terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Imagens de Deli: Miúdos num casamento

Regateando (adenda)

Há, no espectro oposto, os turistas que, na frustrada tentativa de se quererem integrar ao máximo e “ser como eles”, negoceiam cada Rupia como se fosse um caso de vida ou morte. Para além de já o próprio objectivo máximo de integração espelhar uma profunda crise de identidade, grande insegurança e presudo-correcção, não há outro termo a não ser “patético” para descrever a forma excessiva e enfática (roçando o mimetismo) com que encenam os diálogos, gestos e estratégias de negociação autóctones. Vivem obcecados com a ideia de que tudo e todos os tentam enganar, que cada Rupia vale uma fortuna. Esquecem-se que uma Rupia pode, de facto, ser uma fortuna – mas não para eles, pelo contrário. A obsessão leva-os aliás ao radicalismo ridículo de estarem a discutir com um pobre taxista de triciclo durante vários minutos duas ou cinco Rupias de troco, como se isso fosse importar alguma coisa na carteira chumaçada de notas e cartões de crédito internacionais e nas contas finais que lhes permitem exclamar com alegria “Ah, c’était un super bon marché, l’Inde” e depois gabarem-se na padaria ao comprar baguetes. Este comportamento defende-se logicamente com dois dos argumentos já apresentados – o mito da obrigatoriedade da negociação e o do perigo da inflação dos preços locais.

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Imagens de Deli: Casamento


A noiva Sheila (alcunha, ao meio) uma das minhas colegas de turma, na sua festa de casamento há poucas semanas atrás. Tudo arranjado, é claro, conheceu o marido poucos meses antes, viu-o umas poucas vezes, mas sempre na presença de familiares. Um casamento de arromba, entre mil e duas mil pessoas presentes, entra quem quiser. As minhas observações pessoais ficam para um outro dia. Hoje ficam com a imagem.

Regateando

Uma das coisas que mais fascina (e intimida) os ocidentais que vêm à Índia é a volatilidade dos preços, o processo de negociação e, paradoxalmente, a fraude que a cada instante os ameaça vitimar.

Nascem assim mitos sobre supostos recordes batidos a regatear. Por exemplo, eu até recentemente estava convencido de que tinha feito um negócio da China quando, há uns anos, de mochila às costas a viajar pela Índia, tinha comprado um conjunto de pequenos elefantes coloridos em pedra em Amber, perto de Jaipur, no Rajastão. Enquanto subia por um íngreme caminho rochoso e tórrido, encosta acima, em direcção a um forte, um vendedor tanto insistiu que acabei por comprar o conjunto por dez vezes menos o preço inicialmente apresentado pelo sujeito, porque aquilo parecia tão barato e afinal uma tão boa história para contar aos netos que era impossível resistir.

Fui vivendo nessa ilusão até ao dia em que um amigo meu me mostrou o mesmo conjunto de elefantezinhos e se gabou todo embevecido que tinha reduzido o preço em quinze vezes e os tinha comprado por um preço ainda mais irrisório do que o meu. Tendo ainda por cima em conta a subida galopante de preços que se viveu neste país nos últimos anos, imaginam que de um momento para o outro parte do meu pequeno mundo ruiu, sem misericórdia.

Nascem também mitos sobre estrangeiros que foram defraudados. É aliás uma das conversas preferidas dos mochileiros na Índia. Logo que estes se encontram, trocam nomes e proveniência nacional, e a conversa orienta-se para esse tema, todos convencidos de que conheceram pessoalmente o japonês mais gatunado na história do turismo na Índia, que foi praticamente raptado logo à chegada ao aeroporto em Nova Deli, forçado a dormir num quarto pestilento enquanto lhe debitavam 500 dólares do cartão de crédito, empurrado na manhã seguinte para um autocarro público e levado para a Caxemira, que, é-lhe dito com grande alarmismo, é o único local seguro de momento no país, porque está iminente mais uma guerra indo-paquistanesa. Claro que nenhum dos mochileiros se lembra de partilhar as diversas histórias em que ele mesmo foi enganado, dando-se conta ou não. Isso fica remetido para a intimidade, deitado para o emergente amontoado de frustrações politicamente incorrectas.

Nascem também mitos como o de ser obrigatório (ler as sílabas enfaticamente e pausadamente) regatear-se na Índia, sob pena de ser mal-educado e ferir as susceptibilidades autóctones. Presumo que este mito tenha origem nos países árabes, mas a verdade é que é simplesmente uma legitimação simpática para o que é a dura realidade do terreno. Porque só regateia quem não quer pagar mais. Ninguém é obrigado a negociar. Só se discute se o preço não convém, ou simplesmente se não parece merecer a mercadoria pela qual é demonstrado interesse. Não são poucos os indianos que conheço que se recusam a regatear – novos-ricos ou ricos, na sua maioria – por não terem paciência nem tempo para tal. Nunca vi um vendedor nessa ocasião exclamar com uma expressão ofendida “que falta de respeito, vá comprar com outro que venda mais barato!”.

É mais o “white man’s burden”, o medo de parecer prepotente, de chegar e comprar a aldeia inteira, crianças incluídas. Mas, perante a realidade, que não passa de uma dura selva ou de um faroeste em que só sobrevive o mais apto, não há que ter medos nem mitos, salva-se só quem puder e quiser.

Finalmente, expostos perante a argumentação supra, muitos benevolentes pseudo-preocupados com o nefasto impacto do turismo sobre a economia local, contrapõem que é imperioso regatear e pagar sempre que possível o preço que os locais pagam, sob pena de inflacionar os preços e tornar certos serviços proibitivos para os autóctones. Tal acontece, por vezes, mas na grande maioria das realidades indianas que conheço, é simplesmente mais um mito. Um bom indiano sabe distinguir um farangi de um desi, isto é, um branco de um castanho.

Mesmo em locais onde o turismo tem tido um impacto tremendo, o caso de Goa ou de Dharamsala, há duas economias paralelas, uma para os estrangeiros, outra para os nacionais. Para quem começa a arranhar o vernacular, expõe-se o tremendo fosso que separa as duas, ouvindo um taxista pedir um certo preço proibitivo a um turista para segundos depois, caso a presa estrangeira não o tenha contratado, aceitar sem piscar os olhos uma oferta mínima de um habitante local.

Há então os que argumentam que pagam mais porque não se importam, porque é tão pouquinho para “nós” e tanto para “eles”. Embora pense que esta atitude paternalista tenha um cunho de arrogância, credito-a com o facto de assumir pelo menos a parcial incapacidade e impotência de lidar com o mundo da negociação na Índia. Neste caso, “pagar mais mas finalizar o processo com maior rapidez” é visto como uma solução confortável para todos os que – assumindo-a – querem escapar à complexidade e conflitualidade ilesos e incólumes. Aceito, sublinhando a franqueza.

O problema destes mitos todos é que confundem a maioria dos turistas bem-intencionados, ainda por cima num país tão confuso como o é a Índia, em que a cada esquina nos pegam no braço e nos querem convencer que têm em mãos o negócio do século, só e especialmente para nós. Já com a mochila às costas, o peso da pela branca e do estatuto económico, mas especialmente do que se quer o “politicamente correcto” é tremendo e só leva a que os visitantes sejam esmagados e triturados pelas hábeis máquinas indianas que confrontam o turismo nessas esquinas um pouco por todo o país. Aqui e acolá os hóspedes dão sinais de resistência, mas a verdade é que sentem tremenda frustração que se vai acumulando e, de repente, semanas, meses ou anos depois de iniciarem a viagem (que pode ser a de uma vida) irrompe tudo que nem um vulcão, produzindo cenas patéticas ou chocantes, ou mesmo os dois, quando a última gota faz transbordar o copo da paciência politicamente correcta.

Deixem-me dar mais um exemplo. Numa viagem que nos levou de autocarro por três dias para Ladaque, no estado de Jamu e Caxemira, iam uns poucos estrangeiros aventureiros. A viagem, como devem imaginar, foi feita em condições terríveis, tocando os 5000 metros de altura, com temperaturas ardentes durante o dia e geladas de noite. De poucas em poucas horas era obrigatório sair do autocarro e dar os detalhes dos passaportes, e alguns trabalhadores indianos as autorizações de trabalho ou de residência (o estado tem restrições mesmo à imigração doméstica). Formavam-se então longas filas e esperavam-se longos minutos. Já no último dia de viagem, um francês de meia idade, que tinha passado os dias e as horas anteriores a louvar a espiritualidade indiana, a simpatia, paciência e franqueza dos habitantes do país, a necessidade de os “brutos ocidentais” compreenderem e adaptarem-se ao local, encontrava-se também numa dessas filas quando um sujeito indiano ultrapassa a fila inteira e entra para a tenda militar.

Todos os passageiros, nem que olhando de relance, sabiam que se tratava de um dos motoristas, afinal ele já nos conduzia há dois dias. Mas o francês, de repente despojado de toda a retórica, lançou-se para cima dele, agarra-o pelos ombros e por entre cuspo e gestos ameaçadores grita-lhe num francês obviamente chinês para o indiano, acusando-o de violar as elementares regras de boa-educação e não sei o que mais. Foram precisos vários minutos para o acalmar e ele lentamente voltar a si, só para me confidenciar mais tarde que “lhe tinha saltado a tampa” porque o tinham já ultrapassado dezenas de vezes em filas, um pouco por todo o país que tinha visitado e isso o irritava profundamente.

Sim, eu sei, duas perguntas vos devem afligir. Como então sobreviver na Índia regateando e o porquê destas linhas. Quando à primeira, assim em breves linhas, não me resta nada a não ser recomendar naturalidade e libertação de mitos e complexos. É preciso olhar o inimigo nos olhos, e nos negócios turísticos cá da terra todos são inimigos até prova em contrário (rara). Contar espingardas e ir para a guerra. Ou assumir a opção de não querer conflitualidade, mas pagar o preço devido por isso (em Rupias), numa estratégia militar de recuo em que a concentração reside na contenção dos danos e maximização noutras frentes (gozar o turismo mais essencialmente, descansadamente). Finalmente, mesmo que não tenham amigos locais indianos, pedir a transeuntes, feirantes rivais, conhecidos ou desconhecidos etc. que regateiem em vosso nome, embora haja sempre o risco de manterem o preço alto e combinarem uma percentagem para eles mesmo. Mas, regra geral, e na maioria do território, as pessoas gostam de ajudar e farão o papel de bom samaritano a intérprete cultural e intermédio.

Quanto à segunda questão, sobre o que me motivou a escrever sobre o tema, nada mais do que uma ida ao mercado, esgotado e desnorteado, depois de um dia de trabalho. Perante os vendedores de vegetais e frutas com que normalmente negoceio sempre um pouco e que já me conhecem bem, hoje baqueei. Sem paciência nem energias, fui escutando e acedendo impávido aos estonteantes preços que me pediam por cem gramas de uvas ou um quilo de batatas. Mas hoje recusei-me a entrar no teatro das negociações, estendi-lhes as notas e recusei observar a balança ou controlar o troco. Decidi que hoje vingar-me-ia deles virtualmente, a longo termo, aqui, no teatro cibernético.

sábado, 25 de fevereiro de 2006

EUA e Índia (Expresso)

Nota: Em cima da hora, o meu texto teve que ceder a temas mais importantes (é assim mesmo, o mundo dos jornais) e foi convertido e condensado numa "Breve", embora com alguns erros. E, em anexo, deixo-vos o artigo original, não-publicado e que aproveitei para editar ligeiramente.


EXPRESSO, Edição 1739, 25.02.2006, Internacional

Uma nova «paisagem estratégica»

O PRESIDENTE norte-americano inicia na próxima quarta-feira uma visita de dois dias à Índia (a que se seguirá outra ao Paquistão), cujo objectivo é «colocar o seu programa nuclear civil no âmbito da legitimidade internacional e fortalecer a confiança entre as duas nações», segundo as suas palavras. A verdade é que com ou sem anúncio público do acordo de cooperação nuclear (a adesão da Índia ao Tratado de não Proliferação Nuclear), a visita de Bush é a primeira em três décadas, o que diz muito sobre a crescente importância que os dois países dedicam um ao outro. Uma aliança entre ambos pode, de facto, moldar uma nova «paisagem estratégica».

