domingo, 8 de março de 2009
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Esta vida ressuscitará
Três meses depois do meu regresso a Lisboa, os brutais ataques terroristas ontem em Bombaim (e os jornalistas portugueses hoje) lembram-me que tenho muito mais a partilhar sobre a imensa e bastante enigmática Índia que não só estudo à distância, mas que também me acolheu durante os últimos quatro anos. Noutro formato, embora sempre com este toque pessoal que marcou o A Vida em Deli, esta vida e eu iremos voltar em breve à blogosfera. Para ajudar a projectar mais luz e cor sobre a imensa mancha negra que a Índia ainda representa no nosso mapa-mundo estratégico. Até breve.
domingo, 28 de setembro de 2008
Esta vida termina aqui
Um obrigado a todos os que me ajudaram a iniciar e a continuar este espaço. Um obrigado a todos os que por aqui passaram e comentaram. E um obrigado a todos os que insistiram para que eu o continuasse agora.
Um obrigado a todos os que me visitaram ou me acompanharam em Deli. Foram quatro anos de experiências inesquecíveis, incluindo viagens magníficas por todo o subcontinente, novas amizades e contactos para muitas mais vidas, estudo e investigação profunda sobre um país fascinante, trabalho dedicado como tradutor, correspondente e, já no último ano, na Embaixada, entre muitas outras aventuras e experiências.
Quatro anos depois de chegar à capital indiana, a minha vida em Deli terminou em Agosto passado (regressei a Lisboa) e não faz assim sentido continuar este projecto, pelo menos neste formato, que foi sempre muito pessoal, na primeira pessoa, registando as minhas observações e impressões sobre a Índia.
Deixa também de fazer sentido porque as relações entre Portugal e a Índia atingiram (finalmente) uma nova fase - já há agora um número razoável de portugueses a residir em Nova Deli e noutras cidades indianas (alguns com blogues muito bons), e longe vão os tempos em que, exceptuando os (poucos) diplomatas e um leitor, eu era o único residente português na capital.
Ficam aqui disponíveis os arquivos com mais de mil entradas. E, para terminar, uma mensagem que escrevi ao meu amigo João, em Dezembro de 2003, quando me desloquei, pela primeira vez, a Nova Deli, para avaliar a possibilidade de para lá me mudar definitivamente.
Não pude deixar de sorrir, de forma bastante condescendente, ao lê-la, depois de a descobrir, por acaso, num arquivo electrónico qualquer: é testemunho de quanto estes quatro anos em Deli me desestabilizaram, me mudaram, me enriqueceram.
Até breve,
Constantino
(Dezembro 2003):
"Meu caro,
Sinto-me terrivelmente. Nao sei como explicar. Estou com medo, saudades, triste, inseguro… estou a 11 000 km daquilo que poderia eventualmente chamar CASA, se eh que existe algo assim. Mas, admito, este eh um daqueles momentos em que acredito mesmo haver CASA (home).
Cheguei ontem, depois de 24 horas de comboio. Depois da euphoria de Goa, o desalento em Deli, pelo menos parcial. Vou por pontos
- eh uma cidade enorme, sentes-te muito pequenino pensando que vais ter de sobreviver 2 anos aqui
- uma outra civilizacao: pessoas, arquitectura, lingua, tudo eh diferente, nao ha saidas ah noite, nao ha alcool, nao ha carne…
- professors: todos bastante arrogantes, e, mesmo alguns simpaticos, quase todos anti-ocidente. Tenho de repensar todo o meu discurso e o meu raciocinio. Tudo o que tinha construido como certezas ate agora na vida (poucas, eh certo) esta a ser posto em causa (nacionalismo, esquerda/direita, multiculturalismo etc etc)
- estudantes: todos simpaticos, mas ESTRANHOS, la esta, simplesmente, eles vivem com um orcamento de uns 10 Euros por mes (a serio), e estudam mesmo, porque ser estudante na INDIA eh um PRIVILEGIO. Eles aqui levam a vida de estudo mesmo a serio, tentam todos ser os melhores e passam os dias, principalmente, a estudar.
