelera, cruza a Índia até Goa (breves páginas desinteressantes - nem reparei que se tratava de Goa), para embarcar numa genial viagem de traineira curzando o Mar Árabe em direcção a uma mítica cidade no Médio Oriente, onde a narrativa (e a personagem principal, cheia de bolhas na cabeça e dons semi-divinos) se estabiliza.

Só para nos lembrar que uma raga nunca se rende à lentidão e à estabilidade, escapando, de repente, para o magrebino Norte de África onde, depois de uma paragem no deserto, termina com os olhos postos na Europa e algumas mensagens pós-coloniais bem implícitas. Acaba tudo, sempre, por .

A raga como forma literára tem potencial. Ghosh cobre uma década em duas páginas, só para cobrir três minutos em quarenta. E assim sucessivamente, aos soluços, deixando-nos cronologicamente zonzos, mas sempre conscientes. Uma tortura deliciosa.

Para além de todos os escritores indianos da moda - muitos só o são porque dão a conhecer a Índia ao resto do mundo da forma que ele a quer ver - Ghosh encontra especial simpatia em mim pelo facto de nunca se ter rendido às belezas e tentações extra-indianas. Horas depois do tsunami asiático, embarcava para as ilhas Andamão e Nicobar, de onde escreveu um dos melhores ensaios jornalísticos que jamais li na imprensa indiana.

The Circle of Reason é também uma abordagem literária original à essência e aos dilemas do migrante, indiano ou qualquer outro o que o distingue das restantes obras que exploram não mais do que os clichés que começam a envolver a diáspora indiana. The Circle of Reason é um livro que eu recomendo vivamente a quem queira explorar a periferia do mainstream literário indiano.

domingo, 6 de maio de 2007

Blog Atlântico: Economias

Uma minha denúncia do capital móvel internacional, glorificado por alguns em Portugal com recurso ao exemplo pouco apropriado que é a actual economia indiana.

Imagens de Deli: Catmandu

O bêbado

Veste uns farrapos, tem bolhas cobertas de pus e o cabelo acizentado parece que vai cair todo, ainda esta noite. Ou talvez antes. Os olhos avermelhados observam a movimentada avenida e procuram descortinar um inexistente momento para a atravessar. Nas suas mãos, duas garrafas de uísque.

Os meninos rodeiam-no, com os sacos de lixo nas mãos, as suas cabeças rapadas e as suas faces cicatrizadas. O álcool resiste e recusa misturar-se com o sangue, mas tudo escorre pelo alcatrão. Uma estaca retirada do separados central serve para arrastar o cadáver para a berma. O camionista volta a entrar para a cabine, o motor arranca e o trânsito escoa, agora com alguma dificuldade acrescida.

Violência urbana

Em Lisboa e em Paris lembro-me que, ao mínimo sinal de violência urbana, o instinto nos ordenava a todos, cidadãos e transeuntes, o distanciamento e a fuga. Há sociedades - e contextos microcósmicos - em que se passa o oposto: a violência é um apreciado e honrado convite à expressão e intervenção alargada dos ânimos ou dos músculos de todos os indivíduos envolventes.

Aqui em Deli, tenho observado algo diferente. Nas raras ocasiões em que uma disputa assume contornos físicos e violentos, os cidadãos e transeuntes intervêm imediatamente, procurando não ignorar ou exaltar a cena, mas pacificá-la e rebaixá-la ao único nível socialmente reconhecido e, por isso, autorizado aqui na Índia: o argumentativo.

Os peixes

Sábado ao início da noite, numa zona comercial animada e iluminada, deitados sobre o chão poeirento e cuspido, dois meninos, de saco de recolha de lixo nas mãos. Olham para o luxuoso interior de um restaurante e sorriem para o aquário cheio de balofos peixes coloridos.

Imagens de Deli: Parque Natural Corbett (Utaracand)

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Nunca mais chega


A Marinha já veio a público negar, mas é óbvio que a renovação do tão esperado porta-aviões comprado aos russos se encontra mais atrasada do que nunca: INS Vikramaditya: Aircraft Carrier Acquisition from Russia Delayed, Cost Overruns Expected

Porque custa mesmo a acreditar

Confirmo novamente que o 1 de Maio não é feriado oficial na Índia e que passa completamente despercebido na imprensa. Já hoje, 2 de Maio, celebra-se o principal feriado religioso budista (Buddha Purnima).

terça-feira, 1 de maio de 2007

Perspectiva de um ex-leitor

Um interessante texto do meu bom amigo Carlos Gohn, que foi o leitor de estudos brasileiros (Brazilian Chair) aqui na Universidade Jawaharlal Nehru, School of Languages, publicado pelo Núcleo de Estudos Asiáticos da Universidade de Brasília: O leitorado em Nova Delhi e o ensino de Português Língua Estrangeira na perspectiva da diplomacia cultural

Imagens de Deli: Bangalore

Citações de Deli: Um radical

If this book (James Laine's biography of Shivaji) comes out in the market, burn it wherever you find it. This is my order.

Shiv Sena chief Bal Thackeray

Citações de Deli: Um ministro

I feel proud of banning FTV for two months. I feel proud as a citizen of this country and I am conscious about the dignity of women.

I&B Minister Priya Ranjan Dasmunsi

domingo, 29 de abril de 2007

Blog Atlântico: A comunidade das democracias, o Henrique e a Índia

Como ando em época de exames e de trabalho acrescido, fechado em casa (o calor também não convida a sair) nada como iniciar uma pequena polémica e um pouco de cepticismo sobre a forma entusiástica e superficial com que muitos têm recebido a ideia de um "mundo pós-ocidental" e a possibilidade de um "eixo democrático" integrando a Índia. Ver aqui.

Imagens de Deli: Parque Natural Corbett (Utaracand)

O MP3

Não encontro o MP3. A minha desconfiança (e experiência) não me permite respirar fundo. Desço e vou ameaçar o electricista que tinha acabado de sair, depois de renovar o nosso quadro eléctrico. O meu hindi ainda não serve para grandes discursos, mas lá formulo a acusação, descrevo o objecto desaparecido e passo a mensagem de que não estou para brincadeiras - o som de police para tal basta. O jovem e o seu assistente negam. Chegam um colega meu e outro meu vizinho amigo. Discutimos estratégias e refiro que tenho a certeza total que só poderão ter sido eles. Cito-me: "100% sure".

