quarta-feira, 31 de maio de 2006

Portugal, o Oriente e o Futuro

ENCONTRO DA PRIMAVERA
"A BEM DA NAÇÃO"

8 de Junho de 2006
20,30 horas

Restaurante "A PATEIRA DA TAPADA"
Tel: 213.622.001.
Tapada da Ajuda - Lisboa

O nosso convidado, Dr. Constantino Hermans Xavier, falará sobre
"Portugal e o Oriente na perspectiva do futuro"

Mais informações:
Henrique Salles da Fonseca - Tel: 213.909.939.; Tlm: 964.030.227.; e-mails: salles.fonseca@oninetspeed.com

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Terceira Passagem para a Índia

Excerto da minha terceira contribuição para a revista Atlântico. Crónica completa na edição em papel, hoje nas bancas e nas caixas de correio dos assinantes.

PASSAGEM PARA A ÍNDIA
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

NEO-ORIENTALISMO

Jonas não é só um jovem sueco que percorre as ruas de Jaisalmer,nas profundezas do deserto do Rajastão, entoando cânticos religiosos hindus. É também um símbolo do modo como os países ocidentais olham para a Índia, com um complexo de identidade

Pessoas como Jonas procuram a Índia como um refúgio - uma fuga da família, dos fiordes, mas também da democracia, da igualdade, da modernidade. Jonas vem à procura de uma Índia que
não existe para tentar escapar à sua própria existência. A mesma lógica reina nos movimentos alter-globalização e em certos círculos intelectuais ocidentais. Na sua óptica, o Oriente (ou o não-
Ocidente) representa tudo de bom, tudo o que falta ao Ocidente. A Índia, em particular, representa o genuíno, o autêntico e encarna os valores tradicionais e a espiritualidade. O contraste é tremendo com o Ocidente: este supostamente representa o materialismo, a artificialidade e a falsidade, e tudo o demais considerado negativo. (...) Se há três décadas Edward Said definia o Orientalismo como um instrumento legitimador do colonialismo europeu, hoje em dia, os neo-orientalistas ocidentais vêem-no como uma forma de auto-colonização.

terça-feira, 23 de maio de 2006

Chegada

Chego num Sábado à noite a Lisboa. Depois dos abraços e dos beijinhos, dez minutos depois a nossa viatura aproxima-se da Rotunda do Relógio. Ainda sem me ter consciencializado bem da chegada a Lisboa, observo a seguinte cena.

Um Mercedes dá um toque mínimo nas traseiras de um Polo. Deste, sai lançado um homem de meia idade, com cara cinzenta e ensombrada. Aproxima-se do Mercedes a passos largos, mas calmamente e decididamente. Tudo sem esboçar um som ou uma expressão facial que pudesse descortinar as suas intenções. Abre então a porta do Mercedes, senta-se no banco da frente, fecha a porta com um estrondo, e começa, a poucos centímetros da cara do condutor, aos berros, movimentando os seus punhos de forma ameaçadora. Do Polo, emerge uma senhora de meia-idade também, com um filho no colo e, também aos berros e soluços, pede para o marido voltar.

O sinal fica verde e arrancámos. Estava de volta. Mas, por um momento, hesito. É esta a Lisboa de que tive saudades? É este o Portugal que deixei, há dois anos? É esta a civilização e o tipo de sociedade que quero defender e a que me orgulho de pertencer? Um prenúncio, um símbolo, ou um acaso?

sábado, 20 de maio de 2006

Flughafen Muenchen

Um ano depois, volto para a Europa. Primeira impressao: limpeza, silencio, riqueza.

Um dos fenomenos que mais gosto de observar, em viagem, diz respeito ah tarnsformacao das atitudes dos viajantes e do ambiente, dependendo do local. Por exemplo, no local de partida, sao os nacionais do territorio local que falam mais alto, dominam os movimentos e as accoes, lideram a turba e marcam o ritmo e o ambiente. Ja depois do embarque, e com o decorrer do voo, a situacao transforma-se e comecam a ser os nacionais do pais de destino a ganhar a mao de cima. Eh a sua vez de comecar a falar mais alto, trocar experiencias (e queixas) sobre o pais que acabam de visitar etc. Ja ah chegada, os outrora lideres do pais de partida ficam reduzidos ao silencio e ah irrelevancia, perante os abracos, os risos de felicidade e o natural ah-vontade dos viajantes que chegam a casa. Observo isto especialmente nos voos entre a Europa e a India.

Oito horas separam-me ainda de Lisboa. Mas ja me sinto um pouco em casa. Onde quer que isso seja.

Férias em casa

Quase um ano depois, chegou a altura de voltar a casa e deixar-me, por uns tempos, de coisas delienses. Mas a vida em Deli continua. Só se deslocaliza, por um mês e tal, para Portugal, de onde continuarei a postar. Em Julho repete-se a dose, com mais dois anos de Deli. Até logo, amanhã à noite, em Lisboa!

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Imagens de Deli: Katmandu


Painel em frente ao Palácio Real em Katmandu, com uma citação do rei actual, Gyanendra. Cabe ao rei e aos órgãos soberanos do estado velar pelo respeito e pela aplicação dos direitos individuais, humanos e cívicos... Não deveria ser ao contrário? Um caso clássico que demonstra que por estas bandas as prioridades são por vezes bem entendidas mas mal aplicadas. Também na Índia, a democracia fez-se, ou tentou fazer-se, "por cima". Isto é, na concepção sul-asiática, e em muitos outros países pós-coloniais, a ideia de democracia foi compreendida como uma tarefa estatal, um processo pedagógico e de tutelagem benevolente. É, de certa forma, a herança da época colonial. A independência muitas vezes nada mais representou do que uma transferência de poderes, dos colonialistas para as novas elites instaladas. Mas, mais do que as elites, é esta ideia da prepotência estatal que asfixia qualquer projecto democrático, e este painel demonstra-o perfeitamente. Não é com painéis destes que se cria a democracia, num país com metade da população iletrada.

Nepal primaveril

Foi recorrente: várias vezes ao dia, enquanto deambulava pelas ruas de Katmandu, bebia umas cervejas e conversava com jovens, enquanto lia os jornais do dia ou entrevistava pessoas de vários quadrantes, via-me sempre apoderado por um déja vu. Tudo em Katmandu aponta para o que testemunhei há uns cinco ou seis anos atrás na Europa de Leste, especialmente em Belgrado e em Sófia, menos em Bucareste. Países em profunda transição, vivendo uma primavera política, envoltos de incertezas mas de grande activismo político.

Em Katmandu respira-se política, as pessoas coladas aos rádios e às televisões, as edições dos jornais esgotados em segundos, os sucessivos protestos e confrontos, o papel central dos jovens e estudantes. O Nepal, acima de tudo, vive um profundo momento de ruptura, de transição geracional. Os jovens que lideraram o movimento democrático das semanas passadas, as dezenas de vítimas mortais e várias centenas de feridos, são os jovens que testemunharam - ainda adolescentes e passivos - em 1990 o primeiro movimento democrático do país que culminou na monarquia constitucional que agora está por sua vez em crise perante as reivindicações republicanas.

Os jovens que engrossam o movimento actual são também a primeira geração que cresceu numa economia liberal e que foi exposta a valores exteriores - especialmente indianos e ocidentais, por via da televisão e da Internet. Vêm por isso pôr em causa o cerne da questão, o fundamento de toda a ideia do Nepal: o seu isolamento, o seu estatuto periférico, a sua marginalização e a sua condição ensanduíchada entre dois gigantes. Estes jovens vieram forçar novos horizontes e merecem por isso toda a atençao e apoio - especialmente tendo em conta que os maoístas espreitam ansiosamente o poder dos seus bastiões rurais e sub-desenvolvidos e dos seus bastiões ideológicos e anacrónicos.

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Do reino nepalense

Um curto cumprimento, sem utilizar palavras com acentos porque o teclado o me o nega, do vale de Katmandu, no Nepal. Por aqui ando por alguns dias, a falar com as pessoas e a ver se percebo para que futuro se movimenta este alegre povo dos Himalaias e se o seu reino corre perigo de vida.

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Diplomacias

Nova Deli é de momento um dos melhores locais para fazer estudos de caso comparativos sobre as variantes e diferenças entre várias políticas externas. O caso mais gritante é uma comparação mediática entre o embaixador francês e seu compatriota norte-americano.

Dominique Girard, o alto representante francês, é presença frequente nas páginas dos jornais. Em especial as revistas cor de rosa e as colunas sociais. Lá aparece ele frequentemente a inaugurar uma prova de vinhos, um ciclo de cinema, uma mostra de iluminuras ou um novo programa de intercâmbio para estilistas. Está lá sempre, com o laço ao pescoço, acompanhado da mulher, empunhando um copito de champanhe e sorridente como se o mundo fosse o avatar material da felicidade.

David Mulford, ao contrário, é homem quase desconhecido por estas bandas. Quase, porque de vez em quando a comunicação social lá consegue pescar uma frase dele, uma nota de rodapé de uma palestra dele, ou um detalhe que alguém soube por via alguém que ele disse quase de certeza. Essas frases são obviamente bombásticas e abrem a actualidade. Mas parece-me que estes “lapsos” não são tão involuntários assim. Acredito que as supostas “fugas de informação” e as afirmações à imprensa mais apimentadas de Mulford (por exemplo, quando interfere directamente nos assuntos internos, ou propõe mesmo recomendações de política externa aos indianos), são fruto de um agenda cuidadosa e meticulosamente preparada e gerida. Isso integra depois, às vezes, um pedido de desculpas oficial que, no entanto, em nada reduz o impacto do que foi dito. Alguma população poderá aceitar e acreditar que foi uma “má interpretação” ou uma “descontextualização”, mas, quem sabe, sabe que o homem passou a mensagem.

Mas voltemos ao contraste: enquanto da boca do embaixador francês pouca coisa sai sobre a real política e economia, para além da balela multilateral, multipolar e multicultiral do costume, o embaixador norte-americano, quando fala (raramente), parte a louça e abre o debate. Obviamente, num país em que a esquerda primordial ainda tem força considerável, percebe-se o alarido. É, por isso, fascinante compreender as diferentes e mesmo antagónicas lógicas que guiam a diplomacia francesa e norte-americana por estas bandas.

quarta-feira, 10 de maio de 2006

Citações de Deli: Rahul Gandhi

“India is rising, but I want to see it compete successfully with every other country, and I want to transform what you see here — poverty. (...) I would like to help these people have the same living standards you have (...) Better than in the West. We’re not here to take (British) jobs, we’re here to empower ourselves (...) We’re a poor country. We have a lot of people in the villages with tremendous potential for entrepreneurship but it is denied to them. Corruption is holding people back, caste is holding us back.”

Rahul Gandhi, Membro do Parlamento indiano (MP), filho de Sonia e Rajiv Gandhi, neto de Indira Gandhi, em declarações em birtânico The Times. Rahul é visto como o próximo primeiro-ministro indiano na linha dinástica Gandhi. Cá por mim, não presta.

sábado, 6 de maio de 2006

Imagens de Deli: Srinagar-Jamu Highway

Trânsito parado na estrada que liga Srinagar a Jamu. As mulheres estendem a roupa para secar. Os homens vão aliviar a bexiga por detrás dos pinheiros. Foi assim, durante quinze horas. Estivemos mais tempo parados do que em movimento.

O sonho indiano (e eu) em perigo

43ºC, nada mais, nada menos. Deli está em brasa. Mas os jornais anunciam-me, sem vergonha no papel, “but there are no signs yet of a heatwave” e eu pergunto-me se li mal, se eles escreveram mal, ou se eu simplesmente me esqueci que estou no planalto indostânico.