- Condicoes: o campus eh um monte de ruinas enorme. Estou com um amigo meu, muito boa pessoa, que eh PHD em RI, investigador num grande e moderno instituto, vai para a china na Segunda para uma conferencia, sabe de tudo e mais do que eu e tu. Sabes onde vive (e onde estou alojado esta semana): numa espelunca, um quarto com um pequeno balcao, casas de banho comuns iguais ahs piores que vimos na India, temperatures aqui: entre 2 e 49 graus., agua corrente (fria, claro: 2 horas por dia)
- Orientacao: o mesmo problema anterior: indianos sao pessoas muito estranhas, todos muito nacionalistas, embora a JNU seja um bastiao de esquerda: por todo o lado cartazes apelar ao comunismo, o meu amigo eh ferrenho comunista. Meu dilemma: esquerda comunista e ou socialista vs. fundamentalismo+nacionalismo indiano anti-estrangeiros. Compreendes a minha dificuldade posicional?? Quando o meu amigo me apresenta como half-indian e portuguese citizen “by convenience” ja sao geralmente dois temas de conversa muito delicados que vem logo ah baila…
- Isolamento: ha muitos estrangeiros que ainda vou conhecer, mas, de facto, por 2 anos, vou estar bem isolado de tudo o que me tem rodeado na minha breve vida… mas.. o que sao 2 anos numa longa vida?
Ok, isso sao as primeiras impressoes . mas ainda me vou aclimatizar etc.
Boas coisas:
- os estudantes sao gente BOA. SIMPATICOS e acessiveis. Fazem-se amizades facilmente, toda a gente vive no campus. Ajudam-te em tudo. Aqui, ser estudante, eh aquilo que eu sempre defendi em Lisboa na cartilha (mais ou menos).
- Estou na capital duma futura potencia mundial, muito possivelmente. Ha aqui centros de investigacao, embaixadas, etc uma cidade cosmopolita. Nao vou estar tao isolado
- Vou encontrar-me ainda com muitos outros professors, alguns que me parecem ser muito mais acessiveis dos que encontrei ate agora (por via do meu amigo comunista)
- Embora estudantes digam que eu tenho que viver no campus para viver o espirito, estou disposto a correr um minimo risco de isolamento e viver num apartamento com condicoes perto do campus. Precos bons abaixo dos 75 Euros por mes!
- Tenho uma boa rede de contactos com redes de investigacao, embaixadas e todo o mundo occidental aqui em Deli o que me permite circular nessa rede e manter contactos com ocidente e um certo estilo de vida occidental (concertos, recepcoes, conferencias etc). Avisaram-me que o MA eh muito dificil (you have to study very veriiiii much) mas como ha gente licenciada em jornalismo e gestao a fazer o MA penso que com os meus 4 anos de CPRI ja tenha um bom avanco. So espero que os profs nao me discriminem por ser estrangeiro (nem os estudantes). (...)"
.
Um obrigado a todos os que me visitaram ou me acompanharam em Deli. Foram quatro anos de experiências inesquecíveis, incluindo viagens magníficas por todo o subcontinente, novas amizades e contactos para muitas mais vidas, estudo e investigação profunda sobre um país fascinante, trabalho dedicado como tradutor, correspondente e, já no último ano, na Embaixada, entre muitas outras aventuras e experiências.
Quatro anos depois de chegar à capital indiana, a minha vida em Deli terminou em Agosto passado (regressei a Lisboa) e não faz assim sentido continuar este projecto, pelo menos neste formato, que foi sempre muito pessoal, na primeira pessoa, registando as minhas observações e impressões sobre a Índia.
Deixa também de fazer sentido porque as relações entre Portugal e a Índia atingiram (finalmente) uma nova fase - já há agora um número razoável de portugueses a residir em Nova Deli e noutras cidades indianas (alguns com blogues muito bons), e longe vão os tempos em que, exceptuando os (poucos) diplomatas e um leitor, eu era o único residente português na capital.
Ficam aqui disponíveis os arquivos com mais de mil entradas. E, para terminar, uma mensagem que escrevi ao meu amigo João, em Dezembro de 2003, quando me desloquei, pela primeira vez, a Nova Deli, para avaliar a possibilidade de para lá me mudar definitivamente.
