domingo, 16 de setembro de 2007

Imagens de Deli: Canalizador

Agosto passado. Estivemos mais de uma semana sem uma gota de água em casa. Durante esse período a bomba de água foi aberta por quatro canalizadores diferentes que avançaram com quatro teses e quatro orçamentos diferentes. Um quinto adivinhou uma fuga de água na parede do vizinho de baixo. Como não havia humidade sequer, recusámos.

Um sexto canalizador voltou à tese do primeiro, que tinha sido ridicularizada pelos congéneres intermédios: a fuga tinha sido provocada a uma dezena de metros de distância, por umas obras realizadas na conduta de gás natural. Em menos de duas horas, abriu um fosso e resolveu o problema. Uma semana, seis canalizadores e dezenas de chamadas telefónicas com o dono depois, voltávamos à civilização. Na foto, o canalizador Gopal já a fechar a obra.

India Shining

Black out, durante quase todo o dia de ontem e partes da noite. Passeando por uma rua escura, de copito de chá na mão, um amigo naga observa, sarcasticamente: "You see, how India is shining?".

sábado, 15 de setembro de 2007

Leituras de Deli: Deli (Khushwant Singh)

O meu amigo João há mais de um ano que me o recomendava. Armado em especialista deliense, com mais que fazer, fui adiando a leitura até ao dia em que finalmente, acotovelado no meio de dois punjabis num apertado avião da Turkish Airlines, o ataquei.

Talvez por eu nele reconhecer alguns elementos dos meus adorados Naipaul e Houellebecq. Talvez por o ter subestimado durante tanto tempo. Ou talvez porque narra uma vida em Deli que me é tão familiar. E finalmente, talvez por ter sido objecto de uma tradução exemplar (Luís Coimbra), de uma qualidade só raramente vista em Portugal (especialmente porque informada historicamente, culturalmente e geograficamente).

Uma narrativa solta e sincera que foi capaz de me iludir, por completo, no que concerne a sua situação temporal. Não me refiro aos saltos cronológicos seculares, da Idade Média, dos tugluques e dos mógois ao presente.

É mesmo a situação contemporânea que é contenciosa: por vezes parece que estamos ainda na Deli pacata pré-liberalização económica, capital das elites e em que tudo - da política e dos negócios ao amor - se fazia lentamente, com a calma que caracteriza qualquer civilização milenar. Uma capital em que o poder residia nas mãos de poucos, em que uma elite opulenta se encontrava no hoje decadente Gymnkhana e por lá, à volta de uma cup of tea, decidia o destino de milhões. Mas há também rasgos de uma Deli já pós-moderna, em que os Ambassadors são substituídos por Mercedes, em que as avenidas largas se encontram polvilhadas de soldados de metralhadora em punho e em que se fecham negócios multimilionários e se discute a ratificação de tratados estratégicos nucleares.

Durante a leitura inclinava-me para a primeira opção, confirmada agora por uma ida ao Wikipédia: a obra foi lançada em 1990, portanto antes do frenesim das reformas económicas e das transformações profundas de que a capital foi alvo.

E explica-se assim, mais uma vez, porque é que me deixei entusiasmar tanto por este Deli. Dá-me a conhecer uma Deli que só raramente se me apresenta, que só com muito esforço consigo imaginar à minha volta, mas que, aqui e acolá, continua a resistir aos ventos da mudança. Uma Deli omnipresente, mesmo que em rápido desaparecimento. É uma Deli que habita Defence Colony, que sobrevive em Chandni Chowk, nos Ambassadors e Marutis cobertos de ferrugem na minha rua, no gigantesco tomo em que o funcionário anota o número do meu recibo, ou nas ladies que ocupam as primeiras filas de um concerto de música clássica no India International Centre e exclamam repetidamente marvellous! .

A Cavalo de Ferro está assim de parabéns. Apresenta aos leitores portugueses mais do que um simples romance neo-orientalista, na linha do que têm oferecido os muitos escritores indianos chic no Ocidente. Apresenta uma magnífica porta de entrada para o subcontinente, em que o enquadramento histórico se lê como um livro de aventuras e em que o passado recente dos anos oitenta nos serve de referência e Norte na descoberta de uma Deli do presente que soluça por orientação.

Imagens de Deli: Instalando ligação Internet "broadband"

Desilusão

Pela parca quantidade de comentários que este espaço recolheu durante estes últimos quinze dias de silêncio, só posso chegar à conclusão seguinte: afinal, esta vida não evoca assim tanta curiosidade. Mas continuará.

Chandni Chowk (Atlântico)


Na Atlântico nº 30, de Setembro:


PASSAGEM PARA A ÍNDIA
CONSTANTINO XAVIER EM NOVA DELI

CHANDNI CHOWK

" Do topo do minarete da Jama Masjid, com a brisa a secar o suor dos braços, miramos o imenso bazaar de Velha Deli, também conhecido por Chandni Chowk. Ao fim da tarde, o movimento é tremendo. Os ciclo-riquexós serpenteiam pelo labirinto imundo, empurrados por multidões. À venda, de tudo: joalharia, gado, pneus, vibradores, sedas, arroz e caril. Nenhum planeamento urbanístico ou coerência arquitectónica. Os edifícios encontram-se quase todos arruinados. Aqui e acolá, por baixo dos cabos suspensos no ar e por entre as emendas em betão, zinco e plástico, emerge um raro pormenor tradicional de um poço medieval, de um haveli real ou de um armazém colonial.

Do conforto das alturas, observo que este bairro tem o potencial de vir a ser um dos patrimónios históricos mais visitados da Ásia. Anuncio: um dia, ainda durante as nossas vidas, veremos Chandni Chowk convertido numa espécie de Bairro Alto, Marais ou Kreuzberg, urbanisticamente domesticado, intelectualmente cosmopolita e turisticamente atractivo. A profecia é ridicularizada pela minha companhia e apresso-me a voltar a descer para colocar os pés em terra. Ensanduíchado por um pedinte leproso, um vendedor de bugigangas e uma mulher de burca, recupero do sonho celestial: afinal, quem sou eu para prever que esta eterna e imutável Índia se irá transformar? (...) "

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Imagens de Deli: Entregando água potável (Bisleri)

«Mais sexy do que nunca» (Expresso)

Expresso, 18 Agosto 2007, Internacional

60.º aniversário

A independência valeu a pena? Os indianos, eufóricos, dizem que sim. Os paquistaneses, inseguros, vacilam


Certezas e dúvidas existenciais

Guardas fronteiriços do Paquistão (esq.) e da Índia marcham perto do «checkpoint» de Wagah, no passado dia 1 de Agosto FOTO AMAN SHARMA/AP

Índia
"Mais sexy do que nunca"

O balanço não poderia ser mais triunfante. Aproveitando-se das comemorações do 60º aniversário da independência, os indianos lançaram uma vaga de patriotismo, exprimindo o orgulho em fazerem parte de um país de sucesso.

Há uma década reinava ainda um espírito pessimista. Os mais pobres emigravam em massa para o Ocidente. Muitos questionavam-se sobre os benefícios da independência.