Tony Jenkins, Nova Iorque, com Constantino Xavier, Nova Deli

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Relação emergente
Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli
(não-publicado)

Com ou sem anúncio público do acordo de cooperação nuclear, a visita de George Bush à Índia, a segunda de um presidente norte-americano em quase três décadas, simboliza a crescente importância que os dois países têm dedicado um ao outro.

Do lado norte-americano, Bush parece disposto a reconhecer a emergência militar e diplomática indiana, tendo em conta a instabilidade no Paquistão islâmico e a necessidade de conter o poderio chinês na Ásia. “A Índia é importante para a nossa segurança económica e nacional”, disse o presidente norte-americano esta semana em Washington, referindo-se á Índia como “um líder global e um bom amigo”.

Mas a aproximação indiana tem atraído especial atenção por assumir tons de ruptura, tendo em conta que o país foi durante o período de Guerra Fria um dos líderes do Movimento Não-alinhado, hostil aos Estados Unidos, e o facto de sempre ter mantido boas relações com a União Soviética. A Rússia permanece o seu principal parceiro militar.

Visando agora reflectir o seu poderio económico global na diplomacia internacional, a Índia está no entanto disposta a cortar com o passado. Do novo acordo com os Estados Unidos deverá constar a abertura do seu programa nuclear a inspecções internacionais, bem como a separação do seu programa civil e militar, tudo para aceder à tecnologia norte-americana e ver reconhecida a nível internacional a sua capacidade nuclear.

A visita conta no entanto com a ferrenha oposição dos partidos de esquerda que acusam o primeiro-ministro Manmohan Singh de “sucumbir ao imperialismo norte-americano e esquecer a história”. Os boicotes anunciados levaram mesmo Bush a optar por não discursar no parlamento em Nova Deli, ao contrário do que fez o seu antecessor Bill Clinton, em 2000. Para Manosh Joshi, membro do Conselho Consultivo para a Segurança Nacional da Índia (NSAB), a nova orientação diplomática não é tão dramática. “A Índia tem vindo a reposicionar-se na diplomacia internacional há já muitos anos e o 11 de Setembro só veio acelerar o processo”, referiu ao EXPRESSO.

Para o ex-diplomata e presente editor do diário Hindustan Times, a relação emergente com Washington não choca com a ênfase que Nova Deli tem colocado num mundo mais multilateral e multipolar, perseguindo a política “Look East” em relação à Ásia, ou apostando no eixo “Sul-Sul” com o Brasil e a África do Sul (IBSA). “A Índia, quer olhe para o Oriente ou o Ocidente, encontra os Estados Unidos sempre presentes e a visita de Bush poderá ajudar a cimentar a sua emergência na região”, refere, aludindo também aos crescentes interesses de Washington na região.

A caminho de Leh

Pouco tempo depois os Himalaias voltaram a impor respeito aos três autocarros que seguiam em caravana. Logo à saída de Keylong, e estando ainda numa capital de distrito e a pouco mais de 3000 quilómetros de altura, um riacho tinha levado consigo a pequena ponte e os autocarros só com dificuldade e muitas manobras malabaristas lá conseguem atravessar as turvas águas – os passageiros são obrigados a atravessar a pé, claro.

Mas o pior estava reservado para uns cinco quilómetros depois, onde o lamaçal a que chamam National Highway tinha simplesmente desabado, nada mais restando do que a nua e íngreme face da montanha à esquerda e uma impressionante ravina, caindo por quase duas centenas de metros, do lado direito.

Passar-se-iam mais de oito horas até que o trânsito voltasse a poder circular. E só depois de dinamitaram a montanha, trazerem lagartas especializadas do Exército e supostamente controlarem a segurança. Dos dois lados já se alinhavam centenas de veículos quando finalmente somos os primeiros a passar, no papel de cobaias rodoviárias. O sol começava a aquecer a chapa dos autocarros, o pó da pista a cobrir os poros e a invadir as narinas.

É então, já a 4000 metros de altitude, e envolto de paisagens desérticas, vales secos imensos envoltos de cumes de neve, numa paisagem lunar fantasmagórica, pontuada somente por ocasionais batalhões militares que têm como responsabilidade manter a estrada transitável e também por um ou outro grupo de pastores nómadas e os seus rebanhos de cabras e outros animais de montanha, que um dos três autocarros nos abandona, o seu motor quase em chamas, os motoristas deitando-lhe água.

Lentamente, os dois autocarros restantes seguem viagem, já sobrelotados por algumas pessoas se terem transferido. A estrada vai subindo, sem perdão, o ar afina-se, o fim do mundo parece mais próximo do que nunca. Não há sinal de vida, a não ser um jeep turístico mais rápido que nos ultrapassa, ou bidões de gasolina abandonados ao longo da estrada, ou até um ou dois camiões capotados lá em baixo num dos vales.

Como seguimos à frente, de repente, o nosso motorista exclama e anuncia que passámos a escalar os Himalaias sozinhos. Não há sinal de vida do segundo autocarro.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Hollywood & Bollywood

Will Smith na Índia. A lenta transformação de um H num B. Bem-vindos à afirmação do soft-power indiano.

Respeito

Nas aulas de M.A., equivalente a uma pós-graduação ou a um mestrado em terras ocidentais, aqui na Jawaharlal Nehru University, quase sempre que um professor entra na sala, há uma maioria de estudantes que se levanta de pé, em sinal de respeito, até que o mestre faça sinal para os aprendizes se sentarem. A dimensão do comportamento varia de departamento para departamento e de professor para professor, mas, regra geral, vai sobrevivendo. E mesmo os estudantes estrangeiros têm adoptado este comportamento expressivo do respeito, ocidentais incluídos. De notar que a universidade é considerada um dos espaços mais liberais e progressivos da Índia, onde florescem os novos talentos e as novas ideias que irão orientar a Índia (e talvez o mundo) de amanhã.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Obrigado pela gentileza

"Since we cannot throw our Muslims and Christians into the sea, we have to Indianise them."

K. S. Sudarshan, o carismático líder das forças fundamentalistas hindus Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), referindo-se às minorias religiosas na Índia, à sua reconversão e ao processo de indianização que advoga (Bharatiyakaran).

Chicken tandoori em risco

Já chegou a terras de Rudyard Kipling a famosa Avian Influenza. As empresas de catering que servem as companhias de aviação internacionais na Índia deixaram de oferecer o famoso chicken tandoori ou egg curry aos passageiros. É também o poder dos media e o reflexo da crescente modernização, ocidentalização e globalização da Índia: o que se passa num pequeno distrito a norte de Bombaim, afectando até agora poucas centenas de galinhas e dois indivíduos, tem efeitos quase instantâneas por todo o país. Milhões de pessoas deixam de consumir, os preços caem, as fábricas fecham e dezenas de milhares de pessoas da indústria aviária perdem o emprego, tudo num espaço de dias.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

(Re)abertura

Os que já são veteranos nestas andanças da vida em Deli e que a foram acompanhando desde Julho de 2004 terão certamente observado que o blog sofreu algumas mudanças gráficas nestes últimos dias. E observarão nos próximos tempos também mudanças de conteúdo, com mais actualizações, mais comentários, recortes e observações pessoais, sem deixar de explorar a minha fina e inexperienciada veia literária. Convido todos à leitura, mas em especial a comentarem, colocarem questões, desafiarem-me e corrigirem-me, fazendo uso das caixas de comentário... para que a minha Vida em Deli conte também com a vossa companhia.

Abanar de cabeças

Para quem anda a acompanhar esta minha vida em Deli, isto não vos soa familiar?

Quando, em Portugal, comentava a intenção de continuar os meus estudos na Índia, ouvia normalmente um "Isso não lembra nem ao diabo!" ou constatava um abanar de cabeça como reacção ao que eu acabara de dizer.

Tóxicos à procura de porto de abrigo (Expresso)

EXPRESSO, Edição 1738, 18.02.2006, Internacional

O país das piores condições

O NAVIO de guerra francês «Clemenceau», com centenas de toneladas de amianto a bordo, tinha como seu último destino a pequena cidade portuária de Alang, no Noroeste da Índia. A localidade é conhecida por albergar «um dos maiores cemitérios navais do mundo», onde aportam anualmente centenas de antigos petroleiros, porta-contentores e navios militares vindos dos cinco continentes.

As embarcações são tomadas de assalto por milhares de trabalhadores indianos que, sem qualquer formação ou equipamento de protecção, os desmantelam para reciclagem e produção de aço.

Durante todo o processo os trabalhadores, principalmente imigrantes sazonais vindos das regiões mais pobres da Índia, são expostos a grandes quantidades de amianto, chumbo, mercúrio e vários outros resíduos tóxicos que são depois incinerados ao ar livre, depositados no mar ou mesmo vendidos ao público.

Estudos calculam que um quarto dos cerca de dez mil empregados de Alang corre «sérios riscos de contrair cancro» e o próprio Governo estadual admite que quase 400 pessoas morreram desde 1983 em acidentes de trabalho e que a faixa costeira está hoje severamente poluída.

Alang não passa no entanto de um exemplo. 90% dos cerca de 600 navios transoceânicos abatidos anualmente no mundo inteiro são desmantelados em condições similares nos portos da Índia, do Paquistão, do Bangladesh e da China. De acordo com um relatório que a União Europeia publicou em 2004, o número de navios desmantelados entre 1994 e 2003 é de 4.658, 2.640 foram desmantelados na Índia.

Também no Oriente os interesses económicos falam alto. Embora a Índia tenha uma legislação ambiental bastante completa, nem sempre a aplica no terreno, sob pena de ver países concorrentes retirar-lhe a liderança no mercado. Os próprios protestos da Greenpeace foram condenados pelos sindicatos de Alang, que acusam os ecologistas de porem em perigo os seus postos de trabalho e toda a economia da região.

«Há que negociar urgentemente critérios mínimos a nível nacional e internacional e ter em consideração os vários interesses económicos, laborais e ambientais», refere Ravi Aggarwal, director da ONG indiana Toxics Link. Em especial porque o sector se encontra em franca expansão, avisa, em declarações ao EXPRESSO.

«As leis internacionais proibiram na década de 70 a utilização de amianto e de outros tóxicos na construção naval. Tendo em conta o tempo médio de serviço, mais de 3 mil navios construídos antes disso serão desmantelados até 2010», refere.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

domingo, 19 de fevereiro de 2006

A vida em Deli no Abrupto

Cópia do que enviei hoje (19/02/2006) e foi publicado no Abrupto, de José Pacheco Pereira:

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(JPP)

RETRATOS DO TRABALHO EM NOVA DELI, ÍNDIA

A máquina, instalada no meu campus universitário, tem um assistente a tempo inteiro, 24 horas por dia, 365 dias por ano, faça frio gélido ou calor tórrido em Nova Deli. São dois funcionários que se revezam, sendo que à noite estendem uma pequena colcha para dormirem em frente à máquina. Há diversas razões que explicam este factor humano.
Primeiro, há repetidas e contínuas avarias, especialmente devido ao clima, forçando a utilização manual (o empregado tem a chave de acesso no bolso). Segundo, é raro alguém ter consigo troco exacto para pagar em moedas os produtos expostos (devido à inflação dos preços).
Terceiro, embora numa zona universitária, muitos dos utentes não são suficientemente literados ou simplesmente não têm paciência para seguir as instruções. Finalmente, ao receberem o dinheiro em mãos, em vez de este ser colocado na ranhura, os empregados têm uma fonte de rendimento adicional, desviando uma percentagem para um copinho de papel que se encontra escondido dentro da máquina de café branca (ao meio), sem conhecimento da empresa gerente. Utilizei esta "vending-machine" por várias dezenas de vezes ao longo dos últimos meses, mas até hoje não me foi possível uma única vez efectuar uma transacção com sucesso sem interferência do empregado, pelas razões acima expostas, ou variantes similares.
(Constantino Hermanns Xavier)
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Imagens de Deli: Metro & Hanuman




Uma imagem (a primeira) simbólica da Nova Deli contemporânea: um viaduto do Delhi Metro, aqui numa secção elevada, com o gigantesco Hanuman Temple (em Karol Bagh) ao fundo, dedicado ao deus-macaco aliado do mítico Rama. O orgulho nacional, o Delhi Metro, é uma joint-venture público-privada indiana com forte participação japonesa e alemã (Siemens, aber klar!). É de facto uma obra-prima, com tecnologia de ponta, limpeza exemplar, qualidade garantida a todos os níveis, e, por isso, suplantando na minha opinião todos os metros que já conheci, à excepção do japonês.