Não pude deixar de sorrir, de forma bastante condescendente, ao lê-la, depois de a descobrir, por acaso, num arquivo electrónico qualquer: é testemunho de quanto estes quatro anos em Deli me desestabilizaram, me mudaram, me enriqueceram.
Até breve,
Constantino
(Dezembro 2003):
"Meu caro,
Sinto-me terrivelmente. Nao sei como explicar. Estou com medo, saudades, triste, inseguro… estou a 11 000 km daquilo que poderia eventualmente chamar CASA, se eh que existe algo assim. Mas, admito, este eh um daqueles momentos em que acredito mesmo haver CASA (home).
Cheguei ontem, depois de 24 horas de comboio. Depois da euphoria de Goa, o desalento em Deli, pelo menos parcial. Vou por pontos
- eh uma cidade enorme, sentes-te muito pequenino pensando que vais ter de sobreviver 2 anos aqui
- uma outra civilizacao: pessoas, arquitectura, lingua, tudo eh diferente, nao ha saidas ah noite, nao ha alcool, nao ha carne…
- professors: todos bastante arrogantes, e, mesmo alguns simpaticos, quase todos anti-ocidente. Tenho de repensar todo o meu discurso e o meu raciocinio. Tudo o que tinha construido como certezas ate agora na vida (poucas, eh certo) esta a ser posto em causa (nacionalismo, esquerda/direita, multiculturalismo etc etc)
- estudantes: todos simpaticos, mas ESTRANHOS, la esta, simplesmente, eles vivem com um orcamento de uns 10 Euros por mes (a serio), e estudam mesmo, porque ser estudante na INDIA eh um PRIVILEGIO. Eles aqui levam a vida de estudo mesmo a serio, tentam todos ser os melhores e passam os dias, principalmente, a estudar.
- Condicoes: o campus eh um monte de ruinas enorme. Estou com um amigo meu, muito boa pessoa, que eh PHD em RI, investigador num grande e moderno instituto, vai para a china na Segunda para uma conferencia, sabe de tudo e mais do que eu e tu. Sabes onde vive (e onde estou alojado esta semana): numa espelunca, um quarto com um pequeno balcao, casas de banho comuns iguais ahs piores que vimos na India, temperatures aqui: entre 2 e 49 graus., agua corrente (fria, claro: 2 horas por dia)
- Orientacao: o mesmo problema anterior: indianos sao pessoas muito estranhas, todos muito nacionalistas, embora a JNU seja um bastiao de esquerda: por todo o lado cartazes apelar ao comunismo, o meu amigo eh ferrenho comunista. Meu dilemma: esquerda comunista e ou socialista vs. fundamentalismo+nacionalismo indiano anti-estrangeiros. Compreendes a minha dificuldade posicional?? Quando o meu amigo me apresenta como half-indian e portuguese citizen “by convenience” ja sao geralmente dois temas de conversa muito delicados que vem logo ah baila…
- Isolamento: ha muitos estrangeiros que ainda vou conhecer, mas, de facto, por 2 anos, vou estar bem isolado de tudo o que me tem rodeado na minha breve vida… mas.. o que sao 2 anos numa longa vida?
Ok, isso sao as primeiras impressoes . mas ainda me vou aclimatizar etc.
Boas coisas:
- os estudantes sao gente BOA. SIMPATICOS e acessiveis. Fazem-se amizades facilmente, toda a gente vive no campus. Ajudam-te em tudo. Aqui, ser estudante, eh aquilo que eu sempre defendi em Lisboa na cartilha (mais ou menos).
- Estou na capital duma futura potencia mundial, muito possivelmente. Ha aqui centros de investigacao, embaixadas, etc uma cidade cosmopolita. Nao vou estar tao isolado
- Vou encontrar-me ainda com muitos outros professors, alguns que me parecem ser muito mais acessiveis dos que encontrei ate agora (por via do meu amigo comunista)
- Embora estudantes digam que eu tenho que viver no campus para viver o espirito, estou disposto a correr um minimo risco de isolamento e viver num apartamento com condicoes perto do campus. Precos bons abaixo dos 75 Euros por mes!