Mas nem precisava de ter dado essa garantia. Para eles é tudo óbvio. Tomam conta do caso. Um faz de bom cop e procura dialogar. O outro faz de mau e ameaça, forte e feio. Já são meia-noite e entendemo-nos todos - mas eu já só sou observador, alienado, marginalizado, como que já desconfiando que devia ter procurado mais vezes. O electricista garante-nos que vai tentar falar amanhã com os seus assistentes e obrigá-los a devolver o objecto desaparecido. Volto para casa. Aprendo uma lição de vida. Encontro o MP3.

No dia seguinte houve direito a desculpa pessoal e entrega de uma generosa (e envergonhada) caixa com doces. Só sorriu e só me disse "isso são coisas da vida, não faz mal".

42ºC

Deli a aquecer. Já chegámos aos 42ºC. Mas isto ainda não é nada, porque as tempestades de poeira do Rajastão ainda só fizeram uma ou outra aparição e porque as noites ainda se mantêm minimamente frescas. No entanto, sabe bem saber que este será o meu primeiro verão deliense em que usufruirei de uma das maravilhas tecnológicas mais preciosas nesta parte do mundo, o bendito ar condicionado.

O grande mercado de rins (Expresso)

Hoje, uma "caixa" minha, acompanhando a reportagem "Corpos a retalho" e a grande entrevista ao cirurgião Eduardo Barroso

EXPRESSO, revista Única, 28 Abr 2007

O grande mercado de rins

INDRANIL MUKHERJEE/ AFP/ GETTY IMAGES

H. S. JAYARAMU tem 40 anos (atrás vê-se mulher e a neta) e vive a 120 quilómetros de Bangalore. Jayaramu já vendeu um rim


Na sala de espera deste gigantesco hospital privado em Nova Deli estão sentados vários estrangeiros, aguardando uma consulta no departamento de transplante de órgãos. São de vários continentes, mas todos procuram um rim novo, num país onde as leis sobre o tráfego e transplante de órgãos são tão restritivas como no Ocidente, mas largamente desrespeitadas. O tráfego ilegal de rins é uma indústria florescente na Índia.

O atraente pacote oferece aos estrangeiros um serviço da melhor qualidade internacional e inclui quase tudo: recepção no aeroporto, alojamento, excursão ao Taj Mahal, serviço de intérprete, gastronomia especial, entre outras regalias que pretendem afastar a imagem de pobreza e falta de higiene tradicionalmente associada ao país.


Mas, na forma de um rim, essa Índia subdesenvolvida consegue entrar directamente para o interior das luxuosas salas de operação. Ao viajar de volta, é provável que o paciente tenha um rim perfeitamente funcional, mas originalmente pertencente a um agricultor indiano forçado a vendê-lo para escapar ao endividamento.

No panorama doméstico, a procura de rins é tremenda, sendo que anualmente é diagnosticada uma insuficiência renal crónica a mais de 150 mil indianos. A oferta não fica atrás. Por algo equivalente entre 600 e 1100 Euros, estima-se que milhares de indianos vendam um dos seus rins a redes criminosas que depois os revendem a hospitais privados e públicos.


Os intermediários asseguram a falsificação de documentos e os subornos necessários para inventar uma relação de parentesco entre o doador e o receptor, ou provar que há alguma ligação emocional que justifique a doação, os únicos casos aceites pela lei que regula os transplantes (HOTA). Mas as comissões de autorização, instituídas pelo governo, fecham os olhos aos princípios éticos e chegam a aprovar nove em dez processos.

A Índia, afirmando-se como um dos principais destinos para o turismo médico internacional, especialmente no sector dos transplantes de órgãos, é um grande mercado de rins e entrou em fase de expansão. Estima-se que o turismo médico irá atrair um milhão de pacientes estrangeiros e render mil milhões de euros anuais ao país. É, portanto, de esperar um aumento do número de rins transplantados ilegalmente, das empobrecidas zonas rurais indianas para o luxo do primeiro mundo.


Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Revolução em curso (Nepal, reportagem)

Em conjunto com a crónica de opinião "Maoístas, bloggers e empresários" que é hoje publicada no meu espaço mensal "Passagem para a Índia" na revista Atlântico, deixo aqui uma reportagem maior que fiz como enviado do Expresso ao Nepal, em Maio de 2006 (e que nunca chegou a ser publicada na íntegra).

Revolução em curso
Constantino Xavier, enviado a Katmandu


Quase vinte anos depois do início do conflito armado que provocou mais de 16 000 vítimas mortais, o Nepal parece estar em vias de pacificação. O acordo assinado esta semana entre a guerrilha maoísta e o Governo provisório visa acantonar as forças rebeldes e o Exército sob auspício das Nações Unidas e prevê a realização de eleições para uma nova assembleia constituinte.

Mas, tendo em conta o agitado passado político desde 1990, data do fim oficial da monarquia absolutista, este é só mais um tímido passo na transição para a democracia, no que é um dos países mais pobres do mundo. Uma transição marcada especialmente pelo crescente descontentamento das gerações mais novas com a crónica instabilidade política e os repetidos atropelos à democracia que tomaram conta do país desde então (foto: sacrífico de animais para a deusa Kali, num templo a sul de Katmandu).

Da parte dos partidos democráticos, a incapacidade de garantir estabilidade parlamentar, levando em média a um novo primeiro-ministro por ano na década de noventa. Da parte real, o autoritarismo do rei Gyanendra que, desde que tomou posse em 2001, foi gradualmente limitando o espaço democrático, acumulando de forma absolutista as funções de chefe de Estado e de Executivo. E da parte dos maoístas, uma administração paralela caracterizada pela coerção das campanhas de “consciencialização política” e mesmo pelo trabalho forçado e recrutamento de menores.