Calcula-se que o Delhi Metro irá reduzir a entrada de autocarros suburbanos em mais de 20% (uns tantos milhares por dia) e reduzir ainda mais a poluição do ar numa cidade que há menos de dez anos ainda era considerada uma das mais poluídas do mundo. O início do processo de despoluição deu-se com um acórdão inédito do Supremo Tribunal, em 1998, obrigando todos os transportes públicos da cidade (rick-shaws incluídos) a circular com o CNG (Compressed Natural Gas), um combustível bastante menos poluente. Assim, comparado com 1997, os níveis de monóxido de carbono desceram 32%.

A segunda fotografia, no interior de uma estação, valeu-me uma reprimenda pública. Segundos depos de o meu flash ter captado a imagem, ecoou pela aparalhagem sonora uma voz autoritária em hindi, a dar instruções e localização para me confiscarem a máquina. Felizmente, lá fiz o papel de desentendido com os seguranças, pedi desculpas e pude ficar com a fotografia. Continua a ser proibido na Índia tirar fotografias de instalações militares, claro, mas também de aeroportos (esqueçam fotos de despedida!) e demais instalações públicas de "interesse vital para a segurança do estado". Resquícios do socialismo nehruviano e de paranóia soviética.

Mas o mais hilariante é mesmo observar os utentes que são confrontados com toda esta high-tech global. Os torniquetes são digitais, e há dezenas deles para escoar as massas delienses, mas cada um tem um assistente personalizado para explicar às pessoas como o utilizar, empatando o sistema e criando filas intermináveis. Mas basta lembrar-me da vergonha que ainda há pouco se passou (ou ainda se passa?) no Metro de Lisboa, para refrear as minhas críticas ao sistema indiano.

Há, no entanto, no Metro de Deli um muito bom exemplo que testemunha o choque da Índia tradicional com a modernidade e rápida mudança que o país vive. São as escadas-rolantes que elevam os utentes de volta às alturas caóticas, à realidade da rua. Basta colocar-se perto do início de uma dessas maravilhas tecnológicas e observar os dramas que se desenrolam à sua volta, naqueles primeiros metros de tapete metálico ainda nivelado que se transforma rapida e misteriosamente em grandes degraus. Trambolhões, quedas, deslizes, saltos monumentais, gritos de pânico, risadas nervosas, gargalhadas e choro incluído - tudo reflexo da confrontação dos populares com a emergência do seu país.

sábado, 18 de fevereiro de 2006

Keylong

Finalmente, ao fim de uma semana, anunciam a partida para a madrugada seguinte. Ensonados ainda, dirigimo-nos pelas quatro e meia e da manhã para a pequena ruela a que chamam main avenue e interstate bus stand. E, de facto, reina grande agitação, as pequenas barraquinhas do chá já abriram e as pessoas vão-se aquecendo à volta dos três autocarros verdes e brancos que preenchem a rodovia. Como fomos dos primeiros a ficar empatados aqui, e como procedemos logo à reserva para a continuação da viagem, conseguimos conquistar os nossos lugares devidos com pouca dificuldade, e sentamo-nos nos bancos de madeira forrados de uma capa sintética e encostamos as cabeças cansadas às tiras de alumínio que logo nos arrefecem a nuca.

Mas não é possível adormecer. Parece que há duas vezes mais potenciais passageiros que lugares disponíveis, embora haja três autocarros. Emergem então do silêncio madrugador pequenas discussões, um ou outro empurrão, uns vão ficando no corredor, de pé, outros descem e deverão esperar pelo próximo autocarro, talvez amanhã. Os motores arrancam, a chuva gélida alternada com neve vai caindo e, já a carcaça metálica se põe em andamento, vislumbro, por detrás da janela embaciada, a figura de um dos filhos do sadhu, encharcado, a tremer, olhando-me, e cobrindo-me com um sorriso quente, como que de despedida.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Imagens de Deli: Srinagar



Certamente, se não fosse a sua ignóbil militarização, Srinagar seria uma séria candidata a Património Mundial da UNESCO. É uma cidade que tem todos os requistos e todas as aliciantes para nos apaixonarmos por ela. Ao sopé de um formoso e luxuriante lago, na margem de ums dos principais rios dos Himalaias, o Jhelum, envolta de um vale verdejante, frutuoso e fértil, rodeado de gélidos e imponentes cumes de montanha por entre os quais há pequenas passagens estratégicas que em tempos guiavam os mercadores dos planaltos indostânicos para a Ásia Central, do planalto tibetano para as civilizações de Harappa e Mohenjo Daro à beira do Indus, e vice-versa. Há, de facto, frequentes atentados à bomba e ocasionais tomadas de reféns, mas os turistas, conscientemente ou não, são normalmente deixados em paz, no conforto dos seus house-boats no Lake Dal, ou a explorar as labirínticas ruelas do bazaar. Considero a Jama Masjid, a mesquita central de Srinagar originalmente do séc. XIV, o local mais simbólico e impressionante, porque se distingue de todas as mesquitas que jamais vi (poucas em realidade, muitas no papel ou no ecrã), da Praça de Espanha a Istambul, de Tóquio a Goa, num estilo que nos parece querer provar a veracidade do mito de que Caxemira é a Suiça asiática. Os agudos ângulos que pontuam o seu telhado também, não sei bem porquê, me fizeram recordar as igrejas de traça germânica que pontuam as cidadelas e vilas alemãs da Europa de Leste, a Catedral de Brasov (Kronenburg), por exemplo. Embora o estilo oficialmente seja o indo-sarracênico, há, certamente, algo de inevitável europeu e ocidental em Srinagar, algo de intrinsecamente alpino, ou, no menos remoto dos exemplos, algo de profundamente central-asiático.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

A Festa

Quando os meus pais me arrastavam para as festas goesas naqueles restaurantes bolorentos às Janelas Verdes ou naquela barraca a que chamavam Casa de Goa nas Laranjeiras eu sentia-me sempre um pouco à parte. Logo que as mesas forradas de xacutis e cabidelas e demais petiscos eram afastadas do centro da sala ou do pátio e irrompiam das gargantas regadas de feni de cajú os primeiros cânticos em Concani, eu tentava escapar-me pela portinhola que, pelo menos nas Laranjeiras, ia dar a uma pequena horta com grandes abóboras. É que lá dentro começavam a dançar, jovens e crianças incluídos, bamboleando os pés, as ancas e as cabeças ao ritmo do gummot que alguém se lembrava de tirar do armário ao lado da imagem de S. Francisco Xavier e ao som das violadas de um dos antigos liceístas do Afonso de Albuquerque no topo do Altinho.

Musicalmente pouco educado, salvo umas sete aulas de Blockflöte que a minha mãe me impôs, bem como umas tímidas actuações no Côro do Colégio Alemão, na penúltima fila do lado esquerdo, perto da cortina, esses fins de tarde veranescos incutiam em mim um sentimento de impotência e pânico. O mesmo passava-se, em medida muito mais exagerada, nas minhas idas infantis a Goa. Rodeado de um mundo supostamente familiar mas afinal tão desconhecido, envolto de um clima tropical e coberto de terríveis borbulhas que só dez anos depois compreendi serem devidas ao produto com que a nossa empregada Inacinha lavava o chão da nossa casa, e mesmo na companhia dos meus irmãos que deviam passar pelo mesmo, gelava aterrorizado de cada vez que se abriam as clareiras na sala afastando a aristocrata mobília indo-portuguesa contra as paredes frescas caiadas de branco.

Felizmente, fui crescendo, ganhando força e liberdade, especialmente capacidade argumentativa para legitimar o meu “Não” quando alguém me tentava arrastar para o centro dançante. Nem sempre foi possível e as experiências traumatizantes foram-se sucedendo naturalmente, as risotas gerais à volta, e eu nas minhas jeans apertadas, camisa por dentro das calças e os sapatos de vela a guinchar no chão de pedra polida indiana.

Foi então com certa nostalgia que revivi esses momentos quando cheguei a Nova Deli e fui confrontado com festas dançantes ao fim da tarde na universidade. A quarenta graus ou a dez, não interessa, ao ar livre ou dentro de uma sala, qualquer oportunidade aqui serve para se arremessarem os braços para o ar, esticar os rins e bater os pés no chão ao som das batidas da música Bollywood. Sem uma gota de álcool, sem Red Bull, sem charros, sem música mesmo, quando falta a electricidade por alguns minutos.

Dança-se como se fosse a última noite de vida na terra. Encenam-se os movimentos que se viram na tela e na televisão, roçam-se os corpos, trocam-se olhares e parceiros, alguns rapazes de tronco nu, professores a olhar, de vez em quando um até dança, tudo numa fluidez e com uma naturalidade que são totalmente estranhos ao que se observa na Europa em que a prática da dança é comercializada, intoxicada, esvaziada de qualquer essência e carregada de todos demais significados e leituras, tão pornográficas, tão frias. Tão bem descrito no ensaio “La Fête” no livro “Rester Vivant” do Michel Houellebecq.

Não se limita esta minha observação a uma suposta universidade mais liberal. Por todo o país, em todos os extractos sociais e regiões por onde passei observei esta prática. É com tremenda dificuldade que os estrangeiros encaram esta disposição natural festiva e dançante indiana. Até os mais relativistas e alternativos e wannabe estudantes de intercâmbio franceses que por cá andam baqueiam impotentes perante o fenómeno, sorriem inseguros por detrás dos troncos das árvores e rapidamente desaparecem por detrás dos arbustos para fumar charas.

Há algo de essencialmente errado na avaliação europeia generalista que se faz de uma Índia supostamente tradicional, sub-desenvolvida e conservadora e por isso mais alegre, e de uma Europa e de um Ocidente supostamente moderno ou pós-moderno, liberal e progressivo, racional e por isso menos alegre. Não deixa de ser errada, confusa, frustrada e vingativa. Para quem viesse de Marte e observasse uma festa em Nova Deli e depois outra em Lisboa, sinceramente, diria que os Europeus devem estar loucos, ou, simplesmente, muito tristes.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Survival

c04:23 am. Mangala Express rolls in on Platform 1 at Madgaon Konkan Railway Station. Dezembro. A população de Goa triplica num espaço de duas semanas. Os comboios esgotados. Do not board the train with waitlisted ticket, exclama a aparelhagem sonora e sei que sou alvo da ordem – estou na waiting-list, número 4. Polícias à porta de cada carruagem. Nas classes superiores entra-se com algum aperto e empurrões, mas entra-se. Olho para as últimas carruagens do comboio, no fim escuro da plataforma. Dezenas, provavelmente mais de uma centena de pessoas, aqueles que só têm 5 Euros para a viagem de 2000 quilómetros e 36 horas, tentam entrar nas duas ou três carruagens não-reservadas, forradas de duros bancos de madeira. À porta de cada vagão assiste-se a cenas de pancadaria entre os potenciais passageiros aglomerados em busca de meio metro quadrado para Deli, enquanto que uma dezena de polícias carrega por detrás, à bastonada, a torto e direito, para não atrasar o comboio. BUSINESS IS DARWINISM. ONLY THE FITTEST SURVIVE.

In 1980 a Presidential Commission (known as the "Mandal Commission" after the name of its Chairperson) issued a comprehensive report and set of recommendations for national standards. Although the Mandal Report did not use the term "social capital," its central premise was that the mere prohibition of discrimination and a policy of "equal opportunity" were insufficient to remedy the profound social effects of the caste system. It stated: "People who start their lives at a disadvantage rarely benefit significantly from equality of opportunity ... Equality of opportunity is also an asocial principle, because it ignores the many invisible and cumulative hindrances in the way of the disadvantaged." The Mandal Report generated lively debate but it was not until 1990 that the national government actually proposed implementation of the Report. This announcement, by then-Prime Minister V.P. Singh, prompted widespread civil disturbance, instances of self-immolation by high-caste Hindus in protest, and litigation leading to an epic three months of oral argument before the Supreme Court. In 1992 the Supreme Court reached a 6-3 derision, largely approving the Report and its recommendations.