- Tenho uma boa rede de contactos com redes de investigacao, embaixadas e todo o mundo occidental aqui em Deli o que me permite circular nessa rede e manter contactos com ocidente e um certo estilo de vida occidental (concertos, recepcoes, conferencias etc). Avisaram-me que o MA eh muito dificil (you have to study very veriiiii much) mas como ha gente licenciada em jornalismo e gestao a fazer o MA penso que com os meus 4 anos de CPRI ja tenha um bom avanco. So espero que os profs nao me discriminem por ser estrangeiro (nem os estudantes). (...)"
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domingo, 20 de julho de 2008
help unity and integrity of the nation
It is high time that in the larger interest of assuring the dignity of the Muslim women and protecting their basic human rights which in turn would help unity and integrity of the nation as well as equality before the laws and equal protection of the laws and thus give a good bye to those provisions of the pre-constitution Muslim personal laws, insofar as those provisions are inconsistent with the provisions of Part III of the Constitution and hence void under Article 13, as have been done in the case of certain provisions of the Hindu Law through new legislations.
Quem não lê o Organiser não compreende nada. Eu não compreendo nada.
Quem não lê o Organiser não compreende nada. Eu não compreendo nada.
Das leis
The Prevention of Insults to National Honour Act, 1971
2. Insult to Indian National Flag or Constitution of India
Whoever in any public place or in any other place within public view burns, mutilates, defaces, defiles, disfigures, destroys, tramples upon or otherwise shows disrespect to or brings into contempt (whether by words, either spoken or written, or by acts) the Indian National Flag or the Constitution of India or any part thereof, shall be punished with imprisonment for a term which may extend to three years, or with fine, or with both.
(aqui)
2. Insult to Indian National Flag or Constitution of India
Whoever in any public place or in any other place within public view burns, mutilates, defaces, defiles, disfigures, destroys, tramples upon or otherwise shows disrespect to or brings into contempt (whether by words, either spoken or written, or by acts) the Indian National Flag or the Constitution of India or any part thereof, shall be punished with imprisonment for a term which may extend to three years, or with fine, or with both.
(aqui)
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Contacto Goa
O último Magazine Contacto Goa é todinho ele dedicado à influência goesa na indústria cinematográfica de Bollywood. O tema é interessante mas o programa arrasta-se numa sucessão de entrevistas e a apresentação um tanto monótona de Francisco Veres Machado não ajuda muito. Mesmo assim, este Magazine quinzenal é uma iniciativa inédita, e muito louvável (que já vai na terceira série, sempre com o carimbo da muito dinâmica e jovem Nalini de Sousa), que dá a conhecer, de forma bastante sucinta, ao público português não só uma outra Goa, mas também uma outra Índia. A ver on-line.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Excuse me, Mr. Zimler? (Sidh Mendiratta)
O Sidh adiantou-se e, por isso, resta-me subscrever inteiramente este post e comentário dele:
WR: Richard, what amazes me about your book is that you have never visited Goa and yet one gets a distinct impression as if you spent a year here...
RZ: What a wonderful compliment! I wanted to go to Goa, but English and Portuguese friends kept telling me how much it has changed over the last forty or fifty years, and I was worried that some aspect of its present landscape and culture would "infiltrate" the picture I had already formed in my head of Goa at the end of the 16th century. I didn't want to risk any modern details in the book – anything that wouldn't be accurate for the 16th and 17th centuries – so I didn't go.
(from an interview to Richard Zimler, published in the Goan Daily "Herald")
Ok...I have to get this one straight...Zimler formed an image of Goa at the end of the 16th century by working in the libraries and archives of Portugal or Europe. Possibly by looking at images of landscapes, buildings, objects and people. And when he had to decide if he should visit Goa, he took the advice of some people who told him Goa had changed a lot since 1961 and thought it better to stay put.
This means he did not consider it important to see or hear what the Goans - or Indians - think of the Inquisition or what traces this phenomenon has left in Goan culture and landscape. Therefore, his books relapses into a classical form of Orientalism - Zimler detatches himself from his topic, avoiding the "breathing in" and the first hand observation of the present culture whose past and historical phenomena he describes.
And I just wonder if it was a Portuguese of Goan background who influenced his decision not to visit this place...this place that continues weaving and exporting black legends.