Hoje, o espírito é o oposto. Ostentar em público a bandeira nacional deixou de ser proibido pela Constituição. Nos cinemas, antes de qualquer filme, seja ele de Hollywood ou de Bollywood, os espectadores levantam-se e entoam o ‘Jana Gana Mana’, o hino nacional. O orgulho reflecte-se também na imprensa. O ‘Times of India’, por exemplo, observava que a idade não dá sinais de pesar, considerando que a Índia está hoje “mais sexy do que nunca”.

Motivos para celebrar não faltam. O crescimento económico ronda os 10%, provocando um consumo desenfreado da classe média - entre 300 e 400 milhões de pessoas. Há 20 anos eram necessárias várias semanas e autorizações para instalar uma linha telefónica. Hoje vendem-se dois milhões de telemóveis por mês. Os mais de 500 mil médicos indianos, cobiçados nos melhores hospitais dos Estados Unidos e da Europa, ajudaram a reduzir a mortalidade infantil para um terço e a duplicar a esperança de vida para 67 anos.

No entanto, segundo várias sondagens, o que mais orgulha os indianos é o seu sistema político democrático. Exceptuando o breve episódio autoritário de Indira Gandhi, nos anos 70, a Índia afirmou-se como um raro caso de sucesso pós-colonial, mantendo a sua democracia em funcionamento ininterrupto, desde 1947. Se no Paquistão a política é vista como um monopólio dos militares, na Índia é simbólico serem duas instituições democráticas - a Comissão de Eleições e o Supremo Tribunal - a recolher maior simpatia popular.

Perante tanta euforia, o primeiro-ministro Manmohan Singh tentou moderar o optimismo, alertando para os desafios que o país ainda enfrenta. No seu discurso oficial, classificou de “vergonha nacional” o facto de haver ainda milhões de crianças indianas a sofrer de malnutrição. Mas perante a imensa ambição e confiança dos indianos, estes obstáculos parecem minúsculos, se não irrelevantes. O próprio Singh admitiu aliás que “o melhor ainda está por vir”. Por enquanto, a hora é de celebração.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

EPL-Índia

Nas ruas de Deli, vêem-se miúdos indianos a jogar à bola com os pés. Começou a English Premier League.

sábado, 18 de agosto de 2007

Indianização (Atlântico)

Excerto da minha crónica mensal "Passagem para a Índia", na revista Atlântico de Agosto, nas bancas ainda.

Correspondentes de Guerra

PASSAGEM PARA A ÍNDIA
Constantino Xavier em Nova Deli

INDIANIZAÇÃO

"Em 1947 Nehru e Patel conseguiram reunir, sob uma soberania, centenas de grupos étnicos, linguísticos e religiosos, mas a unidade era uma mera ilusão, formal e no papel. A nomenklatura procurou traduzi-la na prática. Ao longo de várias décadas centralizou o sistema político, obrigou os jovens a frequentarem “campos de integração nacional” e apostou no intercâmbio de militares e quadros administrativos, entre outras medidas homogeneizadoras para criar mais “indianos”. Contudo, as tentativas foram saudadas com um entusiasmo moderado, se não resistência.

Como surgiu então o sucesso da indianização? Surpreendentemente, pela via económica e não-governamental. As reformas de 1991, as privatizações e a abertura da economia criaram condições ideais para que a indianização se fizesse de forma natural, subtil e silenciosa, sem o barulho da imposição estatal.
"

Imagens de Deli: Vendedor de chá

Comentários: Cheias e o 15 de Agosto

Para a Antena 1, um comentário meu às cheias que assolaram o país, na Quinta feira da semana passada (sem ligação). Para a Rádio Renascença, um comentário sobre o Dia da Independência, celebrado no passado dia 15 de Agosto, e marcado pela tragédia das cheias (aqui, mas sem ficheiro áudio). Ficam aqui os apontamentos que me serviram para produzir a peça:

A Índia celebra hoje o 60º aniversário da sua independência do colonialismo britânico, com muita euforia, muita cor e grande confiança.

Logo de manhã, os jornais saudaram o dia histórico com capas coloridas e destaques triunfantes.

O HT antevê uma Índia “superpotência global” já em 2067, enquanto que o Times of India, faz o balanço com números, sublinhando a redução na taxa de mortalidade infantil, hoje três vezes menor do que há 60 anos.

Por todo o lado ecoa o hino nacional, conhecido como Jana Gana Mana, composto pelo grande filósofo Rabindranath Tagore.

O símbolo deste novo orgulho é a bandeira nacional, a tricolor conhecida como tiranga, que reveste as cidades e aldeias do país de tons verdes, brancos e cor de açafrão.

Há poucos anos ainda, a Constituição proibia os cidadãos de a ostentarem publicamente. Mas hoje, é o próprio Governo que distribui milhares de bandeirinhas nas escolas e em locais públicos, encorajando a onda de patriotismo que varre o país.

Mas o aniversário ficou também marcado pela devastação provocada pelas cheias no Norte do país, que as Nações Unidas apelidaram de “uma das mais graves catástrofes naturais” nesta região do mundo.

As chuvas incessantes, desde finais de Julho, provocaram um balanço dramático: quase 2 mil mortos, milhões de deslocados, 130 mil habitações totalmente destruídas e um prejuízo total de centenas de milhões de Euros.

Foi talvez por isso, que o Primeiro-Ministro Manmohan Singh, se referiu esta manhã aos grandes desafios que o país ainda terá que enfrentar para se tornar numa superpotência. Chamou por exemplo atenção para as dezenas de milhões de crianças que continuam a sofrer de mal-nutrição, ao que chamou de “vergonha nacional”.

Discursando em frente ao histórico Forte Vermelho, na parte antiga da capital, a Velha Deli, Singh referiu-se ainda ao perigo de as diferenças religiosas ou de casta poderem por em causa o sonho indiano. “Sejam indianos primeiro, e acima de tudo” pediu.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A zanga dos deuses da chuva (Expresso)

Expresso, Edição 1815, 11 Agosto 2007

Sul da Ásia
A zanga dos deuses da chuva

As maiores vítimas são as mulheres e crianças. Só na Índia, o prejuízo está avaliado em 200 milhões de euros

Foto: Em Dhaka, capital do Bangladesh, vítimas das cheias salvam os parcos haveres FOTO PAVEL RAHMAN/AP

O rio Ganges, um dos principais símbolos espirituais para os hindus, tornou-se mortífero com as suas águas a fazerem capotar várias lanchas de salvamento que prestavam socorro às vítimas das cheias que afectaram cerca de 50 milhões de pessoas - principalmente na Índia, no Nepal e no Bangladesh - provocando mais de 28 milhões de deslocados e a morte de quase duas mil pessoas.

Na sua grande maioria, os mortos são mulheres e crianças vítimas de afogamento, fome, mordeduras de cobra, electrocussão, ou que perecem esmagadas durante as operações de socorro e distribuição de alimentos.

Duas semanas depois destas chuvas torrenciais de monção terem começado a inundar a Ásia do sul, já se faz sentir o impacto daquilo que as Nações Unidas classificam com “uma das piores catástrofes naturais de sempre” na região. Falha o abastecimento de água potável e 40% das planícies do Bangladesh - um país que tem a maior parte do território abaixo do nível do mar - encontram-se submersas.

Na Índia, no estado de Bihar, um dos mais pobres do subcontinente, 13,8 milhões de pessoas foram atingidas e 1,1 milhões de hectares de terras agrícolas ficaram parcial ou totalmente submersas.

