quinta-feira, 24 de abril de 2008

KO

Prestes a completar quatro anos de vida em Deli, pensando-me já sobre-naturalmente imune a tudo e mais algum bichinho e perigo que supostamente por aqui prolifera (ai, credo!), nunca tendo adoecido gravemente (menos gripes e constipações e algumas mais indisposições de estômago do que em Lisboa ou Paris), lá sucumbi, no passado fim-de-semana. Armado em esperto, violando as minhas próprias regras, conselhos e cuidados de alimentação, ataquei uma salada de fruta numa dhaba ali na universidade.

Um K.O. gástrico levou-me ao hospital de madrugada, mas nada que se resolvesse com uma meia hora de soro, antibiótico e uns dias de descanso. Um baptismo tardio, mas bem-vindo porque serve como mais uma lição de vida: imunidade aos bichinhos (e às saladas de fruta indianas), só mesmo nos filmes.

40ºC +

E cá esta o calor infernal e as noites mal dormidas; o trânsito, os cortes de electricidade e a falta de água. I love Delhi.

Imagens de Deli: Parliament Street

Fomos plataforma por umas horas

Patil will have a stopover in Lisbon on her way to Brazil and halt in Cape Town while returning to India April 23.

A era das plataformas (temos rival)

Santiago (PTI): Encouraging India to expand its South-South cooperation, Chilean President on Tuesday asked New Delhi to use her country as a "platform" for entering the business markets of Latin America.

E hyper ou super, não?

Reliance Power, which has bagged the country's two ultra mega power projects of 4,000 Mw each at Sasan in Madhya Pradesh and Krishnapatnam in Andhra Pradesh ...

Portugueses no Nepal

São dois os observadores portugueses que integram a missão de observação europeia às eleições nepalesas. Mafalda Cruz Gomes e Margarida Alves. Bom trabalho!

A moda do "Pós-"



(daqui)

Por este andar, mais uns meses e alguém anunciará a era Pós-Ásia, Pós-Oriente, Pós-Resto ou Pós-whatever. Esta obsessão com o futuro espelha duas coisas: uma exagerada incerteza (medo) que nasce de uma (suposta) ignorância ocidental recém-descoberta sobre o "resto", esse admirável mundo novo!; e um profundo desconforto com o presente, que se quer ultrapassado o mais rapidamente possível.

Imagens de Deli: Parliament Street

terça-feira, 22 de abril de 2008

Padanyaasa (My love life)

Padanyaasa, do amigo João Reis Nunes (com quem redescobri a Índia, em 2002, e cujo My Love Life já devia ter sido publicado em livro), que deu o nome a este blogue e acompanha este vida há muito, pelo menos desde o seu início. Obrigado.

Padanyaasa

Mais de dois anos passaram desde que regressámos da Índia e já tantas pessoas morreram nos comboios a caminho de Bangalore, a caminho de Varanasi, tantas pessoas mortas que não chegaram a entrar nos comboios e caíram em charcos de lama estagnada nos bairros junto aos caminhos de ferro. Os porcos, as crianças vão remexer aqueles túmulos rasos e vão encontrar os ossos de todas essas pessoas que morreram, vão desenterrá-los e brincar com eles, vão fazer como o macaco do 2001 e bater os ossos uns contra os outros, vão utilizá-los como armas, vão ferir e afugentar as outras crianças.

E mesmo assim as imensas prisões vão constituir armadilhas em movimento a caminho de Bangalore, a caminho de Varanasi, e as pessoas vão entrar nelas e olhar com olhos tristes pelas grades das janelas, vão desenrolar as folhas de jornal vão comer.

É noite cerrada em Delhi e o meu amigo chama o meu nome. Quando acordo ele está sentado na cama, aterrorizado, à beira das lágrimas. E depois eu estou no seu sonho, e do nosso quarto sem janelas nós não vemos o imenso grito, o sofrimento uníssono das crianças carregadas por crianças, das crianças carregadas por cães, das crianças a remexer no esgoto e das crianças a serem mordidas por ratos. Eu estou no sonho do meu amigo, meio a dormir, e estou numa enorme colina sobre Lisboa e depois as explosões, depois o apocalipse, e o apocalipse a aproximar-se.

Os meus sonhos eram bastante mais simples: eu era um jogador do Benfica, as pessoas gostavam de mim, havia confusas querelas por minha causa, eu era tido em conta.

E nas manhãs tudo continuava estranho, um sonho dentro do sonho, eu dentro do meu amigo e aquela cidade imensa de milhas e milhas - e os milhões e milhões de pessoas, todas iguais, à nossa volta. E apesar disso cada uma daquelas pessoas era uma história, um drama, um grito diferente - e eu era também um grito. Tinha a sensação de que me queriam arrancar a pele. No velho bairro muçulmano nós entrávamos para nos perder e percorríamos um longo caminho no meio da multidão que se encaminhava para a gigantesca mesquita ao pôr do sol – deixávamos de ser nós, passávamos a fazer parte daquele sofrimento todo, aquela dor descalça, atravessada de moscas.

Depois diziam-nos para sair. Era suficiente, diziam eles. Iam rezar, diziam eles. Nós não devíamos lá estar enquanto eles rezavam. Nós íamos procurar sítios para comer, sítios para telefonar para casa.

E por isso no velho bairro muçulmano, mesmo junto ao imponente forte de Delhi, as labirínticas ruelas cavalgadas por ratos e as caras adoráveis das crianças a tornarem-se lentamente em máscaras de olhos brilhantes e dentes aguçados, e travestis tocavam-me e eu deixava e as lágrimas daquela gente deixavam marcas na poeira das suas faces e eu recusava-me a olhar para elas. Facas luziam na escuridão, músicas contraditórias em lugares que eu não identificava, sorrisos e farsas e tantos corações cheios de fatalidade, tantas pessoas que dançavam. Para além da alegria e da tristeza, para além do bem e do mal. Nos templos Jain, nos templos Sikh, éramos recebidos de braços abertos e comíamos a comida dos deuses. Ficávamos sentados nos tapetes dos templos a ouvir os instrumentos dos deuses e eu fechava os olhos e esperava um alívio, alguém que viesse ocupar o meu corpo por algum tempo. Uma substituição, para poder descansar.

E telefonava à minha mãe de ruelas sem fim nem destino, e os vampiros da noite de Delhi aproximavam-se de mim. O meu amigo, ao longe, falava tranquilamente com crianças, no meio dos ratos mortos. As ruas eram tão apertadas que eu não via o céu. Dizia à minha mãe para não se preocupar.

