domingo, 8 de agosto de 2004

A fauna global deliense

Quando parti de Lisboa, fruto das reacções da maioria das pessoas em relação aos meus planos, sentia que estava à beira de cometer uma loucura singularmente louca, sentia-me um Fernão Mendes Pinto do século XXI. Mas, só mesmo o pequenino Portugal para me dar essa impressão errada.

Poucos dias depois de ter chegado aqui e me ter inserido na complexidade que me rodeia, percebo que eu não passo de um caso bastante ordinário quando comparado com a japonesa que tirou aqui o mestrado, trabalhou um ano, depois outro no Egipto e acaba de regressar do Irão onde I had a fight with my boyfriend. Ou a Flora que é francesa e viveu em Hong-Kong e Moscovo, fala fluentemente cinco línguas, tem um namorado indiano que é actor em Bollywood e tem um castelo medieval em Lucknow, que tem um alfaiate e três criadas só para ela, mas não se importa de entrar connosco para as porcas ruas de Old Delhi e fazer compras ou andar de cycle-rick-shaw.

Já não estamos no século XIX em que as distâncias ainda eram um obstáculo ao relacionamento humano. Já não há aventureiros que partem para terras distantes e exóticas, arriscando a vida ou a nunca mais voltarem. Nova Deli fica algumas horas de vôo de Lisboa e a alguns Euros acessíveis, e não a 7 meses de viagem de caravela.

Nova Deli é uma capital globalizada cuja fauna global de investidores, negociantes, políticos, diplomatas, estudiosos e viajantes cresce diariamente, chegando e partindo tanta gente, num constante fluxo de come and go, arrival and departures, business or economy class, window seat? Nova Deli tem todas as comodidades ocidentais, tem Internet, tem electricidade, tem telemóveis e pelo que vi tem estradas alcatroadas. Tem hospitais que são dos melhores do mundo e até tem centros comerciais que se assemelham assustadoramente ao Colombo. Tem encantadores de serpentes e tem uma das bolsas económicas mais vibrantes do mundo. Tem também pessoas, muitas mesmo.

E eu, aqui no meio, delicio-me com a novidade e o desconhecido que afinal é tão familiar. Tenho um McDonalds a dez minutos e o Spiderman a quinze. Tenho a vaca com o peito perfurado à frente da minha janela e o pedinte leproso à porta. Acho que a vou abrir.

2 comentários:

  1. Vaca com peito perfurado... interessante.
    Estou encantado com as tuas histórias e crónicas sobre a vida indiana, dão-me muitas saudades. Só espero que vás mantendo a energia para continuar a escrever no blog, porque estamos todos aqui com muita curiosidade sobre a tua vida, e com fome de novidades tuas. Quando é que vais actualizar a cena das fotos?
    Continuação de boa estadia e boas aventuras. Quando puderes, dá um salto na estação de Old Delhi e dá um olá aos milhares de ratos que por lá pululam.

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  2. Immanuel Kant nunca se afastou mais de 40 kms de Konigsberg, a cidade onde nasceu, viveu e morreu.

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