Tendo a Índia democrática e a China em robusto crescimento económico como vizinhos imediatos, a oposição dos jovens nepaleses não se fez esperar e culminou na onda de manifestações de Abril último, enfrentando o Exército fiel ao monarca. O rei recuou e um Governo provisório – uma aliança entre sete partidos democráticos com o apoio dos maoístas – passou a controlar os destinos do país e as esperanças das novas gerações.

Gagan Thapa (foto), de 29 anos de idade, é o Secretário Geral da União de Estudantes do Nepal e um dos líderes do movimento democrático. As pessoas cumprimentam-no respeitosamente em cada esquina por que passa. “Basta de alterações cosméticas e de revisões pontuais. É preciso mudar a estrutura inteira, eleger uma assembleia constituinte e incluir os maoístas. O poder de decisão deve ser dado às pessoas e não aos partidos ou ao rei”, defende numa conversa madrugadora, ainda o sol está a nascer sobre Kathmandu. Fora do hotel aguardo-o um colega numa mota, para se dirigirem a uma manifestação a 250 quilómetros da capital, onde ele será o orador principal.

“Em 1990 fomos iludidos. Éramos adolescentes e entusiastas e acreditámos que poderíamos conduzir o país para a democracia e a prosperidade. É por isso que hoje desconfiámos do rei, dos políticos e dos partidos”, lembra, explicando que o país vive uma transformação geracional. “Mais de 70% dos manifestantes em Abril eram jovens e quase 90% dos feridos e baleados eram estudantes. Num referendo no nosso campus universitário, mais de 90% votou a favor de um sistema republicano”, sublinha.

Embora durante o dia a cidade testemunhe grande tensão e dezenas de manifestações, quando escurece, Kathmandu é pacificamente tomada de assalto pelos jovens. Nas esplanadas flui o álcool e conversa-se animadamente sobre o rei ou sobre o seu filho, o príncipe Paras, ambos conhecidos pelo seu estilo de vida luxuoso e extravagante. “Isto ainda parece a Idade Média. De cada vez que passa o carro deles, a cidade tem que parar por completo. Devíamos juntar dinheiro e comprar-lhes um helicóptero”, sugere um dos jovens, enquanto um outro controla a televisão, indeciso entre a CNN e a Fashion TV.

Ujwal Acharya (foto), no início da casa dos trinta, é jornalista do diário “Kathmandu Post” e fundador do blog “United We Blog”. Quando o rei cortou, em Fevereiro, o acesso à Internet e à rede telefónica durante uma semana, e aprovou um decreto com que punia qualquer ofensa à sua pessoa, Ujwal passou à acção. “O exército era visita regular na nossa redacção e passou a editar o nosso jornal. Foi aí que percebemos o potencial da Internet, passando a escrever livremente no blog aquilo que testemunhávamos nas ruas e que ninguém tinha coragem de publicar”.

Com recurso ao servidor disponibilizado pela Embaixada dos EUA, o blog passou a ser um dos poucos sítios com informação fidedigna sobre os acontecimentos no terreno, atraindo milhares de visitantes diários. “Até o meu editor entregava-me material para publicar no blog”, refere com orgulho, lembrando, no entanto, as ameaças da polícia e as visitas à esquadra. “Não nos conseguiram intimidar. Afinal, já estavam tantos jornalistas na prisão que até nem me importava em lhes fazer companhia”, explica.

Para Ujwal, a experiência forçada com os métodos violentos do regime absolutista só reforçaram o sentimento democrático dos jovens. “Aprendemos a dar o valor devido à liberdade de expressão e ao papel da imprensa”, admite, enquanto responde a um comentário de encorajamento no seu blog.

Mas, para além dos limites da capital e das novas gerações em rápida modernização, assiste-se ainda a uma pobreza rural crónica e ao domínio preponderante da guerrilha maoísta. Um quarto do território fica a mais de uma semana de viagem da capital, só 50% das habitações têm acesso à rede eléctrica e pouco mais de 2% da população está coberta pela rede telefónica fixa.

É de Dhading, uma dessas regiões inóspitas e abandonadas, que vem Tara Bhandare, um jovem militante maoísta de 30 anos, pai de dois filhos e há quase quatro anos na Prisão Central de Kathmandu (foto). Detido por soldados à paisana, nunca foi formalmente acusado e aguarda julgamento desde então. “Disseram-me que era culpado de actividades terroristas”, diz, do outro lado do gradeamento e com um guarda ao lado controlando a conversa.

Tara faz parte de vários milhares de maoístas que se estima terem sido presos pelo exército com recurso à legislação draconiana (TADO) aprovada pelo rei em 2004 que, segundo diversos relatórios internacionais, viola os mais elementares direitos humanos. Mas, sinal dos tempos de mudança que se vivem no país, confiante de que irá ser libertado, Tara afirma repetidamente que “o rei é o alvo a abater e a república o objectivo a perseguir”.

Sobre as razões que o levaram a juntar-se aos rebeldes, é peremptório. “A educação deveria ser exclusivamente pública e gratuita. Actualmente, só as classes abastadas têm uma boa educação nas instituições privadas. O governo só cobre as zonas urbanas, deixando o mundo rural ao abandono. Nós combatemos essa discriminação, dando treino vocacional, formando as pessoas como cidadãos e dando-lhes educação em questões culturais, agrícolas e ambientais”, afirma, defendendo que a via armada era a única solução. “Em 1995 éramos pacíficos, com uma agenda construtiva redigida em 40 pontos. Mas fomos ignorados pelo Governo e ninguém nos deu atenção”, justifica, adicionando com confiança que “agora podemos ganhar o poder com a nossa própria força”.

É justamente sobre o objectivo dos maoístas que recaem as maiores dúvidas entre os nepaleses. Embora, em raras entrevistas, os seus líderes ideológicos tenham demonstrado um crescente comprometimento com a democracia multipartidária, há quem receie o contrário e veja no acordo desta semana nada mais do que uma estratégia na longa caminhada para um sistema comunista de partido único, tal como sempre advogado pelos rebeldes.