(daqui, onde recentemente se tem podido acompanhar um soberbo périplo indiano)
WR: Richard, what amazes me about your book is that you have never visited Goa and yet one gets a distinct impression as if you spent a year here...
RZ: What a wonderful compliment! I wanted to go to Goa, but English and Portuguese friends kept telling me how much it has changed over the last forty or fifty years, and I was worried that some aspect of its present landscape and culture would "infiltrate" the picture I had already formed in my head of Goa at the end of the 16th century. I didn't want to risk any modern details in the book – anything that wouldn't be accurate for the 16th and 17th centuries – so I didn't go.
(from an interview to Richard Zimler, published in the Goan Daily "Herald")
Ok...I have to get this one straight...Zimler formed an image of Goa at the end of the 16th century by working in the libraries and archives of Portugal or Europe. Possibly by looking at images of landscapes, buildings, objects and people. And when he had to decide if he should visit Goa, he took the advice of some people who told him Goa had changed a lot since 1961 and thought it better to stay put.
This means he did not consider it important to see or hear what the Goans - or Indians - think of the Inquisition or what traces this phenomenon has left in Goan culture and landscape. Therefore, his books relapses into a classical form of Orientalism - Zimler detatches himself from his topic, avoiding the "breathing in" and the first hand observation of the present culture whose past and historical phenomena he describes.
And I just wonder if it was a Portuguese of Goan background who influenced his decision not to visit this place...this place that continues weaving and exporting black legends.
(daqui, onde recentemente se tem podido acompanhar um soberbo périplo indiano)
Aliança capital-nação
Este vídeo, que é self-explanatory e portanto não precisa de grandes interpretações, merece um pequeno apontamento adicional.
No fim, reparem no jovem à espera que o Maruti-Suzuki lhe dê boleia, para chegar a tempo a casa para as celebrações do festival hindu Divali. Atrás dele está parado um típico autocarro indiano, velho e podre, sobrecarregado, atrasado e lento, rodeado de muitos outros indianos (a vestimenta indicando tratar-se de muçulmanos). Mas eles que se amanhem. India cannot wait.
No fim, reparem no jovem à espera que o Maruti-Suzuki lhe dê boleia, para chegar a tempo a casa para as celebrações do festival hindu Divali. Atrás dele está parado um típico autocarro indiano, velho e podre, sobrecarregado, atrasado e lento, rodeado de muitos outros indianos (a vestimenta indicando tratar-se de muçulmanos). Mas eles que se amanhem. India cannot wait.
Outra vez a Lufthansa
Estou aqui a comer uma deliciosa chamuça que comprei ali em baixo, na esquina, por três Rupias, e a Lufthansa convida-me, por e-mail, a "saborear a Índia por 499 Euros" (ida e volta, taxas incluídas).
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Foreigners Regional Registration Office
À entrada encontra-se um funcionário que aponta os detalhes dos passaportes e dos registration certificates de todos os estrangeiros num gigantesco livro. "Queue karo, queue, queue", exclama, de dois em dois minutos, o polícia ao lado, procurando incutir um sentido de ordem na multidão internacional que observa, com muita impaciência, a imensa lentidão com que as colunas e as linhas são preenchidas por números e letras ilegíveis.
Os afegãos, os birmaneses, os tibetanos, os africanos, e todos os outros cujo tom de pele aparenta uma origem terceiro mundista, integram a fila que é violada por um outro penetra, geralmente agentes indianos que vêm em representação de grandes empresas, embaixadas ou estrangeiros mais abastados.
As meninas e os meninos mochileiros, normalmente israelitas e franceses, fingem-se ignorantes e passam por tudo e por todos sem pestanejarem. O polícia, intimidado, finge que não vê. Já os japoneses e chineses são mandados parar de forma lacónica: "Stop, passport, sign, queue, there".
Quando o funcionário vai tomar chá, ou almoçar, o controlo é interrompido e entram todos. Fica lá o polícia, muito alto e desajeitado, com aquela espingarda anacrónica nas mãos, a olhar impotente para o livro aberto, para a caneta inerte e para o imparável fluxo de gente estranha.
