quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Óscar indiano?

Depois do alarido de "Lagaan", filme que chegou a ser nomeado em 2001 para os Óscares da Academia, agora é a vez de "Rang de Basanti". Ou melhor, poderá vir a ser a vez de, porque foi nomeado pelos indianos para uma nomeação.

O filme foca de forma soberba a transformação e os dilemas geracionais da Índia: tradição e modernidade, casta e classe, nação e mundo. A estrela Aamir Khan desempenha um papel excelente. O director, Om Prakash Mehra, rompe com o enredo clássico de Bollywood ao ponto de instigar directamente contra as autoridades estatais e premiar a audiência com um final... nada feliz.

Altamente recomendável para quem queira conhecer um pouco da Índia de hoje, dos jovens urbanos e da nova classe média que tantos arrepios está a provocar a Ocidente. Há dinheiro, há motas, há muito alcóol, há desinteresse pela história, mas há também conflitos de casta, de ideologia e de religião. Acima de tudo, no fim, há revolução.

3 comentários:

  1. Anónimo9:42 a.m.

    Passaste-te. O filme é engraçado mas daí a soberbo vai uma grande distância. O tratamento dos "dilemas geracionais" é grosseiro e só se destaca porque estes dilemas estão ausentes do cinema indiano. E o final é patético. Para mim, evidentemente.

    Quanto à fiabilidade da representação dos jovens classe média de hoje, saberás melhor porque lidas mais com eles mas a mim parece-me estar tão perto do jovem classe média indiano standard quanto os filmes de James Dean estavam do jovem classe média americano dos anos 50 standard: são visões idealizadas que acabam por não retratar verdadeiramente os jovens, antes representando os seus modelos ideais.

    Namaste

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  2. Sérgio,

    de facto... passei-me: o filme rompe claramente com tudo o que é clássico e tradicional no Bollywood de hoje. Mas, ok, modero o meu "soberbo", porque, se considerado a nível mundial (como tu o fazes), Rang de Basanti não chega aos calcanhares nem de um filme B francês.

    Vejamos onde é que o filme rompe com ideais pré-estabelecidos:

    - amizade entre jovens de castas e religiões diferentes (não tão raro assim, mas bem problematizado aqui)

    - autocrítica: é uma jovem inglesa que vem "educar" e "consciencializar" os jovens indianos para a sua própria história (onde é que se já viu isto, num país que condena o seu PM por dar um discurso "submissivo" em Oxford?)

    - debate: Bhagat Singh, das figuras mais polémicas e debatidas na Índia, é foco de tensão no filme também; nunca dantes tinha visto isto. O único lugar em que se discute Bhagat Singh é nos comboios e nas universidades, mas nunca entra na comunicação social/discurso oficial)

    - cisão/união: nunca dantes, uma aproximação tão aberta à clivagem Índia socialista/Índia nacionalista(para o pôr de forma simplista): um dos jovens encarna de forma superior o segundo sentimento (tipo Hindutva) e o director apresenta-o de forma racional e desapaixonada, como um ponto de vista legítimo: uma raridade na Bollywood e nas artes indianas indianas normalmente obcecadas pelo "polticamente correcto" e entretidas em marginalizar o ponto de vista "nacionalista" (Proud to be an Indian/Viva Chandra Bhose).

    - revolução: claro que idealizado, mas não menos simbólico (afinal, estamos no domínio das artes!). Jovens assassinam o ministro da Defesa! Crítica directa às Forças Armadas por vitimizar os seus jovens quadros nos "caixões voadores" - caças russos a cairem de podre. Onde é que já se viu isto? Tomada de estação de rádio, rebeldia total, jorra sangue. Por mais patética que seja a filmagem e o objectivo (a revolução dos "jovens" em simultâneo por toda a Índia, via novas tecnologias - leia-se SMS), é tremendamente simbólico e um balão de ar fresco para a sociedade civil indiana.

    - novas tecnologias: temos que nos libertar do "mas". A Índia cresce rapidamente, "mas" 30% da população vive abaixo do limiar da pobreza. A Índia das duas velocidades. Acho que todos os que conhecem a Índia estão mais do que consciencializados disso. A Índia dos contrastes, por mais real que seja, já se tornou num cliché. É preciso saber olhar também para a influência das novas tecnologias nessa "primeira Índia" (embora também na "segunda" já não são poucos os motoristas de riquexó que têm telemóvel). Um exemplo é os media. O panorama da comunicação social indiana está em revolução total devido à chegada das novas tecnologias, do telemóvel à Internet, passando pela drástica redução de custos de chamadas internacionais.
    Jornais como o "Tehelka", televisões como a "NDTV" e sites como o "zeenews.com" têm tido um impacto tremendo à escala "pan-indiana".

    Resumindo e concluindo: em termos de qualidade de imagem, fotografia e mesmo enredo um filme à altura de Bollywood e, portanto, bastante "patético" para gostos ocidentais. Em termos de inovação simbólica, mensagem, e mesmo concepções e ideais clássicos e unidimensionais, longe de um Mulholland Drive (mas também não é para ganhar Cannes), mas soberbo no contexto indiano.

    Já agora, boas-vindas ao Vida em Deli e espero que me provoques mais vezes a responder pelos meus eventuais exageros. Prometo moderar a utilização do adjectivo "soberbo" para descrever futuros Rang de Basantis...

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  3. Anónimo5:24 p.m.

    Como dizes, tem que se começar por algum lado. Mas daí até um Oscar vai uma grande distância. Embora nunca se sabe, aquilo dos Oscares é tudo comércio portanto até pode acabar no Rang...

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