Pó. Tanto pó. Tempestades de pó. Um mosquito suga-me sangue nas costas, vou lá coçar com a mão direita, os dedos voltam escuros e poeirentos. Acordo de manhã. Tudo coberto de pó. Infecções nos olhos é coisa normal. Pele a cair dos dedos e da cara habitual.

O pior: os cortes de energia. Mesmo aqui, no sul de Deli da aí muito conhecida classe média indiana. Na capital do país. Há dias em que a luz falta quinze, vinte vezes. A única maneira de fazer face aos graus centígrados nessa altura é ficar sentado por debaixo do chuveiro – caso haja água, é claro.

A nova medida governamental, anunciada hoje de manhã, é peremptória: todos os centros comerciais passam a fechar mais cedo, às sete e meia, os edifícios públicos deixam de utilizar o ar-condicionado às seis e meia, os parques industriais são obrigados a cancelarem o seu terceiro turno, das seis à meia-noite. E um apelo para que os delienses consumam energia com “sensibilidade”, tendo em conta a escassez energética.

É normal. As águas dos rios dos Himalaias, reforçados pelo contínuo degelo dos glaciares, enfrentam pequenas e antigas barragens, sem capacidade de geração adequada ao explosivo consumo subcontinental. A infraestrutura é antiga e sobrecarregada. E milhões nas cidades consomem ilegalmente ou simplesmente não pagam as contas.

O que me deixa preocupado, mais do que a extensa lista de exames e trabalhos por enfrentar até partir, a caminho das férias em Lisboa, é o sonho indiano. Sem energia, não há poder. Sem poder, não há sonho indiano. E sem sonho indiano, deixa de haver Índia.

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Citações de Deli: Keshabchandra Sen

"By madness I mean heavenly enthusiasm, the highest and most intense spirituality of character, in which faith rules supreme over all sentiments and faculties of the mind....The difference between philosophy and madness is the difference between science and faith, between cold dialectics and fiery earnestness, between the logical deductions of the human understanding and the living force of inspiration, such as that which cometh direct from heaven….Philosophy is divine, and madness too is divine….The question naturally suggest itself – why should not men be equally mad for God? (…) Gentlemen, we are going to combine meditation and science, madness and philosophy, and there is no fear of India relapsing into ancient mysticism”

Keshabchandra Sen (1838-84), filósofo e asceta indiano, líder do Brahmo Samaj, durante a sua palestra “Philosophy and Madness in Religion, proferida em Calcutá a 3 de Março de 1877. Citado em “The Nation and its Fragments”, Partha Chatterjee, p. 40

terça-feira, 2 de maio de 2006

Passagem para a Índia e uma bela revista

PASSAGEM PARA A ÍNDIA
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

MUITA CONFIANÇA

Não se deve conceber a Índia simplesmente como um natural aliado democrático e amigo do Ocidente. Nova Deli namora ao mesmo tempo Washington, Moscovo, Teerão e Pequim. A estratégia é a longo prazo.

"Rajiv é filho de um casal que emigrou dos famintos planaltos indostânicos para os subúrbios de Nova Deli. Na cidade, o ganha-pão da família dependia das pernas do pai, paquete numa repartição pública, e das mãos da mãe, empregada de limpeza. Um dia, ao voltar da escola, Rajiv viu numa papelaria o livro “Teach yourself English in seven days”. Hesitou, mas confiou no dono, que lhe disse que bastavam 900 palavras para dominar a língua. Afinal, pensou, a um ritmo de aprendizagem de 30 palavras novas por dia, seria daqui a três meses fluente na língua de todos os sonhos. Hoje Rajiv é engenheiro informático na Califórnia, vive num apartamento à beira-mar, e tem três televisões, dois frigoríficos, um carro e uma mota. São estes os minúsculos épicos que movimentam a sociedade indiana contemporânea." (excerto)

É a minha segunda Passagem para a Índia no projecto jornalístico e mediático mais interessante do Portugal actual. Ideologicamente aberto e arejado mas sempre acutilante. A secção "Correspondentes de Guerra" é prova disso, rasgando novos horizontes e reabrindo Portugal ao mundo - o de hoje. Parabéns, em especial, ao seu director, o Paulo Pinto Mascarenhas. O projecto contraria a velhice do Restelo que domina esse rectângulo à beira-mar plantado: Portugal está tremendamente atrasado na corrida ao Oriente.

Mais de quinhentos anos depois de termos sido os primeiros a marcar presença nas costas asiáticas, somos hoje os primeiros a primar pela ausência numa das mais importantes capitais diplomáticas do mundo - Nova Deli - e provavelmente os únicos a insistir em ignorar, negar ou simplesmente minimizar as transformações tectónicas a Norte e a Sul dos Himalaias. Felizmente há umas raras ilhotas de excelência lusas que pensam diferentemente. A Revista Atlântico é uma delas.

O número 14 está agora à venda perto de vós, nos bons quiosques, e longe de mim.

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Domingo pouco Domingo

Para mim, um Domingo pode ter vários avatares climatéricos. Aceito um Domingo chuvoso. Um Domingo primaveril. Um Domingo frio. Um Domingo veranesco. Agora, um Domingo deliense como o de hoje, isso não. 43ºC na sombra, o ar abafado, tempestades de pó e areia, isso não faz nem representa um Domingo em terra alguma que se preze. O pior são os cortes de energia. Cíclicos, à média de dois ou três por dia. Um primeiro pelo meio-dia. Um segundo ao fim da tarde, pelas seis. E um final – o mais prolongado e torturante – pela meia-noite. É uma luta constante entre os que se dão ao luxo de possuir um ar-condicionado (eu não) e as redes eléctricas sub-desenvolvidas e exaustas. Eu contento-me com banhos repetidos em água morna e as ventoinhas que se limitam a triturar o pesado ar. Há também a opção de ir para a biblioteca – com ar condicionado – e ler ou... dormir. E vem aí muito pior...

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Citações de Deli: Harish Khare

"Prime Minister Manmohan Singh has to be given the credit for realising that India cannot achieve its potential as a great nation as long as it remains mired in a bleeding confrontation with Pakistan. Having boldly stated to the Pakistani leader that boundaries cannot be redrawn, he is prepared to walk the extra mile. Like most sensible Indians, he too recognises that if India wants to be recognised as a major global player it will have to give evidence of its ability to iron out differences with countries in its own neighbourhood."

Harish Khare, reputado colunista e editor do The Hindu, in Who is afraid of peace with Pakistan?, 26 de Abril 2006

Imagens de Deli: Ladaque

Ao fundo, parte do complexo residencial que alberga o Dalai Lama, aquando da sua visita ao Ladaque. Estes miúdos ajudaram-nos quando, subitamente, a nossa mota avariou, a dezenas de quilómetros de Lê (a capital onde estávamos alojados). Do nada, apareceu então um monge budista. Enquanto que os miúdos, uns transeuntes e eu tínhamos tentado fazer o motor arrancar por dezenas de vezes, ao homem santo bastou uma tentativa. Não satsifeito, no seu traje laranja, desmontou a máquina e afinou-a. A vitória do espiritual sobre o material, ou a aliança entre as duas formas encarnada pelo monge, deixou-nos prosseguir a viagem em segurança.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Imprecisões linguísticas

Ahobhāgyā [? H. Aho, interj]. adj. & m.
1. adj. fortunate. 2. pl. unfortunate. 3. m. good fortune. 4. pl. ill fortune

É a língua Hindi na sua plenitude. Uma palavra com dois significados, totalmente opostos. O mesmo passa-se com kal (‘ontem’ e ‘amanhã’), namaste (‘olá’ e ‘adeus’) ou kam (‘trabalho’ e ‘sexo’). Diz muito sobre a civilização indiana e sobre a dificuldade ocidental em a compreender.

Mas, desculpem-me lá, como é que um país se pode entender e desenvolver assim? Tipo, eu digo ao meu estagiário que quero o trabalho feito para ontem, e ele me o apresenta só amanhã. Tipo, eu dizer adeus quando me despeço ao fim da manhã de uma namorada e ela me responde com um olá. Ou, tipo, no escritório digo à minha secretária que quero trabalhar em silêncio e privacidade e de repente ela me acusa de assédio sexual.

P.S.: Um prémio (visita guiada a Deli) para o linguista que conseguir descobrir o conceito gramatical que define uma palavra que tem significados opostos – se é que existe.

Comentário na RFI

Sobre a situação política no Nepal, entrevistaram-me ontem da Rádio França Internacional (RFI), edição portuguesa (Brasil). Até hoje à noite (Quarta), podem ouvir o meu comentário aqui, no Jornal deles, edição on-line. Começa ao minuto 14. Se quiserem mais opções, ou carregar por inteiro, vejam o site (Jornal das 20:30). Acho que costumam enviar para difusão na Rádio Paris-Lisboa (agora Rádio Europa FM), mas não sei se desta vez o fizeram também.

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Pontualidade indiana

Na semana passada prestei os meus serviços de intérprete à Embaixada do Brasil e a uma delegação de vinte economistas em visita oficial à Índia. Acompanhei-os durante três dias a várias instituições, incluindo a minha própria universidade e órgãos como a importante Planning Commission (que elabora os planos quinquenais para a economia indiana – um resquício do socialismo nehruviano) e demais federações de câmaras de comércio e indústria, bem como a Indian Economists Association, para além da minha própria universidade.

Para além da experiência enriquecedora em termos profissionais e de ter alargado os meus conhecimentos económicos sobre a Índia, observei repetidamente um fenómeno que marcava o final de todas as reuniões. Seguindo à risca o programa estabelecido, os responsáveis (directores, administradores, professores etc.) indianos terminavam cada encontro de forma abrupta, no momento exacto em que o ponteiro mais comprido do relógio apontava para a hora marcada para o fim da reunião. Sem papas na língua, alguns referiam mesmo “our time is over” e iniciavam os agradecimentos e demais formalidades finais, perante uma vintena de economistas brasileiros estupefactos, alguns dos quais já se tinham inscrito para colocar perguntas.

Claro, sem margem de manobra, não restava aos brasileiros nada mais do que aceder e terminar o encontro, os indianos desaparecendo nos corredores da sua instituição o tão rapidamente como tinham aparecido, à hora marcada. Transparecia então no ar brasileiro um pequeno estado de choque. A maioria estava disposta, talvez, a beber mais uns cafés e continuar a discutir depois ao almoço ou ao jantar, respectivamente. Pelo menos é o que me pareceu. O chefe de delegação chegou mesmo a mandar uma “boca” aos indianos, que educadamente (e controversamente) não traduzi, para não ferir susceptibilidades locais.

Esta experiência demonstra um fenómeno curioso. Nas altas instâncias governamentais, a pontualidade parece reinar na Índia. Talvez uma herança britânica. Mas note-se que não estabeleço a equivalência entre pontualidade e produtividade. Parece-me que é simplesmente uma tradição fortemente enraizada, uma forma de trabalhar bastante anglo-saxónica e norte-europeia; pouco latina, pouco brasileira.

Isto, no entanto, ao contrário do resto da sociedade, em que o conceito de pontualidade é tremendamente demissionário. Na semana passada realizou-se a cerimónia e festa de despedida para o meu ano, que termina agora em Maio o curso. Os convites anunciavam o início da festa para as 19:30, mas, até às 21:15, só se encontravam no local cinco gatos pingados, todos estrangeiros, eu incluído. Pelas 21:30, duas horas depois do início oficialmente anunciado, lá se reuniu a primeira vintena dos setenta estudantes convidados.

sábado, 22 de abril de 2006

Assimilação

Diz-se que a Índia sempre teve um grande poder de atracção, conquistando os seus invasores por via da assimilação. É o caso dos arianos em tempos imemoráveis, das dinastias islâmicas turcas da Ásia Central a partir do século X, do império mógul na época medieval e mesmo dos colonialistas europeus – basta recordar os Anglo-Indians e os casos de Goa e Pondichérry.