Rajendra Khetan, jovem director de um dos maiores grupos económicos do país e Vice-Presidente da Confederação das Indústrias Nepal (e Cônsul-Honorário de Portugal no Nepal), espelha estes receios, em conversa no seu opulento escritório no centro da cidade. “O Nepal tem um enorme potencial económico, especialmente em termos de recursos hidrográficos, mercado turístico e mesmo como ponte de trânsito comercial entre a China e a Índia. Mas receio que os maoístas, caso cheguem ao poder, levem a cabo os seus planos de nacionalização da economia e agitem ainda mais o frágil mercado de trabalho”.

Acima de tudo, Khetan queixa-se do impacto negativo da instabilidade política no desenvolvimento do país. A indústria hoteleira, o principal motor económico do Nepal, emprega cerca de um milhão de pessoas, mas está em profunda crise. Segundo dados oficiais, entre 1999 e 2005, o número de chegadas de turistas estrangeiros caiu em mais de 25%. As ruas de Thamel, o bairro turístico mais popular da capital, encontram-se quase desertas e a taxa de ocupação dos hotéis ronda os 40%. Ninguém tem interesse em visitar um país à beira de uma revolução.

Nos restantes sectores económicos, as infra-estruturas encontram-se subdesenvolvidas. As fábricas de Khetan, a poucos quilómetros de Kathmandu, sofrem há meses de constantes falhas na rede eléctrica e as greves dos sindicatos são mais e mais frequentes. “No papel somos uma economia de mercado liberal, mas continuamos a viver como no tempo em que éramos um protectorado britânico, com licenças de produção. Há que substituir a classe e a mentalidade política actualmente no poder. Há demasiado tempo que somos um país fechado sobre si mesmo”.

Com os seus 36 anos de idade e um vasto currículo internacional, Khetan incarna, no entanto, ele mesmo a mudança a que se assiste entre as gerações mais novas. Desapaixonado da política partidária e da família real, procura soluções e respostas no sistema económico e nos valores democráticos. “O Nepal é um mosaico de pobreza crónica e é flagelado pela fragmentação e discriminação contra as castas baixas, as mulheres e as minorias étnicas e religiosas. Há que oferecer um modelo de inclusão social e económico a estas pessoas, dando-lhes educação, formação e empregos. Só assim se poderá limitar o espaço de acção dos maoistas”, afirma.

Notas (não editadas) soltas sobre o encontro com mais um entrevistado, Gautam SJB Rana (foto), dono do Babar Mahal Revisited:

Depois de estudar e trabalhar nos Estados Unidos, Alemanha e Índia durante mais de vinte anos, volta ao Nepal. Os 27 palácios da sua família aristocrática tinham sido todos nacionalizados em 1966. São hoje propriedade do governo e em lamentável estado de degradação. Tive a ideia de explorar segmentos turísticos superiores, turismo de luxo.

Recuperou completamente um estábulo de um dos seus palácios, no centro de Kathmandu: Babar Mahal Revisited, hoje um dos centros comerciais mais luxuosos na cidade, com restaurantes, galerias de artes, artesanato, centro cultural e discoteca.

Recorda que por aqui passaram Sting, Steven Seagal, Lachlan Murdoch, entre outros jet-setters globais. “Nos anos 90 o Nepal era o sítio da moda, Todas as semanas aterravam aqui jactos privados com milionários e personalidades de todo o mundo. O meu palácio era palco das mais impressionantes festas e eventos culturais, tambores ecoando a cada esquina. Hoje, está tudo perdido e desolado. Toco tambor para mim mesmo”.

Também em termos políticos, vê uma crise: “em 1990 estávamos todos entusiastas com a abertura democrática, esperando uma nova fase de prosperidade. Mas foi uma desilusão. Os políticos que tomaram conta do Governo cresceram durante décadas num país fechado e absolutista, sem qualquer exposição a valores democráticos. Era óbvio que no Governo iriam espelhar os valores autoritários com que cresceram.”

No mesmo dia realiza-se o casamento entre a filha do chefe do exército nepalês e um aristocrata indiano de Barodá num hotel de luxo: só 150 convidados apareceram, num total de 300. “Já ninguém quer vir ao Nepal, têm todos medo de tiros e manifestações”.

“Isto é mais belo que a Suiça, não há dúvidas. Mas as pessoas vivem miseravelmente. Eu viajei extensivamente pelo mundo rural e as pessoas dizem-me que querem comida e não querem saber de rei, primeiro-ministro, maoístas etc”

“É impossível trabalhar assim. Os nossos investidores e clientes internacionais não querem saber das nossas particularidades e instabilidades políticas. Querem serviço prestado, garantias, segurança e qualidade. Coisa que actualmente nenhum empresário nepalês pode garantir”

“Não há alternativa nos Maoistas: são ultrapassados, antiquados e perigosos nos seus meios. Mas esperemos que se consigam adaptar”.

Imagens de Deli: Bangalore

Aldrabando: Biblioteca universitária

Em época de exames (só mesmo nesta época), o espaço de leitura da biblioteca universitária é muito apreciado porque é dos poucos com ar condicionado, um bem extremamente valioso para maximizar a produção académica em meses tórridos como estes. Ora, como a capacidade de mesas e cadeiras de estudo é limitada, há muitos estudantes que acordam bem cedinho, vão à sala de leitura e colocam um montinho de livros, papéis e canetas numa mesa e voltam para a residência para dormirem, ou vão assistir às aulas. Assim, reservam um lugar até à tarde ou início da noite (quando realmente começam a estudar). MAs a estratégia leva a que, durante grande parte do dia, a sala esteja só ocupada a meio e muitos não possam estudar em condições mínimas. Não interessa. Os outros que se amanhem.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Redescobrindo: Margão e Salcete (e Goa)

A capital do antigo concelho (e agora taluk) de Salcete, conhecida como a capital económica do estado de Goa, escreve-se (em Portugal e em português) Margão. Assim mesmo, com til e a nossa subtil nasalização lusa. Na Índia, a grafia pós-colonial tem testemunhado diversas oscilações esquizofrénicas: Margao (cai o til), Madgao, Madgaon, Modgao, Madgoa, entre outras.

