quinta-feira, 10 de novembro de 2005
Higiene na Índia
Se nos meses iniciais me inclinei mais para a primeira ideia, passei recentemente a estar mais e mais refém da segunda. Vejamos que bicharada e que experiências me fizeram mudar. No ano passado, a já conhecida experiência símia, acordando num dia de verão com um macaco sentado na minha cama a afagar-me a cabeça. Há uns poucos meses, estava eu pacatamente a escrever aqui ao computador, descalço, claro, um ratinho mordiscou-me o dedo grande do pé direito. Fugiu antes que o pudesse esmagar. E foi sobrevivendo durante semanas no nosso apartamento, movimentando-se na penumbra da noite e escapando a todas as armadilhas e venenos que nos foram recomendados "guaranteed result, sir" no popular mercado aqui ao lado. Á noite, adormecia com o seu ranger de dentes, quando se decidia refugiar no meu quarto. À média de uma vez por semana algum de nós avistava-o, cada vez mais gordo. Ainda me lembro dos gritos estridentes da namorada maurícia do meu amigo francês, quando esta abriu o armário da cozinha e se deparou com uma já obesa ratazana petiscando arroz basmati e corn-flakes kellog's. Finalmente, à quinta semana, desapareceu e nunca mais vimos o bicho.
Mas há mais. No campus. É raro ir lá beber um chá e não ver uma ratazana a passear pelas residências ou pelas esplanadas. Cheguei a ver uma, tão grande, que fiquei a duvidar por dois segundos se era um gato gordo. Ao terceiro segundo comecei a acelerar o passo. Ontem à noite, mas uma vez, foi a vez de um ratinho entrar na cozinha do restaurante tibetano onde comia um bom "roasted lamb chillie" que passou logo a intragável, indo refugir o meu apetite em perigo de extinção num pacote de Lay's. Foi de qualquer maneira melhor do que há dois meses, quando me serviram no mesmo restaurante um "chicken hakka noodles" com uma barata em cima, maior que muitos ratinhos ocidentais.
Vamos lá continuar. Na semana passada o meu flat-mate moçambicano estava com a namorada no mercado à procura daquelas folhas da couve para fazer um bom caldo verde à portuguesa. Entraram numa loja mas só havia mesmo couves sem a folhagem lateral. O lojista, no entanto, pediu para esperarem para ver se encontrava o que pretendiam. Impacientes os meus amigos deixam a loja e deparam-se com um dos assistentes da loja a vasculhar no lixo, ao lado de cães, ratos e gatos, seleccionando as folhas verdes pretendidas. Estendeu-as normalmente e disse "here, I found for you" com um sorriso tímido mas orgulhoso.
Se já no Ocidente reina a máxima que em restaurante chinês é melhor não entrar na cozinha, imaginem aqui. Conheço um cozinheiro tailandês num hotel de cinco estrelas, de topo, que me conta as mais assombrosas histórias que se passam com os seus assistentes nas suas cozinhas e a frustração que sente por ser incapaz de lhes incutir o mínimo sentido de higiene. Voltemos aqui ao campus. Na Avenida de Berna, numa das faculdades da Universidade Nova de Lisboa, já é normal haver um dia por ano em que os estudantes são encaminhados directamente da cantina para o hospital, por terem comido algum arroz doce ou iscas à portuguesa pouco recomendáveis. Mais uma vez, imaginem aqui. São poucos os estudantes que ainda não sofreram de "food posining" nas cantinas das residências. Numa das cantinas principais, quando escolhemos em grupo o que vamos jantar, olhamos para o menu e cada um vai partilhando com os outros os perigos de um ou outro item, recaindo a escolha por fim nos pratos menos suspeitos e com menos historial de gastrenterite. Em muitos locais do campus cheira-se continuamente o odor de substâncias vomitadas. É normal alunos faltarem às aulas por indigestão, tal como talvez em Lisboa, nos frios meses de Dezembro e Janeiro, ser normal faltar por constipação ou gripe.
Vamos falar de coisas mais ligeiras. Os indianos comem com as mãos. Mais especificamente a mão direita, somente, estando a esquerda reservada para lavar as partes íntimas depois de defecarem. O problema é que nem sempre lavam as mãos depois de saírem das sujas casas-de-banho, e antes ou depois de comerem. E mesmo que lavem, as longas unhas resistem e por debaixo delas o caril cheio de especiarias e saliva. E tudo é transmitido, de mão em mão. O mesmo perigo de transmissão aplica-se ao cuspir. Por toda a Índia a noz de bétel é muito apreciada e mastigada em grandes quantidades, formando uma pasta avermelhada na boca que depois é cuspida, especialmente em esquinas e escadarias de prédios. Alguns donos ou autoridades inscrevem a letras garrafais encarnadas "DO NOT SPIT PLEASE" mas estas vão desaparecendo rapidamente, à medida que o cuspo vermelho cobre a parede. E o ranho. Esse contribui igualmente. Por todo o lado aspira-se o ranho – como que num aspirar das próprias entranhas – levando a mão o nariz, expirando-o para a palma e atirando-o para o chão. Há versões mais directas, deixando a mucosa fluir directamente do nariz para a superfície.
Não me vou alongar sobre a higiene sexual, cujos hábitos me são ainda em larga medida estranhos neste país. Mas pelas conversas mantidas com colegas, pelo que leio em jornais e publicações diversas, não auguro nada de bom. Talvez baste sublinhar o facto que li numa revista de medicina, relativo à alta percentagem de transmissão de doenças pela via sexual/oral na Índia: pretendendo manter a tão cobiçada virgindade até ao casamento, os jovens limitam-se muitas vezes a praticar sexo oral, ignorando no entanto as paupérrimas condições higiénicas dos seus dentes e da boca em geral, levando à propagação de graves doenças sexualmente transmissíveis. Neste contexto, lembro-me também de visitar o parque de camiões inter-estaduais aqui em Nova Deli, quando preparava uma reportagem sobre a transmissão do vírus da sida na Índia. Os camionistas, enquanto esperam a carga, ficam dias, longe das esposas, em tremenda ociosidade, rodeados de centenas de prostitutas. O espaço não se distingue muito de uma lixeira a céu aberto. Proliferam os preservativos usados deitados no alcatrão.
Finalmente, o urinar e o defecar. Sinceramente, não me lembro de muitos dias em que, percorrendo os 200 metros que separam o meu prédio da entrada principal da universidade, não tenha visto pelo menos um menino, um rapaz ou um homem a urinar na margem da rua. Lembro que vivo numa das zonas urbanas mais desenvolvidas da Índia, na conhecida "South Delhi" com a sua emergente classe média urbana, e que a maior "favela" da Ásia, em Bombaim, ainda fica bem longe daqui. O mesmo aplica-se à defecação. Nas viagens de autocarro e de comboio, as histórias a contar a este respeito são intermináveis. Por todo o lado amontoam-se as fezes, no centro das cidades, por detrás da farmácia, na periferia das aldeias – como um campo de minas, ao lado do hospital, à margem da estrada nacional, no corredor do comboio, na bagageira do autocarro. Aliás, nunca cometam o erro de procurar as casas de banho públicas para procederem a semelhante acto na Índia. Tudo menos isso, em nome da vossa sanidade física... e mental.
Acho que fica feito um panorama das condições de higiene na Índia. Polémico, certamente. Mas real. Há no entanto que sublinhar "o outro lado da história" e injectar esta análise com um "relativismo" que poderá desculpar, justificar e explicar algumas coisas. E, complementarmente, há que apresentar explicações – sempre diferente de justificações. Farei isso num outro escrito.
sábado, 29 de outubro de 2005
Siddarth Singh again
Mas nesse dias apercebi-me que o meu problema é não ter assimilado outras capacidades locais, como por exemplo a apurada sonda policial. Por isso, quando já ia rapidamente lançado na minha LML, surge por debaixo de uma mangueira, à beira da estrada, Siddarth e o seu superior. Coloca-se no meio da avenida e manda-me parar, não me reconhecendo porque uso capacete.
Quando o retiro vejo Siddarth esboçar uma leve reacção facial de surpresa, mas como que instintivamente, seguindo ainda zelosamente o que aprendeu na escola policial, saca do bloco de autuações. Pergunta-me se estava consciente da infracção – limito-me a registar que não tinha visto e que iria parar certamente da próxima vez. Enquanto preenche o formulário vamos conversando animadamente.
Ao abrir a minha carteira para lhe pagar as 100 Rupias devidas, comenta alguma coisa que não compreendo. Já domesticado, e um pouco desiludido, penso logo que me está a pedir o baksheesh, e que é um oficial tão corrupto como todos os outros e que a minha consideração para com ele era injusta. Peço-lhe para repetir. "Can you show me Euro coins next time we meet? I want to see".
terça-feira, 18 de outubro de 2005
Siddarth Singh
Abrando, viro à esquerda com a maior das naturalidades e olho-os aos dois nos olhos. Nenhum de nós tem capacete. A mota comprei-a em segunda mão a um estudante amigo. Os documentos ainda estão em nome dele. Não tenho seguradora. Tenho uma carta de condução internacional, mas só para categoria de veículos ligeiros. E, de toda esta pouca coisa que tenho para me apresentar aos dois que me olham com olhar inquiridor, nada possuo comigo naquele momento. Vamos ver no que isto dá, digo para comigo calmamente.
Siddarth, que nem aprendiz, pergunta-me em Hindi por alguma coisa. Eu sei o que é alguma coisa. Mas como o barulhento motor ainda está ligado, fingo não perceber. Siddarth faz-me sinal para o desligar. Desligo e mando-o repetir. Siddarth repete. No meu rude Hindi, digo-lhe que não falo Hindi. Com isto passaram-se alguns quinze segundos. O suficiente para o chefe de Siddarth se começar a desinteressar de mim e voltar a olhar para a estrada à caça de novo peixe. Está ganha a primeira batalha.
Siddarth vê-se um pouco aflito. As suas bochechas redondas e os seus olhos curiosamente amáveis não lhe permitem desempenhar a sua função autoritária e policial, parece-me. Enfardado num branco que se aproxima perigosamente do cinzento, Siddarth mais parece um daqueles meninos mimados do secundário que saem da escola a correr, pelo caminho empoeirado, em direcção aos balofos braços da mãe e aos rotis e aos lassis.
Mas Siddarth é capaz de muito mais que os seus restantes colegas. Siddarth tem uma capacidade extraordinária que o distingue dos demais milhares de efectivos da Delhi Police que diariamente extorquiam milhares de Euros aos cidadãos delienses. Muda para inglês, que domina surpreendentemente bem, e faz-me umas poucas perguntas para me enquadrar melhor e sondar a melhor maneira de me abordar. Respondo às perguntas de ocupação, morada, nacionalidade, paternidade e breve linha genealógica, nesta ordem, tudo em menos de dois minutos, num tom confidente e respeitoso.
Então, ao terceiro minuto da conversa, Siddarth começa a enumerar pedagogicamente todas as contra-ordenações que cometi. Com ajuda de uma caneta, aponta para uma lista em que são indicados os valores de multa. E, vai apontando e somando todas as que se me aplicam. Que nem aluno atencioso, ainda encostado à mota, assisto silenciosamente. Tanto ele como eu sabemos já como tudo vai acabar. Tanto eu como ele estamos já em sintonia.