De certa forma, também eu estou a ser vítima deste poder indiano. Há um ano que ando numa mota, embora não tenha carta de condução válida, nem qualquer seguro ou título de propriedade, muito menos o certificado ambiental que agora também introduziram por estas bandas. Em vez de me dar ao trabalho dessa burocracia toda, preferi apostar no Siddarth Singh, o jovem polícia cá da zona, onde mais me movimento. É ele o principal responsável pelas operações Stop, escondendo-se por detrás de uma árvore, para, de repente, saltar para a frente de um veículo contra-ordenador e coligir o seu suplemento salarial mensal.

Depois de me apanhar algumas vezes e me deixar passar com umas multas simpáticas e muitas perguntas curiosas sobre o meu país, contra-ataquei e conquistei-o com um método indiano poderosíssimo. Ele tinha-me referido que colecciona moedas estrangeiras, e percebi logo a dica. Na semana passada parei voluntariamente quando passava por ele, sem capacete. Os condutores à volta estranharam um pouco, mas perceberam logo quando saquei da minha carteira para lhe colocar nas mãos umas moedas em Euros, Rupias do Sri Lanka e Bhats da Tailândia. Ficou combinado que para a próxima vamos beber um chá.

Imagens de Deli: Leh

Leh (Lê) é a capital do distrito de Ladakh (Ladaque), no estado de Jamu e Caxemira. Fica situada num vale estratégico, escavado pelo magnífico Rio Indus (bom para rafting) e numa das antigas rotas comerciais que as mulas e os mercadores percorriam, entre o Tibete, os planaltos indostânicos e as cordilheiras da Ásia Central. De maioria budista, com uma importante minoria muçulmana, o Ladaque é conhecido como o Tibete indiano, apresentando aos seus visitantes centenas de templos budistas (gompas) e maravilhosos circuitos para a prática do montanhismo, com os seus gélidos cumes que tocam os 7000 metros de altura.

Até à década de noventa o turismo aqui era restrito por imposições do Governo. Embora presença militar do Exército indiano ainda pese muito e haja áreas em que é necessária uma autorização especial de visita (especialmente nas zonas fronteiriças disputadas com a China e o Paquistão), hoje o Ladaque é um dos destinos turísticos preferidos na Índia. Não há ligação ferroviária e as duas únicas estradas (pistas) que aqui chegam só se encontram transitáveis no verão, entre Junho e Setembro. De resto, só mesmo voando.

Na imagem, o Palácio de Lê, sede da dinastia reinante até há três séculos atrás, quando o Ladaque foi conquistado e anexado pelos hindus e siques de Jamu. O palácio é visto como uma miniatura do seu congénere Potala, na Lhasa tibetana, mas respira pouca vida - os monarcas locais procuraram exílio em Stock, uma pequena vila a quinze quilómetros de Lê, onde ainda hoje residem os seus descendentes. Como tantas outras famílias reais indianas no pós-independência, perderam o seu esplendor. Ainda tentou a adaptação ao sistema parlamentar e a rainha local foi eleita como deputada pelo círculo de Ladaque, mas os seus descendentes sucumbiram ao caciquismo e ao despesismo, tombando no esquecimento e na periferia política da região.

Citações de Deli: V. S. Ramachandran

"Your blog, your i-way-, i-view, email, webmail - we are all being already assimilated into the brahman of cyberspace. What is the individual, but a node in this huge Internet? We are approaching that stage where we are becoming like the brain in the vat. "

Dr. V. S. Ramachandran, Director do Centre for Brain and Cognition na University of California, San Diego, em entrevista à Frontline. É autor do best-seller "The Emerging Mind", Profile Books, London, 2003

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Reino em perigo (Expresso)

Expresso, edição 1746, Internacional, 14 de Abril de 2006

Nepal: Confrontos ameaçam a frágil democracia

O tímido apoio popular à oposição democrática tem permitido evitar uma ruptura política definitiva no Nepal, apesar dos violentos confrontos desta semana

ESTA semana, violentos confrontos entre manifestantes pró-democracia e forças policiais e militares provocaram várias vítimas mortais e centenas de feridos na capital do Nepal, Katmandu. O recolher obrigatório foi violado por milhares de manifestantes, e centenas de políticos, jornalistas e activistas foram detidos. Os confrontos põem em causa a viabilidade da frágil democracia nepalesa, em vigor desde o fim oficial do absolutismo real, em 1990.

Há pouco mais de um ano, o soberano nepalês, Gyanendra, declarava o estado de emergência, demitia o Governo e acumulava, de forma absolutista, as funções de chefe de Estado e de Executivo. Declarou então que o fazia em nome da «paz, democracia e segurança» do seu pequeno reino hindu de 26 milhões de habitantes.

Mas as promessas reais esfumaram-se ao longo de 14 meses e o país submergiu numa profunda instabilidade, chegando a guerrilha armada maoísta (que controla quase dois terços do território) a cercar Katmandu.

Um dos partidos que se opõem ao monarca já reivindicou a instauração de uma nova República e os maoístas há muito que vêem a família real como símbolo de «despotismo e feudalismo medieval». Gyanendra tomou posse em 2001, depois de o príncipe e pretendente ao trono, Dipendra, se ter suicidado, após ter assassinado os seus pais monarcas.

O que, no entanto, parece ter adiado até agora uma ruptura maior é o tímido apoio popular à oposição democrática. Segundo uma sondagem recente, os nepaleses repartem as culpas pela crise actual de forma igual entre o rei, os maoístas e os partidos. Os receios que o fim abrupto da monarquia afunde o país no caos político e militar também contribuem para a reserva da opinião pública.

Mas para Jhalanath Khanal, ex-ministro pelo Partido Comunista do Nepal (CPN-UML), as manifestações desta semana espelham uma mudança. «Pela primeira vez, centenas de milhares de pessoas estão na rua. O rei não poderá resistir a esta oposição popular», afirmou ao EXPRESSO o deputado da segunda maior formação no Parlamento que Gyanendra dissolveu em 2002.

Acordo histórico.

Procurando estabelecer uma alternativa credível de governo, os sete principais partidos e os maoístas assinaram, em Novembro passado, um acordo histórico em que exigem um governo interino e eleições para uma nova Assembleia Constituinte. «Os maoístas saberão e deverão fazer parte desta transformação pacífica», diz Khanal, lembrando que os seus líderes se comprometeram com uma democracia multipartidária.

Também Narayan Wagle, editor do jornal «Kantipur Daily», defende uma nova Constituição e avisa que «se este processo democrático falhar, o Nepal sucumbirá à guerra civil». Wagle defende «sanções internacionais», para isolar Gyanendra, e que sejam «repostos os direitos cívicos elementares». A organização internacional Repórteres Sem Fronteiras estima que, em 2005, metade dos casos de censura registados no mundo inteiro tenha tido lugar no Nepal.

Contudo, a comunidade internacional tem-se mostrado reticente em apoiar as aspirações dos partidos. Os Estados Unidos têm criticado os «métodos autocráticos», mas apelam ao diálogo e à continuação da monarquia constitucional. Já a vizinha Índia receia o impacto da crise no seu território, onde vivem milhões de emigrantes nepaleses e operam grupos armados aliados dos maoístas.

O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, dependendo 80% da sua população da agricultura. Calcula-se que o conflito entre a insurreição maoísta e o Exército provocou, desde 1996, cerca de 13 mil mortos e mais de 100 mil refugiados internos.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Os indianos desaparecidos

Num país tão grande como o é a Índia, com 1030 milhões de pessoas, compreendo que haja dificuldade em saber com precisão, a cada momento, onde cada vivalma se situa. Ou apurar as décimas e as centésimas do crescimento demográfico, das taxas de natalidade ou da alfabetização.

O que, no entanto, mais me faz estranhar, é um curioso desaparecimento de, nada mais nada menos do que... uns 300 milhões de indianos. Os media internacionais, bem como os parcos livros publicados sobre a Índia contemporânea no estrangeiro, costumam, quase sempre, focar dois fenómenos socio-económicos quando analisam a demografia do país.

Primeiro, fazem referência à “gigante” classe média indiana que estimam normalmente situar-se entre os 300 e os 400 milhões de indivíduos. Referem-se a este estrato social como sendo o “motor” do crescimento económico, o banco de votos preferencial dos nacionalistas hindus do BJP e o símbolo da emergência de uma “nova Índia”, urbana e moderna, consumista.

Depois, na linha do “há sempre um lado oposto por explorar na Índia”, apoiam-se em estatísticas para falar dos que são “excluídos” pelas reformas económicas, a Índia das vozes empobrecidas, miseráveis e famintas, estimando haver, novamente, 300 a 400 milhões de pessoas a viver abaixo do limar da pobreza.

Ora, no melhor dos casos, faltam-nos aqui umas 230 milhões de pessoas. No pior, 430 milhões. Pergunto-me onde estarão estes indianos? A Índia merece um pouco mais de atenção. Não deixem escapar três ou quatro centenas de milhões, se faz favor. Talvez venham a fazer uma diferença considerável.

Imagens de Deli: Estação ferroviária em Sanchi

Estação de comboios de Sanchi, poucas dezenas de qulómetros a Norte de Bhopal, cidade capital do estado de Madya Pradexe. Esta pequena vila apresenta um conjunto monumental de templos e edifícios budistas (stupas), lembrando que a Índia é o berço desta religião e foi, em tempos, predominantemente budista. Sanchi é Património Mundial da UNESCO e um dos locais que mais gostei de visitar na Índia.

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Estados falhados

Há toda uma literatura teórica e uma recente fascinação académica pelo conceito de “estados falhados”, lastimáveis zonas negras do nosso mapa mundo em que não há rei nem roque e impera o imaginário da desordem, das AK 47, dos sucessivos golpes militares e de “capacetes azuis” desarmados cercados por tribais de canas e espadas em punho.

Por outro lado, há todo um misticismo à volta dos reinos tropicais ou montanhosos, rodeados de densa floresta quasi-impenetrável ou encostados a cumes cobertos de neve e gelo, em que o homem natural vive em perfeita harmonia com o ambiente e os seus congéneres, sob auspícios equilibradores do soberano, talvez uma encarnação de uma divindade mitológica.

Ao preparar o meu artigo sobre a situação actual no Nepal (sai amanhã no Expresso), deparei-me com estes dois imaginários e ideais. Já me tinha acontecido quando escrevi, em Agosto passado, sobre a “ameaça” do islamismo político que paira actualmente sobre o Bangladesh. Devo dizer que da mescla destes imaginários resultou uma visão mais realista e moderada das coisas do mundo.

Para dar mais profundidade aos textos, procuro sempre entrevistar individualidades nos respectivos países ou especialistas nas respectivas áreas. Lembro-me, que no verão passado, vi-me aflito para o conseguir no caso do Bangladesh. Tinham então passado poucos dias sobre os mais de 500 atentados bombistas que flagelaram dezenas dos seus distritos, de forma praticamente simultânea.

Não quero imaginar como será num caso de verdadeiro golpe de estado (situação que Daca já testemunhou várias vezes ao longo das últimas décadas), mas descobri então como é difícil sequer conseguir ligação telefónica para os meus entrevistados. Ou comunicar com uma panóplia de assistentes e secretárias que não sabiam falar inglês, para além do ensurdecedor ruído de fundo que marca as conversações e os repetidos cortes.