Os afegãos, os birmaneses, os tibetanos, os africanos, e todos os outros cujo tom de pele aparenta uma origem terceiro mundista, integram a fila que é violada por um outro penetra, geralmente agentes indianos que vêm em representação de grandes empresas, embaixadas ou estrangeiros mais abastados.
As meninas e os meninos mochileiros, normalmente israelitas e franceses, fingem-se ignorantes e passam por tudo e por todos sem pestanejarem. O polícia, intimidado, finge que não vê. Já os japoneses e chineses são mandados parar de forma lacónica: "Stop, passport, sign, queue, there".
Quando o funcionário vai tomar chá, ou almoçar, o controlo é interrompido e entram todos. Fica lá o polícia, muito alto e desajeitado, com aquela espingarda anacrónica nas mãos, a olhar impotente para o livro aberto, para a caneta inerte e para o imparável fluxo de gente estranha.
A Lusa não lê este blogue
Imprensa embaraçada com detenção de nazi
Contactado ontem pela Lusa, o porta-voz da embaixada da Alemanha em Nova Deli, Philip Ackermann, negou veementemente a história, considerando-a uma "invenção" de um "bloguista" indiano, que rapidamente se estendeu aos media locais.
Os contornos e razões da notícia são confusos, mas todos coincidem quanto à origem dos factos: alegadamente um bloguer não identificado.
(hoje no DN, aqui)
Contactado ontem pela Lusa, o porta-voz da embaixada da Alemanha em Nova Deli, Philip Ackermann, negou veementemente a história, considerando-a uma "invenção" de um "bloguista" indiano, que rapidamente se estendeu aos media locais.
Os contornos e razões da notícia são confusos, mas todos coincidem quanto à origem dos factos: alegadamente um bloguer não identificado.
(hoje no DN, aqui)
terça-feira, 1 de julho de 2008
Goa, o nazi Bach e a imprensa indiana
Presumi eu logo tratar-de de uma mentira de 1 de Abril bastante atrasada, mas nas redacções dos grandes jornais indianos pensaram diferente (ou melhor, não pensaram nada).
Soube-se agora que a história do suposto coronel nazi Johann Bach, preso em Goa, numa operação conjunta dos serviços secretos alemães e indianos, originou numa press release falsa de um conjunto de bloggers-jornalistas goeses (alguns meus conhecidos e amigos) que procuram denunciar a face mais negra da imprensa goesa e indiana.
Excelente! Mas o mais assustador é que esta notícia não só foi difundida largamente. Assim, os grandes jornais indianos, incluindo o Indian Express, o Calcutta Telegraph e o Times of India, difundiram a "notícia" sem a confirmarem com as autoridades competentes, e em certos casos inventaram, pura e simplesmente, novos factos (segundo o Express, Bach já tinha sido deportado para a Alemanha) ou deram-lhe mesmo uma soberba cobertura gráfica (um mapa com os vários países pelos quais Bach teria supostamente passado nos últimos anos, com o preciosismo de notar o Iémen como "unconfirmed"!).

Já agora: "Perus Narkp", indicado como o braço de espionagem da Senhora Merkel, é um anagrama para “Super Prank”. O comunicado de imprensa anunciava “Eht rea enp cabk skripc” como o lema desta super-organização secreta, outro anagrama para “The Pen Pricks are back”. The Pen Pricks é o blogue dos autores desta super-brincadeira.
Mais a sério: já se escreveu muito sobre as limitações da Internet como fonte de informação para quem quiser desenvolver um trabalho sério e aprofundado sobre outros países e outras realidades. Este caso demonstra-o novamente, de forma exemplar: as notícias continuam lá, em linha, nos sites dos mais prestigiados órgãos de comunicação social indianos.
Quando porventura alguém, daqui a umas semanas ou meses, estiver à procura de se inteirar rapidamente sobre a criminalização transnacional do estado de Goa, sobre as regras de deportação bilateral entre a Índia e a União Europeia, sobre a cooperação entre serviços de informações indianos e estrangeiros, ou sobre criminosos nazis refugiados em África e na Ásia, é muito provável que chegará a esta notícia googlando e que depois a ela se referirá, no seu trabalho, relatório, crónica ou post.