Siddarth puxa então uma linha no seu bloco de notas, e chega ao valor total de 6000 Rupias, totalizando vários salários mínimos mensais indianos. Olha para mim, respira, e inicia a segunda fase. Explica pacientemente, ponto por ponto, porque é que devo seguir as regras de tráfego, usar capacete, ter os documentos comigo, ter uma seguradora. Recorre a exemplos e hipóteses. Depois, com um risco todo-poderoso que só uma caneta policial poderia executar, anula todos os valores menos a multa por falta de um capacete. 100 Rupias.
Depois de formalmente me perguntar se quero ir a tribunal amanhã de manhã ou pagar já, preenche o formulário e vai fazendo algumas perguntas mais pessoais para tal. Pago e inicia-se uma conversa amigável, sobre o futebol em Portugal (confessa-se grande adepto de "Figo, Ronaldo e os outros") e sobre a queda de qualidade da equipa nacional indiana de hóquei em campo. Já passam vinte minutos, quando, ainda em amena conversa, Siddarth é chamado pelo seu chefe para tratar de mais um caso. Abandona-nos com um forte aperto de mão e um curioso "hope to see you again soon". Já em andamento, vira-se e aponta sorridente o seu dedo contra a cabeça: "and don't forget, a helmet can save your life!".
quarta-feira, 12 de outubro de 2005
Keylong (3)
Estávamos ainda numa zona habitada. A aldeia é capital de distrito. Apercebemo-nos logo que nas regiões mais remotas e altas que a estrada atravessa a caminho de Leh a situação devia ser muito pior. Ao fim da tarde, aconchegados no restaurante e a bebericar chá, recebemos a confirmação do dono. Várias dezenas de estrangeiros encontram-se isolados a 4000 e mais metros de altitude, nos passes cobertos de tempestades de neve. Estamos bem, afinal. Mas a chuva continua, ocasionalmente cai neve. O vale coberto de espessa neblina. Ao segundo dia nem é possível sair do edifício. Deixa de haver água corrente e electricidade na manhã do terceiro dia. Não há ligação possível com o exterior – os telefones estão mudos e os telemóveis não têm rede.
Os aldeões já nos conhecem. Quando deixa de nevar e chove um pouco menos vagueamos pelas ruas semi-desertas. Ao terceiro dia, lembro-me que é o aniversário do meu afilhado, em Goa. Sem nada que fazer, tento a minha sorte no edifício do District Collector, o mais alto funcionário governamental na aldeia, porque nem a polícia tem telefone por satélite. Dizem-me que não há comunicação possível por telefone nos próximos dias, só mesmo enviando um telegrama.
Acho a sugestão um pouco estranha, mas tomo a iniciativa e dirijo-me à estação de telegrafia. O processo de envio demora mais de duas horas, tudo para "HAPPY BIRTHDAY CARL. YOUR PADRINHO, FROM KEYLONG, LADAKH". Já a sair, lembro-me de perguntar, só mesmo para confirmar, auando é que chega. O funcionário, envolto de mantas e já um pouco chateado, responde-me num tom seco: "When the phone lines work again".
segunda-feira, 3 de outubro de 2005
Keylong (2)
Quando começa a encerrar os quartos que nos tinham sido dados a ver como amostra, cedemos. E vale a pena. O nosso quarto está virado para sul, para o enorme vale verde que sustenta 5000 metros cobertos de rocha e neve. De dois lados abrem-se grandes janelas com generosas vistas. Há água quente para tomar banho.
Subimos ao fim da tarde para jantar, quando começa a escurecer. O restaurante não é mais do que a sala de estar da numerosa família do dono. Os filhotes correm por entre as cadeiras. Entram aldeões, bebem um chá quente e conversam. Logo por detrás das mesas, há um espaço mais quente, com fogão a lenha, o dormitório em que há uma dezena de confortáveis camas e muitos viajantes autóctones. A mulher e o filho do dono servem-nos comida caseira, uma sopa bem quente que nos prepara para o sono.
Choveria toda a noite. Um verdadeiro dilúvio, em nada comparável ao que jamais tínhamos visto. Durante toda a noite, a água não cessa de cair. Em plena escuridão, e acompanhado do som das grossas gotas caindo no telhado, vestimo-nos, pomos a mochila às costas, cruzamos o dormitório silencioso e saímos à rua. São quatro e meia da manhã. Reina a escuridão e a chuva.
Abrigamo-nos no único local que dá sinal de vida. Uma pequena dhaba, um cafézinho que nada mais é do que uma barraca e um homem que faz chá quente para os viajantes de passagem pela aldeia e que geralmente só aqui param o jeep por pouco minutos. Serve-nos um chá quente. Aparece o chinês. Passa-se o tempo e não há autocarro à vista. A rua, escura e molhada, só nos traz uns poucos viajantes indianos, um casal francês e um inglês, todos ignorando o destino do nosso meio de transporte. Não há sinal dos ladaquis ou de qualquer outro nativo. Não passa um único veículo.
Ao fim de uma hora e meia, por entre rumores e dificuldades de comunicação com os locais, apercebemo-nos daquilo que para os ladaquis tinha sido óbvio desde ontem de manhã. A Manali-Leh Highway encontra-se bloqueada. A chuva provocou uma avalanche ou desabamento e há que aguardar o piquete de emergência liderado pelo Exército indiano, responsável pela manutenção dos 500 quilómetros de estrada. Talvez ao fim da manhã, diz-nos o motorista indiano. Pelo canto do olho, vejo um aldeão esboçar um sorriso lacónico.
sexta-feira, 30 de setembro de 2005
Telefonemas
Obviamente, estando na Índia, este é um local que atrai todo o tipo de estrangeiros. É isso que torna aquele espaço de poucos metros quadrados fascinante, reflectindo uma impressionante diversidade em termos culturais, económicos e sociais. Aqui cruza-se um emaranhado de indivíduos temporariamente exilados na Índia e que quer comunicar com as suas origens.
Muitos dos quais são os meus colegas na JNU, o que já por si mesmo representa uma enorme diversidade que inclui uzbeques, coreanos, etíopes e demais estudantes internacionais. São pobrezinhos, coitados, que a bolsa indiana não dá para muito. E geralmente também são enviados pelos pais para estudar como bolseiros no estrangeiro porque não há possibilidade de os sustentar no próprio país. Deslocam-se por vezes em pequenos grupos ou comitivas nacionais. Assim, há dias em que encontro lá quase toda a comunidade tailandesa. As conversas são curtas – por óbvios constrangimentos económicos – mas extremamente emocionais. Muitas vezes é a única vez no mês que comunicam com os pais, com as namoradas e namorados ou mesmo com os maridos e filhos. Já assisti a muito chorar e soluçar.
Depois há as enormes comunidades africanas, legais e ilegais, que trabalham na Índia (ainda não percebi bem em que ramo, mas há muitos que são apanhados pela polícia por burla e fraude). Destacam-se os nigerianos. Há um campo de futebol perto de minha casa onde todos os dias se encontram pelo menos 30 para jogarem. Primam pelo estilo e parece que têm feito daquele cibercafé um ponto de encontro. Hoje até vi um deles apertar o nariz do dono do cibercafé, no que, mais do que uma demonstração de carinho, me pareceu uma clara demonstração de força e autoridade. Não me surpreenderia saber um dia que aquilo se tornou na segunda embaixada nigeriana. Os africanos mantém diversos tipos de conversações telefónicas. Há as ruidosas que fazem tremer o edifício todo e há as silenciosas em que provavelmente se acorda uma separação emocional.
Há também os empresários estrangeiros, geralmente brancos, que de passagem que ficam alojados num dos bom hoteis que há nas redondezas. Como não chegam a ser mesmo ricos, mas mais pequenos negociantes forretas à procura de uma fortuna à custa dos emergentes indianos, recorrem muitas vezes a estas ligações mais baratas – certamente também porque os hoteis devem cobrar somas astronómicas.
Finalmente, há os diplomatas. Talvez também para poupar dinheiro, talvez para fugir ao controle paternal ou marital, recorrem a este serviço. Saem dos seus luxuosos carros com matrícula azul CD e entram para os pequenos cubículos telefónicos para ligarem para os mais diversos países imagináveis e conversar sobre as mais diferentes coisas imagináveis. Depois, saem, pagam com notas grandes sem tempo para coligir o troco e desaparecem na carroça.
Em todos os casos, assisti já a muitos episódios originais. Como os cubículos são transparentes e pouco insonorizados, ouve-se bem o que as pessoas falam e percebe-se quando é em inglês. Assim, há momentos constrangedores. Há uns dias assisti a um senhor branco de meia idade que discutiu durante mais de uma hora (eu estava à espera de uma amiga) com alguém. Às vezes acalmava-se, depois agitava-se e insultava a pessoa em inglês bem audível. Dizia coisas como "I took care of you for so long and now you do this to me?", "ok I have to go now, I don't have patience any more, you're a sick person" e "why don't you trust me, why can't you just wait?" etc.
Hoje foi a vez de um jovem repetir uma dezena de vezes, aos berros, "Who are you with? Tell me now, or you'll see! Who are you with, I heard someone. Who is this someone?". Entre outros, também oiço filhos a pedir mais dinheiro aos pais, declarações de amor, declarações de ódio, pedidos de demissão, pedidos de desculpa e tantas mais coisas que se discutem ao telefone quando se está longe, muito longe, de casa.
terça-feira, 27 de setembro de 2005
Keylong
Vamos descendo para o primeiro de centenas de vales que ainda nos separam do mítico Ladaque. A paisagem é verde e branca. O autocarro silencioso. E aproximamo-nos do primeiro check-point em que alguns polícias de cara ensonada e metralhadoras em punho nos esperam. É que a outrora inimiga China é já ali ao lado e o Paquistão sempre em frente. Numa casota os estrangeiros deixam os detalhes de passaporte num livro bolorento. O polícia usa uma caneta azul, mas quando é a vez do chinês pede uma caneta vermelha e não diz nada.
Voltamos a embarcar. Chove incessantemente. De vez em quando o autocarro abranda e salta para dentro um aldeão encharcado que volta a saltar para fora poucas centenas de metros depois. Desfilam-se à nossa frente, pela suja janela embaciada, imensos campos agrícolas, de vez em quando uns casebres com chaminé fumegantes, e acompanha-nos pelo vale um imponente rio espumante. Depois de algumas horas de viagem as condições da estrada pioram. Já só é uma pista enlameada que roça perigosamente as turvas águas ao seu lado.
O sadhu acorda. Olha em volta, parece um pouco confuso. Com dois tabefes faz acordar os meninos. Então, como que inspirado por uma paisagem alpina que contrasta com as áridas paisagens desérticas do seu Bihar ou Uttar Pradesh natal, começa a entoar cânticos. Histórias cantadas. Compreendo pouco, mas são operetas populares, recitações religiosas, contos cómicos. Os outros passageiros, incluindo os ladaquis, ouvem-no com atenção e esboçam um sorriso, de vez em quando.