Quanto ao concelho, entre Salsete e Salcete, sugiro o último, embora ambas grafias possam ser aceites. Tudo menos as adaptações anglófonas e as suas variantes em concani, como Salset, Salsette e Salcette.

Sendo esta a primeira redescoberta de Goa no contexto desta série, relembro a complexidade do assunto. As grafias das localidades foram lusitanizadas ao longo de quinhentos anos, do concani vernacular para o português colonial. Já depois de 1961 entram em cena novas ideologias e línguas, para além de uma recuperação da topografia original autóctone, em concani.

Assim, coabitam o habitus topográfico goês a tradição colonial portuguesa (com bolsas de resistência estratégicas), a pré-modernidade local concani (agora revitalizada em movimentos como o Goa Hit-Rakhan Manch), a política de renomeação típica do pós-colonialismo (representada pelos nacionalistas hindus que quiseram que Vasco da Gama se chamasse Sambhajinagar), a dimensão anglófona por via da burocracia administrativa indiana (ou anglo-indiana?) e da globalização (turismo, entre outros) e, por fim, a bagagem linguística dos imigrantes de outros estados indianos (por via da sua dificuldade em pronunciarem alguns nomes).

Está introduzida a complexidade do assunto e reafirmado que esta série não se pretende imiscuir nesse debate. Pretende, isso sim, contribuir para que, em bom português, nos saibamos referir de forma correcta e consensual a locais em Goa.

Imagens de Deli: No Templo Dourado (Amritsar)


Muita confiança (Atlântico, Junho 2006)

PASSAGEM PARA A ÍNDIA (série Correspondentes de Guerra)
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI
Revista Atlântico, Junho de 2006

MUITA CONFIANÇA

Rajiv é filho de um casal que emigrou dos famintos planaltos indostânicos para os subúrbios de Nova Deli. Na cidade, o ganha-pão da família dependia das pernas do pai, paquete numa repartição pública, e das mãos da mãe, empregada de limpeza. Um dia, ao voltar da escola, Rajiv viu numa papelaria o livro “Teach yourself English in seven days”. Hesitou, mas confiou no dono, que lhe disse que bastavam 900 palavras para dominar a língua. Afinal, pensou, a um ritmo de aprendizagem de 30 palavras novas por dia, seria daqui a três meses fluente na língua de todos os sonhos. Hoje Rajiv é engenheiro informático na Califórnia, vive num apartamento à beira-mar, e tem três televisões, dois frigoríficos, um carro e uma mota.

São estes os minúsculos épicos que movimentam a sociedade indiana contemporânea. Povoam a imaginação das gerações mais novas que acreditam ter chegado um momento e uma oportunidade histórica, para eles enquanto indivíduos e para o país em geral. A confiança que Rajiv depositou no enganador título do livro, bem como a sua fé no cliché do dono da papelaria pode parecer infantil, mas é o principal segredo da emergência indiana. Ao contrário da imagem tradicionalista e conservadora da Índia, o país testemunha actualmente uma mobilidade social e económica sem precedentes. Basta sonhar e trabalhar. Confiando.

E é o que leva, por exemplo, milhares de jovens a candidatarem-se, sem hesitar, a concursos para empregos, cursos ou bolsas de estudo que têm por vezes uma única vaga. Não há cartuchos a desperdiçar, mas também não há tempo para os contar. É preciso confiar e apostar. É por isso que a retórica conservadora dos Fóruns Sociais não encontra terreno fértil na Índia. Aqui ninguém quer conjugar o verbo “proteger”. Há todo um mundo à espera de ser conquistado.

É na economia que esta confiança mais se espelha. Segundo uma sondagem da ACNielsen a Índia apresenta os consumidores mais confiantes entre 42 países. 93% dos entrevistados classificam as perspectivas de emprego nos próximos doze meses de excelentes ou boas, e 87% descrevem de forma igual o estado das suas finanças pessoais. E enquanto que a nível mundial a média de entrevistados dispostos a investir na bolsa se fica pelos 25%, quase metade dos indianos mostra-se disposta a apostar no mercado accionista.

A confiança indiana alarga-se ao plano internacional. Mesmo com o Paquistão rival e nuclear logo ao lado, nem um único entrevistado classificou a possibilidade de uma guerra como preocupante, e 17% afirmam mesmo não ter qualquer preocupação (contra a média global de 10%). A atitude positiva e os primeiros lugares para a Índia repetem-se em temas como a militarização chinesa, a globalização ou a abertura à economia de mercado.

Há, claro, limitações importantes a apontar a este panorama confiante. As sondagens tendem a entrevistar a ainda minoritária classe média urbana e a ignorar os mais de 250 milhões de indianos que vivem abaixo do limiar da pobreza. Mas seria redutor justificar a confiança indiana como um mero entusiasmo momentâneo pelas reformas económicas que atravessam o país de Norte a Sul desde inícios dos anos noventa.

Há algo de mais profundo e estrutural que explica esta confiança. Por exemplo, a crença muito expandida de que a Índia é o berço de uma das grandes civilizações mundiais, mas que nunca lhe foi dada a oportunidade de se afirmar como tal. Invadida por sucessivas dinastias islâmicas, ocupada pelo colonialismo europeu e depois contida e isolada pela Guerra Fria, é agora uma Índia emergente, independente e poderosa que alimenta o imaginário nacional.

É daí que advém também o agudo sentimento de superioridade indiano. Por mais que o país simbolize pobreza crónica e desigualdades, a sua psique concebe uma Índia líder, velando pela ordem, paz e segurança internacional. Esta tradição tem origens históricas no conceito de “Chakravarti”, o tipo clássico de governante hindu devoto à estabilidade e que protege a sociedade e o mundo do caos e da anarquia. A própria constituição espelha esta tendência, recorrendo aos verbos paternalistas “promover”, “tutelar” e “encorajar” para descrever as responsabilidades internacionais do país.