Também os estados indianos de Uttar Pradesh (norte), de Assam (nordeste) e do Orissa (leste) - onde cerca de 6,5 milhões de pessoas foram atingidas - estão submersos pelas águas. No país de Gandhi, há dois milhões de hectares de terrenos agrícolas inundados, 130 mil habitações totalmente destruídas, e 70 mil cabeças de gado vitimadas.

No Nepal, nas zonas montanhosas mais remotas, a assistência médica aos feridos está, muitas vezes, a ser feita pela guerrilha maoísta que combate o regime que governa o país.

Depois do dilúvio, o impacto começa a sentir-se em termos políticos. Esta semana, a Índia e o Nepal trocaram acusações, com um ministro estadual indiano a denunciar a falta de barragens para parar a água do lado nepalês, e o Governo de Katmandu a ripostar que as cheias no Sul do seu território se devem à construção excessiva de barragens do lado indiano.

Entretanto, Nova Deli receia que entre os milhares de refugiados do Bangladesh que cruzaram a fronteira indiana nos últimos dias se encontrem elementos das organizações separatistas e terroristas islâmicas que operam no Nordeste do país.

Mas a grande preocupação continua a ser o impacto a longo termo destas cheias que o secretário-geral das Nações Unidas já apelidou de “devastação económica”. Segundo a UNICEF, no estado indiano do Bihar, já antes do dilúvio, 60% das crianças estavam malnutridas. Com o turbilhão das águas podem começar a ser atingidas pela diarreia, febre tifóide, malária e várias outras doenças potencialmente letais.

Este ano, a força da monção ainda está a ser mais longa e mais forte do que é habitual.

Constantino Xavier, correspondente em Nova Deli

Imagens de Deli: Tyler após a greve de fome


quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Leituras de Deli: Economic & Political Weekly

Considero o Economic & Political Weekly (EPW), de que sou assinante, um dos melhores produtos indianos da actualidade. É uma revista semanal de origem científica e académica, mas que mantém sempre uma grande acutilância sobre a actualidade política e económica nacional e mundial. De comentários a recensões, passando por artigos especiais de grandes comentadores, esta é uma daquelas publicações de que os cientistas sociais, de qualquer nacionalidade ou linhagem ideológica, se podem orgulhar.

Sanjay Rabo

Uma gralha (repetida ao longo de todo o texto) espelha, mais uma vez, a qualidade do nosso jornalismo na sua cobertura internacional. Como Dutt passa a Butt...:

Sanjay Butt, um dos maiores ídolos do cinema indiano, foi ontem condenado a seis anos de cadeia por ligações aos terroristas que em 1993 levaram a cabo os atentados de Bombaim, que mataram 257 pessoas e são considerados os piores de sempre na Índia...

Imagens de Deli: Manifestante do BJP


Fragmento histórico

Recorda um activista do Arya Samaj, no contexto do conturbado e violento de processo de integração do principado de Hiderabad na República da Índia, em 1948:

"The Nizam was also getting arms from Goa which was under the rule of Portugal".

Assustador, mas descabido

Mário Soares, no Público de hoje:

"A menos que sejamos tão insensatos que queiramos atirar a Rússia, contra os nossos interesses, para o triângulo estratégico que pode vir a desenhar-se na Ásia: China, Índia, Rússia. Já pensou nessa eventualidade?"

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

terça-feira, 31 de julho de 2007

Porteiro

Passa o dia enfardado, de pé, no mesmo meio metro quadrado: abre e fecha a porta, recebe e despede-se dos clientes, troca fichas numeradas por sacos e malas. À hora de almoço, opera a porta com a mão esquerda, enquanto que com a direita ensopa a apa no caril e mata a fome.

Internacionalização

Em conjunto com a sondagem que mantenho activa no Supergoa.com (Por que razão é que os empresários portugueses continuam ausentes da Índia?), recomendo este artigo de João Santos Lucas sobre a (fraca) internacionalização de empresas portuguesas na Ásia:

"a internacionalização se faz com colaboradores competentes e disponíveis que ganharam experiência nos mercados internacionais e, aí, se movem à vontade. E, por isso, é necessário capitalizar as comunidades portuguesas no estrangeiro e investir, aí, na formação de “agentes” locais de internacionalização da economia portuguesa. Como é igualmente necessário favorecer a dispersão, nomeadamente nos países sem emigrantes portugueses, de um número muito significativo de gestores e de profissionais portugueses que se entrosem nas empresas multinacionais e locais, que ganhem experiência nesses mercados, e que favoreçam, apoiem e promovam a expansão das empresas portuguesas. Com especial incidência na Ásia, do Japão à China, da Índia à Indonésia, da Malásia a Singapura."...

Imagem de marca

Sabões portugueses a serem anunciados num jornal diário de Bombaim. É assim que se faz branding, colocando Portugal como imagem de marca no imaginário dos consumidores indianos. É assim que podemos penetrar novos mercados. Que venham mais Claus Portos.






Go check out a Rs 2,000 ka sabun
Claus Porto hand made soaps are now available in amchi Mumbai

Why they could cost 2k?
>Because they are packaged in exclusively designed art deco prints that evoke the vintage charm of Portugal.
>Because they are natural, not tested on animals.
>Because they are 100% bio-degradable.
>Because they come from the oldest and most prestigious soap making factory in Portugal.
>Because these soaps are milled seven times so that you get a dense soap that’s fragrant till the end, doesn’t crack or chip.
>Because they are made with coconut oil and shea butter to moisturise your skin.
>Because they use high quality fragrances from France.

Kuch hazam nahin hua? Otherwise, you can make your way to: Good Earth, Raghuvanshi Mills Compound, Raghuvanshi Mansion, 11-12 next to High Street Phoenix, Lower Parel

Imagens de Deli: Sandeep, Vice-Presidente JNUSU

domingo, 29 de julho de 2007

Falando em sati e para animar isto

Shambo

Já me preparava para escrever aqui uma longa crónica, anotando as minhas observações sobre este surreal episódio. Não vale a pena:
1. O Shambo tinha que morrer, tal como, há uns anos, a minha cadela Saba.
2. Talvez o Shambo não seja o único doente: quando a BBC World abre o noticiário, em prime-time, com o Shambo, algo vai visivelmente mal neste mundo.

Sati e um sociólogo pouco cosmopolita

O sociólogo Alberto Gonçalves, numa edição do DN de há umas semanas.

"Há meses, no Expresso, o meu amigo João Pereira Coutinho lembrou o general Charles James Napier, comandante militar da administração britânica na Índia oitocentista. Uma ocasião, Napier recebeu uma delegação regional, que reivindicava o direito de realizar a "sati", a divertida mania de grelhar as viúvas na pira funerária dos maridos. O general propôs um encontro de culturas: "A vossa tradição inclui a queima de mulheres. Óptimo. A minha inclui o enforcamento das pessoas que queimam mulheres. Façam a pira, que ao lado faremos uma forca. Vocês cumprem o vosso costume, nós cumprimos o nosso." Obviamente, não foi o que se passou no século posterior. Aos poucos, a Grã-Bretanha (e a Europa) largou o império e os costumes. Os ex-colonizados levaram os costumes para a casa dos ex-colonos. E a sensatez de Napier não tem herdeiros."