À sétima hora de viagem, o autocarro vira à direita e sobe por um vale íngreme. Só acordo quando pára. Estamos numa pequena aldeia que se espalha ao longo de uma colina e à margem da estrada. Keylong. À volta do verde e fértil vale apresentam-se orgulhosamente os grandes cumes dos Himalaias. Ao longe, aqui e acolá, pequenos telhados dourados reluzem por entre os campos e a neve; mosteiros lembrando que já estamos em terras budistas.
Passa pouco da hora de almoço. Indicam-nos para passar a noite aqui e que o autocarro seguirá pelas cinco da manhã. Mas se tivesse tido atenção saberia que isso era mentira. Ao contrário dos restantes ruidosos e ignorantes indianos ou estrangeiros passageiros, os ladaquis locais são os únicos a retirar silenciosamente a sua bagagem inteira do autocarro. Só na manhã seguinte perceberíamos porquê.
sexta-feira, 23 de setembro de 2005
Backpackers (2)
O problema é que quase todos vivem nesta obsessão. O que leva a que nos tais sítios recônditos que o guia apresenta na parte "dicas secretas" se encontrem muitas vezes já mais turistas do que nos locais tradicionalmente mais turísticos, abandonados para a massa dos turistas indianos.
O mais engraçado é a rivalidade de morte que subsiste por isso entre os backpackers. Logo que chegam a um sítio original, digamos o topo de uma montanha mais isolada nos Himalaias indianos, acham-se no direito de reclamar a propriedade turística daquele local. Se porventura aparecer um outro grupo de ocidentais, passa a reinar um mal-estar dos dois lados e um ódio mútuo.
Por exemplo, quase todos os backpackers que eu conheço usam os guias conhecidos como o Lonely Planet ou o Rough Guides. Mas é interessante notar que esses livros só raramente se vêem em público. Só percebi porquê quando uma inglesa com que viajava me disse que se limitava a lê-los no quarto, às escondidas, para não parecer uma backpacker bimba aos olhos de outros backpackers. Porque supostamente só os bimbos consultam guias. E supostamente todos viajam um pouco ao acaso, sem ajuda de ninguém, ao sabor do vento, que nem neo-hippies.
É esse de facto o objectivo dos backpackers. Mas fruto de constrangimentos vários (tempo, dinheiro, mas também segurança e conforto e a necessidade ocidental de ter tudo bem planeado) sacam sempre do guia, nem que às escondidas.
Vou deixar de fora os verdadeiros neo-hippies e aqueles que eu considero serem os verdadeiros backpackers, aqueles que por exemplo vivem um ano a viajar pela Índia com um punhado de dólares, fazem retiros em isolados mosteiros budistas, se deslocam principalmente a pé e de boleia, e vivem em casa de habitantes locais etc. Esses primam pela cooperação, ajudando os seus congéneres, porque nada têm a esconder ou a temer. Sabem que a genuidade encontra-se pela cooperação e não pelo conflito.
Há outra forma de assinalar a originalidade. Os backpackers mainstream têm um rol de formas diversas para sublinharem a sua originalidade para com os seus conterrâneos. Por exemplo, lembro-me de um grupo de australianos que viajou os 500 quilómetros na mais rude estrada indiana, a Manali-Leh highway (sem um metro de alcatrão, passando por altitudes superiores a 5000 metros), de patins. Já nem falo de bicicleta ou a pé, porque até isso já se tornou rotina.
Todos estes fenómenos eu também os tenho observado em Goa. De cada vez que lá vou havia sempre um local novo na moda. No sul, por exemplo, havia uma praia que sempre atraiu gente (até local) por um certo misticismo e beleza. A praia de Palolem, no entanto, atraía em inícios dos anos 90 pouco mais de uma dezena de turistas mais corajosos por dia. Hoje são centenas e a praia encontra-se cercada por empreendimentos turísticos, comida italiana e israelita, yoga, bugigangas caxemires e demais parolices. E enquanto muitos ainda lá vão convencidos que encontraram algo similar a The Beach (de Alex Garland), poucos se apercebem que os verdadeiros backpackers hippies já deixaram este local há muito para as consumistas e efémeras hordas ocidentais.
O mesmo se passa com o chamado Goa-Trance. É um mito que vai subsistindo. Mas os verdadeiros artistas e amigos do trance psicadélico sabem que há já muito que Goa deixou de ser a capital deste estilo de música. Passou há mais de uma década para Gokarna e depois aviou as malas para fora da Índia. Hoje, quando as dezenas de bares comerciais na orla costeira de Calangute aumentam ao fim da tarde um pouco o volume de um som que tem alguma batida mais intensa, saltam imediatamente para a praia uma centena de turistas indianos em busca de ver um pedaço de carne nua branca e uma dezena de backpackers convencidos que estão a reviver a atmosfera dos hippies e a viver uma experiência transcendental.
domingo, 4 de setembro de 2005
Coffee-breaks
Sinha foi o ministro do governo anterior, liderado por Atal B. Vajpayee. Uma aliança de dezenas de partidos, com com os fundamentalistas do BJP à cabeça. É um homem que conheçe as lides internacionais. Que discursou nas Nações Unidas. Que viajou por meio mundo. Que tem capacidade para influenciar a decisão de a Índia carregar no botão nuclear ou não. Que deve tratar Kofi Annan e uma série de chefe de estados de primeira linha por "tu". Basicamente, um estadista de renome a nível internacional, com todas as regalias e luxos possíveis.
Agora imaginem, este Sinha, sentado numa cadeira negra de tantos salpicos de caril acumulados ao longo de dezenas de anos. Num refeitório ainda mais negro, que nada mais é do que uma grande sala com uns bancos corridos e umas mesas que ainda ostentam pequenos bagos de arroz do jantar. Rodam umas ventoinhas no tecto para refrescar o que é impossível refrescar, chego a ver uma ratazana a passear-se por detrás dele, entrando na cozinha. Dezenas de estudantes ouvem com atenção. Estamos no refeitório de uma das residências da JNU, e discursa o ex-ministro, sobre o estado actual das relações Índia-EUA. À sua frente um copo com água. Não lhe chega a tocar.
Voltemos ao coffe-break luso. É a essência das 1001 conferências académicas (supostamente académicas) que se realizem mensalmente em Portugal. Qualquer departamento, qualquer fundação, qualquer núcleo e qualquer partido, juventude partidária, associação de estudos, instituto de investigação e demais agrupamentos institutucionalizados ou não, organizam uma conferência, um congresso, um debate, uma palestra ou uma tertúlia etc. em que normalmente o momento central é o do coffee-break.
Os oradores respiram de alívio quando este se inicia, libertos da responsabilidade de dizerem banalidades e preencherem o tempo que lhes foi reservado. A audiência igualmente, liberta da carga de fingir ouvir com atenção e interesse ou acordando da soneca. Então, todos se reúnem com uma bica numa mão e um pastel na outra, e, mastigando e galhofando, trocam galhardetes e cartões de visita para preparar o próximo evento. Há vários coffe-breaks. Os mais humildes são oferecidos pelos serviços sociais das universidades. Os mais requintados por empresas especializadas de catering cujo dono é primo ou amigo dos copos de um dos organizadores.
Para além da questão académica e científica e do que pode ser uma estagnação de saberes, o que mais noto é uma crescente preocupação com a forma, em Portugal. Poderiam jamais imaginar um ex-ministro e deputado, ou até um presidente de partido, um secretário de estado, a falar nas condições em que vi Yaswant Sinha falar? A obsessão pela forma lembra-me a história de uma amiga minha que estava a estudar em Salzburgo e cujos trabalhos tinham que ser obrigatoriamente entregues em formato digital para no caso de as margens não estarem alinhadas, ou haver um espaço a mais entre duas palavras, ser devolvido e devidamente penalizado na avaliação final.
Yaswant Sinha, depois de um franco e caloroso debate com os estudantes, voltou já tarde para casa, passava da meia-noite. Com ele, iam talvez umas pulgas agarradas à imaculada camisa branca e uns salpicos de caril na cara calça. Mas, com ele, iam também uma riqueza e uma abertura de espírito, e uma simplicidade essencial que podem ser coisa rara na Índia, mas são coisa desconhecida em Portugal, cegado pela matéria e forma.
Primeira paragem
Ainda ontem tínhamos feito este percurso e os cafés à beira da estrada estavam repletos de ruidosos turistas indianos da emergente classe média de Deli, Bombaim e Bangalore. Especialmente casais em lua-de-mel. Elas em busca de um pouquinho de neve e liberdade antes de começarem a parir filhos e eles em busca de uns esquis, uma pose masculina e uma foto ao lado de uma turista loira para mostrar lá na em casa, na rua.
Hoje reina a montanha. Os ventos gélidos cobrem as esplanadas de neve. Os passageiros que se aventuraram para fora foram bebericar chá quente num pequeno abrigo. Nós ficamos na carroça. De repente, do nosso lado esquerdo, vemos dois pequenos vultos. São os dois rapazes, filhos do sadhu. De pés descalços e cabeça descoberta tiram de um dos seus recipientes um pouco de arroz e caril, ainda quente, trazem o prato ao sadhu que se encontra confortavelmente sentado no autocarro, e depois voltam a sair para o relento para lavar o prato e o copo usado na branca neve.
Só entram outra vez quando o motorista já buzina insistentemente. Tremendo e com os lábios azulados, abrigam-se por debaixo de uma grande manta. Quando um deles se vira, tomo coragem e ofereço-lhe um pouco do meu sortido de passas, nozes e amêndoas. Aceita com um sorriso e partilha com o irmão, às escondidas do sadhu que já ressona.
sexta-feira, 26 de agosto de 2005
Backpackers (1)
A minha primeira viagem pela Índia foi em 2002. Desde então tenho repetido a dose de mochila às costas regularmente. E há um fenómeno que eu observo repetidamente e com que eu me delicio profundamente.
É o da cooperação e conflito entre os backpackers. É fascinante observar o seu comportamento, as suas aspirações, os seus hábitos etc. porque para além de representarem uma pequena comunidade do que eu gosto de chamar a "fauna global", espelham também a mais profunda essência ocidental (considero os backpackers, incluindo os japoneses e coreanos, como sendo essencialmente ocidentais).
Não será por acaso. É quando estamos fora do nosso habitat que mais nos distinguimos. O ocidental deixa-se observar e caracterizar mais correctamente fora do Ocidente. Por exemplo, como backpacker na Índia.
A própria essência do backpacking reflecte a sua natureza ocidental. A fascinação pelo exótico, pelo desconhecido, no caso da Índia, pelo oriental. A necessidade de fuga de um contexto que é só se admite envergonhadamente e com um tímido sorriso que mais parece um pedido de desculpa. "I'm from Manchester" respondia o meu amigo inglês sempre que um turco lhe perguntava "Where are you from?", fugindo deliberadamente à resposta mais natural, mas mais pesada e complexa, que seria um mero "England".
Gosto de recorrer ao caso alemão, porque é um exemplo radical que se aplica de forma moderada a toda a civilização ocidental. É o sentimento de remorso, o peso na consciência, o medo e a vergonha. Em todas as conferências internacionais de jovens que participei e em todas as situações em que testemunhei a apresentação pública de um jovem alemão no estrangeiro, conto pelos dedos os casos em que estes se apresentaram como "German". Escapam por várias vias.