É portanto precoce conceber a Índia simplesmente como um natural aliado democrático e amigo do Ocidente. É preciso compreender que a sua recente esquizofrenia diplomática encarna uma estratégia a longo prazo. Nova Deli procura reunir na sua manga o maior número de cartas possíveis, mesmo de forma contraditória e incoerente, namorando ao mesmo tempo Washington, Moscovo, Teerão e Pequim, e não abdicando de representar “a voz do Sul”.

Para a Índia e os indianos, os novos templos do consumo e as novas oportunidades internacionais não substituem os pagodes e as crenças do passado. Confia-se que tudo é compatível. Porque, como aqui gostam de dizer com orgulho, na Índia tudo é verdade, e o contrário também.

Imagens de Deli: Preparação de almoço (Templo Dourado, Amritsar)

Maoístas, bloggers e empresários (Atlântico, Maio)

Um excerto da minha Passagem para a Índia de Maio, na revista Atlântico, que hoje lança um novo blogue.

CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

MAOÍSTAS,
BLOGGERS E
EMPRESÁRIOS


A visita ao mítico Katmandu, que já não é assim tão mítico como se poderia pensar, conduz o nosso representante em terras da Índia numa viagem ao passado recente, quando ainda se lavava o sangue das ruas no único reino hindu do mundo. Uma reflexão que termina numa encruzilhada com espinhos.

"Parece que, da noite para o dia, a democracia floresceu como uma rosa e os maoístas se converteram ao fim da História. Mas estamos no século XXI e está visto que tudo é mais complicado do que o advogado pelo vintecentista Fukuyama. Como o vemos em Timor e o vimos há três décadas no nosso próprio país, os processos de democratização, embora imbuídos de idealismo, são períodos em que a instabilidade e as divergências políticas podem resultar rapidamente em violência crónica.

No caso do Nepal é pura utopia acreditar que os líderes maoístas,
ferrenhos ideólogos e responsáveis por toda uma administração paralela construída com sangue e suor, abandonem, por completo, a via armada e vistam o fato e a gravata da democracia liberal. Ainda por cima num dos países mais pobres do mundo, em que um quarto do território fica a mais de uma semana de viagem da capital, onde 80% depende da agricultura e em que a rede eléctrica cobre menos de metade das habitações."

domingo, 22 de abril de 2007

Redescobrindo: Rajastão

Em Portugal é bastante comum ver a grafia Rajastão para designar o estado indiano aqui conhecido como Rajasthan, cuja capital é Jaipur. É muito raro alguém escrever "vamos ao Rajasthan". Mas, ao mesmo tempo, o critério não é aplicado a outros estados e toponímina indiana, transcrevendo-se esses, pura e simplesmente, da versão original anglófona. Acredito que isso seja assim só por falta de informação sobre a grafia portuguesa correcta (e também por falta de interesse e visão que ainda impera em muitas redacções). É por essa razão que mantenho esta série Redescobrindo, tal como expliquei aquando do seu início.

Domingos matrimoniais: Non-Resident Indian

No Hindustan Times de Domingo passado:

"April 72 Born, Looks 28, Khatri, 6 Feet.Very Fair, very Handsome, British Passport Holder, Born and Brought up in Delhi, Computer Engineer/MBA London, Annual Income in Eight Figures, Owns Properties in London and South Delhi, Divorcee, Seeks Very Fair, Very Beautiful Girl not less than 5' 6'', Well Qualified, Broad Minded, willing to settle in U.K. No Caste, No Dowry, No Demand, Kindly send full Particulars. First Instance with Horoscope and Photo Returnable, Early Simple Registered Marriage, Parents in Delhi on Short Visit for Right Match. Box. GK..."

Imagens de Deli: Fronteira indo-paquistanesa

sábado, 21 de abril de 2007

Confiando: Lugar no comboio

O compartimento está já cheio e eu tenho um bilhete de última hora que me obriga a esperar, de pé, até que o revisor me indique um lugar vago no comboio e me cobre a diferença respectiva. É óbvio que ninguém me deixa ficar assim, embora todos prezem o seu conforto. Do nada, surge um espaço para eu me sentar, descansar e conversar um pouco.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Aldrabando: Oculista

O oculista fala, fala e fala. E queixa-se, dizendo-me: "O oculista anterior aldrabou-o totalmente, estes óculos que lhe vendeu e as lentes não prestam nada, sabe? Nunca mais volte lá."

Imagens de Deli: Especiarias e condimentos (Amritsar)

Aldrabando: Quarto de hotel

De viagem, quando entramos num hotel para vermos a oferta de quartos, mostram-nos quase sempre o quarto em pior estado na categoria de preço que indicamos preferir. Só ao ameaçarmos procurar um outro hotel é que nos mostram os quartos melhores na dita categoria, ou mesmo quartos de categoria superior, ao mesmo preço ou até a um preço inferior.

Ao longo da estadia avolumam-se, depois, os defeitos: por baixo do cobertor a roupa de cama está esburacada e suja, a televisão, a ventoínha e o autoclismo não funcionam, o quarto ao lado é ocupado por dez estudantes barulhentos, há infiltrações, a janela não abre (ou não fecha), ao lado do hotel reina uma discoteca de noite, um terminal rodoviário de madrugada e uma escola primária de manhã. Etc.

Há ainda as várias taxes com que muitas vezes nos gostam de brindar aquando da apresentação final da conta, a súbita mudança do horário de check-out (logo: uma hora a mais equivale a pagar mais um dia inteiro) e as informações erradas que nos indicam em relação à partida do comboio ou do autocarro (logo: necessidade de ficar mais um dia e voltar ao hotel). É uma perspectiva generalizada, mas tudo parte das minhas experiências hoteleiras subcontinentais.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Redescobrindo: Assão

Ainda não consegui encontrar nenhuma referência, mas creio que os nossos históricos antepassados descobridores e orientalistas se referiam ao Assam como Assão (reino de Assão) e por isso assim proponho que se o escreva na língua portuguesa. No entanto, na Internet, só encontro referência a esta grafia neste pontuário e numa referência ao/à (?) tacã, um mamífero ruminante que vive naquela região, num Minidicionário Ideológico e Cruzadístico da Universidade do Minho.