E assim, cada vez que penso naqueles comboios a caminho de Bangalore, a caminho de Varanasi, eu penso nas escadarias que vão dar aos rios e nos banhos purificadores, penso em pessoas calcinadas impedidas de sair de carruagens, algures nos desertos do Gujarat. Penso nas linhas ordenadas de camelos, ao longe, debaixo do sol que ardia, e penso na minha cara tapada por um lenço, os meus olhos vermelhos da poeira do deserto. Penso nas aldeias perdidas onde nunca nenhum comboio parou, e do modo como abrandávamos e de como as crianças vinham a correr acompanhando as carruagens, o modo como as crianças estendiam as mãos para me tocar. Penso em mim a pensar nestas histórias todas que guardo em mim, estas histórias que mais ninguém sabe, e algum dia terei tempo de as contar? Penso em mim sentado na porta do comboio e nas lágrimas de uma menina a caírem nos meus joelhos, e ela encostava a cabeça no meu ombro e rezava, falava, suplicava, e aquelas palavras eram as palavras de tanta gente e mesmo assim eu não entendia nada.

Gosto e recomendo: Minarete da Jama Masjid

Visitar a maior mesquita indiana, a imponente Jama Masjid, logo após a aurora, preferencialmente num dia sem neblina matinal, pelas sete da manhã, ou antes (entre Outubro e Junho).

Pedir um favor especial e pagar um extra ao guarda para autorizar a subida ao topo do seu minarete (Sul), fora de horas.

Vista panorâmica, silêncio, brisa. Velha Deli a acordar. Soberbo. Adoro.

Fragmentos da leitura

"I can understand your (South Asian American) dilemma, but keep your Indian soul even though your exterior may be American. ... There will be a day when the world will bow at the feet of India and seek knowledge of India. You may live here (Washington), but if your motherland hollers for you, I know that you will run for her succour."
Uma Bharti, ex-dirigente do BJP, num comício em Washington, 1993, in The Karma of Brown Folk, Vijay Prashad

Tão lindinho, tão branquinho, dizia já a minha avó

Esta vida no Portugal Diário

Esta vida encontra-se agora também recomendada pelo Internacional do Portugal Diário. Não sei bem porque é que me colocaram do lado direito, mas obrigado na mesma.

Fragmentos da leitura

“The former colonies give rise to postcolonial societies, but the metropoles, supposedly, continue as before, unaffected by a history they imagine happened elsewhere.

Makarand Paranjape, InDiaspora

Imagens de Deli: Parliament Street

Desestabilizadores

In 2020 the average age in the EU will be 45, in India it will be 29. (daqui)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Mayawati

É hilariante assistir aos discursos de Mayawati nos grandes comícios do BSP. Sempre que termina uma frase mais bombástica, ela ergue o seu braço direito e as massas respondem, de forma quase automática, com ruidosos aplausos.

De sari não vai ser fácil

On Sunday, a team of Washington Redskins cheerleaders landed in Bangalore to help create India’s first cheerleading squad. (daqui)

Imagens de Deli: Parliament Street

terça-feira, 15 de abril de 2008

Fragmentos da leitura

“The Sangh (Parivar) can be seen to capitalize on the Nehruvian absence of a cultural policy, mediating modernity for the small-town upper castes.”
Arvind Rajagopal, Politics after television: Hindu nationalism and the reshaping of the public in India, p. 260


Não arranjam um espacinho para a Europa?

In his inaugural address at the summit attended by leaders of 14 African countries and groups, Singh called for turning the 21st Century into a “century of Asia and Africa.” (daqui)

Desestabilizadores

Li ontem num jornal económico qualquer que há mais de 55 000 profissionais estrangeiros altamente qualificados a viver como expats na Índia.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Imagens de Deli: Parliament Street

Com ou sem ar condicionado?

PUNE: A wax museum, on the lines of Madame Tussauds in London, could become a tourist attraction along the scenic coastline of Konkan if Maharashtra Tourism Development Corporation’s ambitious plans (MTDC) materialise. (daqui)

Viju

Os vendedores ambulantes de gelados, com os seus pequenos triciclos frigoríficos coloridos e campainhas alegres, não costumam ser pessoas muito dadas a preocupações ambientais. Por isso, salvo em zonas mais turísticas ou desenvolvidas (como na zona circundante ao India Gate), nunca se fazem acompanhar dos legalmente obrigatórios contentores de lixo, em que o cliente deve colocar a embalagem do gelado consumido.

Aqui na minha zona residencial isto reflecte-se da seguinte forma: a poluição (papel colorido e paus de gelado espalhados pela rua) é tanta que permite aos residentes identificar onde o vendedor esteve por último e assim seguir-lhe o rasto.

Viju apareceu numa destas esquinas há talvez uma semana. Deve ter uns sete ou oito anos, mas a sua cara escurecida por anos de sol e violentas cicatrizes deixa adivinhar uma adolescência precoce. Veste-se como todos os outros pobres: uma enorme camisa XL, cinzenta e esfarrapada, cobre-o quase até aos joelhos, enquanto que a calça se encontra coberta por um masala de manchas.

Viju toma conta de um desses pequenos triciclos frigoríficos, é um vermelho, da Wall’s. Do seu interior gelado retira as delícias que empanturram de alegria as crianças limpas, bem-cheirosas e alegres que vivem nos prédios à volta.

Foi assim que eu reparei no Viju, nos primeiros dias em que passava por ele. Ontem, no entanto, parei para comprar um Cornetto Choco-Blast, daqueles grandes, dos mais caros, e as mãos de Viju desceram até ao fundo da arca, à procura de realizar o meu pedido, e acho que, por um breve momento, ele sorriu, quando finalmente encontrou o Cornetto Choco-Blast e me o entregou, orgulhoso. Quando lhe perguntei pelo seu nome, procurando estabelecer algum contacto humano, e lhe ofereci o generoso troco, a sua expressão facial voltou ao normal; ausente, introspectiva, resignada.

Foi então que, ao preparar-me para deitar a embalagem do gelado para o chão, testemunhei um momento especial. Viju exclama algo, atrai a minha atenção, e aponta para um pequeno contentor, vermelho também, convidando-me a depositar ali o papel do Cornetto Choco-Blast. Correspondi, hesitando: haverá alguma campanha ambiental em curso que eduque estes vendedores de gelados? Porquê este apelo, ainda por cima deste miúdo tímido?

Ao afastar-me rua acima, fintando motas, camiões, vacas e pedintes, a curiosidade obrigou-me a regressar e a observar Viju à distância. Um outro cliente tinha acabado de se afastar e surgiu um tempo morto, de espera, ao sol tórrido de Deli. Viju aproximou-se então do pequeno contentor de lixo para o qual tinha chamado a minha atenção. Retirou de lá a embalagem de papel que se ainda encontrava em melhor estado (evitando as rasgadas em várias peças) e muito cuidadosamente, com a ajuda de uma tesourinha, começou a recortá-la numa forma geométrica.

Já ao início da noite passei novamente por Viju e comprei outro gelado, só para observar as suas pequenas obras de arte de perto. Consegui lançar um olhar enquanto me aproximava, mas as pequenas árvores, casas e nuvens em papel desapareceram num instante no seu bolso XL.