A maioria rende-se ao simpático "European", mas havia uma rapariga "from Baviera", havendo também casos de "Turkish but born in Germany". Os miúdos mais engraçados refugiam-se na comédia: "Ich bin ein Berliner" dizem, quando é a vez deles de se apresentarem no início, quando se forma um círculo e todos se apresentam numa sessão de "ice-breaking". Todos se riem, e, numa grotesca omissão e aceitação do complexo de identidade, passa-se à apresentação seguinte.
O mais curioso, quando estas apresentações decorrem fora do espaço ocidental (como no caso do meu amigo inglês) é a reacção dos autóctones. Normalmente menos letrados, talvez um condutor de autocarro ou um vendedor de rua, sorriem confusamente. Na sua percepção e avaliação tudo aponta para que o meu amigo respondesse "I am from England", ou por já terem visto o passaporte, ou pela vestimenta e fala dele etc., e preparavam-se já para lançar o cliché do "Oh, ver nice country. Beckham!". Assim, ficam estupefactos e incapacitados de enfrentar o complexo identitário do meu amigo inglês. Muitos limitam-se a sorrir. Outros, mais habituados, continuam a conversar. Na Índia testemunho este fenómeno recorrentemente, e nunca vi um indiano inquirir mais sobre essa misteriosa "Manchester" ou sobre "Where in Europe, exactly?". Respeita-se a identidade do outro e embora acredite que os indianos devem ser das pessoas com menos noção de individualidade e privacidade no mundo, respeitam a resposta.
Este é o primeiro fenómeno, o da fuga para a frente. Os backpackers são jovens que normalmente têm educação superior e horizontes mais largos, interessados por um país distante e misterioso como a Índia. Mas, no fundo, não são nada mais do que derrotados, envergonhados e fugitivos. É uma afirmação generalizada, claro, mas não tenho dúvidas que são caracterizações que se aplicam à maioria dos backpackers que tenho encontrado pela Índia.
sexta-feira, 19 de agosto de 2005
Sadhu versus Generais
Do nada, começam a aparecer camiões militares na direcção contrária. A sua camuflagem verde dá-lhes um toque ensonado a estas horas da manhã. O autocarro enfia-se pelo lado exterior da estrada, beijando a ravina, e passa os primeiros camiões. Mas, à segunda curva, a dimensão do problema agrava-se. Avistam-se dezenas de camiões em fila, todos à espera de passar ao nosso lado.
Os passageiros começam a acordar. Há uma dupla reacção. Os ladaquis, com os seus olhitos em bico ainda ensonados, não parecem muito impressionados. Olham um pouco à volta, em silêncio, e adormecem outra vez. Já nas filas da frente, maioritariamente ocupadas por indianos do planalto indostânico (basicamente: indianos), reina alguma algazarra e todos têm uma opinião, mas ninguém se mexe. O condutor berra com os seus congéneres militares. O seu colega, em Lisboa seria o "pica", é um rapaz novo e espreita timidamente por detrás do motorista.
Há vários generais nos camiões. Pesadamente cobertos por insígnias e condecorações, não se mexem nem se ralam com o que se passa. Assim, não há possibilidade de recuar nem de avançar. À direita os camiões, à esquerda a ravina. Os veículos estão imobilizados há 15 minutos, não há solução à vista.
Como estamos sentados perto da porta da frente, vemo-lo escapar-se. O sadhu, no meio do silêncio traseiro e da agitação fronteira, tinha-se levantado do seu lugar, do meio dos dois rapazes adormecidos. Silenciosamente desce do autocarro – não sabemos bem para onde porque o único espaço para ele pôr os pés seria o fundo da ravina. Talvez para fazer chichi, pensamos.
Dois minutos depois, do nada, a fila de camiões militares movimenta-se e o autocarro pode avançar. Já em andamento, a porta abre-se à nossa frente e salta para dentro o sadhu. Ninguém no autocarro se apercebeu da sua obra. Mas, por um breve segundo, enquanto se movimenta para o seu lugar, partilha connosco o seu segredo. O seu olhar, embebido de sabedoria e magia, e um pouco divertido também, transmite-nos uma mensagem: "Pus isto a andar". E continuamos a subir.
segunda-feira, 8 de agosto de 2005
Partida chuvosa: o motivo
Está frio e a chuva cai em dilúvio. O pequeno edifício da estação rodoviária está repleto, pessoas dormindo por todo o lado. À nossa frente o "Himachal Road Transport Coroporation semi-deluxe bus" que segundo informação oral e horário pintado sobre uma placa de madeira apodrecida nos deve transportar durante dois dias para Leh, capital do Ladaque budista e parte do estado de Jamu e Caxemira, atravessando os Greater Himalaias, planícies desérticas e passes gélidos acima dos 5000 metros. Verde e branco, dorme ainda. No seu topo já está colocado um barril de gasolina extra.
Com uma hora de atraso, um ensonado condutor abre as portas. Os lugares são conquistados, pela força e pela casta pelos locais; pelo verbo, pelo bilhete e pelo passaporte por nós. Seat number 5 and 6, bem à frente como queríamos, para evitar os saltos acrobáticos e um consequente rabo dorido e assado nas últimas filas. Os bancos não são de madeira, mas de alumínio revestido de uma fina colcha sintética e sem repouso para a cabeça. A qualquer arranque mais violento ou a qualquer batida por trás, as nucas estão expostas a uma barra de alumínio que reluz com ameaça mortífera.
Na sua maioria, são mongolóides no autocarro. Os olhos em bico, parecem um pouco ameaçadores, mas são pequeninos e sorriem muito. São Ladaquis e budistas e anseiam por um regresso rápido a casa depois de a profissão ou a burocracia os terem forçado a vir para baixo, para sul, para as planícies indostânicas.
Mas, no meio do autocarro, quase ao nosso lado, reina uma pequena agitação. Um vagabundo acompanhado de dois meninos à volta dos dez anos de idade procura garantir o seu lugar. Consegue-o com bastante aparato. Os três vêm carregados de sacos, sacas e demais trapos e recipientes para comida e bebida. O homem, alto e barbudo, impõe um pouco respeito – embora não o seja, identifico-o como um sadhu, um homem-santo hindu que viaja as intermináveis terras indianas em meditação, canto e peregrinação.
O sadhu trata as crianças muito mal. Talvez sejam os seus filhos, mas não interessa. Traz consigo um longo pau de madeira com que vai dando carolos dolorosos nas crianças por qualquer coisa de errado que façam. Às vezes também voa um tabefe. Antes ainda de eu iniciar o processo de decisão ocidental se devo intervir ou não, já um pequenino ladaqui aproxima-se rapidamente das últimas filas e habilmente com um gesto só retira o pau das mãos santas. Diz-lhe algo que não percebo. Mas a mensagem é clara. Aqui reinamos nós. Aqui não se bate em crianças. O sadhu, apanhado de surpresa e reduzido a um estado minoritário, não esboça sequer reacção, salvo uma cara indignada e até um pouco infantilmente triste.
Está lançado o motivo para a viagem. Todas as viagens na Índia têm um motivo, uma matriz sobre a qual se constrói uma comunidade, seja de conflito ou de cooperação. O sadhu, pela sua natureza, assumiu essa tarefa. Todos se sentam e a carcaça metálica arranca para os Himalaias.
quarta-feira, 27 de julho de 2005
Chegada
Nova Deli está com um clima muito desagradável, mas - como sempre na Índia - suportável. Nuvens, sol à mistura e uma tremenda humidade com aquele ameaçar de chuva que nunca se concretiza. Temperaturas de 30 e tal de dia e de 27 de noite.
Mais um ano de vida em Deli...
quarta-feira, 29 de junho de 2005
Partida
domingo, 26 de junho de 2005
Calma rodoviária (caos e ordem)
Estive na presença de umas poucas pessoas quando viam o vídeo e ouvi mais algumas comentar sobre ele. Primeiro, poucos se apercebem que aquilo é mera fotomontagem. Segundo, em tom de D. Gracinda que relata um acidente catastrófico ali na esquina do café, submetem-se totalmente ao incompreensível - o que é compreensível porque simplesmente é inexistente. Terceiro, paira no ar um misto de admiração e nostalgia.
O meu pai conta que nos anos 60, quando estudava na Alemanha, se encontrava hospitalizado num quarto com vista para um cruzamente com semáforos. Sempre que estes deixavam de funcionar, o que acontecia com alguma regularidade, ouvia imediatamente ou assistia ao vivo a acidentes rodoviários porque os condutores alemães não sabiam reagir perante a demissão da autoridade suprema semaforária.
Utilizei um exemplo alemão porque me parece mais constrastante com a experiência indiana. Portugal encontra-se no meio. Portanto, em termos ocidentais, a ordem tornou-se um pouco numa obsessão - se me permitem. A ordem, a disciplina e o formalismo em excesso levam à decadência moral, tal como a excessiva dependência do material que nos rodeia mais do que nunca. "Só um Sith pensa em extremos" como me avisa um amigo, parafraseando um boneco de cinema.
Voltando ao cruzamento, há nostalgia, porque há incapacidade ocidental de voltar ao caos primordial - não necessariamente bom, sublinho. Na Índia sobrevive. Os cruzamentos, os semáforos, os polícias, as estradas, as linhas e a matéria, a forma e a disciplina são domados e submetem-se impotentemente à prática, à sabedoria e à experiência.
Percebo que a ordem tenha as suas vantagens. Permitiu que se alcançassem muitas coisas boas. Mas não devemos pensar que a ordem e a forma são tudo. Temos que ter isso em conta quando atravessamos um cruzamento em Nova Deli como turistas, ou quando negociamos com a Índia políticas alfandegárias e financeiras como diplomatas ocidentais.
Isto como pano de fundo leva claro ao tema da dependência e dos extremos. Somos dependentes da matéria, do consumo, da asspeticidade? Reagiriam os ocidentais mesmo de forma mais debilitada a uma catástrofe ambiental planetária do que habitantes de outros continentes? E limitando a análise à psique, o quão estão os europeus mentalmente mais fortes desde que ultrapassaram todos os outros povos e civilizações em termos de esperança de vida, inovação tecnológica e planeamento urbano?
Afinal, enquanto todos os dias em que percorro a minha saloia AE8 vejo cenas de conflito, competição e obscenidades rodoviárias e leio regularmente de mortos a tiro nas auto-estradas europeias por causa de indefiníveis quezílias rodoviárias, num ano em Nova Deli de mota, rodeado daquele caos, não me lembro de ver uma única discussão, quanto menos um único gesto ou palavra obscena originada por questões rodoviárias.
Querem contra-prova? Os únicos momentos em que assisti a tensão nas ruas e avenidas de Deli foi quando os grandes pretos carros e jeeps de vidros fumados da emergente classe média urbana ocidentalizante se permitia atropelar esta calma. Achando-se algo mais, e despojados da essência tradicional indiana que é a base da calma rodoviária que vos anteriormente descrevi, acelerados pela pressa de chegar ao local de consumo ou produção (ou ao contrário, sai ao mesmo) e cegados pelo Ocidente capitalista e brilhante, enconstam as grossas jantes das suas potentes máquinas aos frágeis triciclos fazendo-se tombar como se fossem pequenas peças de Lego.
terça-feira, 14 de junho de 2005
A imagem portuguesa da Índia
É verdade, as miúdas que andam lá na minha faculdade na Avenida de Berna de dia e que polvilham as ruelas do Bairro Alto de noite (ou será ao contrário?) já andam de mochila, saia e blusa indiana. É verdade, os 600 turistas portugueses que visitavam Goa (para não falar da Índia) anualmente nos anos 90, passaram a ser alguns poucos milhares agora. Sublinhe-se o adjectivo, no entanto. E é verdade, já não só os saudosistas, salazaristas e militares a falar da distante Índia.
