quinta-feira, 5 de agosto de 2004

Clima

E mais umas linhas de Deli. O clima piorou. Depois de uns três primeiros dias em que me adaptei surpreendentemente bem aos trinta e tal graus centígrados, vieram enfim as monções. Os jornais já preconizavam mais um desastre nacional, com mais uma época de chuvas falhada e mais alguns milhões de indianos na miséria. Aumentou-se o preço da água e fizeram-se campanhas para poupar esse bem precioso, com mil e um conselhos use your bathing water again by washing fruits and vegetables. Os pés delgados do carro com as jantes de diamantes descansam no jacuzzi. Os pés da pequena dona de casa ganharam crostas.

E então veio do céu indiano a rendição divina. No Domingo as nuvens e os deuses hindus aliaram-se e provocaram uma tempestade que inundou todas as ruelas delienses e as lojas dos comerciantes no rés-do-chão, os becos onde as crianças rebolam nuas no pó e até as formosas avenidas dos ricos bairros residenciais onde em média há dois carros à frente de cada entrada.

O dilúvio foi monumental. Pessoas na rua a cantar e a dançar. Homens aos saltos, como crianças, as sandálias azuis e brancas pisando a terra que bebe ardentemente. As mulheres, separadas, claro, também dançam e cantam – mais timidamente no entanto - vestindo saris e punjabis de cores berrantes que com cada gota se colam mais ao corpo fino e formoso, pele morena que transparece ocasionalmente.

Depois das gotas do tamanho de nozes terem inundado a planície, volta o sol, e fiquei a conhecer um dos estados climáticos mais terríveis. A temperatura mantém-se nos 35 ou 38ºC, mas agora é o sol que bebe, dando lugar a uma evaporação em massa. A humidade é estonteante, tanta que se poderia confundir com neblina matinal. É difícil respirar. A roupa cola-se ao corpo. E o sol, incansável, reivindica o que as nuvens ofereceram à terra.

É este o clima actual em Deli. Agradável enquanto a refrescante chuva inunda a terra, e infernal nos períodos imediatos, quando o sol volta ao trabalho. Embora continue e movimentar-me em calças compridas e botas Timberland, devo dizer que me tenho adaptado bastante bem. É tudo uma questão de hábito e assimilação.

Sem comentários:

Enviar um comentário