Ontem, passou-se o mesmo no caso nepalês em que o monarca Gyanendra (visto como uma encarnação da divindade hindu Vixnu) é oposto por milhares de manifestantes. O governo pôs as operadoras de telecomunicações móveis fora de serviço e a maioria das ligações de rede fixa para onde falei ontem estavam certamente sob escuta: vários editores (os que ainda não foram presos), alguns secretários e um ex-ministro e deputado do segundo maior partido (comunista: CPN-UML). Este último, claro, muito disposto a ser entrevistado, passou quase um minuto – na boa tradição estalinista – a enumerar todo e qualquer grupo profissional que dizia estar na rua a protestar contra o rei e espelhar “o povo unido”: “doctors, teachers, nurses, engineers, union workers, journalists, teachers, union workers, peasants, union workers” etc.

É interessante também observar a reacção dos entrevistados, depois de eu me apresentar e colocar-lhes o intuito do contacto. Perguntam, primeiro, para eu repetir o nome do país: “From where is your newspaper??”, mas safa-me o nome Expresso, familiar aos ouvidos anglo-saxónicos. Meu Deus, o que seria de mim se fosse correspondente do Diário de Notícias ou do Correio da Manhã. Desligavam-me o telefone na cara, provavelmente ofendidos. Depois as reacções repartem-se pelos que aceitam logo, os que dão o e-mail e dizem preferir uma entrevista por escrito (o que poder ser um “não” educadamente asiático), e os raros que querem mais detalhes, o meu nome, o do meu editor etc.

Embora depois destas experiências eu me sinta tentado a legitimar a teoria dos “estados falhados”, por outro lado, estou também inclinado a conceder que há pouco de “falhado” e que, afinal, a vida continua, seja em Lisboa, Deli, Daca ou Katmandu. Os jornais vão funcionando, os editores dão-se ao trabalho e ao tempo de me responderem por e-mail num espaço de poucos minutos e os políticos trabalham para o seu ganha-pão e popularidade. Salvo em casos extremos, talvez muitos deles em África, o resto do mundo está longe de ser composto por falhas. Há muito ainda por se realizar plenamente, é certo, mas, afinal, errar e falhar é humano. E estatal.

sábado, 8 de abril de 2006

Glorioso

Como qualquer ser humano jovem, ou menos jovem, também eu passo por cíclicas crises por coabitar há já quase dois anos com a mesma pessoa. Neste caso, é o Chacate, o moçambicano, que vive no quarto que dá para Sul (eu estou no meio e o quarto que dá para Norte é do americano Tyler, que já conheceram). Criam-se hábitos, descobrem-se defeitos. Convive-se diariamente, nocturnamente.

Ambos de um ramo em que tanto se debate apaixonadamente – as Relações Internacionais – e separados muitas vezes pela ideologia (ele, militante da Frelimo e namorado do marxismo-leninismo, eu não sei bem o quê, mas mais virado para a Tailândia), as discussões animam, aquecem e, por vezes, azedam rapidamente. O colonialismo, os Estados Unidos, Chirac, o Togo, os brasileiros, a democracia ou, simplesmente, a Índia levam-nos a isso. Mas, no cômputo geral, somos bons amigos. A vida em Deli juntou-nos, por acaso, e duvido que esse laço jamais desaparecerá.

Certamente, é a língua que mais nos aproxima. Já tinha reparado nisso durante a minha estadia em França. A língua tem um potencial enorme de juntar e separar as pessoas. Há muitas coisas que ficam por dizer quando dois interlocutores não partilham a mesma língua materna. Entendemo-nos em português, em Nova Deli. Se houvesse um Chacate nigeriano, que pudesse somente comunicar comigo em inglês, não seria tão amigo meu como este Chacate lusófono.

No nosso caso, no entanto, há um laço de união mais forte. Chama-se Sport Lisboa e Benfica. Vibramos, sofremos, exultamos com o Benfica, à distância de milhares de quilómetros. No ano passado descobrimos um canal de desporto indiano que mostrava os derbies lusos em directo, de madrugada. Este ano parece que não renovaram o contrato de direitos de transmissão, mas fomos compensados pela fabulosa campanha na Liga dos Campeões e com a sorte de nos calharem duas equipas inglesas como adversários, porque a Índia futebolística rege-se ainda pelos critérios britânicos e são esses os jogos televisionados.

De noite, já passa da meia-noite, reunimo-nos à frente do pequeno televisor no quarto moçambicano e sofremos igualmente, como dois benfiquistas, berramos, saltamos e abraçamo-nos a cada golo, bebemos cerveja, comemos amendoins e, quando a imagem desaparece porque o operador do serviço de cabo adormeceu, contentamo-nos com o relato radiofónico via Internet.

Às vezes encontramo-nos com outros estudantes estrangeiros e colegas indianos e vemos os jogos na universidade. Graças ao reduzido merchandising encarnado que possuimos e importámos de Lisboa, vários deles já se converteram ao Glorioso. Falta pouco e abrimos uma segunda Casa do Benfica lá na universidade, porque uma já temos, nesta casa lusófona.

O Luís Filipe Vieira que se deixe de chinesices e venha para a Índia. Em finais da década de cinquenta, o meu avô, então no Conselho de Desportos do Estado da Índia Portuguesa, trouxe a equipa de reservas do Benfica a Goa. Espero um dia vir a poder trazer Simão e Cia. a estas longínquas, mas não menos benfiquistas e gloriosas, terras. Em que há muitos que se dizem orgulhosamente benfiquistas... em português.

Imagens de Deli: Entrega de bilhas de gás

Aqui a Deli, ainda não chegaram as mini-saias da "menina do gás". Mas o serviço de entrega de bilhas de gás depende igualmente das pernas. Magras, suadas e pedalando.

O calor e o trabalho apertam

O calor - sim, Deli já namora a casa dos quarenta graus - e o redobrado trabalho nesta altura da época académica fizeram esta Vida em Deli desacelerar. Logo que amanhã voltar da minha apresentação de grupo "Sunset, Sunrise: France and China" na cadeira "Great Powers in the International System", voltarei a teclar e a postar sobre esta minha vida deliense.

terça-feira, 4 de abril de 2006

Imagens de Deli: Várzea em Goa

No extremo sul de Goa, no concelho de Canácona, perto da aldeia de Galgibaga. A meio da tarde, num quente final de Dezembro, correm-se as várzeas em busca do ingrediente principal da dieta goesa: o arroz. É assim há séculos. Será assim por poucos anos mais. Estive a pensar: ainda haverá pescadores em Lagos, no Algarve? Ou aquela costa toda já só depende do turismo? Receio que o mesmo possa vir a acontecer muito em breve em Goa. Com todos os benefícios e todas as desvantagem que daí advirão.

Back to the future

Há aqueles ditados que nos mandam ser romano em Roma. E outros que valorizam a sapiência das pessoas da “terra”, os locais. Há uma admiração dos modernos turistas pela tradição popular, que às vezes, supostamente, consegue mesmo derrotar os aparelhos, as máquinas e as ciências racionais. O tal camponês que sem relógio sabe acordar matematicamente – durante todo o ano – exactos cinco minutos antes de o sol nascer. São os pequenos mitos, alguns verdadeiros, que nos fazem lembrar que houve um mundo pré-moderno, tradicional, e que nós nos afastámos dele, munindo-nos de dependências materiais e científicas para maximizar produtividade, saúde, ou, simplesmente, pontualidade.

Politicamente manipuladas, estas emoções podem levar à recusa do moderno, à negação do avanço científico e tecnológico e explicam, talvez, a razão pela qual milhares de alemães e escandinavos que todos os anos abandonam as suas promissoras carreiras, as suas confortáveis casas e os seus colossais carros para irem vivem numa ilhota no Pacífico, numa aldeia rural indiana ou na floresta tropical africana em busca de algo primitivo e essencialmente puro. É o mito do bom selvagem na prática. As yogas, os zens, as Naturas e os sumos com polpa enquadram-se nesta onda.

Sem querer negar este direito ao auto-exílio e ao regresso à natureza a quem assim prefira, ponho, no entanto, em causa o mito que “o natural/tradicional é sempre melhor”. Lembro-me de, recentemente, estarmos numa pequena aldeia nos Himalaias. Tinha que apanhar um autocarro para outra aldeia. A família que nos albergava anunciou-nos com segurança e sabedoria que o autocarro partia sempre às nove da manhã, em ponto, há anos. Desconfiado e ocidental como sou, fui abrir o meu Lonely Planet de 2003 e este anunciava que o dito autocarro partia às oito e meia da manhã, todos os dias. Ou seja, meia hora mais cedo. Inseguro, e sem querer ferir susceptibilidades (ou seja, ocidentalmente), lá decidi seguir as instruções populares. Quando nos aproximávamos da avenida principal, pouco passava das nove da manhã, o autocarro passou velozmente por nós, deixando uma grande nuvem de pó e muitas certezas quanto à superioridade de quem faz guias turísticos à distância de milhares de quilómetros, algures em Sydney.

sexta-feira, 31 de março de 2006

Citações de Deli: Stephen P. Cohen

"In the view of some Americans, the Indian negotiating style consists of one stage in which Indian negotiators attempt to establish their moral superiority over their American counterparts. (...) Most American negotiators are so taken aback by what they perceive as Indian arrogance that they find it difficult to engage in lengthy and complicated negotiations with New Delhi. Indeed, the Indian style is a deterrent to negotiations."

Stephen P. Cohen, in "India, Emerging Power", (New Delhi: Oxford University Press, 2001), p. 86

Imagens de Deli: Corbett National Park

Corbett National Park, no estado de Utaranchal Pradexe, perto dos Himalaias. O parque alberga tigres e elefantes selvagens, crocodilos, águias etc. Os tigres em extinção, claro. Os elefantes mais e mais domesticados (estes, na foto, totalmente). Estive lá há um ano e vale a pena. Enquanto dura.

quinta-feira, 30 de março de 2006

Grandes pensadores

Estou a preparar um trabalho sobre a transformação do conceito indiano Swaraj (equivalente a auto-determinação ou independência) ao longo das primeiras décadas do século XX. Cubro o período 1906-1947, desde que foi primeiramente utilizado no discurso político do movimento nacionalista indiano, numa conferência do Partido do Congresso em Calcutá, até à data da independência.

Swami Dayanand, Tilak, Dadabhai Naoroji, Motilal Nehru.

Vagueando por entre as poeirentas prateleiras da minha biblioteca, lendo e folheando as velhas páginas de papel amarelecido, deparo-me com a imensa vastidão, em termos quantitativos e qualitativos, de grandes pensadores indianos. Editores, activistas, oradores, advogados, filósofos, religiosos: Há de tudo, une-os uma excelência devota à independência, uma capacidade crítica tremenda, uma relação franca e íntima com as massas populares.

M. G. Ranade, Tagore, Gandhi, M. A. Kalam Azad.

Há, claro, várias interpretações do conceito (o meu estudo versa justamente sobre essas disparidades) e várias correntes ideológicas. Mas o que mais me tem impressionado é o seu profundo conhecimento da civilização ocidental, a sua versatilidade na língua inglesa, as suas viagens pelo mundo inteiro, do Japão aos Estados Unidos. E, mesmo assim, a sua profunda dedicação e conhecimento da causa indiana, das particularidades do seu próprio contexto, levando-os a passar longos, às vezes infinitos, anos a apodrecer nas prisões.

Savarkar, Gokhale, Lajpat Rai, Bipin Chandra Pal.

E, claro, pus-me a duvidar: teve naquele período (porque depois disso, é óbvio que não) Portugal pensadores e homens deste calibre? Mais: tivemos, ao longo de todo o último milénio, pensadores e homens deste calibre? Sim, Portugal é um país pequeno e a Índia talvez uma civilização. Mesmo assim, às vezes é bom sair do armário e duvidar e questionar um pouquinho.

terça-feira, 28 de março de 2006

Passagem para a Índia

Atlântico, Abril de 2006, p. 33
Correspondentes de Guerra (crónica mensal)

PASSAGEM PARA A ÍNDIA
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

O ATLÂNTICO JÁ CHEGOU À ÍNDIA

"A Índia parece disposta a esquecer a herança não-alinhada, o namoro russo e mesmo a face pacifista, espiritual e oriental com que se apresentou durante quase um século. Esqueçam Brama, Vishnu e Shiva e as centenas de divindades que completam o panteão hindu. A malta agora quer é McDonald's, “outsourcing”, Disney Channel e NATO, de preferência a liderar."