Pergunto eu: que tal acostumarmo-nos um pouco aos costumes dos outros, em vez de insistirmos no (muito oitocentista e infantil) "olho por olho, dente por dente"?

Confiança e desconfiança

Índia e Portugal, ambos alvo de destaque no mesmo estudo, mas por razões opostas.

sábado, 28 de julho de 2007

terça-feira, 10 de julho de 2007

Citações de Deli: Ratan Tata

"We are not afraid of European carmakers, they don't make cheap cars," (Ratan) Tata told shareholders at Tata Motors' annual general meeting here. He, however, said: "But greater threat to us is when Chinese companies come to Indian market."

Lodhi Road

O sinal está vermelho e o sangue alcoolizado, mas o pé direito acelera a fundo.

A cara primeiro, depois o abafado e ensanguentado estrondo do embate no pára-brisas. Uma cara criança. Escura, tão escura que mal se distingue da noite negra, das árvores e dos arbustos, dos mendigos, meninos e mutilados adormecidos, todos aguardando a aurora e a letargia de mais um dia.

Retira o preservativo e enrola-o numa página de jornal. Fecha os olhos e saboreia o ar condicionado. Mais um, menos um, tanto faz, pensa, ainda suado. Amanhã é outro dia, quente e húmido, cheio de sucessos.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Imagens de Deli: Tyler em greve de fome

Já conheçem o meu amigo, colega e collocataire. Tyler Walker William, Vice-Presidente da Associação de Estudantes da JNU (JNUSU), eleito pelo partido estudantil de extrema esquerda, All India Students Association (AISA). A sua eleição, a sua nacionalidade, a sua ideologia e a sua fluência em hindi levaram-no, há dez meses, a abrir os noticiários televisivos por toda a Índia.

Levam-no agora a uma greve de fome, na luta estudantil para que os trabalhadores nas obras da universidade pública sejam remunerados com o salário mínimo estabelecido pelo próprio governo (menos de três Euros por dia - recebem actualmente menos de dois, e vivem com as suas numerosas famílias numa tenda, sem acesso a instalações sanitárias).

Assim, oito estudantes iniciaram, há mais de uma semana, uma greve de fome ininterrupta. Nesta foto o Tyler estava no seu sétimo dia de greve (no Sábado passado), ingerindo só água com sumo de limão puro. Dormem ao relento, a temperaturas superiores a trinta graus e com humidade acima dos 80%. Acabo de falar com o Tyler por telefone. Diz que está "óptimo" neste seu nono dia de greve e que "a luta continua".

Regresso

Concluído o seu contrato de três anos em Nova Deli, anuncia aos colegas e amigos o seu regresso a Oslo, num hotel, à volta de uma mesa em vidro cicatrizada pela base dos copos. Lá fora a humidade, a merda, os fetos em decomposição e o seu motorista. Dói-lhe a cabeça, mas só um pouco. Os olhos escandinavos não mentem. Já sente saudades.

Comendo em Deli: Mezbaan


Uma nova série, com pequenos apontamentos sobre os restaurantes da cidade que eu vou frequentando. Este primeiro é sobre o Mezbaan (9/1 Secular House, Aruna Asaf Ali Marg, Opposite JNU East Gate, New Delhi, Tel: 011-26966398; não confundir com o seu congénere mais luxuoso, de igual nome, em Connaught Place), um pequeno estabelecimento junto a uma das entradas paralelas da JNU. Serve comida mughlai, recomendando-se os seus tandooris (na foto: paneer tikka e chicken tandoori, com o sempre delicioso bindi masala).

O aspecto interior (austero) e a higiene (q.b.) não são o seu forte, mas a comida é segura e bem cozinhada. É muito frequentado pelos estudantes da JNU, que aqui usufruem de um desconto de 10% sobre a conta final. Um bom almoço para dois, com fresh lime soda e um pequeno gelado no fim, fica em pouco mais de 200 Rupias.

sábado, 7 de julho de 2007

Citações de Deli: Barka Dhutt

Hoje, no Hindustan Times:

But now, we are almost out of argument and standing eyeball to eyeball with a horrible, inescapable truth.The man who rammed a burning car into the airport at Glasgow was almost certainly an Indian. And no, he doesn’t have a long, flowing beard, he doesn’t wear a skullcap, he didn’t study Urdu or Arabic at a madrasa and he’s not even from Kashmir. Kafeel Ahmed is an aeronautical engineer who went to school and college in Bangalore, before moving westwards to Ireland and Britain. ... Glasgow may be several thousand miles away, but the lessons it has brought home are devastating and undeniable. The Indian connection to the terror plot in Britain has shifted the ground beneath our feet. It has taken away the comforting certainties that we had taken for granted as a modern, secular democracy.

Já o tinha previsto quando, em finais do ano passado, publiquei um artigo de análise pós-atentados terroristas de Bombaim, na revista O Mundo em Portugês, do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais:

"...o 11 de Julho fez a Índia acordar para uma nova realidade. Algumas franjas mais desfavorecidas da sua população muçulmana têm-se radicalizado ao longo dos últimos anos e entrado na órbita do terrorismo islâmico internacional. Embora tenha a maior minoria muçulmana do mundo (cerca de 150 milhões de pessoas), a Índia sempre se orgulhou do facto de os seus cidadãos nunca constarem das listas de operacionais da al-Qaida ou de qualquer outra organização terrorista islâmica.

Os atentados de Bombaim vêm, no entanto, provar o contrário. Têm claramente o carimbo operativo da al-Qaida, mas tudo aponta para que tenham sido executados por recrutas locais do LeT, do JeM ou do SIMI. Este fenómeno é de particular importância, tendo em conta que a al-Qaida procura garantir novas fontes de recrutamento. Enquanto que cidadãos paquistaneses e afegãos estão sob redobrada atenção desde o 11 de Setembro, a vasta minoria muçulmana da Índia apresenta-se como uma alternativa atractiva."

Hoje à noite, em Lisboa


sexta-feira, 6 de julho de 2007

Confiando: Estacionamento

No meu bairro é normal os vizinhos, ao fim da tarde, iniciarem ruidosas, e por vezes violentas, disputas à volta de um precioso lugar de estacionamento para o seu veículo. Ao voltar de duas semanas em Portugal, sou apanhado em flagrante pelo meu vizinho do rés-do-chão, contra cuja parede e vasos florais eu tinha encostado a minha mota durante a minha ausência. Receando já o pior, desculpo-me timidamente, mas sou surpreendido pelo seu tom afável e expressão sorridente: "No problem at all. You can leave it here whenever you want. It will always be in good hands here, don't worry!".

1961 (mais polémica)

Já que estamos a abordar temas quentes, valerá a pena visionar este vídeo no Youtube, e especialmente o monumental debate nos comentários (376!), recheado de posições extremistas (e outras, mais raras e moderadas) sobre os eventos de Dezembro de 1961 que viram o fim do Estado da Índia Portuguesa e a integração de Goa, Damão e Diu na então União Indiana. Tenho a certeza que uma análise sociológica a estes comentários daria uma bela tese de mestrado.

Traição e lealdade (sobre o Supergoa.com)

Uma citação de um post, num blogue (Combustões), comentando uma sondagem que tenho activa no Supergoa.com, num tom radical e nacionalista típico dos fóruns em que se debate 1961 e Goa. Os resultados actuais da sondagem a que o autor da citação se refere estão, por sinal, deturpados, como quase todas as sondagens na Internet (e não só), inflaccionadas por votos repetidos de alguns extremistas (neste caso "anti-portugueses" e "pró-portugueses" indianos).