Mas, no fundo, a Índia continua a ser uma imensa mancha negra no mapa-mundo português. Eu notei isso quando anunciava que lá ia, há um ano. Houve reacções de oposição e de encorajamento, mas, na sua grande maioria, as pessoas dedicaram-me uma expressão facial interrogativa enorme e desesperada. Não sabiam o que dizer. Hesitavam. Alguns refugiavam-se no discurso rebelde de que "só faz é bem, ir lá para fora", incluindo a imensidão indiana no saco-cabe-tudo do "lá fora". Outros perguntavam-me se continuaria a estar acessível por e-mail.
A Índia continua assim refém do que eu chamaria "um fosso geracional". Os mais velhos, que por lá andaram nos anos 50, filhos do Império português (que interessantemente, segundo uma tese a publicar por Francisco Bethencourt, no King's College London, nunca terá existido) estão em vias de desaparecimento, para além de estarem conotados com sectores conservadores pouco na moda. Uma geração intermédia tem claramente mais que fazer, como em Bruxelas ou até no Brazil e em África (poucos), e vive também sob o manto do trauma colonial. Finalmente, os mais novos, a geração sub-30 e mesmo sub-40, tende a perguntar-me como é que está a construção da barragem e a preservação das gravuras rupestres quando lhes falo em Goa. Há que redescobrir a Índia, parece-me.
Perdoem-me o meu tom que pode parecer censurador. Mas eu mesmo hesito muitas vezes. Fazem-me crer que sou um Fernão Mendes Pinto do século XXI, mas na realidade não sou mais do que um estudante internacional em mobilidade. Mobilidade contra a corrente? Nem por isso. 2000 km acima de nós a maioria dos escandinavos tiram pelo menos um ano depois do secundário para viajarem pelo mundo não-ocidental ou para fazerem estágios no apoio ao desenvolvimento nos países que os meus colegas chamariam "os mais encavados". Nova Deli capital terceiro-mundista? Nem por isso. O que iriam para lá fazer tantos chefes-de-estado nestes últimos meses, a não ser negociar contratos de investimento, aumento de "green cards", programas de intercâmbio e pacotes de armamento?
Mas há mudança. Contrastando com o enorme vácuo de há um ano, as pessoas que me encontram agora já dizem algumas banalidades. Normalmente comentam que a Índia "tá em grande nas tecnologias da informação e nos computadores e nisso tudo", claro que nunca deixando de fora o comentário mais ou menos jocoso (depende se estou aqui no Rogel com o meu mecânico ou com um licenciado em Lisboa) que "eles também são mais que as mães / são marrões / são inteligentes e trabalhadores". E o comentário bónus é sobre a questão militar porque "eles têm capacidade nuclear" e depois vêm umas palavras complicadas como "proliferação" ou banais como "ainda nos caem as bombas na cabeça". E há também leve mudança porque vejo que entre as gerações mais novas de portugueses – mesmo que décadas em atraso comparativamente às suas congéneres europeias – já há mais pessoas a abrir os olhos e a fazer as malas, explorando as manchas negras do nosso mapa-mundo que em tempos foi o melhor do planeta.
Espero que possa haver mais mudança. Aliás, é surpreendente a parca informação sobre a Índia que cá chega. Mas isso fica para outro apontamento.
Novo blog: Wide views
tenho um novo blog em que escrevo sobre Goa, emigrado como sou daquela terra e armado como sou em Che Guevara/Pinochet (pick one). Está em inglês e podem visitar em
http://wideviews.blogspot.com
domingo, 12 de junho de 2005
Depois de um ano na Índia
As pessoas se vestem melhor, mais cuidadas
A carne em doses maiores me faz sentir enjoado
Há menos obras feitas, menos construção em progresso
O Benfica é campeão nacional
Está tudo um pouco mais caro
Mantenho os meus bons amigos
A "crise" continua, está em todo o lado
O meu Golf continua um Panzer
O clima piorou, as estações do ano estão em vias de desaparecimento
Sinto saudades da minha vida em Deli
Gosto muito de Lisboa
A televisão está pior do que nunca, é só ligar
Tenho um novo cão, querido, e que o anterior fugiu
Ninguém (ou poucos) lêem jornais
Os carros conduzem menos rapidamente nas auto-estradas
O presidente da minha câmara afinal é bom
O buraco do Túnel do Marquês aumentou
Estou mais velho, um ano
sexta-feira, 10 de junho de 2005
Decadência do Mundo Ocidental (intervalo)
Antes de intervalar deixem-me então explicar melhor aquilo o que me tem ido na alma.
Primeiro, falar em decadência para mim só faz sentido no Ocidente. Porque é este pedaço do mundo, é esta civilização que sempre defendeu a ilusão da evolução e do progresso e das utopias. E que para isso expandiu a sua utopia e os supostos instrumentos para a alcançar por todo o planeta. É essa a responsabilidade do Ocidente. Como se relaciona hoje a civilização ocidental com essa tarefa, como a instrumentaliza, como a explica ou como a nega?
Segundo, falar em decadência ocidental para mim é acima de tudo uma análise do homem. Dos sentimentos, dos valores, da felicidade ou da infelicidade, da integridade ou da hipocrisia, da rectidão ou de malabarismos. A minha perspectiva é social e moral. Mas obviamente está ligada ao material, tanto na forma da matéria palpável como da matéria como resultado de um sistema de produção. Como vive hoje o homem nas sociedades ocidentais? A que aspira e quais os fundamentos que nutre para atingir os seus objectivos?
Terceiro, falar em decadência ocidental não significa conservadorismo. Significa justamente o oposto. Significa reivindicar uma ruptura com o letárgico arrastamento de algo que se prolonga em mediocridade em vez de se aprofundar em excelência. Algo que permanece porque ninguém ainda se deu conta da sua inoperabilidade ou porque ninguém quer dar conta disso. Falar em decadência pode ser conservadorismo se se defender integralmente a adopção de um sistema de ideias, valores e estruturas do passado. Não é o meu caso, com bem sabem. Qual o sistema prevalecente e o porquê da sua crise? Transformação ou ruptura, mudança ou fim?
Quarto, falar em decadência ocidental não significa uma leitura evolucionista. O mundo ocidental não tem nem decaído progressivamente, nem progredido progressivamente. O mundo ocidental simplesmente acreditou que podia e teima em perceber que deixou de poder, se é que alguma vez pôde alguma coisa. O Ocidente deixou de ser ocidental, se é que alguma vez o foi. O Ocidente faz parte de um ciclo, por mais que lhe custe e por mais que tenha tentado fazer a roda parar. O que me preocupa é se na sua cega procura de uma roda melhor transformou de facto a roda planetária irremediavelmente. Qual o impacto desta utopia ridícula? Como medir o resultado?
Quinto, falar em decadência leva-me a registar que houve mundo chinês, houve mundo árabe, houve mundo romano e houve mundo inca. Paradoxalmente, quando o mundo ocidental mais se assemelha ao mundo na sua totalidade planetária, é também no seu coração que a decadência se dá. Mas é tarde de mais. Como reverter, parar, anular, domar o processo? Como explicar às Américas, às Áfricas, às Ásias? Como reparar a roda e manter os seus diversos raios intactos? Ou já nem há raios na roda?
Mas, sexto, falar em decadência ocidental em princípio nem me obriga a falar em outras potenciais decadências civilizacionais, nem necessariamente estabelecer comparações. Não sou forçado a forjar o Oriente para perceber o Ocidente. Vivemos hoje num planeta claramente ocidentalizado, mais ou menos, pouco interessa. Por isso é preciso analisar o Ocidente porque é ele que engendrou o que hoje vivemos, para bem ou para mal. Por isso basta analisar a decadência do Ocidente e perceberemos como tudo se sonhou e um dia passado se fez e como tudo no presente se desfaz, ou não.
Ficam algumas explicações. Deixarei de massacrar-vos com a "decadência do mundo ocidental". Continuarei com a verdadeira vida em Deli. Mas agora poderão ler apontamentos meus com outros olhos, espero. E vir ver à Índia também porque é que o Ocidente está, estará ou sempre esteve em decadência.
sexta-feira, 27 de maio de 2005
Decadência do Mundo Ocidental – Vendedor de flores
Começo pela primeira fila. O jovem homem de óculos de massa não me olha. Com um gesto de desprezo, a mão manda-me calar antes mesmo de poder falar. Estão duas jovens sentadas à mesma mesa. Uma levanta o olhar e sorri para mim. A amiga exclama: "Já andas a flirtar com monhés? Tás mesmo necessitada pá".
Continuo. A fila seguinte reúne um vasto grupo de jovens. O primeiro adolescente, de camisa branca aos quadradinhos acena-me simpaticamente: "Anda cá. Anda cá!". Repete o imperativo. Aproximo-me. Há alguns casais entre o grupo. Vestem boas roupas. Espero fazer algum dinheiro.
"Então não tiveste ali em Alfama no outro dia?" exclama o adolescente, piscando o olho à loira sentada à frente. "Não me percebes ou não queres perceber? Ou era teu irmão ou o teu primo? Vocês também são mais que as mães, fodas." É tudo muito rápido, não compreendo. Estendo-lhes as flores, não custa nada tentar. "Quer flor?" Riem-se muito. O rapaz de camisa aos quadradinhos insiste. "O que é essa merda que tens aí? Quanto queres por uma?" Respondo. Mas agora são já três miúdos a segurarem e a mexerem nas flores. "Esta cheira mal pá". "Pois, cheira como lá na terra dele". "Dou-te cinquenta cêntimos por uma". Gargalhadas. Acedo. Afinal compro uma por trinta lá em baixo em Alcântara. Mas devolve-me a flor. "Era o que querias. Toma lá esta merda e espeta onde quiseres".
Um rapaz aproxima-se mais seriamente. A namorada à qual estava abraçado quando entrei olha lá do fundo. "Dá lá uma", diz, pega numa flor e com a outra mão estende-me uma moeda de cinquenta cêntimos. Aproximo a minha mão, mas a moeda cai ao chão. Baixo-me para a apanhar. Mas de repente o rapaz dá-me uma pancada leve na cabeça, o meu chapéu cai ao chão, e grita para o restaurante inteiro ouvir: "Ó merda de panasca. Não queres é chupar só dinheiro".
Aos berros masculinos que explodem em coro juntam-se as gargalhadas dos empregados e de mais alguns clientes. Alguns limitam-se a sorrir. A loira engasga-se de tanto rir. As amigas acodem-na. Aparece o empregado e empurra-me. "Vai, sai mas é daqui."