Imagens de Deli: Parliament Street

sábado, 12 de abril de 2008

Fragmentos da leitura

“Oh Brother, do not fight in a war against the Chinese. Beware of the enemy. He should not deceptively instigate you to fight your Chinese brothers. The enemy splits brothers and makes them kill each other. The people of Hind, China and Turkey are real brothers. The enemy should not be allowed to besmirch their brotherhood.”
Poema em Ghadar ki Gunj, uma publicação circulada entre soldados e polícias indianos que se encontravam destacados na China, ao serviço dos britânicos, durante a Primeira Guerra Mundial. In Hindustan Ghadar Party: a Short History, 1977, p. 193

Imagens de Deli: Parliament Street

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Cruzamento

Que me lembre, fiquei há uns dias parado, pela primeira vez, no meio de um cruzamento no exacto momento em que os semáforos deixaram de funcionar.

Até em circunstâncias normais o cruzamento em questão, em R.K. Puram, é dos mais caóticos no Sul de Deli. Como me encontrava vestido a rigor para uma reunião, não me aventurei para fora do táxi, limitando-me a observar, do conforto do banco de trás e com lentes sociológicas, o monumental caos que se seguiu.

Não é difícil descrever o cenário: todos os veículos, de camiões, a autocarros, veículos ligeiros, riquexós, motas, motoretas, bicicletas, carrinhos de mão e até o pedinte que, de pernas amputadas, se movimenta com a ajuda de uma pequena plataforma com rodas, avançam na direcção desejada até tocarem num outro veículo.

Teoricamente, entre os segundos em que os semáforos falham e se atingir este cenário, há espaço e tempo suficiente para se chegar a uma solução consensual. Por exemplo, o autocarro poderia ter recuado para deixar o riquexó e o tractor passarem, para depois avançar, deixando assim uma enorme clareira que permitira que o trânsito escoasse numa das vias mais congestionadas. Etc.

Mas não. Avançam todos, cegados pelo interesse individual. Poucos segundo depois, como consequência deste capital social negativo, o cruzamento encontra-se transformado num imenso emaranhado de veículos empatados, sem a mínima margem de manobra. É o cúmulo, o fim, penso. Não há possibilidade de saírmos daqui até que chegue a polícia, talvez daqui a meia hora, mas até lá já terá irrompido uma enorme discussão e talvez pancadaria.

Observo: bastantes buzinadelas, nem um grito ou gesto ameaçador. Todos aguardam, expectantes e no conforto dos seus veículos. Segundos depois, surgem, no meio dos veículos, dois indivíduos. Um jovem sique saído do banco de trás de um Mercedes imponente, vestido a rigor, de fato escuro e turbante branco. E um miúdo, magricela, de tez escura, camisa esfarrapada, o bloco de bilhetes na mão denotando o seu estatuto de cobrador num dos autocarros.

Ambos começam a gesticular, a serpentear pelos breves interstícios que separam os veículos, a distribuir ordens: avança, recua, espera, para ali, para aqui! Não precisam de ameaçar: todos os outros motoristas parecem dispostos a concederem-lhes uma autoridade ilimitada. À distância, comunicam um com o outro com recurso à linguagem gestual e a um qualquer idioma e paradigma estratégico que parecem partilhar para solucionar o problema: o do sique talvez derivado da natureza marcial da sua religião; o do miúdo cobrador talvez derivado da sua experiência de domador de um gigante rodoviário.

Pouco menos de um minuto depois, os veículos encontram-se todos em movimento e o trânsito dissipa-se pelas avenidas circundantes. Viro-me e vejo o sique e o miúdo cobrador a entrarem para os seus respectivos veículos, sem no entanto se despedirem ou trocarem qualquer gesto de satisfação mútua. A vida continua.

Changing Cross-Himalayan Dynamics

A influente página de editorial e opinião do Hindustan Times de Domingo passado apresenta-se preenchida por quatro artigos, de quatro autores diferentes, todos obsessivamente dedicados à questão tibetana e às relações sino-indianas.

Imagens de Deli: Parliament Street

terça-feira, 8 de abril de 2008

Sons nocturnos, riquexó

Negociamos brevemente e entramos, ali para os lados do Khan Market, para um riquexó. A noite está amena e anuncia o Verão. Já são quase dez da noite e as avenidas, exaustas, começam a respirar o ar fresco do Lodhi Park.

O motorista arranca e manuseia o sintonizador de rádio, incorporado algures por trás do volante. E logo ecoam das colunas, rudes e rítmicos, os sons bhangra de Bollywood. As bandas sonoras dos filmes de sucesso mais recentes fazem-nos companhia até passarmos pelo INA Market e entrarmos para a Ring Road que, a esta hora ainda, apresenta uma imensa serpente de veículos em movimento, todos ansiosos por abandonarem o centro da cidade.

Noto agora que a estação de rádio sintonizada é a pública
All India Radio. Passa alguma publicidade, em hindi e inglês, seguido do noticiário anglófono das dez em ponto, com aquele estilo característico das suas locutoras, um raro sobrevivente da Índia de Nehru, da Deli dos anos cinquenta, cinzenta, não-alinhada, firme e segura. São estas as vozes radiofónicas que, em 1990, me faziam companhia, ao final da tarde, sentado na cozinha da nossa casa nas Fontainhas, com as chuvas lá fora, enquanto observava a nossa empregada a preparar o caril do dia seguinte.

Abandonamos a circular e terminam as notícias do dia. De repente, uma voz imponente, daquelas que em Portugal só ouvimos na Antena 2, anuncia o programa semanal de Western Classical Music: We shall open today with Tchaikovsky's Romeo and Juliet, subtitled Overture-Fantasy, at the request of a distinguished listener who called us from Shimla, Himachal Pradesh.
Here it is. A good night to you out there, listening to us, all over India and the world.

Imperturbável, o motorista continua a galgar ruas e avenidas, agora mais desertas. Das colunas ecoam os sons sinfónicos, majestosos, enquanto que o pequeno riquexó, verde e amarelo, cruza a brisa da noite. Nos cruzamentos a composição de Tchaikovsky é interrompida pelos sons de uma ou outra buzina, pelo arrancar de um pesado ou pelo cuspir de um ciclista, ali logo ao nosso lado.

Chegámos ao nosso bairro, escuro, adormecido, silencioso. Estamos agora em frente a nossa casa, pagámos, mas não nos afastamos: duvidamos, como que enfeitiçados pela música - terá o motorista deixado aqueles sons clássicos sintonizados só por nossa causa?

O triciclo motorizado faz um esforço para realizar a inversão de marcha na ruela apertada e arranca, leve. Já vai ali ao fundo, prestes a entrar na avenida, e ainda ouvimos os imponentes sons das tubas, dos baixos e dos tambores a ecoarem pela noite de Deli.