Numa avenida nua nos arredores de Deli a poeira começa a levanter-se cedo de manhã. Ao frio de quatro ou cinco graus, o sol ainda não despertou, centenas de homens magros e sujos aglomeram-se em grupos de dez ou vinte. Esperando, observo. Cada veículo de porte maior que passa em velocidade mais reduzida capta imediatamente a sua atenção. Quando se confirmam as expectativas, a carrinha de caixa aberta ou o camião pára e sai de frente do volante um senhor bem vestido, com um pau na mão. Imediatamente as massas se aproximam e antes mesmo de o condutor ter subido para o tejadilho e anunciado o número de mãos que precisa para dez ou quinze horas de trabalho na empreitada, já os frágeis cotovelos se enfiam pelas costelas vizinhas, as vozes desesperadas ganham volume e os primeiros sobem para o veículo. O empregador não fala, não anuncia, mas escolhe os que quer, imune aos olhares, aos pedidos, aos apelos, soberano, com a ajuda do seu duro ceptro. BUSINESS IS DARWINISM. ONLY THE FITTEST SURVIVE.

Jawaharlal Nehru Universty, Admissions, Reservations: For SC/ST Candidates: In accordance with the Resolution of the Parliament, up to 22.5% seats (15% for SC and 7.5% for ST candidates, interchangeable, if necessary) in each Programme of Study are reserved for Scheduled Caste/Scheduled Tribe candidates. Reservation of seats for physically handicapped candidates 3% of the seats are reserved for the Physically handicapped candidates in all the programmes of study. A candidate, in order to be eligible for any concession/benefits under the Physically Handicapped category, should have minimum degree of disability to the extent of forty percent. Deprivation points for other backward classes (OBC's) and other candidates. Deprivation points (upto a maximum of 10 points) will be given to the candidates of the following categories: OBC Candidates (…).

À entrada da mesquita, no centro apertado da cidade, as crianças acenam-me com pequenos blocos coloridos de senhas. À primeira vez, querendo-me imune a tantas trafulhices pedintes na Índia, ignoro-as. À segunda, sinto-me observado e alargo os meus horizontes. Por detrás das crianças, dos dois lados da ruela, há pequenas dabhas, onde se preparam umas apas, arroz, e talvez um ou outro vegetal cozido. Os cozinheiros olham-me com atenção, mas continuam a misturar. É outro olhar que me atrai. À entrada de cada dhaba há longas filas de uma ou duas dezenas de mendigos, vestidos com farrapos e alguns cobertos com bolhas pustulentas, muitos amputados, um mesmo sem pernas nem braços, para além de muitas crianças, menos flageladas fisicamente mas mais ainda miseravelmente expostas ao frio e à neblina que cobre a cidade. Faço a associação e compro dez senhas a dez cêntimos cada. Imediatamente, de todos os lados, as filas fundem-se numa só tremenda turba que tenta desesperadamente entrar para a dhaba da qual comprei as senhas. Sei que está no meu poder corresponder ou não aos olhares miseráveis que me lançam. Abstenho-me. O cozinheiro toma a iniciativa e escolhe dez, que devoram uma apa, uma malga de arroz e uma batata assada. BUSINESS IS DARWINISM. ONLY THE FITTEST SURVIVE.

Eight people have been arrested in the central Indian state of Madhya Pradesh over the gang-rape of three women from the Dalit lower-caste Hindu community. The attack is said to have been revenge for a Dalit boy's elopement with a girl from an upper-caste Yadav family. A police complaint alleges that a band of about 30 Yadav men raped the boy's mother and two aunts, having first paraded them through the village. Tensions boiled over in the Madhya Pradesh village of Bhamtola when a 14-year-old Yadav girl eloped with a 19-year-old Dalit boy. At a village council meeting, the Yadavs demanded their lower-caste neighbours hand the couple over, says the BBC's Mahesh Pandey from Bhopal. According to a police officer, the girl's brother filed a complaint and called for the marriage to be annulled. His community members then allegedly attacked the Dalit boy's house before gang-raping three of his female relatives on Thursday night. Security has been stepped up in the village and public gatherings banned amid fears that the incident could unleash a spiral of caste violence.

O gigante edifício pintado de verde claro suscita imediatamente a minha atenção. Talvez dos anos 70, tal como muitos outros dos edifícios governamentais em Nova Deli. À sua frente um painel automático digital passa rápidas letras, mensagens, em amarelo fluorescente, em caracteres romanos, como que para inglês ver. NATIONAL PRODUCTIVITY COUNCIL. BUSINESS IS DARWINISM. ONLY THE FITTEST SURVIVE.

Lembro-me de que estou na Índia

Quando entro com atraso para uma sala de aula em que alunos de intercâmbio vindos de países ocidentais estão em grande maioria, e, por entre tranças louras, casacos impermeáveis e um burburinho constante, só descortino o professor indiano ao fim de alguns minutos, acossado entre a terceira e a quarta fila, puxado e empurrado por mãos poderosas e determinadas, respondendo timidamente e submissamente a gestos, expressões e reivindicações inquisidoras dos seus supostos discípulos.

Lembro-me de que estou na Índia

Quando, depois de acabar os meus cereais ao pequeno almoço, sou interrompido na leitura dos jornais por um grito de surpresa da Sayida, a nossa empregada, que aponta incompreensivelmente para a malga vazia, mas, depois de uns segundos, com o seu magro dedo indicador me força a rever se esta está mesmo vazia, o que rapidamente sou forçado a negar, envergonhadamente, retirando aos arranhos uma colher e meia de leite restante.

sábado, 14 de janeiro de 2006

Imagens de Deli: Reconquistando a Índia


Talvez me engane. Talvez seja severo demais na apreciação das capacidades do novo Portugal de redescobrir o mundo. O que me fez repensar essa minha avaliação, entre outros, foi a visita à Índia dos meus dois amigos e ex-colegas na Nova, Henrique Antão e Henrique Mateus, em Setembro passado.

A minha perspectiva crítica acerca da imagem da Índia no Portugal contemporâneo e em geral da imagem do mundo extra-europeu prevalecente em Portugal merece pois uma adenda. Há sim, novas gerações lusas à redescoberta do mundo. São uma minoria, por enquanto, mas em rápido crescimento.

Há os estudantes portugueses que escolhem prosseguir os seus estudos por um ano no estrangeiro, no âmbito do programa Erasmus. E há o crescente número de mochileiros portugueses que abandonam tudo para viajar pelo mundo fora durante vários meses. Encontrei uma vez um casal desses em frente à Embaixada portuguesa aqui em Deli, os dois a roçar os trinta, casados. O circuito, quase sempre por terra, tinha-os levado de Lisboa a Moscovo, depois pela Ásia Central, China, Vietname, Tailândia, Myanmar até à Índia. Preparavam-se para seguir para o Paquistão, Irão, depois cruzarem o Médio Oriente pela Síria, Israel e Egipto, para finalizarem a viagem pelo Norte de África, via Marrocos. Ah e tal, excepção à regra, dirão. Certamente. Mas pelo menos já há excepções.

Quanto à Índia em específico, tenho observado o mesmo fenómeno. Contra as enfermeiras dos Centros de Sáude que exclamam "Ai minha Nossa Senhora, para a Índia é que não vá, menino, fique mas é em casa" quando os meus amigos pedem as vacinas e recomendações médicas necessárias, e contra demais Velhos do Restelo que pontuam a paisagem intelectual portuguesa, há um crescente número de jovens que têm vindo à Índia. Quase que não há semana em que não receba um pedido de informação ou pedido de acompanhamento da parte de amigos ou conhecidos que pretendem visitar a Índia. O mais interessante é que antes de partir me cobrem com avalanches de dúvidas e receios, mas uma vez aqui, perco-lhes rapidamente o rasto, diluindo-se rapidamente na lógica indiana, para reemergirem já em Lisboa com um "Obrigado, foi fantástico e quero voltar".

Goa joga obviamente um papel importante, porque é sem dúvida uma das pontas do cordão umbilical lusófono multilateral que liga Lisboa a tantos povos e culturas pelo mundo inteiro. Gosto de passear por lá na companhia de quem a visita pela primeira vez, porque dá-me a mim mesmo a oportunidade de redescobrir o que pensava já ter descoberto há muito.

Essa oportunidade foi-me novamente dada, em Setembro último, pelos meus dois amigos Henriques. Um de Loures, o outro do Barreiro, licenciados e formados, em vias de integrar a função pública portuguesa em nobres postos e prometedoras carreiras, são para mim um dos avatars mais típicos da nova geração portuguesa, ávida em alargar horizontes e renegociar relações de amizade com aqueles e aquilo que nos acompanhou, para bem e para mal, durante cinco séculos.

Em menos de duas semanas os Henriques galgaram quase 8000 quilómetros indianos, de avião, comboio, autocarro, carro, riquexó, elefante e mesmo a pé. De Goa a Srinagar cobriram o que havia a cobrir e redescobriram aquilo o que as veias lhes mandavam redescobrir. Quase sem dormirem, contra as intempéries e climas adversos que assolam o subcontinente indiano em Setembro, com humor e interesse, mas acima de tudo com frontalidade e sinceridade, olhando o estranho afinal tão familiar directamente nos olhos, reconquistaram a Índia.

Foto: Forte de Corjuém, séc. XVIII, Goa, Setembro 2005

ICEP, Portugal e Índia

Expresso, Edição 1730, 23.12.2005, Economia & Internacional

Não há passagem para a Índia

500 anos depois de Vasco da Gama ter descoberto o caminho marítimo, ICEP ignora mercado indiano

SE HÁ cinco séculos Portugal ainda dominava o comércio europeu com o subcontinente indiano, hoje prima pela ausência. Enquanto que a maioria das embaixadas europeias em Nova Deli contam com vastas delegações comerciais, o ICEP está a ainda a «equacionar» a abertura de uma representação na Índia.

«A Índia tem um grande potencial, mas não constitui ainda um mercado estratégico», confessou ao EXPRESSO uma fonte do ICEP. A representação dos interesses económicos portugueses no segundo maior país do mundo está entregue a três diplomatas. Não é por isso surpreendente que em 2004, entre os 25 países da UE, Portugal tenha ocupado o 18º lugar no «ranking» de volume de exportações para a Índia.

O mapa de delegações do ICEP parece querer contrariar as estimativas de que em menos de 30 anos a Índia será a terceira maior economia global e que em menos de 20 anos quadruplicará o seu PIB «per capita».

Entre os 42 países do mundo que acolhem representações do ICEP, Nova Deli é a grande ausente. «Se a China está na moda, o mesmo não se poderá dizer da Índia», explica a nossa fonte.

De facto, ao contrário do caso chinês, o comércio bilateral luso-indiano tem estado estagnado. A balança comercial é tradicionalmente deficitária para Portugal.

É por isso mesmo que Eugénio Viassa Monteiro, presidente da Associação de Amizade Portugal-Índia, defende a importância de uma delegação do ICEP. «É preciso acabar com o grande distanciamento psicológico, desfazer clichés e descobrir nichos de mercado, sobretudo nas grandes cidades, como Bombaim, Chenai e Nova Deli», diz.

«Num imenso mercado de 1100 milhões, em grande crescimento, Portugal pode vender muito», refere, criticando a percepção de que a orientação económica portuguesa na Ásia deve ser exclusivamente chinesa. O governo indiano anunciou este mês que a sua economia voltará a crescer cerca de 7% este ano.

Viassa Monteiro sublinha que uma delegação do ICEP «poderia facilitar informação, organizar contactos e dar o apoio credível que um desconhecedor precisa».

A burocracia é apontada como um dos pontos negativos na imagem externa da Índia, sendo precisas dezenas de autorizações e cerca de três meses para fundar uma empresa com capital estrangeiro.