Imagem do blog Combustôes: João de Brito catequizando os Indianos, por Manuel Maria Bordalo Pinheiro (1865)

You know who I am?

Se há frase que mais me ficará gravada na memória desta minha vida em Deli, é esta: "You know who I am?".

Estava nos meus primeiros meses de Deli, em casa de uns amigos estrangeiros, com alguns indianos. A comida indiana, que a cicerone tinha encomendado de um restaurante fino do Sul de Deli, tardava em chegar.

Um dos jovens indianos, colega de faculdade, pegou no telefone, ligou para o dito restaurante e, antes que do outro lado da linha pudessem dizer 'Boa noite', disparou aos berros, repetidos: "You know who I am? You know who you are talking to? If the food is not here in 3 minutes, I'll ensure your restaurant closes forever, tomorrow first thing in the morning".

Este estudante é um autêntico zé-ninguém a nível nacional, filho de um industrialista das plantações de chá do remoto Assão. É, de facto, de casta alta e frequentou a reputada Doon School, uma das mais prestigiadas escolas de elite que herdou o seu perfil das Public Schools dos tempos coloniais britânicos. Mas com estas características há centenas de milhares, se não milhões de indianos.

O dicurso 'You know who I am?' (YKWIA) acompanhou-me desde então, e tive oportunidade de o observar em acção muitas mais vezes (como no avião do Turkish Airlines, recentemente). É o discurso prevalecente na classe média indiana. Ora, pessoas como este meu colega refugiam-se no discurso YKWIA porque é uma ameaça anónima que pode ser muito eficaz. No entanto, se o YKWIA inicialmente teve um efeito poderoso, com o distinto cunho das elites, hoje a sua proliferação e democratização levou à sua banalização e ordinarização, perdendo todo o seu anterior efeito.

Do outro lado da linha telefónica não é fácil distinguir o trigo do joio. Virá esta ameaça de alguém realmente poderoso ou só de um simples plebeu como eu, interrogar-se-á o empregado do restaurante, ou o dono do estabelecimento. Observo que a tendência é justamente para os donos de estabelecimentos ou acusados ignorarem, mais e mais, estas ameaças YKWIA.

Aliás, o feitiço do YKWIA virou-se contra o feiticeiro. Os verdadeiramente poderosos já não precisam de berrar e barafustar. Bastará uma palavra, muito seca e silenciosa, e do outro lado da linha perceberão logo que estão a tratar com alguém realmente poderoso. Os indianos poderosos de hoje já não ameaçam aos berros: fazem-no de forma educada e subtil, fria e assassina. Por outro lado, os fracos ainda estão longe de poderem sonhar com a possibilidade de se queixarem, e muito menos de acusarem e ameaçarem. É, logo, a classe média que mais se identifica, e por isso é imediatamente identificada, com o discurso YKWIA. E esta classe média é tão gigantesca e tão crescente, que os acusados estão-se nas tintas para ela.

Se você está mal, então mude-se, dizem-nos. A Internet não funciona bem? Então fale com os nossos operadores rivais, porque nós temos clientes a mais a saturarem-nos a rede. Como o estado não regula nem impõe, e como não há ainda direitos dos consumidores nesta selvajaria capitalista que dá pelo nome de economia emergente, o conceito de serviço de atendimento e de qualidade é quase inexistente.

"A comida está atrasada?", responde agora o dono do restaurante, do outro lado da linha. "Sim, e..." quer responder o meu colega, pronto para elaborar mais uma ofensiva YKWIA, mas imediatamente interrompido pela prepotência económica do restaurador: "Então vá pedir comida noutro lugar". Tuut, tuut, tuut. Conversa terminada.

Aldrabando: Arrumador

É curioso, ainda por cima em contraste total com o que se passa em Portugal, como já tive oportunidade de referir aqui. De todas as transacções comerciais e negociais que pratico ao longo de uma semana normal em Deli, de todos os lojistas, empresários, empregados e demais pessoas com quem mantenho relações económicas, registo a relação mais amigável com o arrumador da minha mota, numa zona comercial que costumo frequentar.

Hoje, ao colocar-lhe novamente a nota de cinco Rupias na mão, de saída, percebi porquê. É provavelmente o único local em que o preço é totalmente fixo e não há qualquer margem ou possibilidade de me aldrabarem.

Aldrabando: Estafetas e números de telemóvel

Os estafetas que nos vêm (às vezes) entregar, a casa, o correio nos destinado e que nunca nos chegaria pela via normal, postal ordinária, pedem sempre que assinemos num formulário a acusar a recepção e que indiquemos o nosso número de telemóvel, para o cliente (remetente) hipoteticamente confirmar a boa recepção.

Hoje, em conversa com um deles, confirmei aquilo que sempre suspeito quando me pedem o número de telemóvel na Índia. Mal pagos, os pobres homens vendem depois os ditos números de telemóvel coleccionados ao longo do suado dia de trabalho, a empresas de marketing, que depois passam os restantes dias da nossa vida a chatear-nos com promoções e tal.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Citações de Deli: M. K. Narayanan

O National Security Advisor, em declarações recentes (e pouco diplomáticas e, por isso, pouco difundidas) à imprensa, parecendo querer ressuscitar os fantasmas de uma pubertária política regional indiana que se pensava enterrada há muito:

We are the big power in the region. Let us make this very clear. We strongly believe that whatever requirements the Sri Lankan government has, they should come to us. And we will give them what we think is necessary. We do not favour their going to China, Pakistan or any other country. We will not provide the Sri Lankan government with offensive capability. That is our position.

A Índia e a presidência portuguesa da União Europeia (Relações Internacionais nº 14)

É lançado hoje, ao fim do dia, o número 14 da revista Relações Internacionais, do Instituto Português de Relações Internacionais dirigido pelo Prof. Carlos Gaspar, dedicado especialmente à Europa, e os seus desafios e políticas. Destaca-se o artigo do Secretário de Estado Manuel Lobo Antunes: Europa: daqui para a frente (versão integral aqui)

No dossier especial relativo à Presidência portuguesa do Conselho, a revista inclui um comentário meu sobre a Índia, intitulado "A Índia e a presidência portuguesa da União Europeia" (pp. 125-129). Fica aqui o parágrafo inicial:

"Sete anos depois da primeira cimeira União Europeia-Índia, realizada em Lisboa sob os auspícios de António Guterres e Atal Vajpayee, em Junho de 2000, Portugal volta a ocupar uma posição de destaque numa das mais importantes parcerias estratégicas e cimeiras anuais que Bruxelas mantém com um restrito grupo de seis países. A oitava cimeira está agendada para o mês de Novembro, provavelmente no seguimento da cimeira com a China, em Pequim, e contará, do lado europeu, com uma privilegiada presença portuguesa, com José Sócrates e Durão Barroso na qualidade de representantes do Conselho e da Comissão da União Europeia (UE), respectivamente."...

Imagens de Deli: Vendedor ambulante de roupa

Portugueses da Índia: Nuno e Tiago

Quatro anos depois de me o Indian Council of Cultural Relations me ter informado, por via da Embaixada indiana em Lisboa, de que tinha sido aceite para uma bolsa de estudo de pós-graduação na JNU há, finalmente, uma segunda geração que me segue.