Está muito frio. Depois da ronda pelas discotecas, apanho o metro e o primeiro autocarro. A tempo de o ver acordar. Ao abrir os olhos castanhos, envolto de mantas e ensonado ainda, pergunta: "Papá, o meu chapéu deu-te sorte hoje?".
quarta-feira, 25 de maio de 2005
Decadência do Mundo Ocidental – Sistema político (1)
Não sou suficientemente eurocêntrico para acreditar que este sistema de democracia liberal representativa assente nos pilares do capital e da economia do mercado seja o único, o terminal e o melhor. Que este seja o sistema que temos que trabalhar continuamente porque mais do que um sistema é um processo.
Não sou suficientemente revolucionário para apelidar os 300 e tal deputados à Assembleia da República Portuguesa de corruptos, acomodados e gatunos. Para defender que afinal está tudo mal, que é preciso cortar o mal pela raiz e olhar para formas alternativas de organização política entre as tribos Guayaki do Paraguay ou entre os guerrilheiros maoístas no Nepal.
Mas acho-me suficientemente bem posicionado para observar uma decadência do sistema político português e ocidental. Observações confirmadas hoje com a presença mensal do primeiro-ministro em S. Bento para o debate mensal com os parlamentares. É perigoso entrar em generalizações. Mas, num pantanoso enredo de nuances em que um parece melhor que o outro, este mais ou menos sério que aquele, e aquela mais sincera que este, não há saída a não ser caracterizar todos de profundamente medíocres.
O debate é vazio. Um diz, o outro percebe e desdiz ou finge não perceber e diz outra coisa. Um debate de surdos-mudos. Em que na fila por detrás dos oradores há sempre um a bocejar, um a telefonar, um a ler ou um a pedir mais um cópo de água daquelas funcionárias gordinhas chamadas Maria ou Gracinda vestindo fatos dos anos oitenta. Em que, mais à direita do que à esquerda, se interrompe o orador a cada quarto de minuto com sonoros e inócuos "muito bem, muito bem". Em que se pretende ferir o adversário como numa batalha medieval, não servindo o capacete inimigo como troféu, mas sim os flashes dos fotógrafos, as citações no jornal do dia seguinte e o ranking das setas "sobe e desce" ao fim da semana.
Em que tudo é um malabarismo de verborreias direccionadas a ganhar prestígio somente naquele minúsculo universo de um hemiciclo que mais e mais se assemelha aos conselhos aristocráticos ou liberais novecentistas, em que uns poucos esclarecidos debatiam o futuro dos que se mantinham na escuridão das letras e dos saberes.
É a degeneração. É a decadência. Porque houve melhor, noutros contextos que não permitiam o alargamento do fosso entre o real e o suposto. É tudo um teatro político. Sempre foi. Mas houve tempos em que os personagens se representavam a si mesmo. Acreditavam em si. Hoje os personagens já nem se conhecem a si mesmo. A máscara ganhou raízes na pele branca. E a plateia vazia.
terça-feira, 24 de maio de 2005
Voltar a Lisboa
Puxar a mala de debaixo da cama. Poeira. Quarenta e quatro graus. Viajar ou voltar? Calor ou frio, ali ou aqui? Pobreza, de carteira ou de espírito?
O táxi não pode parar. Os acompanhantes não podem entrar. O terrorismo tem que ficar à porta. Eu entro. Adeus. Já volto. Mas não é bem assim.
A Índia híbrida aeroportuária. Os funcionários indianos da KLM, da Lufthansa, da Air France, da Northwest Airlines. Bebem decadência, a toda a hora.
A longa espera para o embarque de madrugada. A Sprite custa cinco vezes mais. O adeus sufocado ao telefone. Percebo. Talvez? Espero que sim.
747. A dormida, a comida, a chegada. Amesterdão.
05:45. Abrem-se as lojas. As linhas rectas, os Euros (muitos), o frio e a limpeza. Europa.
A espera, mais uma vez, sozinho, num longo corredor. Acordo: portugueses chegam. Ela censura-o por bater com as mãos ruidosamente na mesa, avisando que o polícia ainda vem ter com eles. Ele responde que se ele vier lhe pega na espingarda e lhe enfia um tiro pelo buraco acima. Não queria, mas sorrio feliz.
Lisboa. Sorrio. Feliz. E eu não queria. Não queria mesmo.
segunda-feira, 9 de maio de 2005
Calor terminal
O verão deliense está a ser complacente. Qualquer europeu que agora cá chegue quase que morre no primeiro dia, mas para nós já é habitual. Embora estejamos no apartamento no topo do prédio em que o sol bate todo o dia. Mas também houve chuva refrescante de vez em quando e só às vezes, e a partir de agora durante um mês, a temperatura passa dos 40 graus.
Quarta-feira escapo-me para Dharamsala, a capital do governo tibetano (ou o que resta dele) no exílio, sede oficial do (querido) Dalai Lama. Aquilo fica a umas centenas de quilómetros a norte de Deli, na altitude refrescante dos Himalaias. Depois volto a Deli e dia 19 estarei pelo meio-dia no aeroporto da Portela de Sacavém. Um mês em Portugal.
E fica a nota de uma reportagem minha de cinco páginas publicada na revista Única do Expresso, este Sábado. É sobre a cidade de Bhopal, onde há cerca de 20 anos de deu um dos maiores desastres industriais de sempre. Chama-se "Vítimas desamparadas" e espero que gostem da minha estreia no mundo das reportagens.
Decadência do Mundo Ocidental (intro)
Só por eu denunciar o que se passa a Ocidente, isso não catapulta o Oriente para a) a posição de um novo Ocidente, agora mais a Oriente, b) a posição de civilização divinal e perfeita; nem catapulta o Oriente para c) a posição de histórico oprimido que passa a ser a chave para a redenção dos oprimidos.
Sirvo-me do Oriente (a Índia em específico) para denunciar o Ocidente, simplesmente. Aliás, só utilizo o conceito Oriente por motivo de força maior, para classificar o que não é o Ocidente. O Ocidente, sim, esse distingo-o claramente. É a Europa desenvolvida ou em desenvolvimento (escolham o que preferem), a América do Norte, e as ilhotas brancas nova-zelandesas ou australianas, etc., o eixo da superioridade científico-tencológica, a suposta racionalidade e objectividade que depois se refugia na mediocridade da acomodação, da subjectividade, do relativismo radical, basicamente no medo.
A escolha ou distinção entre o preto e o branco, entre o Ocidente e outra coisa qualquer, aliás não faz sentido nem é possível porque um suposto Oriente já é parcialmente Ocidente. O Ocidente exportou-se para bem e para mal. Presentemente mais para mal, acho. Por isso também me debruço perante a decadência do não-Ocidente porque quer ser Ocidente e importa o errado.
Portanto, para além do Mundo Ocidental, duvido que haja outros mundos, de momento. Portanto, estando no que hipoteticamente é visto por alguns como Oriente, tenho a vida facilitada para denunciar a decadência do Ocidente, no Ocidente e fora dele. Portanto, o Ocidente é-me afinal querido, porque denuncio a sua decadência.
quarta-feira, 13 de abril de 2005
Mixed Times (2)
Ao lado do cinema há uma loja de relógios da Tag Heuer. Aventurei-me e friamente responderam-me que não vendiam nada a menos de 25 000 Rupias. O salário mensal da nossa empregada doméstica, Sayida, ronda as 2500 Rupias pelos nossos cálculos, o marido não trabalha e tem três filhos menores (um está agora a lavar a minha mota).
De frente à loja uma manada de vacas mal-cheirosas, de rabo grande e imponente, espalhando santidade. Os animais passam pelos grupos de adolescentes de telemóvel na mão, tirando fotografias digitais e enviando-as instantaneamente para o primo no Canadá. Movimentam-se de Reebok no pé e de Mango no peito para o McDonalds.
Nos dez metros seguintes passam por um mago que lê o futuro das mãos, um desgraçado coxo que vende próteses e um sapateiro ajoelhado num cantinho tentando colar a sola elástica de um sapato Nike àquela parte que pisca quando se poisa o pé na merda.
Há ainda um cibercafé por cima da merda, que oferece cursos de informática em dez horas e cursos avançados de inglês em quinze. Passa uma mulher, nota-se só pelo volume do peito e pelo andar, porque está coberta de burkha. Segue um ou dois metros atrás do homem e da filha pequenina, de orelhas furadas com brincos dourados e um brinquedo de plástico em forma de Homem Aranha.
Enquanto que os condutores de triciclos (rick-shaws) rodeiam potencial clientes, negociando, ecoa uma batida sonora igual a tantas outros fins-de-tarde (ou inícios de manhã) em Ibiza, mas acompanhada de um cântico romântico em hindi.
terça-feira, 12 de abril de 2005
Vivências no campus III
Esperando uma daquelas burguesas casas professorais no campus, na zona das residências dos académicos, como Uttarakhand, fiquei surpreendido quando ao telefone me anuncia que vive no "Warden's Flat 1, Ghodavari Hostel". Uma professora doutora vivendo num anexo de uma das pobres e porcas residências, e ainda por cima num apartamento com nome do contínuo da residência (warden)?
Não me enganei. Ela é mesmo a contínua da residência. Aliás, todos os contínuos das quase 20 residências no campus são professores, normalmente muito reputados. Gerem as chaves dos quartos, fazem visitas surpresas a ver se há visitas não-registadas, controlam a limpeza do refeitório e das casas de banho. Um professor doutor que no dia seguinte nos dá aula. Que viaja em Executiva para uma conferência internacional em Pequim. Nada é incompatível aqui. Bem pelo contrário, há uma comunidade universitária intensa e unida, entre alunos, professores e funcionários, uma amizade e cooperação que dão lugar a esse espírito universitário invejável, em que há diferenças hierárquicas – a um certo nível – e igualdades indestrutíveis.
Em que é possível também jogar futebol com o filho do professor, no estádio, ao fim da tarde. Em que por acaso numa das cantinas ou restaurantes do campus se está sentado ao lado do professor de Teoria das Relações Internacionais. Em que (como o meu flatmate francês) se tem um acidente rodoviário com um professor numa das estraditas do campus. Em que ao nosso lado na aula de Mestrado se senta um colega que é filho de um dos funcionários da universidade (que lava latrinas).
segunda-feira, 11 de abril de 2005
Vivências no campus II
Mas a verdade não deve estar assim tão longe. No outro dia jantei numa das cantinas ao ar livre e o meu amigo (porque o meu hindi ainda não vai tão avançado) descobriu que um dos homens que nos servia e cozinhava era doutorado pela JNU. Explicou-se dizendo que não encontrou logo trabalho e decidiu ficar pela universidade a que se afeiçoou e o salário afinal não era assim tão mau.
Outro caso é de outro aluno de doutoramento que há uns anos enlouqueceu, não ficou gagá, mas parece que assim um pouco para o demente, com manias e assim. Forçaram-no a abandonar os estudos, mas em troca deram-lhe um pequeno espaço numa das zonas comerciais do campus, de onde agora gere uma loja e atende estudantes e professores, sempre com um sorriso.
A Índia nortenha
Mas há outra razão mais sorrateira que arrisco lançar. A Índia, ou melhor, a Índia que se resolve e se quer a partir de Nova Deli, é uma Índia que historicamente faz parte do Norte, dos povos superiores, das línguas de traça germânica e dos nómadas pastores arianos. Isso mesmo se nota nas políticas internas da Índia, em que um Norte (parcialmente) desenvolvido, de pele branca, de tez europeia e controlado pelas casta altas domina um Sul (largamente) rural e pobre, de pele escura, de tez africana por vezes, e polvilhado de uma variedade de castas baixas que buscam redenção.