Imagens de Deli: Parliament Street

sábado, 5 de abril de 2008

Como (não) vender um livro

Zimler é um pouco como os portugueses do século XVI que tanto critica nos seus escritos: vem à Índia munido de muitas verdades, mas interessa-lhe o mercado. (Mas ele é um pouco mais patético: escreve e opina sobre a Índia antes de ter cá posto os pés). Uma coisa é acharmos que a história está mal contada e procurarmos revê-la de forma sóbria, séria e moderada. Outra é fixar uma ideia, cristalizá-la para além de qualquer introspecção crítica e vendê-la aos berros, tal e qual no mercado do peixe.

A vontade cega e obsessiva de Zimler em aparecer nos jornais, em vender os seus livros, espelha-se nas afirmações que faz e na linguagem que utiliza para veicular as suas opiniões: "I see the golden candlesticks in Catholic churches, I try to remember that all that wealth was made, in part, by murdering Indians in Goa".

Não esconde aliás a motivação pessoal por trás da sua ficção que se quer não-ficção (apresenta-se como sendo um historical novelist): "I wrote this book as my vengeance against the power-hungry Catholic priests who tortured and murdered Indians under their rule, who almost succeeded in wiping out all traces of Hinduism from Goa."

Eu até o percebo quando diz que "(w)hat I find horrible is that the Portuguese still speak of Goa as if it was the exotic, friendly capital of the spice trade". Também me preocupa e leva a fazer esforços para que isso mude, para que Portugal se reveja de forma mais crítica no espelho pós-colonial que é Goa. Mas "vingança", quatrocentos anos depois? Por favor, senhor Zimler, deixemos os senhores padres pecadores descansar em paz e olhemos, com mais preocupação, para os neo-missionários de hoje.

Esta entrevista, dada a um semanário lido pela classe média liberal e bem-pensante indiana, e já está, uns quantos milhares de exemplares vendidos, pensará talvez Zimler. Engana-se: qualquer indiano condena certamente o passado colonial português violento que assolou o subcontinente há quase meio milénio, mas celebra-o igualmente, porventura mais do que os próprios portugueses, constrangidos pelo white man’s burden. Pessoalmente, não me interessa a dicotomia celebrar/condenar: o desafio é transcendê-la e retirar lições construtivas para o já suficientemente tenso e volátil presente.

Assim, resta-me recomendar, muito sinceramente, o seguinte: por favor, recolha a sua corneta sensacionalista, senhor Zimler (pelo menos aqui na Índia). Se não, talvez um dia dará por si a soprá-la entre os que anseiam por novos pogroms.

Imagens de Deli: Parliament Street

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Agora já há terroristas pacifistas

...secret engagement between doves in the terrorist group and Atal Behari Vajpayee’s government. (daqui)

Imagens de Deli: Parliament Street

Aldrabando: Engraxadores e macacos

À atenção de quem se passeia pelo Connaught Circle, no centro de Deli. Enquanto serpenteia pela multidão um transeunte procura, de forma insistente, chamar a sua atenção, apontando para o seu sapato. Você procura ignorá-lo, lembrando-se dos conselhos amigos de prévios visitantes à Índia - nunca dar atenção a apelos não-solicitados no meio da rua.

Mas o jovem senhor continua a apontar insistentemente para o seu sapato e o olhar dele até parece genuíno e amável, pensará. Você baixa então o queixo e visualiza o seu sapato coberto por uma massa escura e mal-cheirosa que se assemelha a excremento animal. Horrorizado, desesperado, cruza novamente o seu olhar com o do transeunte, os seus olhos espelhando agora gratidão também, para além da habitual desconfiança.

O amável transeunte (geralmente um adolescente) mostra-se igualmente transtornado e, em inglês ou hindi assistido por linguagem gestual, aponta para as árvores que cobrem o passeio e dá a entender que a culpa é dos malditos monkeys que não sabem controlar os seus ímpetos naturais e que supostamente libertam excrementos enquanto que saltitam de árvore em árvore.

Aponta então para um engraxador que se encontra logo ali, à distância de uns metros - uma autêntica benção divina para si, que obviamente não está para dar boleia a merda de macaco durante o resto do dia. Que sorte, exclama para consigo, enquanto que o engraxador anuncia um preço inflacionado para a operação de limpeza (você só diz que sim, e pensa nem que fosse dez vezes mais), olha para cima e abana a cabeça, expressando assim uma profunda solidariedade humana para consigo.

É natural, tal como o sol e a lua, que é tudo uma operação muito bem montada entre dois aldrabões, geralmente pai (engraxador) e filho (transeunte). Este último deixa cair a merda para cima do seu sapato e passa depois novamente por si, avisando-o e orientando-o para o pai engraxador. É um episódio que eu testemunhei repetidamente em Connaught Place.

Nestes casos recomenda-se o seguinte: deixar que o engraxador limpe o sapato e depois recusar pagar e continuar. Muitos protestam de forma agressiva e virão a correr atrás de si, mas nesse caso basta responder de forma igualmente firme, ameaçando com a polícia - e desaparecerão imediatamente. Pode também pedir ajuda a um qualquer outro transeunte que certamente o ajudará se lhe explicar que foi vítima deste embuste.

Enquanto isso, aqui na Índia...

In keeping with the times, the new nikahnama prohibits the proclamation of triple talaq through SMS (short messaging service), e-mail, phone and videoconferencing. It also stipulates that talaq will be valid only if it goes through a mandatory period of three months to give the couple ample time to reconsider the issue.

Imagens de Deli: Parliament Street

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Mais uma vida indiana: João Queiroga

Não posso perguntar se se lembram, porque eu mesmo desconhecia. Mas o facto é que João Queiroga é, para grande parte da geração teen portuguesa, uma referência devido à sua participação na série Morangos com Açúcar. E o João está agora a estudar, durante um ano, no Mahindra United World College of India, perto de Puna.

Os estudos na Índia integram-se num plano de estudos distribuído por vários países e o Mahindra College é uma instituição desenhada especialmente para este intercâmbio, assemelhando-se mais a um colégio de elite do que a uma normal escola indiana. Mesmo assim, é muito bom saber que há pais portugueses que começam a olhar para e a confiar na Índia como uma mais-valia para a formação dos seus filhos.

E o blogue dele vai já ali para os ligações a outras vidas lusófonas da Índia. Boa sorte João!

Bangaloreanos em Deli

Um relato da visita a Deli dos dois estagiários do INOV-Contacto em Bangalore, Jaime e Zé Miguel, da perspectiva deste último. Inclui um breve relato sobre o mini-encontro lusófono que suscitou, reflectindo a crescente comunidade portuguesa por estas bandas.