O Nuno e o Tiago, licenciados em Psicologia em Lisboa, entraram em contacto comigo porque se preparam para se inscrever na Sardar Patel University, na pequena cidade universitária de Vallabh Vidhyanagar (30 mil habitantes, logo uma aldeola indiana), no Gujerate, a 140 km de Ahmedabad e a doze horas, de viagem de comboio, de Bombaim. Aguardam-nos dois anos de pós-graduação (curso curricular) em Psicologia, equivalente à pós-graduação que fiz, entre 2004 e 2006, em Relações Internacionais.

O contacto tem sido interessante e tem sido um prazer aconselhá-los e rever e re-encontrar as mesmas dúvidas e questões que me assolavam a mim, em 2004, embora não fosse então viajar para a Índia pela primeira vez, ao contrário do Nuno e do Tiago.

É um excelente sinal: em mais de dez anos, para além da minha candidatura, houve (ao que soube) só uma bolsa, em finais dos anos noventa, concedida a uma aluna portuguesa que foi estudar danças tradicionais indianas em Varanasi, e duas candidaturas aceites de dois colegas meus mais novos, em 2005, licenciados em Relações Internacionais pelo mesmo departamento que o meu (FCSH-UNL), mas que depois optaram por outros destinos.

É, portanto, um bom sinal, porque demonstra que há mais jovens estudantes e investigadores portugueses interessados em aventurarem-se por estas bandas, enfrentar as grandes adversidades que se apresentam a qualquer jovem europeu que tenha que estudar na Índia, mas também as enormes oportunidades para conhecer mais de um país que ainda vai dar muito que falar no futuro. Bem-vindos, Nuno e Tiago. E boa sorte!

domingo, 1 de julho de 2007

Ambições Oceânicas (Atlântico, nº 28)

Excerto da minha crónica mensal "Passagem para a Índia" na revista Atlântico de Julho, nas bancas desde a passada Quinta-feira:

"Os engenheiros coloniais britânicos e portugueses bem que procuraram inculcar o espírito marítimo na psique urbanística indiana, como o provam a extensa Marine Drive em Bombaim ou a formosa marginal do Rio Mandovi, em Pangim, a capital de Goa. Mas por mais sublimes que sejam as praias ou as baías que polvilham a costa indiana, as suas cidades e aldeias teimam em virar as costas à água. As casas, praças e avenidas orientam-se para o interior continental e só os pescadores, geralmente de castas mais baixas ou intocáveis, estão autorizados a enfrentar o kala pani, o mar negro e impuro.

Esta hidrofobia indiana parece, no entanto, estar a transformar-se rapidamente em hidro-obsessão. De repente, já só se fala em Indian Ocean. O imenso oceano passou a ser visto como trampolim ideal para a Índia transcender o seu encurralamento territorial, entre o Paquistão, os Himalaias e a China, e assumir o seu ambicionado papel de grande potência."

Portugueses da Índia: Mónica Reis

Mais uma portuguesa da Índia. Mónica Reis passou vários meses a investigar o património colonial - vivo e em pedra - de Damão, para a sua tese na Universidade do Algarve. Recomenda-se este seu blogue (Patrimonius), com alguns escritos e fotografias, bem como esta sua crónica, publicada no boletim da Associação Fraternidade Damão-Diu e Simpatizantes, liderada pelo Pe. António Colimão, da Paróquia de S. Francisco Xavier, ao Restelo.

Ar condicionado

O electricista prepara-se para sair, mas eu obrigo-o a testar o ar condicionado mais uma vez, à procura de corrente eléctrica nos comandos manuais. O busca-pólos ilumina-se de forma alarmante e eu insurgo-me com a tentativa de homicídio de que sinto ter sido alvo.

O jovem homem não se mostra incomodado. Vai à minha sala, pega num jornal (do dia) e coloca-o à frente do aparelho (um window ac), no chão. De seguida, coloca os dois pés no jornal e liga e desliga o aparelho com a mão que depois abana à minha frente, com expressão triunfante.
- "Já viu, assim não apanha choque", exclama, em hindi.
- "Queres que eu, sempre que eu queira desligar, ligar ou alterar a temperatura, vá buscar um jornal e ponha os pés em cima dele?", pergunto retoricamente, já irritado.
- "Se preferir, bhai, pode calçar uns chinelos ou uns ténis", responde-me o engenhocas, agora sorridente e orgulhoso com a sua invenção e já com a maleta por baixo do braço, de saída.

Imagens de Deli: Vendedor de gelados e taxista

Aldrabando: Ar condicionado e Internet

Logo na primeira noite o ar-condicionado avariado e a Internet interrupta. O electricista aldraba-me em 300 Rupias e deixa o aparelho a fumegar tanto ou mais ainda do que antes. Do operador cibernético (que remunero mensalmente com 1000 Rupias - salário para muitas famílias) respondem-me que "são as chuvas".

sábado, 30 de junho de 2007

Batalhas aéreas indo-turcas

Acordo, a meio do vôo Istambul-Deli, com vozes exaltadas logo à minha frente, entre os lavabos e a cozinha:

- "You bitch, give me my vegetarian food or you'll see. Now, you hear, now!"


- "You shut up, shut up!".


- "You shut up, who are you telling to shut up? You don't know who you are talking to."


- "Shut up now and get seated or I will call the police when we land."


- "You know who I am? You know who I am? I am the friend of Minster of Police, Delhi state. You will see. You call the police and I will get you arrested the minute we land".


Os passageiros vão acordando do seu sono leve. A discussão, entre um passageiro indiano visivelmente alcoolizado e uma hospedeira turca algo irritada, continua com dedos em riste e empurrões, mas acalma-se com a chegada de mais hospedeiras e com a intervenção de um ou outro passageiro. Os ânimos acalmam-se e volta tudo ao seu sono.


A história nos vôos entre a Europa e a Índia costuma ser sempre a mesma, mas nunca tinha visto chegar uma batalha cultural a este ponto. Chamo-lhe de batalha cultural pelos seguintes motivos.


Por um lado, as hospedeiras turcas (ou outras europeias) costumam encarar estes vôos para a Índia com muita má vontade. São vôos longos em que é norma várias dezenas de passageiros indianos se embebedarem e criarem problemas, por vezes violentos. O embarque faz-se aos empurrões, à boa maneira indiana, os lavabos começam a feder de forma insuportável a meio do vôo, o avião está ainda na pista de aterragem e já estão todos de pé, no corredor, para saírem a correr, e a forma arrogante como muitos passageiros tratam as hospedeiras leva a que se crie logo um clima de tensão e de reacção por parte do serviço de bordo, geralmente pouco simpático e mais rude do que noutras rotas aéreas.


Por outro lado, os indianos, de volta de um continente onde não por poucas vezes foram discriminados racialmente e tratados como pessoas de segunda, com a chegada a casa no horizonte, aproveitam para se vingar do que sentem ser a arrogância cultural ocidental. O avião, a poucas horas de aterrar na sua cidade capital, com umas poucas hospedeiras serventes em estatuto minoritário, apresenta-se como um campo de batalha ideal.