É um excerto do meu texto-estreia na revista Atlântico, uma publicação inovadora e que merece ser seguida (e lida) com muita atenção. Com a "Passagem para a Índia" vou tentar soprar alguns ventos orientais para o panorama jornalístico e de opinião em Portugal. E explicar porque é que (não) é preciso ter medo da Índia. A revista (vejam a capa aqui) está nas bancas a partir desta Quinta-feira, 30 de Março. Como não a costumo encontrar nos quiosques cá da zona, façam-me um favor, e comprem-na por mim!

Imagens de Deli: Cartaz político na JNU

segunda-feira, 27 de março de 2006

Racismo e os africanos em Deli

Há certas regras que me parecem profundamente enraizadas na nossa maneira de pensar, pelo menos entre as pessoas minimamente moderadas e formadas. Uma delas, com que cresci, é a conhecida regra universalista e humanista, que estabelece que todas as pessoas são iguais. Que os seres humanos, independentemente da sua origem étnica, religião, estatuto socio-económio, independentemente de qualquer particularidade, têm as mesmas necessidades, os mesmos sentimentos e as mesmas aspirações. Neste sentido, o momento fracturante é o da nascença, porque, teoricamente, até esse momento, somos todos iguais, e só depois os caminhos e as ideias se divorciam, dependendo do contexto em que crescemos.

Contudo, a regra é moldada pela experiência e faz-nos crer que uns são mais iguais que outros. A historiografia ocidental, portuguesa incluída, confronta-nos com um passado em que, juntando a e b, somos levados a crer que o racismo é algo de predominantemente ocidental. Unilateral, da civilização branca para com as suas congéneres. Não quero dizer que nos ensinam isto nos livros (às vezes sim). Mas, expondo a regra da igualdade ao passado e à experiência do nosso dia-a-dia, acredito que a grande maioria associe o racismo às pessoas ocidentais e conceba o racismo de forma a ser um constituinte identitário, se não exclusivo, das pessoas brancas. Por exemplo, é raro abrirmos o jornal e ler que uma pessoa branca foi discriminada em Lisboa, sendo o caso contrário (um negro ou um asiático, por exemplo) frequente.

Talvez por isso esta minha experiência na Índia me esteja a surpreender. Estou a descobrir essa mesma associação inconsciente que praticava quando me movimentava por Portugal, pela Europa e pelo mundo ocidental. Estou a confirmar a regra básica e fundamental (todos são iguais), e a descobrir que embora a aplicasse em termos teóricos, não a praticava nem em termos analíticos, nem práticos. Não é portanto uma descoberta, mas simplesmente uma redescoberta.

Esta minha redescoberta prende-se com as minhas observações num centro comercial aqui das redondezas, onde passo algum do meu tempo livre. Frequentam-no muitos africanos, na sua maioria nigerianos, mas de muitas outras nacionalidades também. Encontram-se às dezenas em certos locais. Um desses, é o estabelecimento de chamadas telefónicas internacionais a custo reduzido a que recorre grande parte dos estrangeiros que reside na área. Enquanto nas minhas centenas de idas ao local vi eslavos, europeus, americanos e asiáticos utilizarem o serviço normalmente, sem reclamarem, e à saída entregarem a quantia devida ao funcionário, observei mais de meia dezena de episódios profundamente chocantes, exclusivamente com africanos.

O funcionário, que é gerente da loja em regime franchising, é um pequeno, magro e jovem indiano. Nos casos dos utilizadores africanos abusivos que observei, inventam reclamações, mentem e inventam de formas variadas (afirmam que não fizeram chamada nenhuma, que não havia sinal, que a chamada devia ser gratuita, que não trouxeram dinheiro, que ele os anda a enganar, etc.), passam para um tom de voz ameaçador e chegam a empurrá-lo e a abusá-lo com todos a assistirem. São obviamente grandes e fortes e nem o velhinho segurança de carabina na mão intervém nesses momentos, deixando-os sair calmamente sem pagar. Há dois anos que observo estes episódios no mesmo local.

Ontem, no McDonalds, assisti a outro caso similar. Numa loja repleta, rodeados de famílias e crianças, dois africanos exigiam troco de mil rupias do operador de caixa, quando lhe tinham entregue somente quinhentas (embora afirmassem o contrário, eu próprio vi que tinham dado só quinhentas). Empurraram violentamente as pessoas à volta, gritaram que iam partir a loja toda quando voltassem, insultaram os operadores indianos que respondiam com um silêncio amedrontado. E saíram depois, a sorrir.

Outro caso que já observei nas ruas de Deli é a maneira autoritária e mesmo violenta com que muitos africanos tratam os condutores de riquexó. Como já vos escrevi anteriormente, os condutores de riquexós são, na minha opinião, da classe empregada mais discriminada na cidade. Os africanos aprenderam rapidamente. Já assisti a episódios em que esmurraram condutores, entre outros abusos físicos e verbais. Novamente, nunca vi nenhum outro estrangeiro comportar-se de tal forma.

Os três exemplos terão que ser testados. Primeiro, será este comportamento reflexo de uma condição socio-económica marginal? Será possível explicar que os africanos se comportam assim porque têm um estatuto diferente dos restantes estrangeiros em Nova Deli? Não. Vestem-se bem, têm telemóveis topo de gama, e embora alguns estejam envolvidos em redes criminosas (especialmente nigerianos), vivem na sua grande maioria em condições económicas boas, muitos dos casos que observei envolviam mesmo diplomatas ou os seus familiares e estudantes E, para contrastar, escuso de lembrar a pobreza em que vive a grande maioria dos indianos em Nova Deli.

Segundo, será este comportamento reflexo de um sentimento de discriminação? Será que os africanos são igualmente discriminados e violentados na sua integridade? É possível. Os indianos tratam as pessoas negras com um profundo desrespeito e desconsideração, num racismo primitivo que é expandido, até em centros urbanos e em universidades como a minha. Mas isto só vem confirmar a minha perspectivas, de que todo e qualquer ser humano tem potencial igual para discriminar racialmente. Contudo, devo dizer que tenho as minhas dúvidas se o comportamento africano em Nova Deli se deve somente a este estatuto de vítima. Seria desculpabilizar a vítima, coisa que a priori não gosto de fazer. Nunca vi um indiano bater num africano, mas ao contrário sim. E isto numa cidade em que os africanos são uma minoria ínfima.

Terceiro, e é esta a questão fundamental, são os comportamentos acima descritos baseados numa crença racial, ou simplesmente reflexo de uma expressão e forma de viver cultural, diferente da dos indianos e de todos os outros estrangeiros que vivem em Nova Deli? Aqui, igualmente, recuso refugiar-me no relativismo cultural, ainda por cima tendo a experiência da observação do meu lado. É complicado ler o que vai na mente de uma pessoa, mas em todos os casos de abusos e violência africana contra indianos, estava lá o elemento racial, nas palavras, na expressão facial ou nos gestos. Um ódio não para com a pessoa violentada, mas um ódio e um ataque ao indiano, à pele castanha, ao cabelo oleoso, ao corpo frágil e magro, ao despojado e fraco.

Teria tido as minhas dificuldades em escrever este texto em Lisboa. E teria tido medo de estar a minar a própria regra em que acredito – que a raça não predetermina comportamentos – e de estar a legitimar um racismo contra as pessoas negras, contra os africanos. Isto só confirma a minha suposição que seguimos uma regra na teoria, mas só a aplicamos parcialmente na prática, que temos medo de compreender as coisas realmente de forma igual e que sofremos daquilo a que muitos chamam “white man’s burden”. Felizmente a Índia confrontou-me com esta experiência e me ajudou a compreender que, de facto, todos somos, ou podemos ser, igualmente racistas ou vítimas de racismo.

sábado, 25 de março de 2006

Citações de Deli: João Lin Yun

"...sem formação de recursos humanos especializados, sem investigação e inovação, os Estados Unidos e a Europa em geral, e Portugal em particular, arriscam-se a ficar para trás, a perderem a qualidade de vida que actualmente possuem. Nos tempos actuais, já não é impensável que durante o século XXI, o centro de gravidade do mundo se desloque progressivamente da Europa e Estados Unidos para a Ásia, e que um dia, os netos da actual população mundial pensem em ir a Pequim ou Nova Deli para estudarem, para fazerem os negócios mais importantes, ou para procurarem uma vida melhor."

João Lin Yun, in "Século XXI: o século da Ásia?", Expresso (Economia), Sábado, 25 de Março 2006

sexta-feira, 24 de março de 2006

O sagrado é moderno?

Tenho ido a alguns casamentos hindus e tenho no currículo a ida a dezenas de casamentos católicos em Goa. Quanto a cerimónias religiosas em geral, a experiência não abunda, mas chega para eu começar a duvidar: o sagrado não será moderno?

Não há escapatória: em todas as cerimónias religiosas a que assisti neste subcontinente, sempre me pareceu que houvesse uma profunda falta de respeito pelo sagrado, pelo religioso ou pelo formal.

Explico-me: numa festa de casamento hindu, enquanto que os pânditas executam rituais religiosos com os noivos e os seus familiares mais íntimos, as centenas de convidados não se dignam sequer a lançar um olhar para o pequeno pedestal que suporta a cerimónia, continuando a dançar histericamente ou a comer, a beber e a conversar como que se nada se passasse.

Já as dezenas de fotógrafos e operadores de câmara – profissionais contratados para a cobertura ou simplesmente familiares interessados em gravar o momento – também não têm o mínimo pudor, empurrando-se uns aos outros, puxando os pânditas pelos ombros e empurrando os noivos para frente ou para trás, em busca do melhor ângulo possível.

O que me chocou a mim, a falta de respeito pelo momento sagrado, talvez seja simplesmente um conceito moderno. É que o desrespeito a que assisti aqui não é voluntário, consciente. É aceite por todos, é prática e norma. O casamento é uma festa, acima de tudo. Aqui parece que foi sempre assim. Não há mal dançar enquanto que ao lado os noivos recebem uma benção. Não é preciso estar alinhado, de pé, a fingir interesse, respeito e veneração pelo ritual.

Posso estar enganado. A modernidade, o consumismo e o afastamento da tradição estão rapidamente a ganhar terreno na Índia. Nesse caso, os sujeitos que bamboleavam freneticamente os seus corpos na pista de dança enquanto que os pânditas cobriam os noivos de fumos e benções, estariam somente ofuscados pelo entretinimento, olvidados da essência formal e sagrada do momento. Perguntei a uns colegas se sempre foi assim, para resolver a minha dúvida. Ninguém sabia bem. Ou não compreenderam a pergunta: “qual é o mal de estarmos a dançar?”, retorquiu um, afirmando em contra-ataque e esclarecendo as minhas dúvidas: “não é igualmente sagrado festejar e celebrar o casamento do meu amigo dançando?”.

Mas, naqueles angustiantes momentos em que me vi confrontado com uma cena que no Ocidente seria implacavelmente identificada como escandalosa e desrespeitosa, e em que procurava insistentemente um ponto de referência ou uma explicação lógica, veio-me esta ideia à cabeça (pouco original, em termos académicos, bem sei): não terá sido a modernidade a inventar o sagrado, a salientar a importância dos rituais e a exigir respeito e veneração, especialmente pelo religioso? A cena a que assisti, não será prova disso mesmo, da ausência ou da especificidade da modernidade na Índia?