Goa, de novo

Antunes Ferreira, na sua travessa habitual, conta-nos como foi a sua última viagem a Goa. Crónicas e histórias muito reais, mas com a ficção sempre bem presente. Por exemplo:

Sem pecado
Dona Umbelina morava nas Fontainhas. Na Rua do Natal. Uma casa apalaçada, de estilo colonial, como quase todo o bairro castiço. Uma espécie de Alfama de Panjim, só que plana. A maior subida da capital goesa dava para o Altinho e o resto era chão raso, bordejando o Mandovi e estendendo-se já muito para a outra margem. Porvorim, onde ficavam já os edifícios oficiais, a começar pela Assembleia. Mais

Imagens de Deli: Parliament Street

E já odiavam o Paquistão

Who were the first Indians? And where did they come from?

Geneticists from the Madurai Kamaraj University claim they have found the answers in a small village called Jyothimanickam on the fringes of the Western Ghats, some 50 km from Madurai.

Thirteen people in this hamlet carry the gene ‘M130’ in their DNAs and researchers from the university claim their ancestors were the first ‘Indians’.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Imagens de Deli: Parliament Street

Parliament Street

Pequena sub-série das Imagens de Deli: na Tolstoy Marg, perpendicular à Sansad Marg / Parliament Street (traseiras do The Imperial), econtram-se sempre plantados, em pequenos barracões, movimentos de protesto e reivindicativos, pelas causas mais variadas, dos quatro cantos da Índia. Um mosaico social e político que recomendo vivamente a visitantes que passem por Deli e se interessem por um pouco mais do que pelas compras, Qutub e Forte.

Imagens de Deli: Parliament Street

Fragmentos da leitura

It was not her fault that she couldn't understand, for as Tridib often said of her, the inventions she lived in moved with her, so that although she had lived in many places, she had never travelled at all.

Amitav Ghosh, The Shadow Lines

Papéis de Deli: Talão Multibanco

Aldrabando: Guias no Taj Mahal

É preciso desembolsar quase 15 Euros para ver o Taj Mahal, monumental símbolo do amor. Mas a discriminação de preços de entrada para estrangeiros, bem como a florescente economia e corrupção que alimenta, ficam para outra vez.

Desta vez: à entrada do Taj Mahal, durante o security check, os seguranças e polícias agora já nem permitem aos turistas fazerem-se acompanhar das suas bíblias sagradas, os volumosos guias turísticos Lonely Planet, Rough Guides, Footprint, Frommer's, Routard ou qualquer outro: tal e qual Idade Média, os livros são agora vistos como uma ameaça. À segurança?

Não. Os livros são uma ameaça aos guias oficiais (humanos) que se encontram plantados à entrada e oferecem, de forma insistente, os seus quase sempre insatisfatórios serviços (é muito raro algum deles ter informação interessante que vá para além do que vem nos livros; e mesmo que a tenha, não sabe articulá-la de forma compreensível, refêm dos seus fracos conhecimentos de língua inglesa).

Instados a apresentar o regulamento que proíbe a entrada de um livro, ou a explicar a lógica da interdição, os funcionários balbuciam nervosamente: pode ser uma bomba, diz um; o outro, provavelmente um superior, manda-o calar: não queremos que os turistas fiquem muito tempo, sentados por aí, a lerem, porque isso provocaria congestionamentos e confusão. Nota: os jardins e complexos circundantes ao Taj Mahal são do tamanho de pelo menos cinco ou dez campos de futebol, o bilhete permite explicitamente a permanência durante o dia inteiro no complexo,

É portanto uma mentira, claro. Tenho quase a certeza: os guias oficiais devem pagar um x mensal aos seguranças da entrada, para inventarem esta balela e a contarem aos turistas pacóvios (perspectiva autóctone em rápida expansão). Assim, é natural que muitos turistas optem pelos serviços dos guias que, caso contrário, enfrentariam certamente muito menor procura. Nota adicional: no interior do complexo, o próprio departamento de turismo vende livros, mapas e guias...

segunda-feira, 24 de março de 2008

Tibete (Expresso)

Apontamentos meus que foram utilizados no dossier que o Expresso desta semana (Internacional) preparou sobre a situação no Tibete e os consequentes protestos internacionais:



Entrevista a Sonam Frasi

por Constantino Xavier (correspondente em Nova Deli)

Sonam Frasi é deputado no Parlamento tibetano no exílio (Daramsala, Índia).

Eleito pelo círculo Europa (residente em Londres).

É uma das faces tibetanas mais conhecidas a nível internacional.

O Parlamento tibetano no exílio, fundado em 1960 e com sede em Daramsala, no Norte da Índia, encontrava-se em sessão quando os protestos se iniciaram em Lasa. Com o agravar da situação, e insurgindo-se contra o silêncio da comunidade internacional, os seus deputados desceram à capital indiana para uma greve de fome em frente ao Parlamento indiano.


Protestos, situação e reivindicações

“Os nossos protestos são, acima de tudo humanitários. A questão política é menos importante agora. Há centenas de feridos que necessitam de urgente tratamento médico, mas que estão a evitar os hospitais oficiais por recearem represálias e detenções por parte das autoridades”

“Formalmente não foi declarada a lei marcial, mas a situação no terreno é de absoluto controlo militar e colapso total do aparelho civil”

“Temos informação confirmada de cerca de oitenta mortos, na maioria protestantes pacíficos. Temos informação não confirmada que aponta para mais de cem mortos. É difícil apurar o que se passa no terreno, porque os militares chineses estão a controlar a comunicação social, incluindo estrangeira. Mas são números que estão certamente a aumentar a cada dia que passa”.

“Os militares chineses estão a patrulhar a fronteira com a Índia com mais cuidado, desde que a revolta se iniciou, mas esperamos que o número de refugiados aumente de forma drástica nos próximos dias e semanas”

(O Governo tibetano no exílio, mantém um departamento especial para recolher as centenas de refugiados que continuam a chegar à Índia todos os anos, muitas vezes em condições graves, depois de atravessarem os Himalaias durante semanas, para cruzarem a fronteira).


Comunidade internacional

“Exigimos que a comunidade internacional pressione Pequim a desmilitarizar Lasa e a abandonar a repressão violenta da liberdade de expressão e associação dos tibetanos”.

“As Nações Unidas mantêm um silêncio incompreensível: em quarenta anos a sua Assembleia Geral só adoptou uma ou duas resoluções. Exigimos que envie imediatamente uma missão independente para o Tibete, para se inteirar da situação no terreno e dar a conhecer à comunidade internacional o terror e genocídio que se vive no Tibete”

“A comunidade internacional tem uma obrigação elementar para com os tibetanos que estão a ser oprimidos violentamente, mas está a compactuar com o regime chinês”

“O povo indiano acolhe-nos com imensa generosidade há mais de quatro décadas, mas é preocupante observar a mudança de atitude do Governo indiano que parece obcecado em agradar a Pequim.”

“Esperamos uma posição mais forte da Índia. Se Nova Deli defender os nossos interesses, contaríamos imediatamente com o apoio de um grande número de outros países no mundo inteiro”.