Excelente! Mas o mais assustador é que esta notícia não só foi difundida largamente. Assim, os grandes jornais indianos, incluindo o Indian Express, o Calcutta Telegraph e o Times of India, difundiram a "notícia" sem a confirmarem com as autoridades competentes, e em certos casos inventaram, pura e simplesmente, novos factos (segundo o Express, Bach já tinha sido deportado para a Alemanha) ou deram-lhe mesmo uma soberba cobertura gráfica (um mapa com os vários países pelos quais Bach teria supostamente passado nos últimos anos, com o preciosismo de notar o Iémen como "unconfirmed"!).
Já agora: "Perus Narkp", indicado como o braço de espionagem da Senhora Merkel, é um anagrama para “Super Prank”. O comunicado de imprensa anunciava “Eht rea enp cabk skripc” como o lema desta super-organização secreta, outro anagrama para “The Pen Pricks are back”. The Pen Pricks é o blogue dos autores desta super-brincadeira.
Mais a sério: já se escreveu muito sobre as limitações da Internet como fonte de informação para quem quiser desenvolver um trabalho sério e aprofundado sobre outros países e outras realidades. Este caso demonstra-o novamente, de forma exemplar: as notícias continuam lá, em linha, nos sites dos mais prestigiados órgãos de comunicação social indianos.
Quando porventura alguém, daqui a umas semanas ou meses, estiver à procura de se inteirar rapidamente sobre a criminalização transnacional do estado de Goa, sobre as regras de deportação bilateral entre a Índia e a União Europeia, sobre a cooperação entre serviços de informações indianos e estrangeiros, ou sobre criminosos nazis refugiados em África e na Ásia, é muito provável que chegará a esta notícia googlando e que depois a ela se referirá, no seu trabalho, relatório, crónica ou post.
domingo, 29 de junho de 2008
Activists e Terrorists, Nós e os Outros
Esta "notícia" é um gigantesco eufemismo e uma celebração da hipocrisia e incoerência que assolam a subjectividade indiana em relação ao tema "terrorismo". Cá se dá conta da detenção de dois militantes de organizações extremistas hindus, por supostamente terem colocado bombas em cinemas para protestar contra a exibição de um filme.
Os explosivos afinal parece que "only" feriram sete pessoas, mas lembro-me que, imediatamente após os atentados, no início do mês, mereceram grande destaque na imprensa ("Terror strikes again"), com muitas fotos e muito sangue - hideous! E o facto de terem sido interrogadas 1500 pessoas pela Anti-Terrorist Squad de Bombaim prova que as autoridades levaram os ataques muito a sério.
Mas, "2 Hindu activists", observa agora o título da notícia. Activists? Activists, pois sim!
Terrorists, militants, extremists, radicals, anti-social elements, isso está tudo reservado para os Outros. Estes são só, pura e simplesmente, activists, tal como os ambientalistas que se opõem à barragem do Nármada. Activists tal como os que agora querem ver o urso prisioneiro libertado e reunido com o seu dono.
Activists tal como os que amanhã vão marchar na primeira Delhi Queer Pride Parade? Aguardo com ansiedade a chegada dos jornais na Segunda de manhã, para ver como a sempre objectiva e neutra imprensa se lhes referirá.
Os explosivos afinal parece que "only" feriram sete pessoas, mas lembro-me que, imediatamente após os atentados, no início do mês, mereceram grande destaque na imprensa ("Terror strikes again"), com muitas fotos e muito sangue - hideous! E o facto de terem sido interrogadas 1500 pessoas pela Anti-Terrorist Squad de Bombaim prova que as autoridades levaram os ataques muito a sério.
Mas, "2 Hindu activists", observa agora o título da notícia. Activists? Activists, pois sim!
Terrorists, militants, extremists, radicals, anti-social elements, isso está tudo reservado para os Outros. Estes são só, pura e simplesmente, activists, tal como os ambientalistas que se opõem à barragem do Nármada. Activists tal como os que agora querem ver o urso prisioneiro libertado e reunido com o seu dono.
Activists tal como os que amanhã vão marchar na primeira Delhi Queer Pride Parade? Aguardo com ansiedade a chegada dos jornais na Segunda de manhã, para ver como a sempre objectiva e neutra imprensa se lhes referirá.
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