Viassa Monteiro lembra a vantagem comparativa não-explorada do «capital de simpatia e admiração em relação a Portugal», especialmente em Goa, onde o vinho, o azeite ou o artesanato português têm enorme procura, mas são vendidos a preços proibitivos para o poder de compra da classe média indiana estimada em 300 milhões de pessoas.

Já a embaixadora indiana em Lisboa, Latha Reddy, sublinha as crescentes oportunidades que o seu país oferece a capitais portugueses. «O sector energético, a expansão da rede ferroviária e rodoviária e os sectores aeroportuário e portuário irão atrair cerca de 10 a 15 mil milhões de euros/ano em investimentos externos», refere a embaixadora, destacando também a indústria de processamento alimentar e os sectores da tecnologia de informação, joalharia e farmacêutica. «Queremos que as empresas portuguesas façam parte do nosso milagre económico», refere Latha Reddy.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Imagens de Deli: Goa


Mercado semanal de Anjuna, em Goa. Começou nos anos 70, quando os hippies que aqui encontravam refúgio do Ocidente se encontravam semanalmente para venderem e trocarem as suas posses, especialmente os que se preparavam para voltar. Cresceu e é hoje uma das feiras mais frenéticas na Índia, atraindo, por um lado, comerciantes, limpadores de ouvidos e malabaristas de todo o país e, por outro lado, turistas de diversas nacionalidades. Destacam-se os britânicos com a pele coberta por tatuagens e por crostas provocadas por insolação excessiva, sempre de caneca de cerveja na mão. Na praia, de costas para a feira e que se não fossem os turistas já teria sido convertida em retrete geral pelos migrantes domésticos, os mais corajosos lançam-se ao mar e os russos gerem as esplanadas, enquanto que um nigeriano, talvez ex-futebolista, tenta entreter os turistas esquálidos com umas linhas pouco improvisadas e uma batida negra.

Lembro-me que estou na Índia

Quando, ao fim de tarde escuro de uma Sexta-feira, depois de beber um chá na já vazia cantina da faculdade, vejo, de relance, ao sair, na cozinha, os funcionários, homens de meia idade, munidos de paus de vassoura, farinha e copos de água, entretidos em animadas brincadeiras infantis, correndo uns atrás dos outros, às gargalhadas, por entre os tachos e as panelas negras que há poucas horas ainda obrigavam a transbordar ardentemente dal e curry.

sábado, 31 de dezembro de 2005

Keylong

Passamos quase uma semana no vale, deambulando por entre escadinhas que percorrem os casebres fumegantes encostados à colina e que em tempo albergavam caravanas da Ásia Central, da Índia e da China. Nos primeiros dias ainda sentimos o peso dos olhares curiosos por detrás das minúsculas janelas. Encharcados, munidos de meros parcos metros quadrados de plástico para nos cobrir os corpos gelados, habituamo-nos. E ao fim do segundo dia já ninguém olha.

Alguns dias são passados em passeios, enquanto dura a fugaz luz solar e os seus raios aquecedores. Subimos e descemos montes. Até deixarmos de sentir os pés de tanto frio. Por vezes perdemo-nos por entre a espessa neblina, só para nos reencontrarmos com a ajuda do ruído das manadas de vacas a mugirem ou dos rebanhos de cabras e ovelhas a saltitarem sobre a superfície fria e rochosa.

Outros dias não permites qualquer saída. As ruelas permanecem desertas e o nosso quarto aquece. As janelas embaciam-se, mas não notamos a diferença porque lá fora neva incessantemente. Duas ou três vezes ao dia subimos ao restaurante familiar de tons e gostos tibetanos – só para constatarmos que o telefone continua mudo e que o menu vai diminuindo à medida que escasseiam os ingredientes na cozinha. Ouvimos atenciosamente os rumores que nos são traduzidos em inglês rudimentar. A estrada continua cortada em vários sítios ao longo dos 400 quilómetros seguintes. Parece haver dezenas de estrangeiros isolados mil metros acima. Um grupo de ladaquis anuncia a partida a pé para o dia seguinte. Querem chegar a Leh em menos de duas semanas. Não acreditamos, porque há mulheres e crianças entre eles. Mas voltam a confirmar, adicionado um convite. Recusamos educadamente, inseguros se estamos a ser alvos de chacota local ou se devemos redefinir os nossos critérios mínimos de sobrevivência humana. Ao pequeno-almoço da manhã seguinte as suas camas no dormitório estão feitas e a sua bagagem desapareceu.

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Imagens de Deli: Fronteira indo-paquistanesa (Wagah)


Há um ano, ao fim da tarde dirigimo-nos da capital da religião sique (sikh), Amritsar, para a única passagem fronteiriça indo-paquistanesa aberta a trânsito rodoviário e ferroviário. Uma autêntica romaria acompanha-nos, centenas ou mesmo milhares de indianas, ávidos de verem um arrear de bandeira que certamente é dos mais teatralizados no mundo. Todos os dias, ao pôr do sol, os guardas de elites dos dois lados da fronteira ensaiam todo um ritual de passo de ganso acompanhado por ameaçadoras palavras de ordem e marchas militares. Deste lado o indiano, daquele o paquistanês. Mulheres numa bancada, homens noutra. Dos dois lados, bandeiras cortam o ar quente e insultos populares cruzam a linha que é tudo menos imaginada. Ela está ali, para todos verem, demarcada e repintada, reforçada, segura, reconfortante. Eles ali, nós aqui. Para nós os evitarmos a eles aqui e eles nos evitarem a nós ali.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Abu Salem

in EXPRESSO, Edição 1728, 10.12.2005, 1º Caderno

Abu Salem quer voltar a Portugal

A defesa do terrorista indiano extraditado por Portugal luta para o fazer regressar. Diz que está a ser torturado

HÁ um mês, a 11 de Novembro, aterrava em Bombaim um avião proveniente de Lisboa, trazendo Abu Qayoom Ansari, um suposto terrorista, mais conhecido por Abu Salem, e a sua companheira, Monica Bedi, antiga estrela de cinema na Índia. Os dois foram extraditados pela Justiça portuguesa, mas as implicações do complexo processo judicial estão longe de estarem terminadas para Lisboa. «Esperamos poder levar Salem de volta a Portugal», afirmou um dos seus advogados, Ashok Sarogi, ao EXPRESSO.

Sobre Salem recaem mais de 50 acusações, incluindo o envolvimento nos ataques bombistas de radicais islâmicos que em 1993 vitimaram mais de 250 pessoas em Bombaim, o suficiente para poder vir a ser mandado enforcar pela Justiça indiana. Mas disso deverão salvá-lo as condições de extradição impostas por Portugal: não ser condenado à morte nem a pena superior a 25 anos.

Os dois foram detidos pela Polícia Judiciária (PJ), em Setembro de 2002, em pleno Rossio. Tinham chegado a Lisboa em finais de 2001, munidos de seis passaportes indianos e paquistaneses, todos falsos. Casaram com cidadãos portugueses em troca de vários milhares de euros, assim conseguindo autorização de residência, que lhes permitiria obter a desejada nacionalidade portuguesa. Mas um mandado de captura internacional em nome do indiano de 42 anos, enviado pela Interpol à PJ, alterou-lhes os planos. Em Agosto de 2003, o Tribunal da Boa-Hora condenava Salem e Bedi a quatro anos e meio e dois anos de prisão, respectivamente.

Revogar a extradição.

A linha de defesa agora adoptada pela equipa de advogados indianos de Salem, no processo a decorrer em Bombaim, é a de que o acordo de extradição não está a ser honrado. «Ele disse-me que foi torturado pela Divisão Anti-Terrorista (ATS)», afirma Sarogi.

Salem está a ser ouvido por um tribunal criado por uma lei especial antiterrorista (TADA). O seu advogado lembra que, face ao acordo de extradição, «o CBI (polícia de investigação criminal) está a interrogá-lo ilegalmente sobre outros crimes para além dos oito pelos quais Portugal o extraditou». Sarogi pretende, assim, revogar a extradição, prometendo «avançar para os tribunais portugueses para provar que Salem não terá um julgamento justo na Índia». No entanto, o próprio juiz do processo, na semana passada, limitou o número de interrogatórios a Salem e garantiu-lhe livre acesso à Comissão de Direitos do Homem estadual (MHRC). Já Monica Bedi só deverá ser acusada de falsificação de documentos. A imprensa indiana cita-a mesmo, dizendo que «sente falta da prisão em que se encontrava em Portugal (Tires), semelhante a um hotel com várias estrelas».
Respeitar o acordo.

A extradição dos dois acusados obrigou o Governo indiano a investir numa longa batalha legal, que se estima ter custado cerca de 10 milhões de euros e se prolongou por sucessivos recursos no Tribunal Constitucional e no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Salem exigia asilo político, invocando estar em risco a sua vida nas prisões indianas, apinhadas de antigos inimigos seus de redes criminosas com que rivalizava nos anos 90. Praticante muçulmano, Salem dizia também temer ser alvo de discriminação religiosa, num país maioritariamente hindu, e punha em causa a celeridade e imparcialidade da Justiça indiana. Mas as garantias dadas pelas autoridades indianas convenceram Portugal e a UE.

Alguns juristas indianos têm vindo a público questionar a validade do acordo aprovado pelo executivo indiano e admitem a possibilidade de o sistema judicial seguir o seu próprio caminho, eventualmente condenando Salem à morte. Para Madhu Badhuri, a ex-embaixadora indiana em Portugal que tratou do caso até 2003, não há motivos para alarme. Contactada pelo EXPRESSO, em Nova Deli, acredita que o Governo indiano irá respeitar as condições impostas e salienta a «exemplar cooperação por parte do Governo português».

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

domingo, 4 de dezembro de 2005

Expresso

Não tive por hábito ao longo deste último ano e meio publicar aqui os meus escritos do Expresso. Agora abri um precedente, pondo em linhas as minhas primeiras peças radiofónicas. Por isso, na impossibilidade de este novo hábito ter efeitos retroactivos (publiquei perto de 20 peças, incluindo uma extensa reportagem), fica a promessa que passarei a publicar futuros artigos, na íntegra ou, pelo menos, resumidos. Faço isso porque penso que as minhas peças jornalísticas e radiofónicas, embora menos pessoais e mais formais, também fazem parte da minha vida em Deli e da minha (e vossa) descoberta da Índia.

S. Francisco Xavier

Postal (de R. Navelkar) comemorativo da exposição das relíquias do santo em 1984.

E lá foi para o ar a minha segunda peça radiofónica, já um tanto melhor que a primeira, espero. Pelo que me diz o meu amigo Henrique Mateus, passaram também na RFM. Agora tudo parece estar lançado para corresponder para outras temáticas, políticas, culturais, etc. Ficam os apontamentos que me serviram para a notícia de ontem, dia de festa de S. Francisco Xavier em Goa. Podem ouvir as duas notícias no site da RR:
D. José Policarpo em Cochim
Fátima: Dia do Apóstolo do Oriente

«Celebra-se hoje no pequeno estado de Goa o aniversário da morte de S. Francisco Xavier, apóstolo do Oriente. Na antiga capital do Estado da Índia Portuguesa, a Velha Cidade de Goa, reúnem-se hoje milhares de fiéis venerando as relíquias do santo, que se encontram guardadas na enorme Basílica do Bom Jesus.

Depois de falecer na China, na madrugada de 3 de Dezembro de 1552, o corpo de S. Francisco Xavier viria a ser transferido para Goa, a antiga capital do Padroado Português do Oriente. Desde então, há mais de quatro séculos, os cerca de 450 000 católicos goeses prestam grande devoção ao santo, que na língua local, o Concani, é conhecido por Gõycho Saib, o Rei e protector de Goa.

Nos tempos em que S. Francisco Xavier passou pela Índia dizia-se que "Quem viu Goa não precisa de ver Lisboa". A cidade é hoje considerada património mundial da humanidade e é aqui que se realizam durante todo o dia de hoje dezenas de serviços religiosos, sendo a missa principal celebrada pelo Arcebispo de Goa e Damão, Filipe Neri Ferrão.