Interesses europeus

“Falo com os europeus nas ruas e é impressionante o apoio que a nossa causa recolhe nas ruas, em crescendo desde os anos 90. Mas é igualmente frustrante ver os respectivos governos europeus a fecharem os olhos de forma cada vez menos envergonhada”.

“Os governos europeus e a União Europeia, se é que se lembram do Tibete, limitam-se a fazer declarações cuidadosas, para não ferirem os seus interesses económicos na China. Vivo em Londres há 30 anos e esta é uma hipocrisia que se tem agravado nos últimos anos – já ninguém nos governos e só poucos nos parlamentos gostam de ouvir falar no Tibete”.


CONTEXTO HISTÓRICO E POLÍTICO

Nova Deli manteve relações diplomáticas formais com o Tibete até aos anos 50. Em 1959, Nehru acolheu o Dalai Lama e passou, desde então, a conceder apoio implícito ao governo tibetano no exílio e aos mais de 150 mil refugiados tibetanos que residem no país. Oficialmente, Nova Deli continua a conceder-lhes o estatuto de refugiados com “nacionalidade tibetana”.

A emergência económica e militar da China tem obrigado a Índia a reequacionar o seu apoio ao separatismo tibetano. Em 2003 reconheceu, de forma informal, o Tibete como sendo território soberano da China, facto que tem afirmado repetidamente desde então, de forma a apaziguar Pequim. No entanto, durante a recente visita a Pequim, em 2007, o actual Primeiro Ministro Manmohan Singh ignorou, pela primeira vez, a questão do Tibete, renovando a apreensão chinesa.

Desde que travaram uma guerra, em 1962, que os dois países disputam o traçado da sua fronteira comum, a China reivindicando, por exemplo, o estado do Arunaxal Pradexe (Nordeste da Índia) de maioria budista tibetana. Embora os últimos anos tenham testemunhado várias rondas de negociação, o contencioso permanece, muito devido à questão do Tibete: acordar novas fronteiras seria reconhecer formalmente a soberania chinesa sobre o Tibete, e esta é uma carta na manga que Nova Deli não quer desperdiçar com facilidade.

Imagens de Deli: Vendedora de especiarias

A Oriente tudo e nada de novo (Relações Internacionais nº17)



Na revista Relações Internacionais, nº 17 (IPRI-UNL), integrado no dossier sobre o balanço da Presidência Portuguesa da União Europeia. Resumo:

A Oriente tudo e nada de novo

11 | Março | 2008
Constantino Xavier

As prioridades da presidência portuguesa negligenciaram, desde cedo, qualquer esforço para deixar uma marca europeia a Oriente e a pasta «Índia» passou consequentemente para a categoria dos «serviços mínimos». O artigo argumenta que a diplomacia portuguesa alcançou o seu objectivo de fazer uma gestão corrente das relações União Europeia-Índia/Ásia, mas que, a longo prazo, esta escolha poderá ter custos substanciais para a agenda externa europeia e o posicionamento da UE perante as grandes transformações asiáticas em curso. Identifica ainda mecanismos e instrumentos que visam aprofundar as relações UE-Índia e analisa o momento de transformação e potencial do eixo bilateral luso-indiano.

Obrigado

Obrigado Denise, pelo Prémio Leitura Deleitável.

Papéis de Deli: Recibo da água

Ainda o Natal

Perspectiva do William Gracias, sobre o Natal que passámos em conjunto.

36 hours in New Delhi

36 horas muito fraquinhas, mas servem de roteiro-base.

terça-feira, 18 de março de 2008

Ontem à tarde

Uma ou duas centenas de polícias, deitados na relva ou à sombra das árvores, em frente à Embaixada da China. Silêncio.

Fragmentos da leitura

Compared to the sun of Hindu civilization giving a constant and steady stream of beneficent light, which penetrates the farthest nooks and corners of the world, carrying comfort and contentment to mankind, these civilizations (Egyptians, Phoenicians, ancient Greece, Persia and Rome) were like brilliant meteors that appear in the skies lighting the while, with their short-lived lustre, the heavens above and the earth below.

Har Birlas Sarda, Hindu Superiority (1906)

Imagens de Deli: À beira da estrada

sábado, 15 de março de 2008

Acordar hoje

Ontem, ao passar pela praça de táxis, ainda respirei de alívio, ao ver os motoristas a envolverem-se em mantas para a noite fria que se avizinhava. Hoje, sol intenso, tórrido: é o fim. Os jornais, pesados e volumosos, minados de encartes publicitários e poucas novidades. Na rua, os vendedores ambulantes anunciam, cantam, apelam e negoceiam.

Imagens de Deli: Surjakund Mela

Diz-me o que comes... (II)

Informação e notas soltas que foram utilizados na investigação e preparação do texto que sai hoje no Expresso.

Aumento médio de preços de 2005 para 2008, em Nova Deli, Índia
1 Euro equivale a 50 Rupias indianas



1 kg de farinha (para as apas, essencial à dieta indiana)
De 0,18 a 0,30 Euros



1 kg de batatas (tal como vegetais, preço flutua muito com as estações do ano)
De 0,10 a 0,16 Euros



1 kg de arroz
Grande variedade de qualidades, entre 0,30 e 1,00 Euros
Em média, inflação de 0,15 Euros/kg/ano



1 litro de óleo vegetal
De 0,80 a 1,05 Euros
Classe média/alta escolhe, por vezes, azeite de oliveira importado, a mais de 2,00 Euros/litro



1 bilha de gás
Preço oficial: 6,00 Euros
Mercado negro: 11,00 Euros



1 litro de querosene (utilizado em substituição de gás pelas classes desfavorecidas)
Preço oficial: 0,16 Euros
Preço privado: 0,70 Euros



5 litros de água engarrafada (garrafão)
De 0,80 Euros a 1,30 Euros



1 kg de frango, em talhos comerciais
De 1,20 Euros a 1,80 Euros



1 kg de Paneer - requeijão (muito comum na gastronomia indiana)
De 1,40 a 2,40 Euros



1 litro de leite do dia
De 0,31 a 0,42 Euros


A Índia vive um fulgurante boom económico: no sector privado, os salários chegam a aumentar entre 30 e 50% por ano, a economia cresce entre 8 e 9% por ano, o governo procura desesperadamente conter a inflação que chega aos 5%.

Prosperidade inédita: estudos apontam para que os índices de pobreza tenham recuado em 10% desde 1997, mas o índice internacional Gini, um coeficiente que calcula a distribuição igualitária da riqueza, reflecte uma subida na Índia (crescimento desigual), desde que o país abraçou as reformas económicas, em 1991: a diferença de rendimentos entre os mais ricos e os mais pobres tem, desde então, crescido a passos largos. Todos enriquecem a passos largos, mas uns (classe alta e média-alta, essencialmente urbana) mais rapidamente do que os outros (classes baixas, rurais e urbanas).