Por isso, até mais, a Índia continuará a fazer parte do Norte. Lembrem-se. Os indianos são vossos primos afastados. Os indianos albinos são cópias exactas do vosso vizinho da frente na Rua da Atalaia.
sábado, 9 de abril de 2005
Encontro de titãs (Expresso, 9 de Abril)
Vivências no campus I
terça-feira, 5 de abril de 2005
Fim-de-semana fora
Seguimos depois para passar um dia em Nainital, uma das várias "hill-stations" a poucas horas de distância de Deli, para onde a classe urbana média-alta foge do calor abrasador que ocupa as planícies nesta altura do ano. De facto, aquilo é fresco e as paisagens sobre os Himalaias monumentais. A vila rodeia um pequeno lago, o que serve de atractivo adicional às centenas de casais que vêm cá passar a lua-de-mel. Tudo muito limpo, como é característico das pequenas cidades dos Himalaias, que beberam muito da influência britânica. A arquitectura vitoriana prevalece nas igrejas, nos edifícios públicos e nos clubes e bares em que dantes se bebia whisky e se discutia como manter o Império, onde encontrar os maiores ursos ou qual a carruagem mais confortável para voltar a Calcutá.
Como nos incluímos na massa indiana que invadiu Nainital naquele fim-de-semana comprido (a Sexta-feira Santa coincidiu com o festival Hindu Holi, festival das cores, erradamente visto como Carnaval indiano) claro que foi dificílimo conseguir transporte de volta. Assistimos a confrontos físicos entre vários homens que disputavam os últimos lugares no "high-tech bus" da Uttaranchal Road Transport Corporation destinado a Nova Deli, o que nos fez rapidamente e desesperadamente procurar alternativa. Que nos subitamente apareceu de frente, na forma de um autocarro a cair aos bocados, com bancos de alumínio, madeira e uns bocados de estofo esfarrapado. Cheio que nem um ovo, claro. Embarcámos. E foi o inferno de oito (8) horas que terminou pelas 03:45 no terminal de autocarros de Deli, a mais de 20 quilómetros de nossa casa e o que nos obrigou a longas discussões com os condutores de rick-shaw que virem em nos apetecíveis presas, ainda por cima debilitadas. Também os mosquitos nos viram assim. Mas com eles não houve discussão possível.
terça-feira, 22 de março de 2005
Mixed Times (1)
Linhas de divisão, elementos de referência, sítios, lugares e hierarquias – tudo posto em causa pelo que chamam de modernização. O problema é que a modernidade, se é que jamais existiu, já faz parte do passado. E que aqui a tradição resiste ofensivamente – agarrando e assimilando a modernidade de cariz ocidental. Complica-se tudo com a entrada em cena da pós-modernidade.
O que faz com que a Índia seja vista como um espaço excelente para estudar os efeitos da globalização (ver, por exemplo, Arjun Appadurai: "Apres l'Empire, Les consequences culturelles de la mondialisation"). Em que se estabelece o que muitos chamam de "Mixed Times", em que a tradição, a modernidade e a pós-modernidade coexistem num mesmo espaço, ele mesmo cerescentemente desterritorializado.
Claro que tudo pode ser visto de uma perspectiva de decadência, em que nasce a nostalgia pelo passado em que as forma eram claras e as linhas sóbrias. Em que havia sítio e lugar de pertença. Em que se podia classificar facilmente e ordenar – afinal foi assim que os britânicos criaram a Índia e todos os outros colonizadores as suas colónicas (ver Benedict Anderson: "Imagined Communities" e a criação da nação pós-colonial com a ajuda da trilogia instrumental "Maps, Census and Museums").
Mas, de outra perspectiva a Índia oferece-nos também a possibilidade de questionar o que tão inquestionável nos parece no Ocidente ou o que tentamos mas não conseguimos questionar. De observar uma fluidez no desenvolvimento das relações sociais, com o seu grau de conflitualidade, é verdade, mas com uma naturalidade e à-vontade assustadores para os ocidentais.
segunda-feira, 14 de março de 2005
Fulanização da esquerda global
Mas, sendo um cidadão português que já votou CDS-PP e PCTP-MRPP, e que é caracterizado por muitos amigos como "prostituta intelectual" ou "cata-vento", não tenho dificuldades em assumir agora uma postura crítica do que afinal no fundo sempre mais abominei.
Enquadrada na decadência do mundo ocidental (ver outra série de posts que iniciarei com este título) encontra-se a fulanização da esquerda moderna, com raízes no radicalismo e extremismo mascarado de esquerda global, pós-moderna, cosmopolita e jovem.
Curiosamente – e isto será o mais assustador – essa esquerda fulana anda a exportar-se para o resto do mundo. Quando ela mesmo se tende a assumir como vanguardista e denunciadora de uma decadência das sociedades capitalistas e das economias de mercado ocidentais, esquece o elementar facto de se basear em pressupostos fundamentalmente simplistas, básicos e primários, pondo destrutivamente - e não construtivamente como seria de supor - em causa os já enfraquecidos pilares da civilização ocidental.
A alternativa esquerdista quer-se anti- ou alterglobalizante mas esquece que ela mesmo é o motor de uma globalização socialista ridícula, destruidora e caótica, sem alternativas, mas ruidosa e das ruas. Que está a exportar a sua ridicularidade para as sociedades em desenvolvimento que sofrem e precisam. Precisam de atenção e soluções construtivas e originais. Mas, pelo contrário, é-lhes oferecido - em jeito de pacote de bolachas produzido em massa - um conjunto de pressupostos simplistas e superficiais e uma estratégia colorida e barulhenta (e entusiasmante, claro) que atrai qualquer jovem estudante com ideais e esperança num mundo melhor (sim, encontro-me aqui).
Devem estar a querer saber onde nasce este meu vísceral comentário crítico. Nasce aqui mesmo, no campus da JNU. Numa universidade que supostamente é a elite indiana e que junta o que de melhor há neste país em maturação. Em que os estudantes das várias facções esquerdistas que detêm o monopólio da vida política universitária passam dias a pintar e colar cartazes contra as imperialices. Se manifestam semanalmente a favor de Saddams e Fidéis. Em que ditadores-garotos sul-americanos dignos dos piores filmes Hollyowood de categoria B como Hugo Chávez são recebidos em euforia por milhares de estudantes "porque ele canta bem" e tem "tomates para mandar o Bush dar uma volta" e "espelha a esperança democrática do mundo em desenvolvimento" (estudantes dixit, na semana passada). Em que os dirigentes da Students Union passam os dias enclausurados a discutir as melhores estratégias para expulsar uma barraquinha inofensiva da Nescafé que é apelidade de agressão imperialista multinacional e capitalista ao campus democrático (e à noite muitos deles vão lá beber um Nestea às escondidas). Em que à mesa da cantina discutem como os E.U.A. estão a matar África à fome e as forças imperialistas ocidentais dominam os media (sim, a BBC também, imaginem!), enquanto que uma das dezenas de rapazitos em idade de escola primária que trabalham nas cantinas do campus lhes serve mais chá e limpa a mesa com um trapo sujo e fedorento. Em que a poucas dezenas de metros do campus se amontoam as barracas e os plásticos azuis que as cobrem para resistir à chuva, ao frio e ao sol e a tantas mais desgraças que caem do céu indiano. Em que as crianças brincam na lama e mexem na merda das vacas a ver se encontram uns amendoins. Mas o que interessa é a alternativa. A resistência d(r)avidíaca contra as brancas forças poderosas e invisíveis.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005
Sul da Índia
As pessoas são boas aqui. Ajudam muito. Sorriem sempre. E fazem muitas perguntas – mas não por maldade, simplesemente por curiosidade. E o que custa satisfazer essa genúina necessidade, essa preocupação em saber mais de nós, em nos ajudar.
Tinha que encontrar um cibercafé na cidade de onde pudesse enviar um artigo para o Expresso. O taxista que me veio buscar recebeu as ordens do recepcionista e levou-me logo a bom-porto, sem parar antes num cibercafé mais próximo do que o indicado (mas que estava fechado) porque pouparia dinheiro de deslocação.
No cibercafé fizeram todos os esforços possíveis para ligarem o meu portátil directamente à Internet. Finalmente correu bem, com total dedicação e empenho de trés empregados. E embora me tivessem dito que fechavam às dez da noite, como eu tive problemas a enviar um e-mail, mantiveram a loja aberta só para mim até quase perto das onze horas.
E nem me vieram perguntar porquê. Mas dei-lhes sinal da minha dificuldade depois de vinte minutos e responderam com um sorriso e "no problem". Quando quis dar uma gorjeta de vinte rupias, ao pagar, recusaram educadamente e preferiram em vez disso trocar uns dedos de conversa (basicamente uma avalanche de perguntas) que prontamente cedi.
Aqui todos parecem sorrir mais, parecem mais familiares e são mais prestáveis. Talvez por ser uma cidade mais pequena do que Nova Deli, mas certamente também porque o Sul é mais simpático do que o Norte.
O Português
Onde está o meu telemóvel? Talvez no carro. Onde estão os meus amigos? Talvez ali no bar da esquina. Onde estão os saldos? Talvez já nas Amoreiras. Onde posso ver sexo? Talvez no canal 18. Onde posso passar as férias? Talvez no Algarve. Tens a certeza?
É o último. Das centenas de nobres lusos que há poucas horas ocupavam religiosamente os baluartes e as muralhas só resta ele. Os mouros apanharam-nos de surpresa. Morreram todos. E a mim deixaram-me viver. Porque eu lhes disse que lhes iria mostrar o local secreto em que guardámos o tesouro que vai para o reino. Segue com uma tocha na mão, iluminando os túneis subterrâneos da fortaleza africana. Centenas de mouros ávidos seguem-no, os olhos brilham, é o tesouro tão esperado pelo qual esperaram 5 meses de cerco. Quando ele chega, ao paiol, e não ao tesouro, vira-se, sorri para o inimigo e lança a chama, lançando todos para outro mundo. Coragem.
Não saí do hotel, quase. Aquilo era uma porcaria. Cheirava mal, especialmente. E até havia vacas a andar pelas ruas. Tantos mosquitos que perdi de certeza uns litros de sangue. E perigoso, porque estavam sempre a fazer perguntas a ver se me raptavam. Eu não falava com ninguém, preferia ficar no autocarro e deixar o grupo seguir para as visitas. Nunca mais volto. Esses países são perigosos. Ainda rebenta uma guerra e depois fico lá para sempre ou cai-me uma bomba na cabeça. Para a próxima peço ao Pedro para deixar de inventar e marcar um Spa no Brasil, lá pelo menos percebe-se o que falam. Cobardia.
O português mudou. Há 500 anos embarcava no Rio Tejo com a certeza que provavelmente nunca voltaria a ver a sua terra. Com a certeza que casaria, morreria numa terra de que nunca ouviu falar e que com sorte ele mesmo descobrirá. Conquistava rios, montes, continentes e oceanos. Descobria terras, povos e culturas. Construía igrejas, fortes e palácios. Deixava rastos de suor e sangue, mas deixava rastos. Há 500 anos o português acreditava e por isso tinha certezas. Hoje vive acobardado na eterna procura das certezas e das seguranças, sem crença nem rasto.