Imagens de Deli: Almoço no Templo Dourado (Amritsar)

O orgulho hindu ferido

Hindu nationalist groups objected to an on-stage clinch between her and Richard Gere, the actor, during an Aids-awareness rally. Gere jokingly grabbed her and planted several kisses on her cheek, to howls of appreciation for an audience of New Delhi lorry drivers. But members of the Shiv Sena organisation burned effigies of Gere in the streets of Varanasi, Hinduism's holiest city, and demand that he leave the country immediately or apologise for his "indecent conduct".

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Billy Joel e as novas gerações indianas

Sábado à noite, numa discoteca no Sul de Deli, a cave a abarrotar quase que se incendiou quando a voz de Billy Joel começou a sua ladaínha de conceitos, individualidades e símbolos ocidentais no seu "We didn't Start the Fire". Todos pareciam saber as letras, da primeira à última palavra. Desconfiei. E confirmei agora, ouvindo a mesma música pela terceira vez num só dia, na mesma estação de rádio indiana (que geralmente quase que só passa músicas indianas).

Harry Truman, Doris Day, Red China, Johnny Ray, South Pacific, Walter Winchell, Joe DiMaggio, Joe McCarthy, Richard Nixon, Studebaker, Television, North Korea, South Korea, Marilyn Monroe, Rosenbergs, H Bomb, Sugar Ray, Panmunjom, Brando, The King And I, and The Catcher In The Rye, Eisenhower, Vaccine, England's got a new queen, Maciano, Liberace, Santayana goodbye

É claro que a música é simpática e que o seu sucesso não se restringe à Índia. Mas há algo que explica este seu sucesso particularmente exagerado neste momento, neste país e entre estas suas gerações urbanas mais jovens. Creio que a explicação reside no facto de ela lhes oferecer um conjunto de referências, um conjunto de conceitos-chave estruturantes à volta dos quais sentem serem capazes de construir a sua identidade.

Joseph Stalin, Malenkov, Nasser and Prokofiev, Rockefeller, Campanella, Communist Bloc Roy Cohn, Juan Peron, Toscanini, Dancron, Dien Bien Phu Falls, Rock Around the Clock Einstein, James Dean, Brooklyn's got a winning team, Davy Crockett, Peter Pan, Elvis Presley, Disneyland Bardot, Budapest, Alabama, Khrushchev, Princess Grace, Peyton Place, Trouble in the Suez

Basicamente, Billy Joel dá-lhes uma aula gratuita sobre o mundo que tanto os fascina, neste momento em que, todas as manhãs, os jornais os cumprimentam com notícias sobre a re-emergência do seu país e a possibilidade de se afirmarem como parte integrante de um novo sonho, o Indian dream.

Little Rock, Pasternak, Mickey Mantle, Kerouac, Sputnik, Chou En-Lai, Bridge On The River Kwai Lebanon, Charles de Gaulle, California baseball, Starkwether, Homicide, Children of Thalidomide, Buddy Holly, Ben Hur, Space Monkey, Mafia, Hula Hoops, Castro, Edsel is a no-go U2, Syngman Rhee, payola and Kennedy, Chubby Checker, Psycho, Belgians in the Congo

É verdade que os jovens que lá estavam, a bambolearem os seus corpos, são de uma classe abastada, de uma elite urbana que há muito é parcialmente ocidentalizada. Idem talvez também para os ouvintes da rádio. No entanto, são justamente estes meninos e meninas cujos pais estão à frente deste país e são justamente estes meninos e meninas que estão a moldar o futuro deste país a cada dia que passa.

Hemingway, Eichman, Stranger in a Strange Land, Dylan, Berlin, Bay of Pigs invasion Lawrence of Arabia, British Beatlemania, Ole Miss, John Glenn, Liston beats Patterson, Pope Paul, Malcolm X, British Politician sex, J.F.K. blown away, what else do I have to say

"We didn't Start the Fire" representa, deste modo, um imaginário clássico para compreender os sonhos, as aspirações e também os medos e complexos das novas gerações indianas. A voz de Billy Joel assume uma missão quase profética, libertando porque criando um novo horizonte. Billy Joel passa a ser celebrado como um herói indiano: reduzindo a complexidade de todo um mundo a um conjunto vocabular monótono e ideologicamente carregado, digere o indigerível, fazendo-o parecer familiar, apetitoso e atractivo.

Birth control, Ho Chi Minh, Richard Nixon back again, Moonshot, Woodstock, Watergate, punk rock, Begin, Reagan, Palestine, Terror on the airline, Ayatollah's in Iran, Russians in Afghanistan Wheel of Fortune, Sally Ride, heavy metal, suicide, Foreign debts, homeless Vets, AIDS, Crack, Bernie Goetz, Hypodermics on the shores, China's under martial law, Rock and Roller cola wars, I can't take it anymore

Fast-food indiano em extinção

Imagens de Deli: Palácio em Varanasi

O Atlântico já chegou à Índia

Correspondente de Guerra: Constantino Xavier em Nova Deli (revista Atlântico, Abril de 2006)

Desenganem-se os catastrofistas. Não é um efeito das alterações climáticas, mas o Oceano Atlântico já banha as costas indianas – politicamente, por enquanto. Provou-o a vinda de George Walker Bush, distribuindo doces (reactores) e citando Tagore, Gandhi e Nehru num discurso que fez os palpitantes corações indianos, tão ávidos da atenção das luzes da ribalta global, esquecer... Tagore, Gandhi e Nehru.

A Índia parece mais do que nunca disposta a esquecer a sua herança não-alinhada, o seu namoro russo socialista e militar, e mesmo a sua face pacifista, espiritual e oriental com que se apresentou aos ocidentais durante quase um século. Esqueçam Brama, Vishnu e Shiva e as centenas de divindades que completam o panteão hindu. A malta agora quer é McDonald’s, outsourcing e Disney Channel.