A devoção pelo co-fundador da Companhia de Jesus não conhece barreiras religiosas nem distâncias geográficas. Chegaram nestes últimos dias a Goa milhares de fiéis de toda a Índia e do estrangeiro, incluindo muitos hindus e muçulmanos, todos procurando a protecção do santo que a par de Santa Teresinha é o Padroeiro das Missões.

A festa deste ano tem ainda especial importância porque prepara as comemorações do 5º Centenário do Nascimento de S. Francisco Xavier, a realizar oficialmente em 2006 em Espanha, em Portugal e em Goa.»


sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Vaipim, Cochim

Apontamentos que me serviram para a produção da minha primeira peça radiofónica, como correspondente da Rádio Renascença na Índia. Foi a 18 de Novembro e foi surpreendentemente difícil. Nunca imaginei que fosse tão complicado falar para a rádio. "Leia mas não dê a entender que está a ler" disse-me a editora... Amanhã (Festa de S. Francisco Xavier em Goa) volto a tentar...

«D. José Policarpo chegou hoje à cidade de Cochim, no sul da Índia, que esteve sob domínio português entre 1500 e 1663. A ocasião é histórica, comemorando-se o fim do processo de renovação e de restauro da Igreja de Nossa Senhora da Esperança e o quarto centenário da sua consagração, em 1505.

A cerimónia contará também com a presença do Embaixador João de Deus Ramos, em nome da Fundação Oriente que financiou a recuperação da igreja, com dois técnicos de restauro especialmente vindos de Portugal. O Bispo da Diocese de Cochim, John Tattumkal e ministros do governo estadual do Kerala representam o lado indiano. D. José celebrará a missa da parte da tarde e irá depois descerrar uma placa comemorativa, marcando a data.

A igreja está localizada numa pequena península a norte de Cochim, a chamada ilha de Vaipim, separando-a da cidade uma pequena baía, onde no século XVI ancoraram os navios de Pedro Álvares de Cabral, Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque.

Cochim, rebaptizada de Ernakulam pelas autoridades, é hoje uma típica cidade indiana, com quase três milhões de habitantes. No seu seio subsiste o centro histórico, com forte influência colonial, portuguesa, holandesa e inglesa. Mas os dois séculos de domínio português deixaram o património mais importante. Para além das belas igrejas, de uma ou outra rua ou estabelecimento comercial com nome português, ou das muralhas portuguesas do seu forte, são os quase 200 000 católicos da Diocese de Cochim a mais forte herança deixada.

As cerca de 50 famílias lusodescendentes na ilha de Vaipim, nas redondezas da Igreja de Nossa Senhora da Esperança, são o testemunho mais vivo da presença histórica portuguesa. Falam num crioulo indo-português que já foi muito estudado por académicos de todo o mundo, mas está mais do que nunca em perigo de extinção.

Originalmente uma comunidade piscatória, os habitantes do bairro de Vaipim têm grande devoção a Nossa Senhora da Esperança, cuja estátua é ladeada no altar da igreja pelas figuras de S. Domingos, S. José, S. Francisco de Assis e Sto. Agostinho. Em estilo maneirista, o altar é do século XVI e estava inicialmente em Cochim. Com a conquista holandesa do forte e a expulsão dos portugueses, os crentes transferiram-no para a ilha de Vaipim, onde foi colocado na Igreja da Esperança, resistindo aos novos tempos protestantes, primeiro com holandeses, depois com ingleses.

Entre os habitantes de Vaipim predominam nomes portugueses como Luís, Joaquim, Domingos ou Rosário e em dias de festa entoam-se orações e cânticos marianos num português antigo mas quase perfeito. É na gastronomia que mais se faz sentir ainda a língua portuguesa, lembrando os mais velhos ao correspondente da Rádio Renascença, ainda em Março deste ano, as várias formas de preparar cozinhados. Temperado, cozido, secado, assado, enumeram, para depois saltarem logo para as sobremesas como o "figo doce" ou o "bôl coco".

E não deixam de apelar a mais apoios de Portugal para que possam manter este património vivo, sendo que os mais novos já pouco sabem do crioulo e desconhecem o passado português. A vinda de D. José é assim um grande motivo de festa para a Diocese local, mas em especial para a comunidade de Vaipim.»

terça-feira, 29 de novembro de 2005

Lembro-me que estou na Índia

Rompe-se, no meio do campus, o cabo de mudanças da minha mota. Estou rodeado de residências, vegetação densa, alguns mini-mercados, departamentos e um ou outro babuíno. Como consertar? Ainda vou a abrandar, já um estudante veterano se aproxima de mim. A poucos metros começa a falar. Demostra já ter identificado o problema mecânico porque me indica prontamente a oficina mais próxima, saindo do campus, 500 metros à direita. "Oficinas de mota" aqui quer dizer "especialistas" acocorados à beira da avenida. Mas não chego lá. Ao tricentésimo metro, conduzindo o meu veículo com muita peripécia pela avenida poeirenta, alguém me puxa pelo braço. Viro-me e um sujeito assobia e indica-me para parar, apontando para o passeio coberto de manchas de óleo. Não tenho tempo sequer para esboçar uma reacção, uma pergunta ou uma resistência. Enquanto ainda balbucio as minhas primeiras palavras, sai dos arbustos um homem com as mãos muito negras e com uma caixinha de ferramentas, deita a minha mota gentilmente no passeio e põe as suas mãos à obra. 45 segundos depois está tudo resolvido, em troca de 45 cêntimos e um apertar de mãos agradecido.

segunda-feira, 28 de novembro de 2005

Imagens de Deli: Gudu & Ruby


Uma foto do ano passado, no outono. Gudu e Ruby, filhos da nossa empregada de limpeza Sayida. Ele com 14 e ela com 11. Quando em Agosto nos ajudaram a limpar a casa, Sayida, um pouco envergonhada, aproximou-se de mim com um respeitoso "Master-Ji" e indicou-me que gostaria que lhes desse umas explicações.

Assim, durante um ano, vinham ter comigo ao fim da tarde, para lhes ensinar a escrever e ler os caracteres romanos e a falar um inglês básico. Nos dias de calor, ao fim da tarde, depois do sol se pôr, sentávamo-nos à volta da messa no nosso terraço. Nos dias de frio, antecedíamos a aula e tentávamos apanhar os últimos raios quentes de sol pelas 16:00, ou refugiávamo-nos no meu quarto aquecido.

Gudu e Ruby eram muito divertidos. As aulas também. Eu a aprender Hindi e eles o Inglês. Riam-se muito de mim. Como eu não cobrava pelas aulas eles sempre que eu tivesse um problema vinham-me socorrer. Gudu foi perito a montar as ratoeiras (que no entanto nunca tiveram sucesso), inisistia em lavar-me a mota e a Ruby de vez em quando lavava a loiça ou entregava-me - corada - um desenho.

Foram aprendendo. Depois de alguns meses já eram capazes de manter uma conversa básica, de ler e escrever em caracteres romanos. Mas, depois de um ano, ao voltar de Portugal, a Sayida anunciou-me que não era possível mantê-los na escola. O Gudu passou a ajudante de mecânico. A Ruby vai ajudando a mãe nas tarefas de limpeza. Não os vejo há meses.

Há algumas semanas que dou um pequeno curso prático em que dou aos alunos de língua portuguesa umas perspectivas sobre a vida em Portugal, cultura, sociedade, economia etc. e lhes dou pequenas lições práticas (como preencher cnadidaturas a bolsa, como ter uma conversa formal por telefone, como escrever um currículo em português etc.). São já abegões, estudantes de licenciatura e mestrado. Não é a mesma coisa. Sinto falta do Gudu e da Ruby.

Imagens de Deli

Porque não param de me chatear, inicio uma série "Imagens de Deli" em que partilho fotos minhas com alguns comentários. Pode não ser muito regular. Prefiro apostar na escrita. Para ver mais terão que cá vir.

Lembro-me que estou na Índia

Ontem, ao meio da tarde, num restaurante de fast-food (Yo China!), numa zona comercial upper-class, ao sentar-me, e ver ao meu lado, numa mesa comprida, umas 15 ou 20 mulheres de meia-idade, imaculadamente maquilhadas e vestidas com saris, punjabis e demais vestimentas tradicionais, sentadas a jogarem uma espécie de loto ou bingo que dantes só tinha visto na mesa de café da minha avó na Alemanha (e nas mesas de outras avós alemãs), trocando gananciosamente e ao mesmo tempo ociosamente pequenas notas de dinheiro, enquanto que nem abelhas os empregados à volta lhes vão servindo gordurosas entradas e iguarias supostamente chinesas, respondendo elas com arrotos ocasionais e telefonemas a dar indicações aos empregados em casa, e enquanto nos televisores circundantes passa wrestling americano TNA onde o Sonjay Dutt esmaga o Johnny Fairplay.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Sexualidade na Índia

De há uma década para cá o sector audiovisual foi liberalizado na Índia e proliferam os canais. Mostra-se o wrestling americano, o último Senhor dos Anéis, a BBC e até canais russos. O domínio do magnata Murdoch e da sua rede STAR é impressionante. Mas dois condicionamentos limitam esta oferta televisiva.

O primeiro é que um comité de cariz censurador visiona todos os filmes e corta a seu bel-prazer qualquer beijo, qualquer palavrão ou qualquer cena violenta e erótica que possa ser mais chocante. É portanto refrescante poder ver anunciados de manhã ao tomar pequeno-almoço o último Kill Bill na HBO, só para depois à noite desistir do filme a meio porque metade das cenas violentas foram recortadas.

O segundo condicionamento (se é que lhe podemos chamar assim) é a falta de sexo, erotismo e quiçá pornografia na televisão indiana. Simplesmente inexistente. Entre os quase 100 canais cabo que se assinam por 3 Euros ao mês, só há um que transmite filmes soft-eróticos, anglófono, com sinal muito fraco, que misteriosamente aparece num ou outro mês, de madrugada, para desaparecer depois durante mais outros meses. Não há dúvida portanto que um dos maiores negócios por esta banda seja a pornografia pirateada em DVD's e CD Roms.

Nos mercados basta tossir e aparecem logo do nada uma meia dúzia de senhores com aspecto circunspecto e filmes na mão. Incluindo todo um sector que trafica MMS e demais vídeos amadores que escaparam à privacidade dos lares e das escolas (sim, do que mais se fala nos jornais é quando escapa para o espaço público e comercial um desses clips de fraca pixelização demonstrando vagamente dois estudantes num acto sexual – faz as delícias da população masculina que tem uma espécie de Big Brother no seu telemóvel).

Voltando à televisão, voltemos também aqui ao campus. O meu amigo francês, que viveu numa residência durante um ano conta-me o que é que substitui o Canal 18 por aqui. Pela meia-noite, em certos dias do mês, os estudantes, a maioria pós-graduandos e portanto acima dos 21 anos de idade, encontram-se na sala de convívio da residência onde há o único televisor público. Logo que as coisas acalmem, alguém, por acaso, sintoniza a abençoada Fashion TV, que por essa hora dá uns clips de modelos em biquini. Deliciados com as belezas ocidentais, são depois por vezes apanhados desprevenidos por um dos seguranças/guardas da residência que se acha no direito de interromper e censurar tal "decadência" e irrompe pela sala aos berros, ameaçando "denunciar à reitoria". Mas os estudantes têm os seus mecanismos de defesa. Está sempre um perto do interruptor da luz e imediatamente a sala fica envolta de escuridão, possibilitando que os jovens se cubram de camisolas ou mantas (no inverno) protegendo a sua identidade e fujam rapidamente para o seio dos seus quartos.

Não resisto a contar mais uma. Nas mesmas residências, aos Domingos, há um grupo de estudantes que se encontra sempre num determinado quarto, que nem uma seita secreta. O líder senta-se então na única cadeira do quarto e saca de um pequeno romance (não-iulstrado) erótico, daquelas porno-chanchadas literárias que hoje em dias talvez seja do que mais lêem as velhinhas alfacinhas. Em voz alta vai lendo e à sua volta todos se sentam e ouvem com atenção. A porta, claro, está fechada por dentro com um cadeado e as cortinas corridas, protegendo-os da moralidade pública.