Portugal
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005
Pais
Posicionamentos
Há três filas de bancos, separadas por dois corredores. Olhando da perspectiva de quem dá a aula, depara-se com a seguinte constelação posicional.
De maneira geral, há três zonas que emergem logo a olho nu. Na fila do lado esquerdo estão os indianos tradicionais, das pobres zonas rurais, geralmente de casta inferior, incluindo os intocáveis que Gandhi chamava de Harijans. Ocupam os primeiros cinco ou seis bancos da fila da esquerda. Ouvem com atenção, tiram muitos apontamentos. Muitos frequentam as aulas de "remedial English" porque têm muitas dificuldades na escrita.
Cada banco, indianamente ambiguamente, dá para dois ou talvez três estudantes sentarem-se. No caso deste grupo é curioso que sem excepção se sentam sempre três estudantes por banco, agachados e unidos, como se pairasse uma constante ameaça sobre as suas cabeças, um sentimento de culpa por uma ousadia que há não muito tempo talvez teria sido castigada com a morte. A vestimenta condiz: camisas com golas sujas, compridas, de fora das calças de tecido barato.
Vamos fazer a diagonal. Nos últimos bancos da fila da direita encontra-se outro grupo, também bastante unido, mas com uma ligeireza e à-vontade que não escondem um certo sentimento de superioridade. È o grupo dos brâmanes, ou, com excepções, de estudantes ricos e filhos de generais e políticos. Sentam-se humildemente lá no fundo, controlando o que se passa no microcosmo da aula. São aqui que nascem as intervenções mais ilustres, com citações em sânscrito (para nós como se fosse latim), divagações filosóficas e teimosias teóricas.
A vestimenta é variada. Alguns à indiana, mas sempre com tecido do melhor e que deixa rapidamente adivinhar a origem social e geográfica, e outros à ocidental, mas sempre uma aparência muito cuidada e um olhar acutilante que não deixa sombra para dúvidas. Com o peso de manter a ordem do cosmos, este grupo assume – tendo em conta o contexto – um papel similar ao que os seus antepassados assumiam. Adoptam alguns casos extraordinários, como um estrangeiro de origem indiana ou um estudante tribal desfavorecido mas com dinheiro, e integram-nos no grupo.
Vamos avançar para os primeiros bancos onde se encontra o bastião dos estudantes estrangeiros, encostadas ao púlpito professoral e com óbvias limitações linguísticas. Obviamente que consiste de uma amálgama de várias nacionalidades, trajes e passados, mas transparece uma solidariedade internacional que teria feito inveja a muitos soviéticos.
E a fila do meio? Nos bancos do meio e recuados encontra-se uma densidade acima da média de estudantes do Northeast indiano. São daqueles estados enclavados no extremo leste da Índia, encostados à China e ao Myanmar, muito ocidentalizados (parecem estudantes norte-americanso), falando inglês fluente e sendo maioritariamente cristãos. Mantêm uma distância muito grande do resto da comunidade estudantil indiana e por vezes até se aproximam mais da comunidade estrangeira. Mas o resto da fila, especialmente os primeiros bancos, é uma terra de ninguém ou uma zona de transição, embora a mobilidade não seja muita – na minha sala de aula, tal como na Índia.
sábado, 12 de fevereiro de 2005
Peso nos ombros
N. é o símbolo de uma Índia esquizofrénica. De uma geração confusa, perdida entre o nobre e estático peso da milenar tradição e a ordinária e fluída leveza simplista do presente. Enclausurada, sem saber o que abraçar. O passado ou o presente. A casta ou a cidadania.
N. é um pouco gordinha. Veste-se à ocidental. Defende os animais de Nova Deli. Especialmente os cães because we tend to forget them and we are only interested in our things. N. é inteligente, mas não muito. Lê aquilo o que supostamente deve ler e o que lhe permite resgatar-se da ignorância em caso de emergência.
N. é feminista também. As mulheres na Índia ainda são muito submissas e discriminadas. We have to change that. I feel that is my responsibility. Quando digo que nunca gostei muito da mulher de Gandhi, Kasturba, olha-me de soslaio, manda-me calar e ver o filme.
N. tem obviamente grandes depressões. Afinal, são uns quantos milhares de anos que lhe pesam nos ombros. Há que encontrar uma nova posição numa sociedade que não aceita posições, situações, hierarquias. Há que desaprender o que foi aprendido e ensaiado. N. já não é responsável por ninguém. Os oprimidos já sabem sobreviver sem ela, sem a família dela, sem a casta dela. A responsabilidade diluiu-se há muito, especialmente neste campus supostamente esquerdista, humanista, socialista e igualitário. N. está perdida.
N. vai à biblioteca. Vagueia pelas estantes. À procura de leitura. Alguém está na mesma estante, por detrás. N. nota. N. agacha-se para tirar um livro da prateleira inferior. Ao fazer isso as calças rebaixam-se e vê-se um pouco do rabo dela. N. vê um flash, um raio luminoso. Vira-se e vê um rapaz estudante com um telemóvel na mão. N. berra, sai a correr, chamar os amigos do círculo brâmane. Estes voltam ao local do crime, encostam o rapaz à estante, interrogam-no porque anda a tirar fotos perversas de raparigas. Mais tarde um deles admitir-me-ia com orgulho brilhando nos lábios que I was about to beat him up.
Depois de tanto interrogatório lembram-se de ver o telemóvel. Não tem sequer câmara e nunca tirou qualquer fotografia. N. ainda soluça, verdadeiramente em estado de choque, sem saber como reagir, deprimida, entre tradição e presente, entre casta, universidade, cidade e feminismo, zonza.
Deixam o rapaz depois de em jeito policial ficarem com os dados pessoais. N. aproveita para afirmar a sua posição que lhe é devida. Os amigos apoiam. Vai falar com o director do departamento, procurando apoio e consolo. Este submete-se, chama a mulher dele (também professora, com casa no campus) para vir apoiar também. A posição está garantida, a hierarquia restabelecida. N. reencontrou o que sempre lhe pertenceu.
Decide-se. O melhor é apresentar caso na comissão contra a discriminação sexual, verdadeiro aparelho inquisitório no campus (GSCASH). O rapaz é convocado para um interrogatório, defende-se como pode, mas só o deixam defender-se até onde acham necessário. A vítima não lhe olha nos olhos, não lhe toca. O caso é encerrado por falta de provas. Desta tiveste sorte, dizem-lhe. N. voltou a ser o que era. E um pouco mais.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005
747 Air India
quinta-feira, 27 de janeiro de 2005
Republic Day
Não há muitas palavras – nem eu tenho os suficientes conhecimentos técnico-militares – para descrever como o arsenal indiano e a disciplina patriótica indiana são grandiosos. Por mais imune que se seja à nacionalista ideia indiana ou por mais alérgico a militarismos este é um daqueles eventos que impõem respeito e nos deixam a maior parte do tempo de boca aberta.
Tanques, aviões, arrebenta-minas, ultra-leves, infantarias, helicópteros, batalhões de camelos, cavalaria e claro os magnânimos mísseis nucleares ("Prithvi" e "Agni"; começem a familiarizar-se com estes nomes que em breve poderão estar a voar por aí) desfilaram à minha frente, bem como o Presidente da Índia, o Primeiro-ministro, os Comandantes das Forças navais, aéreas e terrestres etc., milhares de homens armadas alinhados milimetricamente.
A Força aérea impõem sempre mais respeito. Imaginem dois caças Mig russos a serem reabastecidos no ar por um avião-tanque enorme, em cima das vossas cabeças, em Janpath ou na Avenida de Liberdade. Um Suhkolev russo a fazer uma manobra supersónica que vos faz sentir zonzos, numa sucessão de acrobacias até desaparecer na altitude imensa que nos separa dos céus.
Estamos a falar de um exército de um milhão de homens, de uma força aérea com capacidade nuclear e de uma marinha que é das cinco maiores do mundo. Se fosse uma pessoa, num dia primaveril, a Índia certamente comeria 5 Portugais ao pequeno almoço e uns 8 ao almoço, arrotando umas 4 Lisboas e 3 Portos pelo meio.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2005
A colega (II)
Vou com o Chacate a Ganga Dabha, a esplanada nocturna da JNU em que se luta com as vacas por um lugar sentado e se pisa em pequenos ratitos roendo restos de apas. Passa já da meia-noite.
Toca o telemóvel. Não reconheço o número.
- Hello?
- Hi Tino!
- Hi... who is speaking?
- I think you are very cute, you know? (risos de uma segunda voz feminina ao fundo)
- What? Thank you. Who is speaking?
- Where are you?
- I am at Ganga Dhaba.
- (silêncio e uma exclamação de surpresa ao fundo) ... What are you doing?
- Will have dinner. Can you tell me who is speaking?
- P…
- Who? Do I know you?
- Yes, you are in my class. You don't remember me?
(fico inseguro, pode ser uma amiga a que eu supostamente devia ter reconhecido imediatamente a voz)
- P...? Ok, but which P…? From Rajasthan?
- No, the other one. From A…
- Ah… ok!
- Can I come and have dinner with you?
- (Estou farto) No, I'm sorry, have to go now.
- Wait please (oiço várias vozes ao fundo, de pessoas).
Ao meu lado, enquanto ando na esplanada, vejo o pequeno estabelecimento com várias cabines telefónicas. Penso um segundo. Vejo que o número de que me ligam é de dentro da universidade, rede fixa. Decido arriscar. Entro.
- What are you doing?
- Nothing, just walking with my friend.
Estou dentro do estabelecimento. Só há uma cabine a ser utilizada, por duas raparigas, de costas para mim.
- Hey, why are you so silent?
- Look back (a minha cara está muito séria, não sei porquê)
Elas viram-se. Mas nem chegam a olhar-me na cara. Percebem antes de terem terminado o movimento, interrompem-no, voltam a mostrar-me as costas, mas agora um pouco agachadas.
(a chamada é interrompida)
Abro a porta da cabine (de vidro). Elas não se voltam.
- It's ok, I know it was you calling me. Very funny. But next time please give your real name.
Elas não se viram. Teclam estonteantemente números ao acaso, interrompem as ligações, recomeçam, em pânico visível. Não se viram. Não me falam.
- Good night.
Saio, vou ter com o Chacate que me espera para jantar apas e caril.
Segundo Semestre (Winter Semester)
Problems of International Relations
Political Thought II
International Organization
Political Geogrpahy
Vi também as minhas notas do primeiro semester e estou bastante satisfeito. A Political Thought tive A-, a Indian Political System B+ e a Indian Foreign Policy um estonteante A+. Falta ser lançada a nota a Theory of International Relations.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2005
Animal ridículo
Dois monstros
You don't speak Konkani?
Quero o bus to Quepem. Visitar o meu primo. Mas há muitos, e muitas peixeiras pelo meio. Cheira bem. Ao meu lado o meu amigo francês. Pergunto pelo bus certo.
- Where is the bus to Quepem?
Não percebo a resposta.
- Where?
- You don't speak Konkani?
-No, English please.
Na minha Goa ainda estou longe de ser goês. Que vergonha, que humilhação.