Ambos os lados agudizam então as suas posições. As hospedeiras traumatizadas pelas batalhas aéreas anteriores, na mesma rota, e os indianos respondendo à forma brusca como elas os tratam e às eventuais experiências negativas que tenham tido durante a sua estadia na Europa.


Encontra-se assim, na minha opinião, contextualizada a batalha aérea indo-turca a que assisti esta semana, entre Istambul e Nova Deli.

Concanim

Uma bela música, interpretada pela bela Livia d'Silva, elogiando a "nossa bela língua mãe", o concanim de Goa, e apelando à união de todos os seus falantes. O painel ao fundo deixa presumir que se trata de um evento de homenagem a Jack Sequeira, uma das figuras mais carismáticas que, no referendo (opinion poll) de 1967, fez campanha contra a integração do de Goa no estado vizinho do Marástra. O "Não" ganhou então por uma margem muito pequena.

Um resumo da Arrábida

China rise: which outcomes?
Arrábida Monastery, 21, 22 June

Changing cross-Himalayan dynamics: China's rise reflected in India's foreign policy

Constantino Xavier
Jawaharlal Nehru University, New Delhi.

(Resumo)

Having over immemorial times played the role of a buffer and separator between two distinct regional spaces and civilizations, the Himalayan mountain chain is currently witnessing a new engagement across its peaks. This paper seeks to identify these new points of contacts and explore how China’s rise, especially in Asia, is impacting upon India and its foreign policy.

Following a brief historical interlude, it will first underline the booming relations between both countries in a variety of areas, from more regular bilateral official visits, booming bilateral trade, greater diplomatic coordination in international institutional fora and increasing civil society exchanges. In this sense, both countries are moving from coexistence to cohabitation, and therefore China has become less of a taboo and more of a stable, more global (extra-regional) and insurmountable reference on India’s strategic horizon.

This perceptional change will, then, be used as a guiding element for a more thorough identification and analysis of specific regional and sector-wise dimensions in which India’s foreign policy is beginning to respond to China’s rise: the new policy towards the regional complex of South Asia, the race for sources of energy and for privileged partnerships and strategic axis in the Southern hemisphere, as well as the revival of Nehru’s Look East policy and, perhaps most importantly, a timid strategic shift towards the United States and an embryonic concert of democracies.

Finally, taking India’s responsiveness to China’s global tilt into account, it becomes necessary to evaluate to what extent these changing cross-Himalayan dynamics will affect the stability of the international system, in general, and that of the Asian security complex, in particular. As a prospective conclusion, inviting further debate, it will be argued that New Delhi will gradually assume more assertive positions towards China’s rise, unless its perennial and basilar quest for great power status is duly accommodated, i.e. by making it comfortable with a second-rank position, under the shadow of China’s rise.

Imagens de Deli: Templo tailandês (Bhogal Market)

Lula, a Índia, os portugueses e a distância

Lula disparou que a única razão que o impediria de vir "a nado" para a Índia seria seu "problema de bursite"."Não me dêem a desculpa da distância. Não existe tanta distância porque antes se gastava meses, hoje se gastam horas", afirmou, em improviso, ao final do discurso. "O (José Sérgio) Gabrielli disse que viajou 19 horas (para chegar a Nova Délhi) e que chegou cansado. Eu viajei, da minha terra natal a São Paulo, 13 dias em um pau-de-arara e não cheguei cansado", completou, referindo-se ao presidente da Petrobras.

Citações de Deli: Marilda Baptista

Marilda Baptista, leitora do Governo brasileiro na minha universidade, por ocasião da recente visita de Lula à Índia:

A aproximação cultural é um desafio para os dois países, na opinião da antropóloga brasileira Marilda Batista, que vive há um ano e meio na capital Nova Delhi e é professora visitante de Estudos Brasileiros na Jawaharlal Nehru University, uma das principais universidades públicas da Índia.

“Existe um enorme desconhecimento. Tudo fica em termos de clichês, de estereótipos do que seria o Brasil. A Amazônia, o futebol, o carnaval são as imagens que eles recebem na mídia indiana. Mas há um interesse muito grande em conhecer o que é exatamente isso e não ficar limitado aos clichês”, avalia a antropóloga, que faz parte da Rede de Leitorado, programa do governo brasileiro que leva professores doutores e especialistas em língua portuguesa e cultura brasileira a universidades em 22 países. (continua)

Ainda a vida em Portugal

Um breve resumo dos meus quinze dias portugueses. Como já aqui tinha referido, primeiro uma ida à mata do Buçaco, para no Bussaco Palace Hotel, apresentar o meu trabalho "India's Quest for Great Power Status", num painel do IPRI, numa conferência da International Studies Association.

Depois, um fim-de-semana diaspóricos, com a Convenção Mundial da Diáspora Goesa, em Lisboa. No Sábado, no auditório do Instituto Nacional da Defesa, fiz uma breve intervenção sobre o tema Building a Virtual Goa: Diasporic Opportunities and Challenges. Já no Domingo, moderei uma mesa-redonda com jovens goeses de todo o mundo, em que procurámos refrescar a envelhecida agenda global do associativismo goês.

A convite da Dora Martins, estive depois presente no Encontro da Arrábida, num evento sobre os efeitos da ascenção da China, organizado pela Fundação Oriente e coordenado pelo Observatório da China, onde apresentei a 21 um trabalho meu intitulado "Changing Cross-Himalayan Dynamics: China's rise reflected in India's Foreign Policy" (resumo num post seguinte).

Finalmente, na véspera da minha partida, a convite do Centro de Investigação e Análise em Relações Internacionais (CIARI), partilhei alguns apontamentos meus sobre a política externa indiana no Palácio da Independência, ao Rossio ("O mundo visto de Nova Deli: os novos horizontes da política externa indiana").

Pode parecer muito para quinze dias, mas é assim mesmo (e até pouco) para quem está em Lisboa uma vez por ano.

Imagens de Deli: Produtos brasileiros

domingo, 24 de junho de 2007

A vida em Portugal

Com esta curta estadia, bastante atribulada, em Portugal, também esta vida em Deli entrou em época de férias. Da qual sairá muito em breve, logo que voltar a aterrar em Deli, já nesta próxima semana. Em vias de completar três anos, esta vida continua, portanto.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Citações de Deli: Arun Shourie

Um excelente académico e opinion-maker (Pratap Bhanu Mehta) numa recensão a uma obra de um dos jornalista da moda na Índia contemporânea (Arun Shourie):

a fundamental question we have ignored for too long: in what sense is our democracy representative? We have a selection mechanism for governments, but is this mechanism representative to the degree we want? What does it mean to say that an MP represents his constituency when more than 60 per cent of MPs are elected by a third of the electors in that constituency?

Em casa e o Buçaco

Até dia 29, um breve interlúdio em Portugal, desta vida em Deli. Um ano depois, já merecia este regresso a casa e a temperaturas humanas. Primeiras observações: o ar é respirável, os cidadãos são simpáticos e educados e os automóveis, as pessoas e os bens circulam mais depressa do que nunca. Infelizmente, o tempo para desfrutar as coisas boas não é muito. Serão quinze (ou melhor, já só são onze) dias em cheio.