Devo legitimar esta minha ideia com uma experiência própria, que talvez a possa fundamentar. Não me posso categorizar como um produto da diáspora, porque conhecerão os meus pontos de vista em que ponho em causa a comunidade goesa em Portugal como uma verdadeira diáspora ou minoria étnica. Mas tenho certamente alguma experiência diaspórica. Uma delas diz respeito ao relacionamento com o sagrado.

Explico-me: longe das origens, e perante a confrontação com um novo contexto cultural, as comunidades diaspóricas do século XX enamoraram-se (e o namoro continua) com o moderno. Prova-o a sua íntima ligação ao nacionalismo e à nação. Mas, para além da nação, a sua relação com o moderno levou também a este respeito para com o sagrado. Sempre me foi incutido este respeito por certos rituais e certos símbolos ou instituições, apresentadas como inquestionáveis. Ora, na minha redescoberta de Goa, e da Índia em geral, deparo-me de repente com um mundo diferente, em que sou por vezes o único a venerar de forma tão sagrada e formal esses rituais, símbolos e instituições, enquanto que os autóctones têm uma relação muito mais descomplexada, natural e informal com as mesmas, ou seja, pré-moderna.

No meu caso, por exemplo, é vestir-me de fato e gravata para um baptizado em Goa e andar semanas a tentar decorar as rezas e respostas correctas, em pânico por medo de vir a infringir o ritual e eventualmente vir a ser ostracizado, para depois constatar que o meu primo (pai do bébé) vai à cerimónia de camisa de mangas curtas, depois de beber uma cerveja, e durante o ritual se lembrar de perguntar ao padre “e o que é que eu digo agora?”, e este lhe responder com a maior das naturalidades.

O fenómeno diaspórico é somente um exemplo, o mesmo podendo acontecer em outros contextos. Mas penso que retrata de forma mais clara porquê o sagrado é talvez menos tradicional do que pensamos, e até bastante moderno. E, seguindo a minha lógica, os ocidentais continuam a ser bem mais modernos do que pensam e muito mais modernos ainda do que os indianos, por exemplo. Mas há também casos em que a modernidade ocidental se transpôs com sucesso para o Oriente e cá resiste com mais força do que no Ocidente. Veja-se por exemplo o que fez o colonialismo e a modernidade ocidental de cariz britânica vitoriana à sexualidade na Índia... mas isso fica para outra vez.

quarta-feira, 22 de março de 2006

Citações de Deli: Gail Omvedt

"Admitting the existence of caste - and of the major anti-caste movements - is the first setp towards dealing with it. All societies in the world today have similar problems - race, ethnic conflicts etc. Yet the favoured policy in India today is to revel in the infatuation of 'India Shining', a high rate of economic growth, a surging stockmarket, a new elite 'Generation Me' whose self-confidence, experimentation (sexual and otherwise) is featured in every other issue of national newsmagazines. What goes forgotten in the official dream are the still burgeoning inequalities - regional, caste and class - farmer's suicides in the face of a drought-ridden and technologically backward agricultural sector, superstitions, riots and atrocities against women and dalits."

Gail Omvedt, in Tehelka, edição de 11 de Março 2006, referindo-se à recente obra DeBrahmanising History, de Braj Ranjan Mani.
Um conjunto de afirmações que reflecte bem uma das tendências intelectuais mais em voga no mundo académico indiano. Exagerando (na minha óptica), não deixa de ter mérito, porque aponta para uma outra Índia - menos emergente, mais submergente - e abre os olhos a quem de longe, ou aqui mesmo, se deixa ofuscar por uma Índia supostamente brilhante.

Imagens de Deli: Chá

Em qualquer esquina, na margem de qualquer estrada ou avenida, por debaixo de qualquer telheiro, na Índia basta pouco para fazer e vender chá. Chamam-lhe "chae", e há diversas variantes, sendo a base o chá preto, variando depois a quantia de açúcar ou outras especiarias (o masala picante, por exemplo) a adicionar. Nas manhãs frias do inverno o chae faz aquecer. Nos tórridos dias de verão faz as pessoas transpirar e arrefecer. Depois das refeições picantes, adocica a língua e suaviza a garganta. Nas noites de estudo desperta a mente entorpecida. Por duas, três, quatro ou cinco rupias, ou mesmo de borla se fruto da amizade, o chae é um dos símbolos da Índia, uma das suas imagens de marca e o sustento de uns tantos milhares, servido a ferver nos grossos copos de vidro ou nos finos copitos de papel.

domingo, 19 de março de 2006

Citações de Deli: Lakshmi Mittal


"Europe must continue to look outwards. I have watched the growth of a united Europe - the move away from narrow nationalism - with admiration. (...) The danger, though - and there have been signs of this recently - is that Europe begins to demonstrate a return to more nationalist sentiment".

in The Hindu, 19 de Março 2006

O magnata indiano Lakshmi Mittal, um dos homens mais ricos do mundo, numa palestra no 4th European Business Summit, em Bruxelas. O dono da maior empresa produtora de aço no mundo, a Mittal Steel, refere-se assim à sua controversa oferta de aquisição da Arcelor, uma multinacional produtora de aço do Luxemburgo, França e Espanha. A sua ofensiva foi recebida mais com surpresa do que com hostilidade. Apanhou a Europa desprevenida. E este é só o começo da história. Não deixando de ser pedante e forçada - regra geral quando empresários se põem a falar de política internacional - a afirmação de Mittal tem uma importância mais profunda e simbólica, ainda por cima proferida no centro nevrálgico comunitário europeu: é um claro sinal dos tempos.

sábado, 18 de março de 2006

Imagens de Deli: Cicloriquexó

Estes são os cicloriquexós (cycle-rickshaws) que continuam a ser muito utilizados por toda a cidade. Transportam um pouco de tudo, sempre puxados por musculadas e pobres pernas pedalantes. Uns 2 km, incluindo subidas e descidas e tudo o que couber na caixa, custam menos de um Euro. Neste caso, parecia que a carga ou o cansaço eram demasiados, mesmo com a ajuda dos dois miúdos que pareciam estar mais interessados na minha objectiva. Os objectos são pequenas lamparinas de decoração utilizadas em festas, especialmente casamentos.

quinta-feira, 16 de março de 2006

Disclaimer

Tenho reparado que a maioria dos estrangeiros, e mesmo alguns indianos, começam sempre com um aviso inicial, tipo disclaimer, antes de lançarem alguma opinião geral sobre “a Índia”, acerca “deste país”, ou relativa aos “indianos”. Esse aviso versa quase sempre assim: “Claro que há uma diversidade enorme, mas falando em termos gerais...”. Afinal, a Constituição reconhece oficialmente mais de duas dezenas de línguas, para além de haver perto de um milhar de idiomas e dialectos falados de Norte a Sul, dezenas de religiões que se professam activamente de Leste a Oeste, centenas de divindades que recheiam o panteão hindu (com nomes de A a Z), dezenas de grupos étnicos (dos arianos aos descendentes de zulus) e centenas de castas e subcastas (dos brâmanes aos intocáveis). Mais e mais acredito que na Índia tudo é verdade, e o contrário também.

Imagens de Deli: JNU Library

sábado, 11 de março de 2006

Plástico e a economia indiana

Uma das coisas que mais me intrigava quando visitava Goa na minha infância, era o hábito de as pessoas manterem os plásticos de embalagem à volta dos produtos recém-comprados. A prática, para além de enigmática e misteriosa, provocava em mim uma profunda irritação, porque a achava contrária às regras elementares da usufruição, do consumo, do produto.

O local em que mais vezes me sentia confrontado com esta prática era no interior dos automóveis. O carro do meu primo, por exemplo, tinha todo os bancos e mesmo o manípulo das mudanças coberto por plásticos transparentes. Ruidosos e pegajentos com a humidade das monções, marcavam presença e resistiam quase um ano depois do carro ter sido comprado, mesmo esfarrapados e sujos.

Nos interiores das casas, a prática repetia-se. O comando da televisão continuava naquele santo invólucro plástico, impedindo mesmo a sua correcta utilização, por vezes escorregando os dedos para um botão errado.

Os computadores e demais aparelhos electrónicos, a mobília e mesmo o frigorífico era alvo desta cobertura plástica de embalagem, e achava aquilo um pouco como utilizar presentes de Natal ainda embrulhados. Para mim era um mistério porque é que as pessoas não davam aquele rasgo final, depois de retirarem o produto da cartolina, e libertavam o bem daquele asséptico e asfixiante cerco sintético.

Vários anos depois, em Nova Deli, volta-me tudo à memória quando me sento nas salas de aula e vejo os bancos e as mesas de madeira ainda semi-cobertas de plástico de embalagem. Mesmo nos novos auditórios, que se querem topo de gama, os plásticos mantêm-se renitentes, colados à madeira das mesas e aos estofos das cadeiras e às poltronas, durante e meses após a inauguração oficial. Nas salas de informática os teclados dão-nos iguais boas-vindas, tornando um e-mail numa sinfonia plástica.

Obrigado a confrontar-me com esta prática, um pouco por todo o lado, vejo-me forçado a tentar a lê-la e compreendê-la. Explicam-na, na minha opinião, dois fenómenos. O primeiro, está relacionado ao clima indiano. O plástico, embora não deixe respirar, protege os aparelhos electrónicos e até certo ponto a mobília também. As monções trazem aqui uma humidade avassaladora que penetra tudo e todos. O verão traz temperaturas e um fino pó que cobrem tudo e todos. Neste sentido, a prática de manter os plásticos de cobertura prende-se com a necessidade de proteger o bem.

Há no entanto uma segundo fenómeno explicativo. O plástico representa um estatuto económico, logo social. O plástico simboliza a novidade, o consumo e, geralmente, o moderno. Quando alguém entra em casa e se senta numa cadeira forrada daquele fino plástico, mesmo que não veja a madeira ou o seu material, sabe imediatamente que é um produto novo.

Mas mais do que novo, estes são bens produzidos em série, isto é, os produtos das novas indústrias da economia de mercado indiana. O plástico é portanto o rótulo de garantia que distingue os novos produtos capitalistas, de marca, dos produtos tradicionais, oriundos da economia tradicional, ou seja, da garagem de artesanato da esquina, do carpinteiro da aldeia ou da pequena indústria pública da região, que vêm embalados em papel de jornal reciclado e protegidos por palha.

O plástico é pois símbolo de status na Índia. Asfixia os produtos, mas protege-os do clima, representa novidade e traduz capacidade de compra e integração do dono na nova economia de mercado.

quinta-feira, 9 de março de 2006

Citações de Deli: Gandhi

"It is necessary that civilization (Eastern) should come in contact with the West, it is necessary that civilization should be quickened with the Western spirit. Immediately that fact is accomplished, I have no doubt that the Eastern civilization will become predominant, because it has a goal. (...) There is no such thing as Western or European civilization, but there is a modern civilization, which is purely material."

Mohandas Gandhi citado em "The Selected Works of Mahatma Gandhi, Vol. VI: The Voice of Truth" (Ahmedabad: Navajivan Trust, 1968), p. 441

Imagens de Deli: Arundhati Roy (ou A Esquerda na Índia)

A senhora em primeiro plano dispensa grandes introduções, creio. Vencedora do Booker Prize com o seu God of Small Things que encantou meio mundo, escolheu a vida Robin Hood. Decidiu abandonar a promissora carreira literária nas luzes da ribalta global (especialmente ocidental) para passar a ser uma das mais célebres activistas sociais e políticas da Índia. Participa e dá voz a uma extensa lista de movimentos pelos direitos humanos, ambientalistas etc., denunciando aquilo o que poucos têm coragem de denunciar (a situação na Caxemira).