Esta história não é assim tão recente. Há duzentos anos que os indianos andam pela América do Norte e foi ali que se iniciou uma das suas frentes anti-coloniais, que viria a resultar na independência, em 1947, com o apoio de Franklin D. Roosevelt. Depois de se abrir a uma nova vaga de imigração indiana em 1965 (na qual chegou o Apu dos Simpsons), a comunidade floresceu até aos dois milhões actuais. É essa a diáspora que domina actualmente Silicon Valley e muitos outros clusters estratégicos em terras do Tio Sam. Em vez da “fuga de cérebros”, aqui já só se fala em “bancos de cérebros”. O fascínio não conhece limites. É na Índia que as sondagens encontram a imagem mais positiva da administração Bush no estrangeiro.

Ora, tudo isto é bom demais para ser desperdiçado, devem pensar em Washington. Ainda por cima no que é considerado o “século asiático”, com a ameaça “amarela” e islâmica logo ao lado. Deixemos as ondas atlânticas varrer distâncias mais longas e banhar as costas indianas, planeiam. A intervenção da NATO no Afeganistão foi só o primeiro sinal disso. A organização tem mesmo discutido a possibilidade de criar uma NATO asiática, entre o Ocidente e o Oriente, com a nação de Gandhi ao leme. As cinzas do Mahatma devem estar a arder de desgosto.

Reforcemos com alguns factos e números esta nova inclinação atlantista. Dos cerca de setenta novos postos diplomáticos norte-americanos a criar este ano, doze serão localizados na Índia. E depois de estarem em frentes opostas durante a Guerra Fria, Nova Deli e Washington têm organizado nos últimos anos dezenas de treinos militares conjuntos, como o jungle warfare nas florestas infestadas de maoístas, os anti-piracy maritime exercises ao longo da costa oceânica e o high altitude combat nos Himalaias.

Quando Bush afirmou na capital indiana que como “potência global” a Índia tem um “dever histórico de apoiar a democracia no mundo” e que “a América e a Índia estão juntas nesta Guerra”, não só foi ovacionado durante vários minutos, como também levou ao fundo todas as dúvidas: cá está o novo aliado asiático do Atlântico. Agora aceitam-se apostas para responder a uma nova questão: ao banhar a Índia emergente, quem irá o Atlântico submergir por estas bandas?

A expansão atlantista encaixa-se em algo mais amplo. Em pouco mais de dois anos, desde Janeiro de 2004, mais de quarenta chefes de Estado e/ou líderes de Governo prestaram uma visita oficial a Nova Deli, presenteando os indianos com atractivos pacotes e acordos de cooperação, como se estivessem, dois mil e seis anos depois, a homenagear a vinda de um novo Messias. Em 2004 a extensa lista incluiu Vladimir Putin, Lula da Silva e Gerhard Schroeder; em 2005 foi a vez de Wen Jiabao, Junichiro Koizumi, Tony Blair e José Manuel Barroso, enquanto que, já este ano, foi a vez de Jacques Chirac, George Bush e John Howard serem recebidos por Manmohan Singh. Todos à procura de garantir uma fatia do apetecível bolo indiano, talhado ao gosto do visitante com cobertura nuclear, económica, científica ou cultural. Ao ritmo actual, Portugal fica com as migalhas.

Mas há oposição. Aqui, na Universidade Jawaharlal Nehru (habituem-se a pronunciar nomes indianos, porque senão acabam como Bush, a chamar o primeiro-ministro de “Palestinian Singh”), reina a extrema-esquerda entre os movimentos estudantis. Estou, portanto com poucas saudades do meu antigo quartel académico na Avenida de Berna.

Aqui, tal como aí, predomina muitas vezes a hipocrisia. Enquanto preparam estratégias para colar cartazes contra o “bloqueio” a Cuba, ou discutem os cânticos que devem entoar a favor dos índios no México, os líderes estudantis passam o dia a beber chá e a comer petiscos que lhes são servidos por crianças, empregadas sem as mínimas condições e mesmo maltratadas pelos patrões. Mas há coisas mais importantes a fazer – como ser um bom cicerone, por exemplo. Desde que cheguei, há dois anos atrás, apenas a visita de um chefe de Estado não foi assobiada, boicotada ou acusada de “imperialista”. A proeza coube a Hugo Chávez.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Domingos matrimoniais: Divorcee/Widow

No Hindustan Times de hoje:

"A very Short time divorced issueless girl (Separated after few days of Marriage due to unavoidable reasons) Extra ordinary beautiful, 5'3'' (looks tall) 73 born (looks 25) A sweet natured girl having Blend of Traditional Values, slim, very fair, natural sharp features, convent educated throughout, highly qualified, talented girl belongs to well established famous cultural family having major interest in township & other business with 7 digits monthly income seeks suitable handsome qualified, well settled similar status alliance preferably Business / Industrialist from in or around Delhi, Working / Professionals / NRI may excuse. Only Unmarried / Issueless Divorcee Khatri/Arora will be considered. jackson1411@... or Box ... Hindustan Times, New Delhi 110001."

Confiando: Jornais

Recebo todas as manhãs vários jornais de que sou assinante. Por norma, o respectivo rapaz que os distribui, de bicicleta, não nos cobra a conta por vários meses. Quando mudámos de apartamento, para umas ruas mais a Norte, e nos esquecemos de lhe indicar a nova morada, os jornais aparecerem antes que nos pudéssemos lembrar do nosso esquecimento, dois dias depois, à mesma hora madrugadora de sempre. Uns meses depois, ao entregar-me a conta, esperava um comentário dele, nem que em tom jocoso (com que então, a tentarem escapar-se de mim), mas nada. Só o habitual sorriso.

Sinal dos tempos

Um importante sinal do tempo num texto de uma das cientistas políticas indianas mais capazes, Grupreet Mahajan, directora do Centro de Estudos Políticos da JNU. As suas afirmaçoes deixam enquadrar-se na crescente afirmação da sociedade civil indiana e o seu consequente choque com uma classe política bastante retrógada e conservadora em termos de debate público e cultura democrática. Na imprensa, o movimento encontra expressão no semanário Tehelka.