Começa já amanhã de manhã, com uma ida madrugadora ao Buçaco Palace Hotel, para a Seventh International CSS Millenium Conference, da International Studies Association, dedicado à temática Global Security and the Reconfiguration of the International System: Vision and Reality. Logo da parte da manhã integro o painel Great Powers and the Reconfiguration of the International System, apresentando a comunicação intitulada « India's Quest for Great Power Status ». Os outros membros do painel são Carlos Gaspar (IPRI, The paradoxes of continuity), Raquel Freire (Univ. Coimbra, sobre a Rússia), Dora Martins (ISCSP, sobre a China) e Patrícia Daehnhardt (Univ. Lusíada, sobre a Alemanha), enquanto que o discussant é Roger Kanet, da Universidade de Miami.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Índia, 0,09%

Uma das estratégias de política económica do Executivo de Sócrates tem sido a de procurar aumentar as exportações para os países fora da União Europeia, como o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e Angola, reduzindo a dependência da Europa e aproveitando os elevados ritmos de crescimento dessas economias, como disse o secretário de Estado Adjunto do ministro da Economia e Inovação, Fernando Serrasqueiro no final de Maio, em entrevista à agência Lusa.

De acordo com o mesmo artigo (dados do ICEP, de finais de 2006), são estas as percentagens que estes cinco países detêm no bolo das exportações portuguesas (75% intra-UE: só um quarto das nossas exportações cruzam as alfândegas comunitárias...). O peso da Índia fala por si. Ou, melhor, de nós.

Angola 3,6%
Brasil 0,76%
China 0,64%
Rússia 0,32%
Índia 0,09%

Portugueses da Índia: Philip David dos Santos Baverstock

Philip David dos Santos Baverstock é mais um desses novos portugueses que andam, de mil e uma formas, a redescobrir a Índia para Portugal, fenómeno para o qual eu aqui alertei, recentemente.

Licenciado em Direito pela Universidade Nova de Lisboa, eu soube da sua presença nos subúrbios de Raipur (capital do estado de Chhattisgarh, no centro-leste do país) por via de um amigo da namorada do meu amigo. Esteve lá por três meses como voluntário num projecto de desenvolvimento e humanitário a cargo da ONG internacional Forum for Fact-Finding Documentation and Advocacy.

Terminado o projecto, está de viagem pela Índia, para descansar, antes de regressar a Portugal e iniciar um mestrado europeu em direito humanitário em Itália. Este pequeno vídeo, captado do topo da sua casa em Raipur, deixa-nos com uma impressão do ambiente que por lá o envolveu. Para mais impressões, ver também o seu blogue.

Citações de Deli. Shiv Shankar Menon

Na BBC, o secretário de estado indiano, numa alusão histórica e muito simbólica sobre um assunto-chave discutidos na cimeira G8, esta semana:

terça-feira, 5 de junho de 2007

Imagens de Deli: Thiksey Gompa (Ladaque)

SC / ST

Duas siglas misteriosas, mas que marcam todo e qualquer discurso social e político na Índia. São as Scheduled Castes e Scheduled Tribes, duas categorias que representam os dálitas e outras castas (ou sem-casta) e a população tribal indiana. Ser SC ou ST é complicado na Índia. Mas o mágico certificado que declara a pertença à categoria respectiva também é considerado precisoso, porque abre as portas a um mundo de subsídios, apoios, bem como quotas nos sistemas de educação, político e económico.


O fenómeno agudiza-se, os mais recentes motins entre os Gujjars e os Mina, no Rajastão, sendo prova disso. Gostei de ouvir, nesse contexto, o Professor Yogendra Yadav, um dos mais aptos cientistas políticos e analistas eleitorais (a que eles aqui gostam de chamar sycophants), que falou do início do processo de mandalização do Rajastão (mandalização refere-se às recomendações da Comissão Mandal de instituição de um sistema de quotas para as castas desfavorecidas, nos anos 90). Se o Utar Pradexe se encontra, depois da vitória de Mayawati, numa era pós-mandalização, parece que o Rajastão (e segue-se o Guzarate?) só agora inicia a batalha das castas.


Num país com milhares de castas e sub-castas, não é fácil apreender a complexidade do sistema de quotas imposto pelo Governo. Até para mim, que por aqui ando há três anos a estudar e a tentar compreender esta temática, tudo assume, ainda, contornos misteriosos. Quem quiser, encontra uma ajuda observando as listas oficiais de SC e ST (Census India).

44ºC

Sim, quarenta e quatro, no Domingo passado. Vejam aqui, numa reportagem da CNN-IBN em se explica como se coze um ovo ao sol de Deli.

domingo, 3 de junho de 2007

Os brasileiros e os portugueses

Nova Delhi (Índia) - Não é fácil, para um brasileiro, compreender e aceitar a cultura indiana. A tradutora e blogueira Sandra Bose está há oito anos na Índia e disse que ainda se choca com alguns custumes...

Um artigo na Agênca Brasil, de ontem, no âmbito da visita que Lula da Silva inicia hoje à Índia. Tem sido muito interessante comparar a forma como a imprensa brasileira tem acompanhado e coberto esta visita, contrastando com a forma como a imprensa portuguesa cobriu a vinda do Presidente, em Janeiro. Neste caso, um exemplo pequeno, mas simbólico: os jornalistas indianos foram à procura de brasileiros que vivem na Índia (neste caso a Sandra Bose, minha companheira blogger lusófona em Deli) e procuraram saber como eles vêem a Índia. Nem dá muito trabalho. Basta umas pesquisas na Internet e um e-mail (uns dias antes) e uma entrevista telefónica, por e-mail, ou pessoal, já em Deli.

O jornalismo português não. Não prepara nada a aterra de pára-quedas. Sem querer estar aqui a incidir em auto-promoção, vou então directo ao cerne da questão: As várias dezenas de jornalistas portugueses que acompanharam a delegação presidencial à Índia passaram três dias em Nova Deli e não foram capazes de descobrir esta vida em Deli, nem um outro jovem português que está, há um ano, a trabalhar em Gurgaon. Bastava uma caixinha "Os portugueses de Deli".

Mas não. Só interessam os portugueses emigrantes de há décadas, nostálgicos, que vertem lágrimas pela pátria, enrolados em bandeiras das quinas e rodeados de postas de bacalhau (foram encontrá-los em Goa). As novas gerações de portugueses que vão para a Índia para estudar e trabalhar são ignorados porque contradizem e ferem a Weltanschauung que dirige os nossos noticiários etnocêntricos e arrogantes.

sábado, 2 de junho de 2007

Imagens de Deli: A caminho de Lê

Mayawati (Atlântico nº 27)



Está, desde ontem, nas bancas o nº27 da revista Atlântico. A minha Passagem para a Índia é, desta vez, dedicada ao fenómeno Mayawati e ao resultado das eleições no Utar Pradexe, defendendo que a democracia indiana tem todos os motivos para celebrar a sua vitória. Excerto:

MAYAWATI
Constantino Xavier em Nova Deli

"O sucesso eleitoral dálita passa uma poderosa mensagem de mobilidade social para a imensa maioria da população que não se revê no perfil elitista, anglófono e ocidentalizado da classe política tradicional, aos comandos do país desde os primórdios a luta anti-colonial. ... (Mayawati) cumpre assim uma função social vital que rompe com mitos milenares: ajuda a moldar o sistema político de forma a permitir a normalização de agendas específicas como a dálita, colocando-as em pé de igualdade perante as tradicionalmente dominantes."