Pensam que deixou de escrever, só porque nunca mais ouviram falar dela ou viram o seu nome nas prateleiras da FNAC? Errado. Escreveu mais uma meia dúzia de obras, só que sobre temas mais incisivos, sobre a democracia, movimentos sociais indianos e ao que chama o "imperialismo norte-americano". Neste último ponto tenho obviamente as minhas divergências com a senhora, especialmente sobre a maneira superficial, primitiva e diabólica com a qual caracteriza o Dr. Bush, uma maneira que encontra aliás melhor expressão na caricatura ao fundo da fotografia.

Tirei a foto durante um "anti-Bush meeting" na minha universidade, em que Roy foi também oradora. Na manifestação do dia seguinte, no centro da cidade, que reuniu alguns milhares de pessoas, Roy juntou-se ao que eu identifico - sem hesitações - como a emergência da esquerda radical indiana urbana e chique, que vive em condomínios de luxo estanques à miséria vizinha, que viaja por todo o mundo em executiva para participar em workshops e conferências patrocinadas pelas instituições internacionais que depois critica em público, que envia os filhos para estudarem nos Estados Unidos e que... come caviar ao pequeno-almoço.

Deixem-me moderar esta minha crítica. Este fenómeno é por enquanto reduzido e minoritário - dominando ainda a monolítica esquerda marxista e maoísta em vastas regiões e círculos intelectuais do país. Mas não deixa de ser paradoxal que esta esquerda-chique anda de mãos dadas com aquilo que supostamente mais condena e despreza: a globalização.

Uma nova ordem nuclear mundial (Expresso)

EXPRESSO, Edição 1740, 04.03.2006, Internacional

Uma nova ordem nuclear mundial

Índia assina acordo de cooperação nuclear

«HOJE fizemos história», disse o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, no final da conferência de imprensa conjunta com George W. Bush, na quinta-feira. O acordo de cooperação para a energia nuclear estabelecido entre a Índia e os Estados Unidos, no decurso da visita de três dias do Presidente americano, concede àquela um novo estatuto nuclear, convida-a a participar no reactor experimental de fusão termonuclear (ITER) e aproxima-a mais do que nunca aos Estados Unidos. Razões de sobra para comemoração.

Sexto maior consumidor mundial de petróleo, importando 70% das suas necessidades, a Índia procura alternativas para o sector energético e quer garantir o crescimento económico anual de 8%. O seu programa nuclear foi iniciado nos anos 60, com ênfase no sector militar, tendo o civil permanecido sub-aproveitado e contribuindo em menos de 2% para a produção energética.

Mas o facto de a Índia nunca ter assinado o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e de ter sido alvo de sanções internacionais depois de ter realizado testes atómicos em 1998, conferiu-lhe um papel de pária, que agora deverá cessar.

Índia nuclear.

O acordo permite também a Nova Deli afirmar-se no plano internacional. No Parlamento, Singh disse mesmo que ele «criará espaço para a Índia emergir como membro pleno de uma nova ordem mundial nuclear». Estima-se que a Índia mantenha várias dezenas de ogivas nucleares e mísseis balísticos com alcance superior a dois mil quilómetros.

O Governo conta, porém, com forte oposição interna. Cientistas indianos receiam que as condições impostas pelo acordo (separação do programa civil do militar e inspecções internacionais) venham a pôr em causa a independência de um sector estratégico que se encontra em franca expansão (ver infografia).

Nas várias manifestações de protesto organizadas durante a visita de três dias de Bush, Singh era acusado de «sucumbir ao imperialismo americano» e de «esquecer a tradição não-alinhada do país».

Para Manosh Joshi, membro do Conselho Consultivo para a Segurança Nacional, a nova orientação é menos dramática. «A diplomacia indiana está a adaptar-se há já vários anos às novas realidades», declarou ao EXPRESSO, lembrando que «relações mais positivas com Washington irão cimentar a sua emergência e satisfazer também o desejo americano de conter a China na Ásia».

O ex-diplomata minimiza os receios da Índia fazer proliferar tecnologia nuclear, apontando para o seu passado «responsável, em contraste» com o vizinho Paquistão.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

terça-feira, 7 de março de 2006

Black market

Estou a viver um dos momentos mais angustiantes da minha experiência académica por terras asiáticas e já receava isto há muito tempo. Enquanto eu revejo regras elementares que nos foram ensinadas à pressa e de forma um tanto desleixada, num primeiro ano de licenciatura em Relações Internacionais na Nova, os meus colegas indianos, como que por milagre, parecem que nasceram com elas no sangue. Em Principles of Economic Organization começo a compreender, in situ, a capacidade e o potencial económico da Índia. Só resta deliciar-me com as ingénuas presunções de economistas: "It is unlikely that all of the output will be sold on the black market - both because there are some honest people in every society and because the central authorities usually have some power to enforce their price laws" (Introduction to Positive Economics, p. 103, Lipsey; negritos meus). Porque é que fico com a sensação de que isto assim não se aplica de todo à Índia?

A Vida em Deli no Acidental

Seguimos o alfabeto. Depois do Abrupto, agora o Acidental a dar voz à Vida em Deli (o próximo blog a recomendar-nos: talvez o Ad Limina Apostolorum?). Porque há quem saiba reconhecer que a Oriente há algo de novo. Não se trata de uma recomendação acidental a esta vida (a atenção dada à Índia é reincidente). Porque nada é acidental no Acidental. Bem pelo contrário, algo delineado a longo-termo, com tronco, cabeça e membros, muitos membros. A não perder, se um dia não se quiserem deixar surpreender.

Goa desmoronando-se

Several hundred Hindu protesters stormed a police station in a town in the coastal state of Goa on Saturday, demanding the release of 37 men arrested during violent Hindu-Muslim clashes in the area. The protesters defied a police curfew imposed after three days of clashes, sparked when suspected Hindu extremists destroyed a mosque in the town of Sanvodem.

Quem diria? 451 anos de colonialismo português empalidecem em relação ao que se passa em Goa nestes dias. Quem adivinharia? O violento vírus fundamentalista hindu, o caos migratório e o vácuo identitário goês, enraizando-se na terra vermelha, por entre cajueiros e mangueiras, zatras e ladainhas, paz e tolerância.

Quem arrisca a interpretar? Eu: 45 anos de Goa indiana destruíram aquilo o que os "colonialistas, sanguinários, inquisidores, violadores, piratas e missionários" não conseguiram destruir em 451 anos de Goa portuguesa. Que tristes dias estes, em que os próprios goeses assistem impávidos, passivos e mesmo compreensivos ao desmoronar da sua sociedade.

Em nome de nada e de ninguém. Contra o passado e o contra futuro.

Imagens de Deli: Músicos de casamento


Grandes bandas de músicos animam os casamentos indianos, acompanhando a noiva, o noivo e outros cortejos familiares das residências até ao local da festa. Há várias empresas que fornecem este tipo de serviços. As mais baratas limitam-se a juntar uns homens pagos à hora e em cima da hora, enfiá-los nuns fatiotes de papel ou cartolina e a pô-los a fazer o máximo ruído possível, munidos de tambores e cornetas. Já as mais profissionais presenteiam a audiência com autênticos espectáculos, atraindo multidões às ruas, para os ver e ouvir.

O negócio, nestes meses de Fevereiro e Março, é da China. Dependendo dos conselhos dos astrólogos, há dois ou dias marcados em cada ano em que as condições cósmicas são as mais favoráveis à união (mas as datas variam, é claro, mediante vários outros critérios, especialmente a disponibilidade do espaço). Há portanto datas (normalmente em finais de Fevereiro) em que se festejam só em Nova Deli quase um milhar de casamentos, ao mesmo tempo, na mesma noite.

Em cima, uma recepção à porta de casa de um noivo, em frente ao meu antigo prédio. Em baixo, três músicos já um tanto exaustos, ao final da noite, à espera de pagamento.

quinta-feira, 2 de março de 2006

Sempre a abrir

Hoje a Índia foi sempre a abrir. De repente conquistou as linhas de topo da actualidade jornalística, os editores lembraram-se que têm correspondente na Índia ou procuraram urgentemente comentadores especialistas na matéria para comentários. É assim, quando o imperador, ditador, libertador, aliado, inimigo, amigo ou simplesmente Presidente dos Estados Unidos da América decide vir visitar o maior país do sub-continente asiático. Ainda por cima quando a questão principal da conferência de imprensa mete a palavra "nuclear", isso é a cereja em cima do bolo mediático.

Portanto, o dia foi igualmente diabólico para mim, embora tenho tido menos sorte do que quando pude entrevistar o Zé Manel. Fiquei cá em casa, ouvindo sirenes e manifestações lá fora, montando o meu quartel-geral jornalístico lusófono em terras indianas. Logo de manhã liga-me a simpática jornalista Gisela Heymann de Paris, da Radio France International - Emissão Brasil/Lusofonia, a pedir comentário meu ao acordo nuclear que tinha acabado de anunciar. Se forem a este link ainda hoje, e ouvirem a segunda notícia, ouvirão uma amostra da entrevista mais longa, que, ao que parece, também foi transmitida na Rádio Paris-Lisboa (RPL) aí em Portugal.

Depois de lhes enviar um lembrete de que se passava algo nuclear pelas Índias, também me pediram uma peça da Rádio Renascença que podem ouvir neste link (uma parte só, claro) e que foi para o ar no jornal das nove da manhã e, presumo, em noticiários subsequentes. É a minha terceira peça radiofónica, calma, vou melhorando!

E claro, para o maior semanário luso, seguiu um artigo especial de análise, que deverá ser publicado no Sábado (Internacional) e que poderão ler se decidirem comprar o saco de plástico que foi do Saraiva.

Tudo isto custou-me um dia inteiro de trabalho, embora até seja uma matéria com que estou familiarizado e em que já tinha a entrevista feita. Um dia inteiro de estudo, também, porque amanhã há exame a "Indian Electoral Systems and Processes".

Imagens de Deli: Tyler Walker Williams

Apresento-vos um dos meus dois companheiros de apartamento, o Tyler. Norte-americano de gema, formado em Berkeley, Califórnia, é um verdadeiro especialista em hindi. Vive há já vários anos na Índia e depois do seu M.A. está a tirar agora o M.Phil. em Hindi na JNU, School of Languages. Isso é como um chinês vir a Portugal e fazer o mestrado em Estudos Portugueses / Linguística aí numa universidade. É aliás o meu professor no curso hindi intermediate para estrangeiros.

Mas a faceta mais peculiar é a sua afiliação política. É membro de um dos movimentos estudantis mais radicais, chamado AISA (All-India Students Association), braço académico de um dos partidos comunistas mais ferrenhos na Índia e que mantém uma posição muito ambígua perante a democracia parlamentar de cariz liberal. Tyler conseguiu um feito inédito nas eleições para a Associação de Estudantes (Student's Union, JNUSU). Cada faculdade tem os seus representantes e ele foi eleito, como estrangeiro e ainda por cima americano, para um desses postos.

Para terem uma ideia da importância destas eleições, na noite de contagem de votos há vários carros de exterior das principais estações de televisão a transmitir em directo, e os resultados chegam mesmo a fazer capa nos jornais nacionais do dia seguinte. No ano passado Tyler foi obviamente dos assuntos mais discutidos e os movimentos estudantis mais radicais (afiliados aos nacionalistas hindus do BJP) ameaçaram mesmo apresentar queixa-crime na esquadra da zona (porque isto de estrangeiros candidatarem-se em eleições internas e assumirem cargos é assunto delicado, vide o caso da italiana Sonia Gandhi).