Como sabem, na Índia tudo é verdade, e o oposto também. Há uma Índia que vocês (e em certa medida eu também) nem imaginam, uma Índia que vai mais à frente de qualquer outro suposto Portugal cosmopolita. Em Bombaim as orgias sexuais globais são regulares, e não me surpreenderia se a indústria erótica e pornográfica indiana (filmes per capita) fosse bem maior que a portuguesa. Há toda uma sexualidade que escapa ao tradicional entendimento ocidental e à superficial análise da sociedade indiana. Mas estes episódios narrados fazem parte da realidade e assim permitem-vos pelo menos conhecer um dos extremos. Haverá mais, porque afinal a Índia, ao contrário da Europa, é feita de sexualidade.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Lembro-me que estou na Índia

Ao ver, ontem, passar por mim, no meio da avenida, na capital, entre o rebuliço das pessoas, dos feirantes, das vacas, em frente a uma loja da Nokia e ao lado dos menores pedintes, coberto de pó, com o cabelo a escorrer-lhe pelas costas, de bengala na mão esquerda, com pinturas coloridas na testa larga, a barba roçando os mamilos, um homem santo (sadhu). Nu.

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

Higiene na Índia

Hesito. Entre a ideia de que as coisas na Índia nem são assim tão más e que a higiene e o valor da limpeza é em grande medida construído e altamente subjectivo dependendo do país e da civilização em que nos encontramos. E entre a ideia de que a Índia é verdadeiramente um país higienicamente insustentável, em qualquer termo e perante qualquer caso comparativo. Neste escrito vou explorar esta segunda ideia.

Se nos meses iniciais me inclinei mais para a primeira ideia, passei recentemente a estar mais e mais refém da segunda. Vejamos que bicharada e que experiências me fizeram mudar. No ano passado, a já conhecida experiência símia, acordando num dia de verão com um macaco sentado na minha cama a afagar-me a cabeça. Há uns poucos meses, estava eu pacatamente a escrever aqui ao computador, descalço, claro, um ratinho mordiscou-me o dedo grande do pé direito. Fugiu antes que o pudesse esmagar. E foi sobrevivendo durante semanas no nosso apartamento, movimentando-se na penumbra da noite e escapando a todas as armadilhas e venenos que nos foram recomendados "guaranteed result, sir" no popular mercado aqui ao lado. Á noite, adormecia com o seu ranger de dentes, quando se decidia refugiar no meu quarto. À média de uma vez por semana algum de nós avistava-o, cada vez mais gordo. Ainda me lembro dos gritos estridentes da namorada maurícia do meu amigo francês, quando esta abriu o armário da cozinha e se deparou com uma já obesa ratazana petiscando arroz basmati e corn-flakes kellog's. Finalmente, à quinta semana, desapareceu e nunca mais vimos o bicho.

Mas há mais. No campus. É raro ir lá beber um chá e não ver uma ratazana a passear pelas residências ou pelas esplanadas. Cheguei a ver uma, tão grande, que fiquei a duvidar por dois segundos se era um gato gordo. Ao terceiro segundo comecei a acelerar o passo. Ontem à noite, mas uma vez, foi a vez de um ratinho entrar na cozinha do restaurante tibetano onde comia um bom "roasted lamb chillie" que passou logo a intragável, indo refugir o meu apetite em perigo de extinção num pacote de Lay's. Foi de qualquer maneira melhor do que há dois meses, quando me serviram no mesmo restaurante um "chicken hakka noodles" com uma barata em cima, maior que muitos ratinhos ocidentais.

Vamos lá continuar. Na semana passada o meu flat-mate moçambicano estava com a namorada no mercado à procura daquelas folhas da couve para fazer um bom caldo verde à portuguesa. Entraram numa loja mas só havia mesmo couves sem a folhagem lateral. O lojista, no entanto, pediu para esperarem para ver se encontrava o que pretendiam. Impacientes os meus amigos deixam a loja e deparam-se com um dos assistentes da loja a vasculhar no lixo, ao lado de cães, ratos e gatos, seleccionando as folhas verdes pretendidas. Estendeu-as normalmente e disse "here, I found for you" com um sorriso tímido mas orgulhoso.

Se já no Ocidente reina a máxima que em restaurante chinês é melhor não entrar na cozinha, imaginem aqui. Conheço um cozinheiro tailandês num hotel de cinco estrelas, de topo, que me conta as mais assombrosas histórias que se passam com os seus assistentes nas suas cozinhas e a frustração que sente por ser incapaz de lhes incutir o mínimo sentido de higiene. Voltemos aqui ao campus. Na Avenida de Berna, numa das faculdades da Universidade Nova de Lisboa, já é normal haver um dia por ano em que os estudantes são encaminhados directamente da cantina para o hospital, por terem comido algum arroz doce ou iscas à portuguesa pouco recomendáveis. Mais uma vez, imaginem aqui. São poucos os estudantes que ainda não sofreram de "food posining" nas cantinas das residências. Numa das cantinas principais, quando escolhemos em grupo o que vamos jantar, olhamos para o menu e cada um vai partilhando com os outros os perigos de um ou outro item, recaindo a escolha por fim nos pratos menos suspeitos e com menos historial de gastrenterite. Em muitos locais do campus cheira-se continuamente o odor de substâncias vomitadas. É normal alunos faltarem às aulas por indigestão, tal como talvez em Lisboa, nos frios meses de Dezembro e Janeiro, ser normal faltar por constipação ou gripe.

Vamos falar de coisas mais ligeiras. Os indianos comem com as mãos. Mais especificamente a mão direita, somente, estando a esquerda reservada para lavar as partes íntimas depois de defecarem. O problema é que nem sempre lavam as mãos depois de saírem das sujas casas-de-banho, e antes ou depois de comerem. E mesmo que lavem, as longas unhas resistem e por debaixo delas o caril cheio de especiarias e saliva. E tudo é transmitido, de mão em mão. O mesmo perigo de transmissão aplica-se ao cuspir. Por toda a Índia a noz de bétel é muito apreciada e mastigada em grandes quantidades, formando uma pasta avermelhada na boca que depois é cuspida, especialmente em esquinas e escadarias de prédios. Alguns donos ou autoridades inscrevem a letras garrafais encarnadas "DO NOT SPIT PLEASE" mas estas vão desaparecendo rapidamente, à medida que o cuspo vermelho cobre a parede. E o ranho. Esse contribui igualmente. Por todo o lado aspira-se o ranho – como que num aspirar das próprias entranhas – levando a mão o nariz, expirando-o para a palma e atirando-o para o chão. Há versões mais directas, deixando a mucosa fluir directamente do nariz para a superfície.

Não me vou alongar sobre a higiene sexual, cujos hábitos me são ainda em larga medida estranhos neste país. Mas pelas conversas mantidas com colegas, pelo que leio em jornais e publicações diversas, não auguro nada de bom. Talvez baste sublinhar o facto que li numa revista de medicina, relativo à alta percentagem de transmissão de doenças pela via sexual/oral na Índia: pretendendo manter a tão cobiçada virgindade até ao casamento, os jovens limitam-se muitas vezes a praticar sexo oral, ignorando no entanto as paupérrimas condições higiénicas dos seus dentes e da boca em geral, levando à propagação de graves doenças sexualmente transmissíveis. Neste contexto, lembro-me também de visitar o parque de camiões inter-estaduais aqui em Nova Deli, quando preparava uma reportagem sobre a transmissão do vírus da sida na Índia. Os camionistas, enquanto esperam a carga, ficam dias, longe das esposas, em tremenda ociosidade, rodeados de centenas de prostitutas. O espaço não se distingue muito de uma lixeira a céu aberto. Proliferam os preservativos usados deitados no alcatrão.

Finalmente, o urinar e o defecar. Sinceramente, não me lembro de muitos dias em que, percorrendo os 200 metros que separam o meu prédio da entrada principal da universidade, não tenha visto pelo menos um menino, um rapaz ou um homem a urinar na margem da rua. Lembro que vivo numa das zonas urbanas mais desenvolvidas da Índia, na conhecida "South Delhi" com a sua emergente classe média urbana, e que a maior "favela" da Ásia, em Bombaim, ainda fica bem longe daqui. O mesmo aplica-se à defecação. Nas viagens de autocarro e de comboio, as histórias a contar a este respeito são intermináveis. Por todo o lado amontoam-se as fezes, no centro das cidades, por detrás da farmácia, na periferia das aldeias – como um campo de minas, ao lado do hospital, à margem da estrada nacional, no corredor do comboio, na bagageira do autocarro. Aliás, nunca cometam o erro de procurar as casas de banho públicas para procederem a semelhante acto na Índia. Tudo menos isso, em nome da vossa sanidade física... e mental.

Acho que fica feito um panorama das condições de higiene na Índia. Polémico, certamente. Mas real. Há no entanto que sublinhar "o outro lado da história" e injectar esta análise com um "relativismo" que poderá desculpar, justificar e explicar algumas coisas. E, complementarmente, há que apresentar explicações – sempre diferente de justificações. Farei isso num outro escrito.

sábado, 29 de outubro de 2005

Siddarth Singh again

Poucos dias depois voltei a ser multado por Siddarth. Num cruzamento surrealista que se apresenta como um claro atentado a qualquer lógica, rodoviária ou matemática, passei um sinal vermelho. Faço-o sempre que não haja carros em direcção contrária, limitando-me a assimilar os hábitos de condução local.

Mas nesse dias apercebi-me que o meu problema é não ter assimilado outras capacidades locais, como por exemplo a apurada sonda policial. Por isso, quando já ia rapidamente lançado na minha LML, surge por debaixo de uma mangueira, à beira da estrada, Siddarth e o seu superior. Coloca-se no meio da avenida e manda-me parar, não me reconhecendo porque uso capacete.

Quando o retiro vejo Siddarth esboçar uma leve reacção facial de surpresa, mas como que instintivamente, seguindo ainda zelosamente o que aprendeu na escola policial, saca do bloco de autuações. Pergunta-me se estava consciente da infracção – limito-me a registar que não tinha visto e que iria parar certamente da próxima vez. Enquanto preenche o formulário vamos conversando animadamente.

Ao abrir a minha carteira para lhe pagar as 100 Rupias devidas, comenta alguma coisa que não compreendo. Já domesticado, e um pouco desiludido, penso logo que me está a pedir o baksheesh, e que é um oficial tão corrupto como todos os outros e que a minha consideração para com ele era injusta. Peço-lhe para repetir. "Can you show me Euro coins next time we meet? I want to see".

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Siddarth Singh

Siddarth, no seu uniforme azul e branco, acena desajeitadamente com a mão. Ainda tento guinar para a direita e escapar-me por detrás de um rick-shaw e para o meio de uma manada de vacas que vem em sentido contrário. Mas, surge então mesmo um segundo vulto por detrás de Siddarth, com uma pose mais respeitável, com mais umas listas douradas no ombro e com um aceno bem mais intimidatório.

Abrando, viro à esquerda com a maior das naturalidades e olho-os aos dois nos olhos. Nenhum de nós tem capacete. A mota comprei-a em segunda mão a um estudante amigo. Os documentos ainda estão em nome dele. Não tenho seguradora. Tenho uma carta de condução internacional, mas só para categoria de veículos ligeiros. E, de toda esta pouca coisa que tenho para me apresentar aos dois que me olham com olhar inquiridor, nada possuo comigo naquele momento. Vamos ver no que isto dá, digo para comigo calmamente.

Siddarth, que nem aprendiz, pergunta-me em Hindi por alguma coisa. Eu sei o que é alguma coisa. Mas como o barulhento motor ainda está ligado, fingo não perceber. Siddarth faz-me sinal para o desligar. Desligo e mando-o repetir. Siddarth repete. No meu rude Hindi, digo-lhe que não falo Hindi. Com isto passaram-se alguns quinze segundos. O suficiente para o chefe de Siddarth se começar a desinteressar de mim e voltar a olhar para a estrada à caça de novo peixe. Está ganha a primeira batalha.