Assim, é natural que a subida dos preços alimentares tenha afectado, especialmente:

- os mais pobres, que vivem de rendimentos ocasionais (economia informal, que chega a pesar 80% em algumas regiões)

- as zonas rurais, com menor oferta e em que há menos concorrência

A classe média urbana é afectada, mas pouco: consegue cobrir a subida dos preços alimentares com a subida de salários e não tem, por isso, necessidade de alterar a sua dieta ou alterar o seu orçamento quotidiano.

Mas não deixa de ser uma questão explosiva, em termos políticos: a estabilidade do governo depende, entre vários factores (por exemplo, fornecimento de água e energia) directamente da inflação e, em especial, dos preços alimentares, que assim servem de índice de estabilidade política. Há falta de cebolas no mercado, ou o preço do querosene é aumentado, logo há crise política. Embora o mercado alimentar esteja privatizado, este tende a seguir os preços-índice fixados pelo Governo, que mantém uma extensa rede de estabelecimentos públicos (respectivamente para lacticínios, frutas e vegetais ou cereais e grãos).

E há a privatização do mercado do retalho... com as multinacionais à espreita. Necessária num país que perde um terço da sua produção de cereais e vegetais no seu transporte e armazenamento deficiente, ou suicídio para os pequenos e médios empreendedores agrícolas indianos? O debate continua.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Imagens de Deli: Alfaiate

Comendo em Deli: Guru Prasad Udupi



É uma verdadeira instituição no panorama gastronómico popular do Sul de Deli. O restaurante Guru Prasad Udupi, normalmente conhecido só por Udupi, é uma escolha incontornável, por mais que se queira diversificar (e eu bem tenho tentado).

Há três aspectos particularmente atraentes no Udupi. Primeiro, a comida - pure veg. Diz-se "South Indian", mas é gerido por um punjabi sique (daí o nome híbrido). É uma fusão de paladares, em que o thali do Sul da Índia é preparado à maneira da comida indiana do Norte - apas ensopadas em óleo ghee, vegetais cozidissimos e, claro, o feijãozinho e as lentilhas dal. Só assim se comprende que o menu do Udupi seja capaz de oferecer um paradoxal North Indian Thali, mas que, por pouco menos de 100 Rupias, é uma excelente opção (dá para duas pessoas). Em geral, uma refeição média custa pouco mais de 200 Rupias.

Segundo, a localização: no topo de um centro comercial, com um imenso terraço para o outono, inverno e primavera, e interiores ar condicionados para o verão. É bastante limpo e o serviço é extremamente atencioso. Terceiro - e sim, estou a despachar-me, porque vou lá jantar - a clientela, que é extremamente interessante a nível sociológico. Uma mistura saudável e muito observável de classe média (especialmente ao jantar: famílias obesas), professores e estudantes da universidade vizinha (JNU), profissionais liberais (especialmente ao almoço) e, de vez em quando, turistas e expats.

A evitar: a secção Chinese Food, vegetariana e insonsa. Recomendo, em especial, os pratos do menu South Indian que são feitos à base de côco - é sempre um saborzinho que faz lembrar o Sul.

Falta pouco...

Fragmentos da leitura

"Indians in India, who ha(d) no previous experience of being written about from the diasporic point of view, did not know how to read Naipaul's book, and were surprised not so much by its content, though that was painful enough, as by its tone of indignation and superiority."

Lord Bhikhu Parekh, sobre An Area of Darkness

quarta-feira, 12 de março de 2008

Imagens de Deli: Surajkund Mela

Na cantina

A pessoa mais simpática e atenciosa que eu conheço nas inúmeras cantinas universitárias e bibliotecárias que costumo frequentar em Nova Deli, é um ajudante surdo-mudo no refeitório da Nehru Memorial Museum & Library. Quando falo com os funcionários em inglês e procuro transmitir algum pedido mais extraordinário, mais complicado de articular em hindi, é sempre só ele que me compreende.

A Lufthansa de certeza que não lê este blogue

Caro Sr Xavier, faça uma viagem das Arábias!

Imagens de Deli: Surajkund Mela

Citações de Deli: Sagarika Ghose

(the) Indian cricket team remains a foremost example of the meritocratic society, where the doors are swinging open to welcome talents from every corner of the country. By contrast, the Congress, and politics in general, is fast becoming monopolies of families where the captain’s position is inherited rather than earned.

terça-feira, 11 de março de 2008

Fragmentos da leitura

Num debate parlamentar de 1 de Dezembro de 2004, a seguinte questão ministerial colocada por um deputado:

LOK SABHA
UNSTARRED QUESTION NO 133
ANSWERED ON 01.12.2004

UFO SIGHTING

133. SHRI PRABHUNATH SINGH

Will the Minister of SPACE be pleased to state:-

(a) whether during a recent scientific expedition in Himachal Pradesh, a Scientist of the ISRO`s Space Application Centre sighted an unidentified flying object (UFO) and took photographs of the object;

(b) if so, whether the photographs of the floating object have been analysed;

(c) if so, the details thereof;

(d) whether the UFO is suspected to be an espionage device; and

(e) if so, the reaction of the Government thereto stating the suspected place of its origin?

Papéis de Deli: Livro da biblioteca

Aspecto de um livro da biblioteca universitária. Aumentar a terceira imagem para ver os detalhes, muito típicos.







segunda-feira, 10 de março de 2008

Nós e Goa (Atlântico)

Nas bancas:

Passagem para a Índia, Constantino Xavier em Nova Deli
Revista Atlântico, nº36, Março 2008, pgs. 33-34

Nós e Goa

"Um português que se preze e se preocupa com a imagem e o lugar de Portugal no mundo, só pode sair incomodado e envergonhado de Goa. O que de lá sai orgulhoso e realizado deixa-se iludir pela monumentalidade do património arruinado e da herança cultural lusófona em diluição acelerada, e pactua assim com a negligência crónica que afectou a nossa política para Goa, e a Índia em geral, desde o restabelecimento de laços diplomáticos com Nova Deli, em 1974."

Imagens de Deli: Alfaiate

Verão

Primeiros anúncios nos jornais: ar condicionado.

Papéis de Deli: Recibo mensal conta telemóvel

PVR Premiere



Select Citywalk, Saket, Sul de Deli. O novo templo do consumo da capital indiana, recém-inaugurado. Não cheira a novo (cheira mal), mas as pessoas cheiram bem e pavoneiam-se pelos longos corredores, de carteiras na mão, com os cartões de crédito prontos para serem sacados. É esta a terra sagrada (e prometida) para a nova e tão falada classe média indiana.

Treze minutos na bicha, para comprar os bilhetes. É Sexta-feira à noite, hora de ponta do entretenimento cinematográfico em Deli, mas só funcionam duas das três bilheteiras (para 9 salas), sendo que uma é reservada para a hiper-VIP Gold Class.