Tyler é desde então uma das faces políticas mais conhecidas do campus universitário. Trabalha até à exaustão, dá o curso aos estrangeiros, explicações a mais meia dúzia de estrangeiros pela cidade fora, é Vice-Presidente da Foreign Students' Assocation, toca baixo numa banda de jazz, entre outros. E embora cá em casa, desde o início, se tenha imposto um acordo de cavalheiros para não falarmos de política e evitar conflitos maiores, Tyler é alguém com que me tenho entendido supreendentemente bem, discutindo e debatendo saudavelmente qualquer tema e eu aprendendo bastante, muito embora a sua inclinação ideológica me tenha criado um calafrio a priori. Mas o melhor é mesmo vê-lo chegar nestes agitados dias rouco a casa depois ter passado o dia a gritar palavras de ordem e a entoar cânticos contra... Bush e os Estados Unidos.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Imagens de Deli: Miúdos num casamento

Regateando (adenda)

Há, no espectro oposto, os turistas que, na frustrada tentativa de se quererem integrar ao máximo e “ser como eles”, negoceiam cada Rupia como se fosse um caso de vida ou morte. Para além de já o próprio objectivo máximo de integração espelhar uma profunda crise de identidade, grande insegurança e presudo-correcção, não há outro termo a não ser “patético” para descrever a forma excessiva e enfática (roçando o mimetismo) com que encenam os diálogos, gestos e estratégias de negociação autóctones. Vivem obcecados com a ideia de que tudo e todos os tentam enganar, que cada Rupia vale uma fortuna. Esquecem-se que uma Rupia pode, de facto, ser uma fortuna – mas não para eles, pelo contrário. A obsessão leva-os aliás ao radicalismo ridículo de estarem a discutir com um pobre taxista de triciclo durante vários minutos duas ou cinco Rupias de troco, como se isso fosse importar alguma coisa na carteira chumaçada de notas e cartões de crédito internacionais e nas contas finais que lhes permitem exclamar com alegria “Ah, c’était un super bon marché, l’Inde” e depois gabarem-se na padaria ao comprar baguetes. Este comportamento defende-se logicamente com dois dos argumentos já apresentados – o mito da obrigatoriedade da negociação e o do perigo da inflação dos preços locais.

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Imagens de Deli: Casamento


A noiva Sheila (alcunha, ao meio) uma das minhas colegas de turma, na sua festa de casamento há poucas semanas atrás. Tudo arranjado, é claro, conheceu o marido poucos meses antes, viu-o umas poucas vezes, mas sempre na presença de familiares. Um casamento de arromba, entre mil e duas mil pessoas presentes, entra quem quiser. As minhas observações pessoais ficam para um outro dia. Hoje ficam com a imagem.

Regateando

Uma das coisas que mais fascina (e intimida) os ocidentais que vêm à Índia é a volatilidade dos preços, o processo de negociação e, paradoxalmente, a fraude que a cada instante os ameaça vitimar.

Nascem assim mitos sobre supostos recordes batidos a regatear. Por exemplo, eu até recentemente estava convencido de que tinha feito um negócio da China quando, há uns anos, de mochila às costas a viajar pela Índia, tinha comprado um conjunto de pequenos elefantes coloridos em pedra em Amber, perto de Jaipur, no Rajastão. Enquanto subia por um íngreme caminho rochoso e tórrido, encosta acima, em direcção a um forte, um vendedor tanto insistiu que acabei por comprar o conjunto por dez vezes menos o preço inicialmente apresentado pelo sujeito, porque aquilo parecia tão barato e afinal uma tão boa história para contar aos netos que era impossível resistir.

Fui vivendo nessa ilusão até ao dia em que um amigo meu me mostrou o mesmo conjunto de elefantezinhos e se gabou todo embevecido que tinha reduzido o preço em quinze vezes e os tinha comprado por um preço ainda mais irrisório do que o meu. Tendo ainda por cima em conta a subida galopante de preços que se viveu neste país nos últimos anos, imaginam que de um momento para o outro parte do meu pequeno mundo ruiu, sem misericórdia.

Nascem também mitos sobre estrangeiros que foram defraudados. É aliás uma das conversas preferidas dos mochileiros na Índia. Logo que estes se encontram, trocam nomes e proveniência nacional, e a conversa orienta-se para esse tema, todos convencidos de que conheceram pessoalmente o japonês mais gatunado na história do turismo na Índia, que foi praticamente raptado logo à chegada ao aeroporto em Nova Deli, forçado a dormir num quarto pestilento enquanto lhe debitavam 500 dólares do cartão de crédito, empurrado na manhã seguinte para um autocarro público e levado para a Caxemira, que, é-lhe dito com grande alarmismo, é o único local seguro de momento no país, porque está iminente mais uma guerra indo-paquistanesa. Claro que nenhum dos mochileiros se lembra de partilhar as diversas histórias em que ele mesmo foi enganado, dando-se conta ou não. Isso fica remetido para a intimidade, deitado para o emergente amontoado de frustrações politicamente incorrectas.

Nascem também mitos como o de ser obrigatório (ler as sílabas enfaticamente e pausadamente) regatear-se na Índia, sob pena de ser mal-educado e ferir as susceptibilidades autóctones. Presumo que este mito tenha origem nos países árabes, mas a verdade é que é simplesmente uma legitimação simpática para o que é a dura realidade do terreno. Porque só regateia quem não quer pagar mais. Ninguém é obrigado a negociar. Só se discute se o preço não convém, ou simplesmente se não parece merecer a mercadoria pela qual é demonstrado interesse. Não são poucos os indianos que conheço que se recusam a regatear – novos-ricos ou ricos, na sua maioria – por não terem paciência nem tempo para tal. Nunca vi um vendedor nessa ocasião exclamar com uma expressão ofendida “que falta de respeito, vá comprar com outro que venda mais barato!”.

É mais o “white man’s burden”, o medo de parecer prepotente, de chegar e comprar a aldeia inteira, crianças incluídas. Mas, perante a realidade, que não passa de uma dura selva ou de um faroeste em que só sobrevive o mais apto, não há que ter medos nem mitos, salva-se só quem puder e quiser.

Finalmente, expostos perante a argumentação supra, muitos benevolentes pseudo-preocupados com o nefasto impacto do turismo sobre a economia local, contrapõem que é imperioso regatear e pagar sempre que possível o preço que os locais pagam, sob pena de inflacionar os preços e tornar certos serviços proibitivos para os autóctones. Tal acontece, por vezes, mas na grande maioria das realidades indianas que conheço, é simplesmente mais um mito. Um bom indiano sabe distinguir um farangi de um desi, isto é, um branco de um castanho.

Mesmo em locais onde o turismo tem tido um impacto tremendo, o caso de Goa ou de Dharamsala, há duas economias paralelas, uma para os estrangeiros, outra para os nacionais. Para quem começa a arranhar o vernacular, expõe-se o tremendo fosso que separa as duas, ouvindo um taxista pedir um certo preço proibitivo a um turista para segundos depois, caso a presa estrangeira não o tenha contratado, aceitar sem piscar os olhos uma oferta mínima de um habitante local.

Há então os que argumentam que pagam mais porque não se importam, porque é tão pouquinho para “nós” e tanto para “eles”. Embora pense que esta atitude paternalista tenha um cunho de arrogância, credito-a com o facto de assumir pelo menos a parcial incapacidade e impotência de lidar com o mundo da negociação na Índia. Neste caso, “pagar mais mas finalizar o processo com maior rapidez” é visto como uma solução confortável para todos os que – assumindo-a – querem escapar à complexidade e conflitualidade ilesos e incólumes. Aceito, sublinhando a franqueza.

O problema destes mitos todos é que confundem a maioria dos turistas bem-intencionados, ainda por cima num país tão confuso como o é a Índia, em que a cada esquina nos pegam no braço e nos querem convencer que têm em mãos o negócio do século, só e especialmente para nós. Já com a mochila às costas, o peso da pela branca e do estatuto económico, mas especialmente do que se quer o “politicamente correcto” é tremendo e só leva a que os visitantes sejam esmagados e triturados pelas hábeis máquinas indianas que confrontam o turismo nessas esquinas um pouco por todo o país. Aqui e acolá os hóspedes dão sinais de resistência, mas a verdade é que sentem tremenda frustração que se vai acumulando e, de repente, semanas, meses ou anos depois de iniciarem a viagem (que pode ser a de uma vida) irrompe tudo que nem um vulcão, produzindo cenas patéticas ou chocantes, ou mesmo os dois, quando a última gota faz transbordar o copo da paciência politicamente correcta.

Deixem-me dar mais um exemplo. Numa viagem que nos levou de autocarro por três dias para Ladaque, no estado de Jamu e Caxemira, iam uns poucos estrangeiros aventureiros. A viagem, como devem imaginar, foi feita em condições terríveis, tocando os 5000 metros de altura, com temperaturas ardentes durante o dia e geladas de noite. De poucas em poucas horas era obrigatório sair do autocarro e dar os detalhes dos passaportes, e alguns trabalhadores indianos as autorizações de trabalho ou de residência (o estado tem restrições mesmo à imigração doméstica). Formavam-se então longas filas e esperavam-se longos minutos. Já no último dia de viagem, um francês de meia idade, que tinha passado os dias e as horas anteriores a louvar a espiritualidade indiana, a simpatia, paciência e franqueza dos habitantes do país, a necessidade de os “brutos ocidentais” compreenderem e adaptarem-se ao local, encontrava-se também numa dessas filas quando um sujeito indiano ultrapassa a fila inteira e entra para a tenda militar.

Todos os passageiros, nem que olhando de relance, sabiam que se tratava de um dos motoristas, afinal ele já nos conduzia há dois dias. Mas o francês, de repente despojado de toda a retórica, lançou-se para cima dele, agarra-o pelos ombros e por entre cuspo e gestos ameaçadores grita-lhe num francês obviamente chinês para o indiano, acusando-o de violar as elementares regras de boa-educação e não sei o que mais. Foram precisos vários minutos para o acalmar e ele lentamente voltar a si, só para me confidenciar mais tarde que “lhe tinha saltado a tampa” porque o tinham já ultrapassado dezenas de vezes em filas, um pouco por todo o país que tinha visitado e isso o irritava profundamente.

Sim, eu sei, duas perguntas vos devem afligir. Como então sobreviver na Índia regateando e o porquê destas linhas. Quando à primeira, assim em breves linhas, não me resta nada a não ser recomendar naturalidade e libertação de mitos e complexos. É preciso olhar o inimigo nos olhos, e nos negócios turísticos cá da terra todos são inimigos até prova em contrário (rara). Contar espingardas e ir para a guerra. Ou assumir a opção de não querer conflitualidade, mas pagar o preço devido por isso (em Rupias), numa estratégia militar de recuo em que a concentração reside na contenção dos danos e maximização noutras frentes (gozar o turismo mais essencialmente, descansadamente). Finalmente, mesmo que não tenham amigos locais indianos, pedir a transeuntes, feirantes rivais, conhecidos ou desconhecidos etc. que regateiem em vosso nome, embora haja sempre o risco de manterem o preço alto e combinarem uma percentagem para eles mesmo. Mas, regra geral, e na maioria do território, as pessoas gostam de ajudar e farão o papel de bom samaritano a intérprete cultural e intermédio.

Quanto à segunda questão, sobre o que me motivou a escrever sobre o tema, nada mais do que uma ida ao mercado, esgotado e desnorteado, depois de um dia de trabalho. Perante os vendedores de vegetais e frutas com que normalmente negoceio sempre um pouco e que já me conhecem bem, hoje baqueei. Sem paciência nem energias, fui escutando e acedendo impávido aos estonteantes preços que me pediam por cem gramas de uvas ou um quilo de batatas. Mas hoje recusei-me a entrar no teatro das negociações, estendi-lhes as notas e recusei observar a balança ou controlar o troco. Decidi que hoje vingar-me-ia deles virtualmente, a longo termo, aqui, no teatro cibernético.