Siddarth vê-se um pouco aflito. As suas bochechas redondas e os seus olhos curiosamente amáveis não lhe permitem desempenhar a sua função autoritária e policial, parece-me. Enfardado num branco que se aproxima perigosamente do cinzento, Siddarth mais parece um daqueles meninos mimados do secundário que saem da escola a correr, pelo caminho empoeirado, em direcção aos balofos braços da mãe e aos rotis e aos lassis.

Mas Siddarth é capaz de muito mais que os seus restantes colegas. Siddarth tem uma capacidade extraordinária que o distingue dos demais milhares de efectivos da Delhi Police que diariamente extorquiam milhares de Euros aos cidadãos delienses. Muda para inglês, que domina surpreendentemente bem, e faz-me umas poucas perguntas para me enquadrar melhor e sondar a melhor maneira de me abordar. Respondo às perguntas de ocupação, morada, nacionalidade, paternidade e breve linha genealógica, nesta ordem, tudo em menos de dois minutos, num tom confidente e respeitoso.

Então, ao terceiro minuto da conversa, Siddarth começa a enumerar pedagogicamente todas as contra-ordenações que cometi. Com ajuda de uma caneta, aponta para uma lista em que são indicados os valores de multa. E, vai apontando e somando todas as que se me aplicam. Que nem aluno atencioso, ainda encostado à mota, assisto silenciosamente. Tanto ele como eu sabemos já como tudo vai acabar. Tanto eu como ele estamos já em sintonia.

Siddarth puxa então uma linha no seu bloco de notas, e chega ao valor total de 6000 Rupias, totalizando vários salários mínimos mensais indianos. Olha para mim, respira, e inicia a segunda fase. Explica pacientemente, ponto por ponto, porque é que devo seguir as regras de tráfego, usar capacete, ter os documentos comigo, ter uma seguradora. Recorre a exemplos e hipóteses. Depois, com um risco todo-poderoso que só uma caneta policial poderia executar, anula todos os valores menos a multa por falta de um capacete. 100 Rupias.

Depois de formalmente me perguntar se quero ir a tribunal amanhã de manhã ou pagar já, preenche o formulário e vai fazendo algumas perguntas mais pessoais para tal. Pago e inicia-se uma conversa amigável, sobre o futebol em Portugal (confessa-se grande adepto de "Figo, Ronaldo e os outros") e sobre a queda de qualidade da equipa nacional indiana de hóquei em campo. Já passam vinte minutos, quando, ainda em amena conversa, Siddarth é chamado pelo seu chefe para tratar de mais um caso. Abandona-nos com um forte aperto de mão e um curioso "hope to see you again soon". Já em andamento, vira-se e aponta sorridente o seu dedo contra a cabeça: "and don't forget, a helmet can save your life!".

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Keylong (3)

Não sairíamos do vale antes do quinto dia. Depois de voltarmos ao Mentokling e pormos o sono em dia aventuramo-nos com os outros cinco estrangeiros pela aldeia, seguindo pela estrada. Poucas centenas de metros depois, apercebemo-nos da gravidade da situação. O que nesta altura veranesca do ano ano deveria ser um pequeno riacho tinha-se transformado num imponente rio. Nos cem metros seguintes que conseguimos avistar a estrada estava cortada por pesados desabamentos e rochedos do tamanho de pequenos camiões.

Estávamos ainda numa zona habitada. A aldeia é capital de distrito. Apercebemo-nos logo que nas regiões mais remotas e altas que a estrada atravessa a caminho de Leh a situação devia ser muito pior. Ao fim da tarde, aconchegados no restaurante e a bebericar chá, recebemos a confirmação do dono. Várias dezenas de estrangeiros encontram-se isolados a 4000 e mais metros de altitude, nos passes cobertos de tempestades de neve. Estamos bem, afinal. Mas a chuva continua, ocasionalmente cai neve. O vale coberto de espessa neblina. Ao segundo dia nem é possível sair do edifício. Deixa de haver água corrente e electricidade na manhã do terceiro dia. Não há ligação possível com o exterior – os telefones estão mudos e os telemóveis não têm rede.

Os aldeões já nos conhecem. Quando deixa de nevar e chove um pouco menos vagueamos pelas ruas semi-desertas. Ao terceiro dia, lembro-me que é o aniversário do meu afilhado, em Goa. Sem nada que fazer, tento a minha sorte no edifício do District Collector, o mais alto funcionário governamental na aldeia, porque nem a polícia tem telefone por satélite. Dizem-me que não há comunicação possível por telefone nos próximos dias, só mesmo enviando um telegrama.

Acho a sugestão um pouco estranha, mas tomo a iniciativa e dirijo-me à estação de telegrafia. O processo de envio demora mais de duas horas, tudo para "HAPPY BIRTHDAY CARL. YOUR PADRINHO, FROM KEYLONG, LADAKH". Já a sair, lembro-me de perguntar, só mesmo para confirmar, auando é que chega. O funcionário, envolto de mantas e já um pouco chateado, responde-me num tom seco: "When the phone lines work again".

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Keylong (2)

Decidimo-nos por um alojamento logo na rua principal, num pequeno restaurante chamado Mentokling que no piso inferior tem uns quartos limpos com casa de banho privativa e água quente. Estamos com o chinês e tentamos negociar. O dono, visivelmente tibetano, parece não estar a gostar muito das pancadinhas amigáveis nas costas do sino sorridente. "Come on, why not 150 Rupees? No difference for you, 50 Rupees. We are students, great difference for us". Talvez por se lembrar da caneta vermelha de que tinha sido alvo há poucas horas e talvez por se lembrar que não é por acaso que o Dalai Lama está exilado na Índia, o chinês interrompe o contacto físico, mas não deixa de insistir.

Quando começa a encerrar os quartos que nos tinham sido dados a ver como amostra, cedemos. E vale a pena. O nosso quarto está virado para sul, para o enorme vale verde que sustenta 5000 metros cobertos de rocha e neve. De dois lados abrem-se grandes janelas com generosas vistas. Há água quente para tomar banho.

Subimos ao fim da tarde para jantar, quando começa a escurecer. O restaurante não é mais do que a sala de estar da numerosa família do dono. Os filhotes correm por entre as cadeiras. Entram aldeões, bebem um chá quente e conversam. Logo por detrás das mesas, há um espaço mais quente, com fogão a lenha, o dormitório em que há uma dezena de confortáveis camas e muitos viajantes autóctones. A mulher e o filho do dono servem-nos comida caseira, uma sopa bem quente que nos prepara para o sono.

Choveria toda a noite. Um verdadeiro dilúvio, em nada comparável ao que jamais tínhamos visto. Durante toda a noite, a água não cessa de cair. Em plena escuridão, e acompanhado do som das grossas gotas caindo no telhado, vestimo-nos, pomos a mochila às costas, cruzamos o dormitório silencioso e saímos à rua. São quatro e meia da manhã. Reina a escuridão e a chuva.

Abrigamo-nos no único local que dá sinal de vida. Uma pequena dhaba, um cafézinho que nada mais é do que uma barraca e um homem que faz chá quente para os viajantes de passagem pela aldeia e que geralmente só aqui param o jeep por pouco minutos. Serve-nos um chá quente. Aparece o chinês. Passa-se o tempo e não há autocarro à vista. A rua, escura e molhada, só nos traz uns poucos viajantes indianos, um casal francês e um inglês, todos ignorando o destino do nosso meio de transporte. Não há sinal dos ladaquis ou de qualquer outro nativo. Não passa um único veículo.

Ao fim de uma hora e meia, por entre rumores e dificuldades de comunicação com os locais, apercebemo-nos daquilo que para os ladaquis tinha sido óbvio desde ontem de manhã. A Manali-Leh Highway encontra-se bloqueada. A chuva provocou uma avalanche ou desabamento e há que aguardar o piquete de emergência liderado pelo Exército indiano, responsável pela manutenção dos 500 quilómetros de estrada. Talvez ao fim da manhã, diz-nos o motorista indiano. Pelo canto do olho, vejo um aldeão esboçar um sorriso lacónico.

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Telefonemas

Há um lugar aqui perto, em Priya. É uma zona em que se situam as lojas melhores, o McDonalds, um cinema etc. Entre os vários estabelecimentos há um cibercafé que também oferece ligações telefónicas internacionais a preços muito competitivos. Tipo "Call US / UK at Rps. 2 per minute". Chama-se Sify e prima pelo vermelho berrante dos seus painéis publicitários.

Obviamente, estando na Índia, este é um local que atrai todo o tipo de estrangeiros. É isso que torna aquele espaço de poucos metros quadrados fascinante, reflectindo uma impressionante diversidade em termos culturais, económicos e sociais. Aqui cruza-se um emaranhado de indivíduos temporariamente exilados na Índia e que quer comunicar com as suas origens.

Muitos dos quais são os meus colegas na JNU, o que já por si mesmo representa uma enorme diversidade que inclui uzbeques, coreanos, etíopes e demais estudantes internacionais. São pobrezinhos, coitados, que a bolsa indiana não dá para muito. E geralmente também são enviados pelos pais para estudar como bolseiros no estrangeiro porque não há possibilidade de os sustentar no próprio país. Deslocam-se por vezes em pequenos grupos ou comitivas nacionais. Assim, há dias em que encontro lá quase toda a comunidade tailandesa. As conversas são curtas – por óbvios constrangimentos económicos – mas extremamente emocionais. Muitas vezes é a única vez no mês que comunicam com os pais, com as namoradas e namorados ou mesmo com os maridos e filhos. Já assisti a muito chorar e soluçar.

Depois há as enormes comunidades africanas, legais e ilegais, que trabalham na Índia (ainda não percebi bem em que ramo, mas há muitos que são apanhados pela polícia por burla e fraude). Destacam-se os nigerianos. Há um campo de futebol perto de minha casa onde todos os dias se encontram pelo menos 30 para jogarem. Primam pelo estilo e parece que têm feito daquele cibercafé um ponto de encontro. Hoje até vi um deles apertar o nariz do dono do cibercafé, no que, mais do que uma demonstração de carinho, me pareceu uma clara demonstração de força e autoridade. Não me surpreenderia saber um dia que aquilo se tornou na segunda embaixada nigeriana. Os africanos mantém diversos tipos de conversações telefónicas. Há as ruidosas que fazem tremer o edifício todo e há as silenciosas em que provavelmente se acorda uma separação emocional.

Há também os empresários estrangeiros, geralmente brancos, que de passagem que ficam alojados num dos bom hoteis que há nas redondezas. Como não chegam a ser mesmo ricos, mas mais pequenos negociantes forretas à procura de uma fortuna à custa dos emergentes indianos, recorrem muitas vezes a estas ligações mais baratas – certamente também porque os hoteis devem cobrar somas astronómicas.

Finalmente, há os diplomatas. Talvez também para poupar dinheiro, talvez para fugir ao controle paternal ou marital, recorrem a este serviço. Saem dos seus luxuosos carros com matrícula azul CD e entram para os pequenos cubículos telefónicos para ligarem para os mais diversos países imagináveis e conversar sobre as mais diferentes coisas imagináveis. Depois, saem, pagam com notas grandes sem tempo para coligir o troco e desaparecem na carroça.

Em todos os casos, assisti já a muitos episódios originais. Como os cubículos são transparentes e pouco insonorizados, ouve-se bem o que as pessoas falam e percebe-se quando é em inglês. Assim, há momentos constrangedores. Há uns dias assisti a um senhor branco de meia idade que discutiu durante mais de uma hora (eu estava à espera de uma amiga) com alguém. Às vezes acalmava-se, depois agitava-se e insultava a pessoa em inglês bem audível. Dizia coisas como "I took care of you for so long and now you do this to me?", "ok I have to go now, I don't have patience any more, you're a sick person" e "why don't you trust me, why can't you just wait?" etc.

Hoje foi a vez de um jovem repetir uma dezena de vezes, aos berros, "Who are you with? Tell me now, or you'll see! Who are you with, I heard someone. Who is this someone?". Entre outros, também oiço filhos a pedir mais dinheiro aos pais, declarações de amor, declarações de ódio, pedidos de demissão, pedidos de desculpa e tantas mais coisas que se discutem ao telefone quando se está longe, muito longe, de casa.