Chega a nossa vez. Não há intercomunicador. A pequena abertura no vidro, à altura do meu peito (e eu não sou alto), obriga a uma comunicação deficiente, ainda por cima porque o funcionário vai falando comigo como se não existisse vidro separador. Não há possibilidade interactiva de escolher os lugares. Começo por esboçar uma reacção, um pedido, e sou prontamente interrompido e despachado: Ok, good seats, sir, good seats.

O interessante é que num outro complexo da mesma rede (PVR), mais antigo (anos 90), não só há quatro bilheteiras para uma única sala, bem como intercomunicadores e ecrãs interactivos que permitem escolher os lugares. Os preços cobrados são inferiores em 50%, em média.

Ainda não jantei, mas para evitar os custosos super-combos, opto por um Chicken Hotdog (75 Rupias, 1,20 Euros). Ao contrário do que é anunciado pelos reluzentes ecrãs televisivos, por cima da cabeça do funcionário, este entrega-me o que parece ser (e assim sabe) um papo-seco de há três dias, barrado com manteiga e cenoura ralada e com uma salsicha ainda fria. E um pacotinho de ketchup. Já vai ele a atender o cliente seguinte quando esboço uma reacção e lhe transmito o meu descontentamento. Responde-me com um sorriso silencioso e entrega-me um pacotinho de mostarda.

O filme é suposto começar às 22:55. As portas da sala abrem às 23:04. Segue-se o típico wild west indiano a que se assiste em qualquer ponto-funil. Uma espécie de jogo infantil: ver quem chega primeiro ao destino (neste caso, o lugar dentro da sala) - e vale absolutamente tudo (neste caso, empurrões, cotoveladas).

Ficamos sentados na segunda fila da frente, na ponta esquerda. É humanamente impossível assistir à película desta forma (e nem falo de critérios mínimos cinéfilos). Como sempre, em Roma sê romano e tentamos adaptar-nos. Impossível. Vou ter com um dos funcionários e explico-lhe que noutras salas da mesma rede, paga-se menos por lugares nas primeiras cinco filas (front stall) (50 Rupias) e que não vejo porque é que me cobram 200 Rupias (já agora: um quinto do salário de uma empregada doméstica a 64 horas/mês). Desculpa-se com um the house is full, sir e, a meu pedido, promete-me educadamente trazer o complaint form para eu poder apresentar as minhas queixas.

Ainda bem que o filme é uma porcaria (10 000 BC). A meio irrompe uma discussão entre alguém na nossa fila e na de trás. Berros, insultos. Silêncio de novo.

Intervalo: ficamos sentados e recomeça o circo. Dez minutos de anúncios publicitários, com volume a dobrar. O funcionário a que me dirigi antes do início do filme aproxima-se de mim com um bloco de notas e caneta na mão. Fico impressionado, afinal eles até funcionam bem. Sorry, sir, would you like to order anything, coke, pop corn? ...

O filme recomeça. Outra vez, interrompe-me: Sorry, sir, would you like to order anything, coke, pop corn? A segunda parte é menos sonora. Infelizmente: por vezes ouve-se a música de fundo que passa nos corredores do centro comercial, ou alguma parte de outro filme que está a ser exibido na sala ao lado.

Fim. Sai tudo a correr, cenário igual ao da entrada. Para evacuar uma sala para 300 ou 400 pessoas, o acesso de volta ao centro comercial faz-se por uma escadinha de dois metros e meio de largura. É natural: o cliente já pagou e consumiu, portanto agora que vá à sua vida e se lixe.

sábado, 8 de março de 2008

Acordar hoje

Nuvens baixas, depressão. Brisa amena, a chuva ameaçou.

A aliança capital-nação



Anúncio publicitário do diário The Times of India.

Imagens de Deli: Críquete e Forte de Adilabad

Langur



Há semanas que um imponente langur, um símio, (como este na foto) nos faz companhia, em frente ao nosso edifício. Atado com uma corda a um banco de jardim, passa os dias a observar o trânsito e as pessoas que passam. Nunca percebemos porque é que ele passa os dias ali sentado, comendo fruta e nozes que os transeuntes e vizinhos lhe oferecem. Talvez o seu dono trabalhasse por aqui, pensámos.

Ontem, ao vê-lo saltitar pelo jardim infantil que fica aqui ao lado, percebi. Estava a trabalhar: os langurs são receados pelos outros macacos que, de vez em quando, fazem raides violentos a este bairro e, em especial, ao jardim infantil que com as suas crianças apresenta um alvo muito apetecível. Confirmei depois com um guarda aqui na rua: pelo trabalho do langur, o seu dono recebe um salário de 5000 Rupias ao mês, quase 100 Euros.

Trânsito

Todos os dias pior. Caótico. Nervoso. Poluente. Consumista. Agressivo. Estanque. Violento. Claustrofóbico. Reluzente. Ruidoso. Próspero. Miserável. Monumental. E eu no meio.

sábado, 1 de março de 2008

Cruzamentos

Há quem chore. Quem ignore. Ou quem enxote. Há quem faça tudo ao mesmo tempo. Os meninos pedintes, nos cruzamentos de Deli, despertam emoções profundas em todos nós, visitantes desta imensa urbe. Também assim foi comigo, no início, inseguro, o esforço para ignorar os apelos traído pelas emoções, pelo olhar hesitante, a rendição perante as mãozinhas apalpando-nos no riquexó ou o ranho e as lágrimas cobrindo-nos o vidro.

Depois, com o passar do tempo, passei a dominar a arte autóctone e ganhei uma imunidade poderosa, fria e cruel aos olhos do visitante ocasional, normal e necessária para quem vive a sua vida diária em Deli.

Acho que entrei agora numa nova fase, possibilitada pela minha crescente expressão vernacular, mas também renovada abertura e segurança: fustigado pelo calor e pelos gases de escape, rodeado de chapa automóvel e olhares entediados, começei a encetar conversas com os meninos, trocando nomes, idades, proveniências, famílias e quotidianos, naqueles breves segundos e minutos em que o sinal nos manda parar.

No fim, costumo dar-lhes uma nota em troca de uma revista que vale uma moeda e ficam sempre muito felizes, mais do que quando lhes dou um lápis. Eu sei que depois, muito provavelmente, entregam a notinha cor-de-laranja, com o Gandhi, ao pai que a junta a umas poucas mais, para à noite se embebedar com uísque e depois lhes bater.

Alguns já me reconhecem, e eu lembro-me das suas histórias e dos seus nomes. Não é fácil, porque geralmente desaparecem ao fim de algumas semanas. Mas às vezes, muito raramente, a recompensa é tremenda, quando, meses ou talvez mesmo um ano depois, nos voltamos a encontrar, num outro cruzamento.

Papéis de Deli



Instruções, no verso do bilhete de entrada, para a parada militar do Republic Day, celebrado a 26 de Janeiro.